Leonardo Saraiva Coutinho
Contra si faz quem mal cuida
Saraiva Coutinho, Leonardo. Contra si faz quem mal cuida . Editado por José Camões y José Pedro Sousa para o Centro de Estudos de Teatro, Teatro de Autores Portugueses do Séc. XVII – uma biblioteca digital. http://www.cet-e-seiscentos.com/
Joan Oleza Simó
(Investigador principal)
Camões, José; Sousa, José Pedro
(Editor de la edición crítica)
Tronch Pérez, Jesús
(Editor digital)
Português · Verso · 4066 versos
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt
https://playcode.fly.dev/plays/EMOTHE0763_ContraSiFazQuemMalCuida
Nota sobre esta ediçao digital
Esta publicação faz parte do projeto de I+D+i «Teatro español y europeo de los siglos XVI y XVII: patrimonio y bases de datos», referência PID2019-104045GB-C54 (acrónimo EMOTHE), financiado pelo MICIN/AEI/10.13039/501100011033.
Comédia famosa Contra si faz quem mal cuida de Dom Leonardo Saraiva Coutinho, teólogo. Representou-se na Universidade de Coimbra.
Figuras que falam:
Infante D. João
Dona Maria Teles
Rosa
criada
Medronho
gracioso
Dous embuçados
Dona Leonor
rainha
Infanta Dona Beatriz
Dom Fadrique
Diogo Afonso de Figueiredo
Garcia Afonso
comendador de Elvas
Músicos
[Loa]
Loa que se lançou nesta comédia.
(Um Castelhano e um Português.)
(Sai o Castelhano.)
Castelhano
No salgo a pedir silencio
1
pera empezar la comedia,
2
mas antes vengo a reírme
3
de los que la representan,
4
porque me han dicho que aquí
5
recitan por cosa nueva
6
una comedia famosa
7
en la lengua portuguesa.
8
¿Quién vio mayor disparate?
9
Pues, de imperfecciones llen,a
10
silbada en vez de aplaudida
11
no puede ser que no sea.
12
Que esto de comedias sólo
13
(por ser la lengua más bella)
14
se debe a la castellana,
15
como a reina de las lenguas.
16
¡Cosa de risa parece
17
que haya en portugués comedia!
18
Daquí me pongo a escucharla
19
pera burlarme de verla.
20
(Sai o Português.)
Por esta vez lhe suplico,
21
senhor Castelhano, queira
22
franquear-nos livre o teatro
23
por que comece a comédia
24
Contra si faz quem mal cuida,
25
comédia, al fim, portuguesa,
26
porque a língua castelhana
27
já em Portugal não reina,
28
quando a nossa, por suave,
29
por elegante e suprema,
30
a todas leva aventage
31
e sobre todas campea.
32
Castelhano
Sí, mas no me habéis negar
33
que pera esto, es cosa cierta,
34
nacieron los castellanos,
35
que a todos la palma llevan.
36
Português
Será porque em Portugal
37
pera entrarem nas comédias
38
não se acha tanto vadio
39
como quantos tem Castela,
40
e não por falta de engenho,
41
nem da língua portuguesa,
42
pois não tem a castelhana
43
nenhum partido com ela.
44
Vejam-se livros antigos,
45
abram-se histórias modernas,
46
donde autores portugueses
47
(nessas antigas comédias)
48
logo que talvez queriam
49
que se introduzisse nelas
50
diabo, mouro, gentio,
51
bobo, fantasma, quimera
52
e outros redículos mais
53
desta semelhança mesma,
54
quasi sempre em castelhano
55
falavam desta maneira,
56
sendo o mais resto da obra
57
todo em língua portuguesa,
58
como se o mouro, diabo
59
bobo, fantasma, quimera,
60
só falassem castelhano,
61
por virem lá de Castela.
62
Castelhano
Por más, señor Portugués,
63
que acreditéis vuestra lengua,
64
pera esto que llaman cómico
65
la castellana es la reina.
66
¿Ha más bizarría que
67
ver salir echando piernas
68
un castellano, el cual entra
69
aderazando los guantes,
70
componiendo la melena,
71
consertandose el sombrero,
72
la capa de un lado suelta,
73
y luego puesto en tablado
74
en nuestra lengua materna
75
está dando con su gracia
76
alma a cuanto representan?
77
Português
Falar doçuras, amores,
78
dizer requebros, ternezas,
79
recitar branduras, chistes,
80
descrever guerras, tormentas,
81
se tudo isto quereis ver
82
com propriedade e eloquência,
83
satisfeito ficareis
84
ouvindo agora a comédia,
85
ũa verdadeira história
86
das antigas portuguesas.
87
E quando não vos contente,
88
quiçá que somente seja
89
não por defeito da língua
90
mas por falta do poeta,
91
que disso pede perdão,
92
por ser esta a vez primeira
93
que solecita obrigar-vos
94
pera que aplausos mereça.
95
(Vão-se.)
Primeira Jornada
Fogo, fogo, que se abrasa esta casa,
96
venha água, fogo!
97
(Sai o Infante e Medronho:)
Medronho
Senhor, fujamos daqui,
98
que abrasa o fogo esta casa.
99
Infante
Outro mais cruel me abrasa
100
de uns belos olhos que vi,
101
a cuja vista rendi
102
a liberdade em rigor,
103
pois não há fogo maior,
104
mais intenso e de mor calma,
105
que aquele que abrasa ũa alma
106
no purgatório de amor.
107
Medronho
Deixa-te dessas quimeras,
108
saiamo-nos daqui logo
109
antes que nos colha o fogo
110
e jogue connosco às peras.
111
Que tens? Que aguardas? Que esperas,
112
tão suspenso e descuidado?
113
Não pretendas, por ousado,
114
seres Tifeu arrogante,
115
porque amor nam é gigante
116
para morrer abrasado.
117
Infante
Oxalá que me abrasara
118
todo esse fogo que vês
119
para que assi de ũa vez
120
a vida se me acabara.
121
Que amor, que em nada repara,
122
como a quem tudo obedece,
123
ver-se abrasado apetece
124
entre esse fogo fatal,
125
só porque dele imortal,
126
como Fénix, renacesse.
127
(Dentro:)
Fogo, fogo!
128
(Sai Rosa, criada.)
Rosa
Grão perigo, infante, corre
129
no fogo minha senhora,
130
se vosso valor agora
131
neste aperto a não socorre.
132
Entrai, subi nessa torre
133
antes que nesse edifício
134
entre por algum resquício
135
o fogo que anda ateado,
136
e depois de haver entrado
137
usurpe de Cloto o ofício.
138
Infante
Oh, que ditosa ocasião
139
se me ofrece nesta empresa,
140
para obrigar a beleza
141
que idolatra o coração.
142
Que ũa valente facção
143
merecedora de fama
144
talvez faz com que ũa dama
145
abrande de seu rigor,
146
porque obriga a muito amor
147
quem se arrisca pelo que ama.
148
(Entra-se.)
Rosa
Tu, Medronho, a teu senhor
149
não vás ajudar? Também
150
entra, seguindo me vem.
151
Medronho
Para quê? Não é melhor
152
noutro perigo maior
153
ver-me por ti arriscado?
154
Rosa
Oh como estás descansado!
155
Entra que inda o fogo dura.
156
Medronho
Sou eu judeu porventura
157
para que morra queimado?
158
De ser Medronho a medonho
159
o pouco que vai nam vês?
160
Pardeos que o medo me fez
161
mui branco, com ser Medronho.
162
Que não sou Moisés (suponho)
163
para, ousado, acometer
164
o fogo que vejo arder,
165
e porque em monte criei-me
166
temo que tanto me queime,
167
que Pirenes venha a ser.
168
Não sabes que a mão um dia
169
a certo astrólogo dei
170
e depois que lha mostrei
171
me disse que morreria
172
se em perigos me metia
173
de fogo?
174
Rosa
Pois quanto é d’água
nunca terei de ti mágoa,
175
que tal azar tens com ela,
176
que antes que beberes dela
177
te arrojarás numa frágua.
178
Bem contigo se pareça
179
o que caindo ũa vez
180
beber certa dama o fez
181
um púcaro de água a pressas;
182
pondo-lhe a mão na cabeça
183
«não foi nada» lhe dizia,
184
mas ele, que isto lhe ouvia,
185
respondeu muito afligido:
186
«e é pouco ter bebido
187
um púcaro d’água fria»?
188
Medronho
Pois já que por não me veres
189
assi com tal acrimónia
190
como os três de Babilónia
191
meter-me no fogo queres
192
vem comigo e não esperes
193
que faça de mim tam tarde
194
por teu amor mor alarde.
195
Porém, deixa-me primeiro
196
confessar-me.
197
Rosa
Malhadeiro,
entra, não sejas cobarde.
198
(Entram-se por ũa parte e sai pela outra o Infante com Dona Maria nos braços, e logo Medronho com Rosa ao colo.)
Infante
Livre já do fogo estais,
199
fermosa dona Maria,
200
que com vossa bizarria
201
a tanto amor me obrigais,
202
que quando outra vez volvais
203
a ser ingrata comigo
204
quisera noutro perigo
205
ver-me por vós arriscado,
206
se não sou tão desgraçado
207
que obrigando desobrigo.
208
Dona Maria
Infante, vosso valor
209
muito me chega a obrigar
210
e se me é lícito amar
211
não há dúvida, senhor,
212
que neste fogo apurastes
213
de vosso amor os quilates
214
e nesta casa, talvez,
215
como em jogo de xadrez,
216
ganhais a dama e dais mates.
217
Infante
Perigos, bela senhora,
218
não teme quem tem amor,
219
que não pode ter temor
220
um eos, quando nada ignora.
221
Se por vós somente agora
222
neste fogo me abrasara
223
ser como Pláucio, tomara,
224
com Hostília, porque assim
225
vendo-me abrasar a mim,
226
com outro, um fogo matara.
227
Dona Maria
Tão discreto me obrigais
228
com tal bizarria e gala
229
que amor, que as almas iguala
230
em sujeitos desiguais,
231
cada vez me força mais
232
a que em amorosos laços
233
vos dê honestos abraços,
234
porque bem pode, em rigor,
235
ser de meus braços senhor
236
quem me livrou em seus braços.
237
(Abraçam-se.)
Infante
Pois que Atlante deste céu
238
me fazeis, bela senhora,
239
gozando já desde agora
240
este amoroso troféu,
241
talvez como Prometeu
242
do fogo me hei de ajudar
243
para com ele abrasar
244
vosso peito desta sorte,
245
que amor é fogo e tam forte
246
que a um mármol faz abrandar.
247
Dona Maria
Ai, infante, quem pudera
248
não ser tam tenra e tam branda
249
que amor, que muito se abranda,
250
tem já condição de cera,
251
e se de seu fogo a esfera
252
na terra está, que pisais,
253
não há para que subais
254
a furtar a doutro céu
255
e a pena de Prometeu,
256
mudado em Proteu, tenhais.
257
Infante
Nunca me posso mudar
258
se não for para querer-vos,
259
porque o mais fora ofender-vos
260
e ser falso em vos amar.
261
Segura podeis estar
262
de que jamais se divida
263
dessa alma que tem unida
264
amor, que é tam verdadeiro,
265
porque sempre o amor primeiro
266
é o que dura na vida.
267
Poder-se-á mudar um monte,
268
produzir aves o mar,
269
nacerem peixes do ar,
270
voltar para trás a fonte,
271
rasgar-se todo o horizonte,
272
ser cada estrela ũa flor,
273
perder o sol o esplendor,
274
ser noite o que é dia agora,
275
antes que vejais, senhora,
276
mudar-se tam firme amor.
277
(Falam à parte.)
Medronho
Já que do fogo em que estavas
278
ardendo, qual alma em pena
279
como doutra Tróia a Helena,
280
te livrei das chamas bravas,
281
quando menos o cuidavas,
282
bem mereço que cortês
283
essa mão, Rosa, me dês,
284
pois só por livrar-te a ti
285
como Cévola meti
286
no fogo esta mão que vês.
287
Rosa
Dar-te-ei ũa mão-de-gato
288
sem ser d’ouro.
289
Medronho
Por meu gosto,
que essa ponhas no teu rosto,
290
pois sem ser contigo ingrato
291
inda o farei mais barato
292
se tomares um conselho
293
de quem já é perro velho
294
porque me podes, suponho,
295
pôr na boca por medronho
296
e no rosto por vermelho.
297
Rosa
Necessito eu porventura
298
de cor mais bela e graciosa
299
que a que tenho em ser rosa?
300
Medronho
Bem no creo, mas procura
301
com tal graça e fermosura,
302
que das três és a primeira,
303
antes ser rosa-albardeira
304
que rosa-de-Alexandria
305
por que não me dê algum dia,
306
já sabes, calo a viseira.
307
Rosa
Oh, que gracioso estás!
308
Medronho
É meu ofício ser gracioso
309
se bem mui pouco rendoso,
310
porque a ninguém rico faz.
311
Rosa
Que pouco que medrarás
312
com dizer graças tam frias.
313
Medronho
Pois se inda nisso porfias
314
ũa te quero contar
315
que te deve de agradar
316
por não ser de muitos dias.
317
Num palratório de frades
318
quis dizer graças um certo,
319
mas teve tam mau acerto
320
que disse mil necedades
321
cuidando que divindades
322
falou entre alguns sandeus,
323
a tomar parabéns seus
324
na porta donde lhos davam
325
se foi pôr e aos que passavam
326
dizia: «ajudou-me Deos».
327
Rosa
E que parabéns, Medronho,
328
levarás de quem te trata?
329
Medronho
Tenho graça gratis data
330
e de nada me envergonho.
331
Rosa
Por que nam?
332
Medronho
Porque suponho
dizer graças infinitas
333
das que tem Floresta escritas
334
ou quando outrem queira e faça
335
que diga graças sem graça
336
direi que nam estão fritas.
337
Infante
Já desde agora atropelo
338
impossíveis nesta empresa,
339
tendo por prémio a beleza
340
por quem tanto me desvelo.
341
Dona Maria
Infante, com tal desvelo
342
tanto podeis perfiar
343
que inda chegueis a alcançar
344
favores de mor empenho,
345
pois com dar-vos os que tenho
346
nam tenho mais que vos dar.
347
Infante
Tal favor, sem merecê-lo,
348
de vós chego a receber
349
que inda mais do que a morrer
350
passará o agradecê-lo.
351
Dona Maria
Nesse amoroso desvelo
352
com que, Infante, me obrigais
353
quero que agora infirais
354
daqui esta consequência:
355
que em doce correspondência
356
crece amor cada vez mais.
357
(À parte tudo.)
Infante
Que perigrina beleza!
358
Dona Maria
Que entendimento divino!
359
Infante
Que rosto tam perigrino!
360
Dona Maria
Que presença! Que grandeza!
361
Infante
Que doçura! Que terneza!
362
Dona Maria
Que discreto! Que sutil!
363
Infante
Que bizarra! Que gentil!
364
Dona Maria
Que Cupido! Que Narciso!
365
Infante
Que flor! Que Vénus! Que aviso!
366
Dona Maria
Que ramalhete!
367
Infante
Que Abril!
Medronho
Licença para falar
368
me dem, senhores, agora.
369
Infante
Sai-te, Medronho, lá fora.
370
Medronho
Mais barato me é calar,
371
mas quisera-te avisar
372
que tenho de aconselhar-te
373
para que as galas de Marte
374
pelas de Himineu trocasses
375
e com Rosa me casasses
376
que em tudo quero imitar-te.
377
Rosa
Nam há nécio que nam tenha
378
presunção para falar
379
contigo hei eu de casar?
380
Melhor estrea me venha.
381
Medronho
Esse melindre me empenha
382
a que teu desdém conquiste
383
que pois teu favor me assiste
384
quero tomar-te por dama
385
ou pelo menos por ama
386
que inda há pouco que pariste.
387
Dona Maria
Tam boa cousa, Medronho,
388
achas que é um casamento?
389
Medronho
São mil dias de tormento
390
e assi, senhora, o suponho
391
mas inda que é tam medonho
392
bem será que os atropeles
393
por dous gostos que trás eles
394
se seguem (que mais embebem)
395
um quando os dous se recebem
396
e outro quando morre um deles
397
Rosa
Esse da morte me agrada
398
se contigo me casar.
399
Medronho
Pois à fé que hás de cantar
400
«La bella mal maridada».
401
Rosa
Antes morta que casada.
402
Medronho
Assi dezia ũa dama,
403
de grande opinião e fama,
404
que casar-se não queria
405
e com um negro dormia
406
todas as noites na cama.
407
Rosa
Sempre estás de bom humor
408
e assi não te ponho culpa.
409
Medronho
Tenho em mi mesmo a desculpa
410
em ter tão alegre cor.
411
Rosa
Nem por isso ela é melhor
412
do que a da melancolia
413
porque essa muita alegria
414
(que é pera quem a condena
415
dessimulação da pena)
416
perto está de ser mania.
417
Dona Maria
Al fim, que me amais, senhor?
418
Infante
Vosso, senhora, hei de ser.
419
Dona Maria
Sereis firme?
420
Infante
Até morrer.
Dona Maria
Quem mo abona?
421
Infante
Meu amor.
Dona Maria
Quem mo afirma?
422
Infante
O ter favor.
Dona Maria
Perfiareis?
423
Infante
Com empenho.
Dona Maria
Tereis fé?
424
Infante
Nisso me empenho.
Dona Maria
Serei vossa?!
425
Infante
E mui querida.
Dona Maria
Amareis-me?
426
Infante
Em toda a vida.
Dona Maria
Quem me obriga?
427
Infante
O amor que tenho.
Dona Maria
Pois a Deos, Infante, esposo.
428
Infante
A Deos, prenda, a Deos, amores.
429
Dona Maria
Que fortuna! Que favores!
430
Infante
Que dia! Que venturoso!
431
Dona Maria
Que discreto! Que amoroso!
432
Infante
Que gala! Que fermosura!
433
Dona Maria
Ai que glória e que doçura!
434
Infante
Ai que esperança tam larga!
435
Dona Maria
Ai que pena tam amarga!
436
Infante
Ai que amorosa ventura!
437
(Vão-se.)
Medronho
Rosa, cuja bela cor
438
é de múrice desdém
439
preso teus olhos me tem
440
no limoeiro de amor,
441
modera de teu rigor
442
porque se preso hei de estar
443
bem posso agora cantar
444
entre grilhões tam esquivos
445
«que tus alfileres vivos
446
me prendieron sin pensar»
447
Deixa de tratar tam mal
448
a quem por ti se desvela,
449
não me faças ramoela
450
como pela c’o cendal.
451
E pois me vês que leal
452
te adoro de coração
453
dói-te desta prisão
454
em que (com tam dura pena)
455
«está metido en la trena
456
tu querido Escarramão».
457
Abracemo-nos a ratos,
458
que, se nos vem, em rigor
459
dirão que está nosso amor
460
como entre perros e gatos.
461
Rosa
Nam me estejas dando tratos,
462
se porfias em me amar
463
é fazer ao demo mangas,
464
que andando a caçar de gangas
465
grillos vendrás a cazar.
466
(Vai-se.)
Medronho
Oh nunca amor me metera
467
em grosar o Escarramão
468
só porque nesta ocasião
469
por poeta nam perdera
470
a dita que merecera
471
por músico de mão chea
472
se com diferente vea
473
cantasse ao som dum pipote
474
«Aquí lloró don Quixote
475
ausencias de Dulcinea».
476
(Vai-se.)
(Sai a Rainha.)
Rainha
Já que por sorte, ou fosse indústria minha,
477
Portugal me obedece
478
por senhora e legítima rainha
479
sem que nada pudesse,
480
a pesar de contrárias resistências.
481
dos astros impedir as influências
482
para que el rei comigo não casasse,
483
com inveja, não mais, que eu reinasse,
484
que quando amor é tam forte
485
que usurpa as armas inda à mesma morte.
486
Agora, pois, que el rei de mi confia
487
o ceptro de toda esta Monarquia,
488
que por achaques que não fazem termo,
489
jaz na cama doente e mui enfermo,
490
para que Portugal no régio ofício
491
possa lograr propício
492
sempre da minha parte,
493
aqui me hei de valer de engenho e arte.
494
Os grandes me murmuram,
495
o reino me moteja,
496
todos juntos procuram
497
que rainha não seja,
498
mas, a pesar da inveja
499
e da sorte importuna,
500
o ceptro hei de reger contra a fortuna.
501
(Sai Diogo Afonso e Garcia Afonso.)
Diogo
Que dizeis, que sentis dos que no paço
502
murmuram da rainha tam d’espaço?
503
Garcia
Digo que hei de seguir, sem ser covarde,
504
as partes da rainha, que Deos guarde,
505
porque tem, governando o régio ofício,
506
para ganhar vontades artifício.
507
Rainha
Os dous falam de mi; ouvi-los quero,
508
que apurar nas palavras só espero,
509
como próprios espelhos que são d’alma,
510
os segredos que ocultam dentro nela,
511
que é mui certo um descuido em mor cautela.
512
Diogo
El rei que desconfia
513
da saúde que vê lhe vai faltando,
514
a seu poder e mando
515
desta comete o ceptro, monarquia,
516
e os que o reino não querem que lhe entreguem
517
é porque outra facção contrária seguem.
518
Rainha
Estes de mi bem falam,
519
que os corações leais nunca se calam.
520
Garcia
Não há cousa que mais contrária seja
521
nem monstro mais cruel do que a inveja,
522
por isso os que talvez não consintiram
523
que Latona bebesse e lhe impediram
524
que na corrente fria
525
não mitigasse a sede que trazia,
526
dos deuses castigados
527
em rãs todos ficaram transformados.
528
Diogo
Oh quantas rãs houvera
529
se Deos nelas a todos convertera
530
quantos vemos que impedem com grão mágoa
531
que outros tenham também ũa vez d’água.
532
Mas aqui donde estamos
533
está sua majestade a quem buscamos.
534
Garcia
A falar-lhe cheguemos
535
para que estes despachos lhe entreguemos.
536
A vossa majestade
537
a quem venero como a deidade...
538
Diogo
A vós, ilustre sol, que não pudera
539
dá-lo maior a lusitana esfera...
540
Garcia
Em quem tem firme assento
541
de excelências divinas um portento...
542
Diogo
Em quem a natureza
543
cifrou todos os dotes da beleza...
544
Garcia
Quando todo o universo ser pudera
545
para tão grande sol pequena esfera.
546
Diogo
Quando para louvor tam sem segundo
547
é pouca toda a voz de todo o mundo.
548
Garcia
Mas se agora louvar-vos solicito
549
é querer limitar um infinito.
550
Diogo
Fora querer com breve concha, ufano,
551
esgotar os cristais desse oceano.
552
Rainha
Bem está por agora.
553
Cujos são os papéis?
554
Garcia
Estes, senhora,
555
me deu el rei, que o céu invicto guarde,
556
por que para mais tarde
557
nam fiquem os despachos preferidos
558
dos cargos que estão vagos, e providos
559
devem ser todos eles.
560
Rainha
O primeiro
561
lede, Comendador, sendo terceiro,
562
de quem vos parecer que é suficiente
563
para ocupar os cargos que despacho.
564
Garcia
Neste principal acho
565
que está vago presente
566
o cargo de Almirante,
567
sendo tam principal como importante.
568
Rainha
Quem vos parece que esse cargo agora
569
pode ocupar melhor?
570
Garcia
A mi, senhora,
571
o conde dom João Afonso Telo
572
é somente quem pode merecê-lo.
573
E se conselho deve dar quem prima
574
por que seguro viva
575
bem será, quando nisto se recate,
576
que vossa majestade sempre trate
577
de ter por esta via
578
a nobreza de toda a monarquia,
579
pois sendo desta sorte
580
Alcaide-Mor o conde, invicto e forte,
581
da principal cidade que é Lisboa,
582
com esta segurança
583
em perpétua bonança
584
regerá sempre o ceptro e a coroa.
585
Rainha
Pois ao conde esse cargo se lhe aplique.
586
Diogo
Para que lho publique,
587
quando ao conde servir me delibero,
588
daqui partir-me quero
589
com licença de vossa majestade.
590
(Vai-se.)
Rainha
Deos vos guarde.
591
Garcia
Também de qualidade
592
outro cargo está vago por agora.
593
Rainha
Inda que murmurada seja nisto.
594
Garcia
Este cargo é, senhora,
595
no Mestrado de Cristo.
596
Rainha
Por ser no meu estado
597
quero que a meu sobrinho seja dado.
598
Garcia
Outros estão aqui de menos porte.
599
Rainha
Esses vos despachei, porque na corte
600
de um privado são próprios interesses.
601
Garcia
A terra que pisais beijo mil vezes.
602
Rainha
Vamo-nos pois daqui, que el rei me aguarda.
603
Garcia
Oh, quanto esta privança me acobarda.
604
(Vão-se.)
(Sai a Infanta e Fadrique.)
Fadrique
Discreta e gentil infanta
605
em quem contemplo e admiro
606
divinamente um portento,
607
humanamente um prodígio,
608
glória de nossa região,
609
deusa deste paraíso,
610
pelo humano singular,
611
admirável pelo lindo,
612
donde as excelências tem
613
lustrosamente escolhido,
614
para lustre de si mesmas
615
grave assento, firme sítio.
616
Escutai, fermosa infanta,
617
as queixas que vos publico,
618
que enquanto conta seu mal
619
descansa um triste afligido.
620
Infanta
Fadrique, nam deve ser
621
vosso mal muito excessivo
622
que quem se atreve a contá-lo
623
pouco deve de senti-lo.
624
Fadrique
Cada um fala como sente
625
e eu, porque muito sinto,
626
me atrevo a contar meu mal
627
para que em vós ache alívio.
628
Infanta
Aliviar vosso mal
629
nunca podereis comigo,
630
que nam sou a causa dele
631
para poder diverti-lo.
632
Fadrique
Antes porque é vossa alteza
633
a causa aqui lho refiro,
634
para que assim lhe dê fim,
635
pois que lhe sabe o princípio.
636
Infanta
Princípio querem as cousas,
637
Fadrique.
638
Fadrique
Verdade é isso,
mas contra as que vos proponho,
639
que contra vós verifico,
640
nam podeis argumentar
641
sendo primeiros princípios
642
porque são cousas tam claras
643
estas que, Infanta, vos digo
644
que nam tem flor esse campo,
645
planta esse vale sombrio,
646
aves esse fresco prado,
647
peixes esse verde rio,
648
feras essa bruta selva,
649
brutos esse monte altivo,
650
que ignorem, discreta infanta,
651
quanto vos adoro e estimo,
652
que o fogo de amor nam pode
653
estar coberto e escondido.
654
Esta é a ocasião primeira
655
que, arrojado, vo-lo digo
656
porque, talvez, a fortuna
657
favorece os atrevidos.
658
Se mudas adorações,
659
se secretos sacrifícios,
660
se rendidos pensamentos
661
logram nome de serviços,
662
por prémio deles me basta
663
saber que os haveis sabido,
664
que perdidos ser não podem
665
bem empregados serviços
666
quando, senhora, não tenham
667
por meus, como desvalidos,
668
de desenganados se,
669
de presumidos, castigo.
670
Vós, com afecto piedoso,
671
aceitai o sacrifício,
672
que na aceitação consiste
673
conhecimento preciso.
674
Infanta
Serviços bem empregados
675
nunca podem ser perdidos
676
quando somente o servir
677
é paga de mor serviço.
678
Eu não confesso nem nego
679
que vos queixais sem alívio
680
que bem se pode queixar
681
quem se perde por perdido,
682
mas bem conheço e alcanço
683
nesta queixa e desvario
684
que amor que muito se queixa
685
não tem nada de sofrido,
686
inda que bem se permite
687
desculpa em tal desatino,
688
que desenganada queixa
689
desesperação há sido,
690
e só podeis por remédio
691
entre engano tam esquivo
692
ou sofrer desesperado
693
ou desesperar sofrido.
694
Que nam tem em mi lugar
695
vosso amor vos certifico,
696
porque a nenhũa fortuna
697
se sujeita o alvedrio.
698
Fadrique
Em desengano tam certo
699
inda, infanta, vos suplico
700
que entre mortas esperanças
701
me deis um engano vivo,
702
porque se nam há quem viva
703
sem um engano, imagino
704
que este me falte, talvez,
705
pois de desenganos vivo,
706
mas em ver que por vós peno
707
meu sentimento alivio
708
que o não poder já cair
709
é alívio de caídos,
710
por vós, infanta, me vejo
711
metido em tal labirinto
712
que a vida que vós me dais
713
vejo pendente de um fio
714
e temo que a Parca o corte
715
para exemplo de atrevidos,
716
que arrogantes pensamentos
717
sempre correrão perigos,
718
mas quando em tão alta empresa
719
tenha de Ícaro o castigo
720
ninguém me pode tirar
721
a glória que tenho visto.
722
Que culpa tenho em querer-vos
723
se vós, senhora, haveis sido
724
causa de tantos efeitos
725
e de tanto amor princípio?
726
Infanta
Eu? De que sorte?
727
Fadrique
Escutai,
que em breve vo-lo refiro.
728
Infanta
Dizei, pois.
729
Fadrique
Assi recito.
Na corte de Castela
730
donde, infanta, assisti sete anos nela,
731
tendo tréguas a Marte concedido
732
os arraiais seguia de Cupido,
733
sendo por vários modos
734
premática entre todos
735
que os que na corte assistem
736
na bandeira de amor logo se alistem,
737
nesta, pois, alistado,
738
sendo de amor soldado
739
comecei a empreender tam alta empresa
740
que os pensamentos pus numa princesa
741
que assistia na corte de Castela,
742
mais suave e mais bela
743
que a rosa que bebeu da fresca aurora
744
as primícias das lágrimas que chora,
745
em fim, era um tesouro,
746
pérolas dentes e palavras ouro,
747
mas pudera este assombro de beleza
748
ser um retrato só de vossa alteza,
749
pois quando a mais louvá-la me atrevera
750
dar-lhe melhor louvor nunca pudera.
751
Esta Raquel divina,
752
beleza perigrina,
753
ai, se nam fora ingrata,
754
beleza que dá vida quando mata,
755
sete anos, que julguei por breve instante,
756
como Jacob servi, servindo amante,
757
mas isto nam me admira
758
porque imagino que inda mais servira
759
se nam fora, ou por breve ou por comprida,
760
para tam largo amor tam curta vida.
761
Foi nosso amor crecendo com o trato,
762
vivendo sempre oculto e com recato,
763
guardado no tesouro de discreto
764
que dura muito amor quando é secreto
765
não se ofendia dele Florisbela,
766
que este era o nome da princesa bela,
767
porque nam há amor tam desvalido
768
que por tíbi,o ou por frouxo, ou por remisso,
769
nam seja pelo menos admitido.
770
Neste, pois, amoroso paraíso,
771
passando amantes calmas,
772
pelos olhos bebíamos as almas,
773
gerando amor, que todo é pensamentos,
774
vários atrevimentos,
775
que são as salamandras que se alentam
776
neste fogo, que os olhos representam.
777
Continuou por tempo este segredo
778
sem ser nunca entendido nosso enredo;
779
nesta correspondência,
780
pouco a pouco apurando-se a paciência,
781
sem outros messageiros
782
mais que os amantes olhos lisonjeiros,
783
eram estes em mi sem esperança
784
por nam ter confiança
785
nesta amorosa empresa
786
de gozar a beleza
787
que via em Florisbela,
788
que era merecer muito o merecê-la.
789
Porém, como o poder de amor se mostra
790
quando tudo a seus pés humilha e prostra,
791
em ter em menos conta a mor grandeza,
792
fez tanto co a princesa
793
que humanos interesses esquecendo,
794
perigos nam temendo,
795
que amor nunca temeu pôr-se a perigo,
796
desprezando a fortuna,
797
fugir comigo trata,
798
por fugir a ocasião de ser ingrata,
799
escolhida a que foi mais oportuna,
800
levando ela consigo
801
as jóias de mor preço,
802
o mais rico vestindo-se adereço,
803
nos saímos da corte,
804
ofrecidos nas mãos de nossa sorte
805
sobre um filho de Zéfiro gerado,
806
de pescoço um pouco alto e levantado,
807
cujas trenças beijavam
808
a terra que as briosas mãos pisavam,
809
de narizes fendidos
810
que vertem fogo quando mais partidos,
811
bem seguro de cascos
812
que velozes romper sabem penhascos,
813
canas grossas, enxutas e tiradas,
814
as ancas grandes e proporcionadas,
815
larga a cola e comprida, o pêlo brando,
816
os olhos bem rasgados, na cor baio.
817
Neste, pois, caminhando,
818
correndo mais fogoso do que raio,
819
em pouco espaço andámos
820
quanto nos foi possível e tratámos
821
de assi pormos em salvo desta sorte
822
as vidas, que o rigor de Henrique forte
823
nos peitos amorosos
824
castigos ameaçava rigorosos.
825
Caminhava o cavalo sempre ufano
826
contra a parte do reino lusitano
827
até chegar a um rio e fresco prado,
828
do caminho geral bem desviado,
829
se há desvios que possam com excesso
830
estrovar da fortuna um mau sucesso.
831
Aqui nos apeámos
832
na margem deste rio que encontrámos,
833
que alegre se desata
834
em céus de cristal, em voz de prata,
835
cujas águas sonoras
836
emudecem as aves mais canoras,
837
a salva se suspende,
838
confuso o bosque atende
839
a tanta melodia
840
quanta forma a corrente doce e fria,
841
a cuja voz suave Florisbela
842
deu tributo a Morfeu quando amor vela.
843
Mas, ai, que pouco dura
844
um gosto limitado, um sono leve,
845
que quem não tem ventura
846
jamais descanso algum em tempo teve
847
Velavam meus sentidos a beleza
848
no tempo em que os dous sóis dormidos via
849
no rosto cristalino da princesa,
850
por não abrasar com três sóis ao dia,
851
quando del rei Henrique alguns vassalos,
852
juntos numa grão tropa de cavalos
853
seguindo-nos da corte,
854
se avançaram connosco desta sorte.
855
Desmaiou este assalto a Florisbela,
856
quis a vida perder em defendê-la,
857
mas a inimiga sorte
858
para sempre morrer me nega a morte,
859
e claramente vejo
860
que há-de fugir de mi, pois a desejo.
861
Vendo-me neste estado,
862
que a princesa me tinham já ganhado,
863
vali-me do cavalo e posto nele
864
antes que algum dos outros me atropele,
865
com denodado alento, ânimo e brio,
866
passei em claro da outra parte o rio,
867
e apertando ao cavalo os acicates
868
despois de ter passado estes combates
869
em breve tempo, sem que mais aguarde
870
por nam ter que temer-me,
871
a Portugal passei a socorrer-me
872
del rei Fernando invicto, que Deos guarde
873
idades largas e felices anos,
874
para assombro fatal dos castelhanos.
875
Aqui el rei costuma sempre honrar-me
876
nos cargos de mais porte
877
que ocupam os maiores desta corte,
878
donde soube, depois que assisto nela,
879
que de puras saudades e tristeza
880
era morta a princesa Florisbela,
881
ai, mal lograda e infeliz beleza,
882
mas não me espanta dor que tam mal trata,
883
porque um grande desgosto também mata.
884
Isto posto de parte,
885
antes que doutro caso mais me aparte,
886
aqui começo agora
887
como se aqui, senhora, Tróia fora.
888
Soube que el rei pretende desposar-vos
889
c’o duque que agora é de Benavente,
890
este enigma pretendo declarar-vos
891
porque o amor que vos tenho não consente
892
que outro, Beatriz fermosa,
893
senão eu, vos receba por esposa.
894
Se por duque, senhora,
895
vos merece mais que eu, é bem que agora
896
sem me ter declarado
897
vos confesse que sou de mor estado
898
do que o de Benavente
899
sendo mais poderoso e mais potente,
900
e se o nome até 'qui tive encoberto
901
é porque sei de certo
902
que Henrique de Castela,
903
porque furtei da corte a Florisbela,
904
solicita tomar vengança disto,
905
sabendo adonde estou ou donde assisto.
906
Agora, infanta, pois quem sou confesso
907
e a verdade sabeis deste sucesso,
908
permiti-me que tenha em tais memórias
909
passadas penas e presentes glórias,
910
que outra maior não quero
911
que amar essa beleza que venero.
912
Prenda, infanta, senhora,
913
rendido a vossos pés me postro agora
914
(Ajoelha-se) para que essa beleza
915
de mim se compadeça
916
aqui de meus queixumes magoados,
917
aqui de meus sospiros namorados,
918
aqui de meu tormento,
919
aqui de lágrimas minhas cento a cento,
920
aqui de meu amor firme e constante,
921
aqui que morro por morrer amante.
922
Infanta
Fadrique, vida, amor, mas, ai, que digo?
923
que não sei donde estou, se estou comigo,
924
que tenro se há mostrado,
925
que amante, que rendido e namorado.
926
Estou para o abraçar, piedosa e humana
927
se não fora mostrar-me aqui liviana,
928
mas quanto mais me obriga com amar-me
929
não posso ter-lhe amor nem sujeitar-me
930
a lhe corresponder agradecida,
931
que de amores do Infante estou perdida.
932
Assi que agora quero aqui fingir-me
933
muito queixosa com deixá-lo e ir-me.
934
Fadrique, vosso louco atrevimento
935
se agora o não castigo é porque intento
936
vingar-me desta sorte,
937
fazendo desterrar-vos desta corte,
938
que quem traidor tem sido
939
a seu rei natural pode, atrevido,
940
ser traidor, fementido e lisonjeiro
941
a qualquer outro rei sendo estrangeiro.
942
(Vai-se.)
Fadrique
Aguarde, escute, advirta vossa alteza...
943
ai que sorte cruel, ai que dureza
944
ea, fortuna ingrata,
945
aqui me tens agora, aqui me mata
946
ea, tirano amor, ea, arrogante,
947
amar vivendo por morrer amante,
948
pois vejo desta sorte
949
que tudo é vida, amor, desamor, morte.
950
(Vai-se.)
(Sai Dona Maria com Rosa.)
Dona Maria
Publicarei minha dor?
951
Rosa
Por amor.
952
Dona Maria
Pois quem me tolhe e põe medo?
953
Rosa
O segredo.
954
Dona Maria
E quem manda que padeça?
955
Rosa
A firmeza.
956
Dona Maria
Logo, se em tal aspereza
957
a vida venho a passar,
958
tenho por certo acabar
959
de amor, segredo e firmeza.
960
Como vivirei penando?
961
Rosa
Amando.
962
Dona Maria
E para não afligir-me?
963
Rosa
Ser firme.
964
Dona Maria
Ser firme é morrer de amante?
965
Rosa
Por constante.
966
Dona Maria
Pois logo ninguém se espante
967
que descubra meu querer
968
se é que hei-de vir a morrer
969
amando, firme e constante.
970
Descobrirei afeição?
971
Rosa
Em ocasião.
972
Dona Maria
E que ocasião é melhor?
973
Rosa
A de amor.
974
Dona Maria
Amor quando ma assegura?
975
Rosa
Na ventura.
976
Dona Maria
Por isso meu mal procura
977
que a vida venha acabar
978
antes que chegue a gozar
979
ocasião, amor, ventura.
980
Quem de amor ventura alcança?
981
Rosa
A esperança.
982
Dona Maria
Quando gozada se vê?
983
Rosa
Com ter fé.
984
Dona Maria
E quem gozá-la confia?
985
Rosa
A perfia.
986
Dona Maria
Logo com justa alegria
987
darei remédio a meu mal
988
tendo amor para imortal
989
esperança, fé, perfia.
990
Serei, se venho a ser tal,...
991
Rosa
Sem igual.
992
Dona Maria
Hei-de ser conrespondida?
993
Rosa
Mui querida.
994
Dona Maria
Virei a ser desamada?
995
Rosa
Mais amada.
996
Dona Maria
Logo dou por bem pagada
997
pena que padecer
998
pois espero vir a ser
999
sem igual, querida e amada.
1000
(Sai Medronho.)
Medronho
Um lugar de Barrabás
1001
é a corte para nós:
1002
há mercê, há tu, há vós
1003
y trecientas cosas más,
1004
há cavaleiros andantes,
1005
há homens de maus semblantes,
1006
há forçantes,
1007
guarda-infantes,
1008
muita soma de ignorantes,
1009
também muito mentecapto,
1010
homens qui vivunt ex rapto,
1011
unhas de gato,
1012
maldicentes,
1013
damas com postiços dentes,
1014
há barrigas alũadas
1015
com minguantes e crecentes,
1016
donzelas mal maridadas,
1017
guitarradas
1018
por não dizer violadas,
1019
há em todas quantas acho
1020
emprastos de incenso macho,
1021
há donzelas quinquagésimas
1022
que de tudo pedem décimas,
1023
devotas de São Tomás
1024
y trecientas cosas más,
1025
há podengos
1026
cantos sengos
1027
e poetas bordalengos
1028
há num poleiro dous galos,
1029
intendimentos cavalos,
1030
há nos estrados coxins,
1031
munchachins,
1032
arreliquins,
1033
bodegões,
1034
requeijões,
1035
cuscuz quente,
1036
laranjada e aguardente,
1037
há geração dos Fialhos,
1038
barba d’alhos
1039
e cabeças de bugalhos,
1040
há bruxas e feiticeiras,
1041
muitos amantes de freiras
1042
todos nécios namorados,
1043
há telhas em os telhados,
1044
há damas tam atiladas
1045
que abrem as bolsas tapadas,
1046
e todos por modos vários
1047
tem cada dia ordinários,
1048
há tendas de lapidários,
1049
unguentos e boticários
1050
e tavernas de Hipocrás
1051
y trecientas cosas más.
1052
Rosa
Adonde, Medronho, vás
1053
com tal arenga?
1054
Medronho
É de um cego
1055
certa oração que comprei
1056
que todos os dias rezo.
1057
Dona Maria
Donde fica teu senhor,
1058
Medronho?
1059
Medronho
Senhora, creo
que estará sonhando em ti
1060
se acaso dormindo o deixo,
1061
porque agora dormem muito
1062
os amantes deste tempo,
1063
e eu por mim somente o julgo
1064
pois durmo mais do que um bêbado,
1065
mas que muito me embebede
1066
se é medronho o amor que tenho.
1067
Rosa
E que bem com tal amor
1068
granjearás um casamento
1069
pois pera seres cornudo
1070
é o sono o melhor meo,
1071
mas se dormes quanto dizes
1072
já desde agora te vejo
1073
dormir sono de cornudo.
1074
Medronho
Nada disso me receo
1075
que se bem todo o cornudo
1076
tem dous contra um espero
1077
ter sempre mui boa mesa.
1078
Rosa
Cornicabras pelo menos
1079
nunca te faltarão nela.
1080
Medronho
Oxalá, mas se pretendo
1081
casar contigo bem posso
1082
dizer o que diz um certo
1083
que vendo que lhe deziam,
1084
por caso mui verdadeiro,
1085
que a molher lhe punha os cornos
1086
respondeu, como discreto:
1087
«inda mal que não tem ela
1088
cara para isso» e isto mesmo
1089
presumo dizer de ti.
1090
Rosa
Isso, pícaro, mereço
1091
pois te não dou mil punhadas.
1092
Medronho
Tem-te, não me piques, quedo,
1093
porque és Rosa com espinhas.
1094
Dona Maria
Basta, Rosa, nécia, deix’-ò
1095
Rosa
Se não fora...
1096
Medronho
Muito sentes
chamar-te fea, mas creo
1097
que te acertei com o nome
1098
Rosa
Que isto sofre e não lhe quebro...
1099
Medronho
Não te agastes.
1100
Rosa
A cabeça.
Medronho
Serás discreta em extremo
1101
mas a ti, senhora minha,
1102
esta vez te rogo e peço
1103
que em paga deste papel
1104
que te trago com segredo,
1105
que é do Infante meu senhor,
1106
me faças, pois to mereço,
1107
amigo outra vez com Rosa,
1108
que pedir-lhe perdão quero.
1109
Dona Maria
Por mim, que sejais amigos.
1110
Rosa
Eu por sua me confesso.
1111
Medronho
E eu por seu me publico.
1112
Dona Maria
Romper esta nema quero
1113
para ler este papel
1114
que espelhos do intendimento
1115
são os escritos de amor
1116
estas cifras que contemplo
1117
como caracteres d’alma
1118
adonde estão sempre impressos
1119
assi dizem desta sorte,
1120
ânimo, amor, que vencemos.
1121
((Lê o papel.))
Se quereis que não perca a vida quem só vive de querer-vos, dai-me licença para ver-vos esta noite, porque com mais olhos de estrelas possa contemplar vossa fermosura. O Infante.
Já vejo neste papel
1123
que aqui recitado tenho
1124
equívocos os sentidos
1125
entre amoroso e discreto.
1126
Rosa
Adverte que sai sua alteza.
1127
Dona Maria
Dizes bem, com pressa quero
1128
esconder este papel.
1129
Vai-te, Medronho, primeiro
1130
que te veja, e a teu senhor
1131
dirás que esta noite o espero.
1132
Medronho
A servir-te me disponho
1133
e vou, senhora, correndo.
1134
((Vai-se))
Dona Maria
Sai-te, também, Rosa, fora.
1135
Rosa
Desta sorte te obedeço.
1136
((Vai-se))
(Sai a Infanta.)
Infanta
Zéfiros suaves
1137
desta fresca selva
1138
que correndo alegres
1139
levais tristes queixas
1140
brincadas boninas
1141
graciosas e belas
1142
que teceis grinaldas
1143
para a Primavera
1144
cristalinas fontes
1145
claras e serenas
1146
que as cheirosas flores
1147
guarneceis de perlas
1148
Lisonjeiras aves
1149
suaves e ledas
1150
que vos queixais tristes
1151
e não sentis queixas
1152
parai, suspendei,
1153
escutai suspensas
1154
por que meus queixumes
1155
canteis em endechas.
1156
Dona Maria
Se às almas mortais
1157
pede vossa alteza
1158
para seus queixumes
1159
queixosas endechas
1160
bem pode queixar-se
1161
que eu a escuito atenta
1162
que uma alma inmortal
1163
melhor sente penas.
1164
Infanta
Meu mal desacredito
1165
se aqui queixar-me dele solicito
1166
que medir com a voz o sentimento
1167
é nam saber sentir de seu tormento.
1168
Dona Maria
Acordo-me que um dia
1169
li de um sábio, senhora, que dezia
1170
que a troco de queixar-se
1171
haviam as desditas de buscar-se
1172
e assi cuido que agora
1173
também deves de ser. Amas, senhora?
1174
Infanta
Amor tenho ao infante
1175
a quem adoro e idolatro, amante.
1176
Dona Maria
Ai Deos, que ao Infante estima,
1177
nam sei como esta mágoa me reprima.
1178
Infanta
E para não cansar-te
1179
quero meu pensamento declarar-te:
1180
sabe, pois, que um recado
1181
ao Infante dom João tenho mandado
1182
pera que nesta noite a ver-me venha
1183
que me importa falar-lhe e é bem que tenha
1184
de meu amor notícia
1185
que todo é guerra em mi, todo milícia.
1186
Dona Maria
Oh que lance tão forte
1187
que ocasiono ciúmes que dão morte.
1188
Não sei se fazes bem em declarar-teI
1189
que pode amar o Infante noutra parte.
1190
Infanta
Quando outra dama adore
1191
farei com que de mi só se enamore.
1192
Dona Maria
Que não farás, te juro.
1193
Que tod'o amor primeiro é mais seguro
1194
e não pode acabar-se
1195
amor que se empenhou por empenhar-se.
1196
Infanta
Vamo-nos, pois, que é tarde
1197
e pode ser que o Infante já me aguarde.
1198
Dona Maria
Oh nunca amor nacera
1199
se nacido não fora não morrera.
1200
(Vão-se.)
(Sai o Infante.)
Infante
Indiscreta anda a Infanta se me chama
1201
pois não sabe que amor que todo é chama
1202
para nunca acabar-se
1203
na própria esfera sabe só parar-se
1204
assi que vou buscando neste ocaso
1205
esta esfera de fogo em que me abraso
1206
que pois tanto a venero
1207
subir a região do fogo espero
1208
é amor lisonjeiro
1209
temerário, Tiseu, Marte guerreiro
1210
que audaz/andas meu pensamento
1211
asas vestido se calçado vendo
1212
Faetonte atrevido
1213
Ícaro presumido
1214
águia voadora
1215
que a tanta luz que adora
1216
desta vez solicita,
1217
que um desejo impossíveis solicita,
1218
penetrar o divino de seus raios
1219
a cuja vista o sol fica em desmaios
1220
mas que muito se afronta o sol de vê-los
1221
sendo estes raios doutros sóis mais belos.
1222
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Acompanhar-vos quero, Infante amigo,II
1223
porque se acaso houver algum perigo
1224
nessa pretensão vossa
1225
acompanhar-vos nela também possa.
1226
Infante
Suplico-vos, Fadrique, em cortesia
1227
que me deixeis ir só, sem companhia.
1228
Fadrique
Bem conheceis, Infante,
1229
quanto secreto sou e quanto amante
1230
pera o posto guardar-vos
1231
determino esta vez de acompanhar-vos.
1232
Infante
Não quero porfiar.
1233
Fadrique
É cousa justa.
Infante
Ai quantas penas que ũa glória custa.
1234
(Vão-se.)
(Saem dous Embuçados.)
Embuçado I
Aqui juntos paremos
1235
a ver se passa alguém a quem furtemos
1236
ũa capa sequer.
1237
Embuçado II
Hei de roubá-la
ou quando não puder, acutilá-la.
1238
Embuçado I
Eu a capa que trago anda mais rota
1239
que a mesma consciência que a denota.
1240
Embuçado II
Não vamos nós buscar algũa capa
1241
e tragamos por capa ũa gualdrapa.
1242
Embuçado I
Nada disso temamos
1243
porque nós puramente capeamos
1244
mas esperai que hei visto
1245
três homens desta vez, por Jesu Cristo.
1246
Embuçado II
Capas são, não duvido,
1247
que nos cornos do touro tem caído.
1248
(Sai o Infante, Fadrique e Medronho com espadas e broquéis.)
Infante
Alegre noite fria
1249
que em teus braços descansa o claro dia
1250
noite serena e clara
1251
com teu manto estelífero me ampara.
1252
Embuçado I
Larguem logo essas capas, cé, fidalgos.
1253
Medronho
Por Deos, que nos colheram como galgos
1254
Embuçado II
Cá, senhores, cá.
1255
Infante
Desta sorte
lhe daremos as capas com a morte.
1256
Embuçado I
Morram todos, por Cristo.
1257
Medronho
Pardês, que noutra tal nunca me hei visto.
1258
Fadrique
Desta espada os rigores
1259
exprimentam cobardes e traidores.
1260
Infante
A eles, que sou raio.
1261
Fadrique
E eu corisco.
1262
Medronho
Mata, mata.
1263
Embuçado II
Fujamos.
1264
Medronho
Por são pisco.
que também nas comédias são mil vezes
1265
valentes os lacaios portugueses.
1266
(Vão-se acutilando todos e entram-se.)
(Sai a Infanta à janela com Dona Maria Teles e Rosa.)
Infanta
Noite venturosa
1267
alegre e serena
1268
capa de cobardes
1269
de amantes terceira.
1270
Noite em quem descansam
1271
de cansadas penas
1272
humanas fadigas
1273
amorosas queixas.
1274
Noite em quem concedem
1275
aos cuidados tréguas
1276
as vidas que lidam
1277
as almas que penam.
1278
Não me mexeriques
1279
desta acção travessa
1280
de dia ao sol
1281
de noite às estrelas.
1282
Amparem-me, noite,
1283
tuas asas negras
1284
por que nas da fama
1285
meu amor nam leão.
1286
Dona Maria
Que rigoroso é meu mal
1287
que cruel é minha estrela
1288
pois chego a ver com meus olhos
1289
o que jamais ver quisera.
1290
Infanta
Cuidado me dá o Infante
1291
pois é tão tarde e não chega.
1292
Dona Maria
Sempre correm devagar
1293
as horas a quem espera.
1294
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Morto ficara o ladrão
1295
se dos pés se não valera
1296
correr o vi mais que um gamo
1297
custou-lhe cara a pendência
1298
aqui pelo Infante espero
1299
que se foi cenando nela
1300
e com as sombras da noite
1301
não vi onde se metera.
1302
Rosa
Gente vejo àquela parte.
1303
Infanta
Quiçá que o Infante seja
1304
dize-lhe, Rosa, que chegue.
1305
Dona Maria
A morte aqui se me ordena
1306
Rosa
Ah fidalgo, cé.
1307
Fadrique
Quem chama?
1308
Rosa
É o Infante?
1309
Fadrique
Aqui é ela?
1310
Fingir-me o Infante quero.
1311
Rosa
Não fala?
1312
Fadrique
Saber quisera
1313
quem pergunta pelo Infante.
1314
(Muda a fala.)
Infanta
Quem por ele se desvela
1315
Fadrique
Viva Deos, que esta é a infanta
1316
pois o infante sou, que chega
1317
a pagar favor tam grande
1318
ah ingrata, quem dissera
1319
que assi pagasses tam falsa
1320
ũa fé tam verdadeira.
1321
Infanta
Que vos adoro, Infante,
1322
bem o deveis saber, passo adiante
1323
porque se o não soubéreis
1324
amante pouco firme parecêreis
1325
que os olhos lisonjeiros
1326
são de amor os espelhos verdadeiros
1327
e se livro os chamar não é delito
1328
sendo a margem o branco, o negro o escrito
1329
e nos meus lestes como em livro aberto
1330
que não pode o amor ser incobertos
1331
sentindo seus afectos
1332
por natural, pensam só dos discretos
1333
em fim, sabe infante
1334
queimando morro porque vivo amante.
1335
Fadrique
Dentro em meu peito atesouro
1336
esse amor, como discreto,
1337
porque só o amor secreto
1338
se pode ter por tesouro
1339
mas seu valor nam desdouro
1340
se calo dentro na idea
1341
efeitos que a alma recea
1342
declarar, não sem temor,
1343
pois nam há pena maior
1344
como amar a ũa alma alhea.
1345
Infanta
Alhea não pode ser,
1346
quando tal nome mereça,
1347
ũa alma que vos confessa
1348
querer e só por querer
1349
vós senhor bem podeis ver
1350
que em vos amar sou constante
1351
e nam duvideis, infante,
1352
que faça meu amor pausa
1353
porque duvidar sem causa
1354
é delito num amante.
1355
Fadrique
Pois que chego a merecer
1356
tal prémio antes de servir-vos
1357
nam tenho mais que pedir-vos
1358
nem vós que me conceder
1359
se não hei de endoudecer
1360
quando em tal glória imagino
1361
nam tenho por bom destino
1362
não fazer um grande excesso
1363
porque um ditoso sucesso
1364
acredita um desatino.
1365
Dona Maria
Ouves, Rosa, o que lhe diz?
1366
Rosa
Todo nela se esmoreceu.
1367
Dona Maria
Ah, ingrato.
1368
Rosa
Quem tal cresce.
1369
Dona Maria
Mal em declarar-me fiz.
1370
(Sai o Infante e Medronho.)
Infante
Seguir um dos ladrões quis
1371
mas as costas me virou.
1372
Medronho
Atilado nisso andou
1373
que se as costas nam virara
1374
eu só lhe cruzara a cara.
1375
Infante
Foi-se Fadrique?
1376
Medronho
Voou.
1377
Infante
Gente vejo aparecer.
1378
Fadrique
Este é o Infante que espero.
1379
Ir-me retirando quero
1380
sem me dar a conhecer.
1381
Infanta
Antes que cheguem a ver,
1382
Infante, quem aqui está
1383
retirar-vos bom será.
1384
Fadrique
Pois vós me mandais, senhora,
1385
retirar-me quero agora.
1386
Infanta
Adeus, Infante.
1387
((Vai-se).)
Fadrique
Aqui já
1388
que espero quero escapar-me.
1389
((Vai-se).)
Dona Maria
Deixa-me, Rosa, que agora
1390
hei de afrontá-lo.
1391
Rosa
Senhora.
1392
Dona Maria
Não tens mais que porfiar-me
1393
que não sofro desprezar-me
1394
um traidor. Esta é, Infante,
1395
aquela fé tam constante?
1396
Isto é firmeza? Isto amor?
1397
Medronho
Ela é, chega, senhor,
1398
nam sejas cobarde amante.
1399
(Põe-se o Infante aonde estava Fadrique.)
Infante
Amores, meu bem, senhora
1400
a quem amante e rendido.
1401
Dona Maria
Ah traidor, ah fementido
1402
que assi me trates agora
1403
despois de estares um hora
1404
com mil requebros e amores
1405
com a Infanta?
1406
Infante
Que favores
1407
nem qual Infanta, também?
1408
Deixai-vos desse desdém
1409
e abrandai tantos rigores.
1410
Apurar mais meu amor
1411
não pretendais dessa sorte
1412
dando-me vida na morte
1413
sustento do mesmo ardor
1414
quem viu fineza maior
1415
de amor que nam desfalece
1416
antes com rigores crece
1417
mas nisto venho a alcançar
1418
que nam se sabe mudar
1419
quem ama sem interesse.
1420
Desta que espero vitória
1421
tanto me cansa a peleja
1422
que temo que a morte veja
1423
antes que chegue tal glória
1424
nesta esperança e memória
1425
que amor por troféu aguarda
1426
o temor não me acobarda
1427
nem a perfia me altera
1428
que o prémio que não se espera
1429
nunca parece que tarda.
1430
Dona Maria
Dar-te n’alma uma ferida,
1431
falso amante, desejara
1432
por ser de quem me agravara
1433
injustamente homicida
1434
não me vejas toda a vida
1435
nem trates mais de querer I
1436
que somente com viver
1437
porque matar-te pudera
1438
ser basilisco quisera
1439
porém não pera te ver.
1440
((Vai-se).)
Infante
Aguarda, detém-te, espera
1441
quem viu desgraça maior?
1442
Foi-se, Medronho.
1443
Medronho
Senhor.
1444
correndo como ũa fera.
1445
Infante
Entrar trás ela quisera
1446
que de paixão desatino
1447
mas vamo-nos, que imagino
1448
que hei de perder o sentido.
1449
Medronho
Pois dá-o já por perdido
1450
que amor todo é desatino.
1451
(Vão-se.)
Segunda Jornada
(Sai a Infanta com Dona Maria, pegadas de um papel.)
Infanta
Solta o papel.
1452
Dona Maria
É cansar-te
se nessa perfia dás.
1453
Infanta
Porquê?
Dona Maria
Porque o não lerás.
1454
Infanta
Por vida del rei, hei de dar-te.
1455
Dona Maria
Não jures.
1456
Infanta
Pois com tomar-te
este papel desta sorte
1457
veremos qual é mais forte.
1458
Solta.
1459
Dona Maria
Jesus, que cruel.
Infanta
Já vejo neste papel
1460
sentença de minha morte.
1461
Dona Maria
Pois aí verás quanto a vida
1462
desejo dar-te, senhora,
1463
antes do que ser agora
1464
tua cruel homicida,
1465
mas daqui fica advertida
1466
para que noutro perigo
1467
não sejas cruel comigo,
1468
pois nisto vens a entender
1469
que talvez inda é bom ter
1470
té o verdugo por amigo.
1471
Infanta
Bem dizes, pois, sem engano,
1472
isso que afirmando estás
1473
neste papel que me dás
1474
apuro este desengano,
1475
e quando, como tirano
1476
verdugo, intente acabar-me,
1477
quero aqui reconciliar-me
1478
com ele, já que, cruel,
1479
c’uma bala de papel
1480
pretende agora matar-me,
1481
neste como em branco vaso
1482
apurei mais o veneno
1483
com que mortalmente peno
1484
no fogo em que aqui me abraso,
1485
e bem vejo neste acaso
1486
quanta ũa desgraça é forte,
1487
pois por ter no papel morto
1488
fez que o prémio se trocasse
1489
e em branco a tenção ficasse
1490
por sair em negro a sorte;
1491
consigo traz o veneno
1492
este papel, que é do infante,
1493
retrato de um falso amante
1494
por quem tanto sinto e peno,
1495
nele meu amor condeno
1496
por pouco considerado,
1497
mas que muito, se arrojado,
1498
quis de tal sorte empenhar-se
1499
que antes de desempenhar-se
1500
se julgou mal empenhado.
1501
E tu, que atrevidamente
1502
me ocasionas esta dor,
1503
adverte que é meu amor
1504
tão mal sofrido e paciente
1505
que a nenhum outro consente
1506
de qualquer sorte e aparência
1507
que em doce conrespondência
1508
queira com ele igualar-se,
1509
porque saberá vingar-se
1510
de quem lhe faz competência.
1511
(Faz que se vai.)
Dona Maria
Aguarda, detém-te, espera,
1512
que se presumes vingar-te
1513
bom será desenganar-te
1514
dessa, que formas, quimera.
1515
Pois quando em vingar-te, fera,
1516
me desprezes, tão cruel,
1517
quero que neste papel,
1518
como instrumento de amor,
1519
leas que o meu é milhor
1520
pois tem melhor aranzel.
1521
Infanta
Que dizes, estás em ti,
1522
que assi falas dessa sorte?
1523
Dona Maria
Dizes bem, que mal tão forte
1524
me faz não estar em mi,
1525
mas quero, infanta, que aqui
1526
isto te não esquecesse,
1527
que se amor ao trato crece
1528
e nace dele, é melhor
1529
amor que nace de amor
1530
que o que nace de interesse.
1531
Infanta
Logo, posso claramente
1532
inferir de provas tais
1533
que de interesse, não mais,
1534
nace meu amor somente,
1535
e pois queres justamente
1536
que te tenha por sesuda,
1537
desse pensamento muda
1538
ou cuidarei mal de ti.
1539
Dona Maria
Quando cuides mal de mi
1540
contra si faz quem mal cuda,
1541
e se queres persuadir-me
1542
a que deixe de querer,
1543
enganas-te em pretender,
1544
por tal modo, dissuadir-me,
1545
que só por morrer de firme
1546
tanto comigo labuto,
1547
que amargo pagam tributo
1548
meus olhos ao desamor,
1549
pois duma esperança em flor
1550
é já desengano o fruto.
1551
Infanta
Sabes que quero ao infante.
1552
Dona Maria
Sei que lhe quero, também.
1553
Infanta
A ti nunca te está bem
1554
que ele seja teu amante.
1555
Dona Maria
Por que não?
1556
Infanta
Oh, que galante!
Não vês que amor entre iguais
1557
é mais firme e dura mais?
1558
Dona Maria
Dizes bem, mas em rigor
1559
amor, que é rei e senhor,
1560
faz iguais de desiguais,
1561
quanto mais que por igual
1562
me tenho. E se é meu amante,
1563
tam boa sou como o infante.
1564
Infanta
Pois se com presunção tal,
1565
sendo em tudo desigual,
1566
queres com ele igualar-te,
1567
adverte que posso dar-te
1568
morte, quando te condeno,
1569
que é o mesmo que veneno
1570
ciúme, com que matar-te.
1571
(Vai-se.)
Dona Maria
Na guerra descansar, na paz cansar-se,
1572
ter por neve o calor, por calma o frio,
1573
achar que é doce o mar, salgado o rio
1574
de si desconfiar, noutrem fiar-se,
1575
alegrar-se c’o mal, c’o bem queixar-se,
1576
dar entrada à inconstância, à fé desvio,
1577
chamar ao claro escuro, ao sol sombrio,
1578
ter ódio à luz, das trévoas contentar-se,
1579
cantar na pena com chorar na glória,
1580
deixar branduras por buscar rigores,
1581
seguir a dor, fazer ao alívio pausa,
1582
perder ganhando, sem ganhar vitória,
1583
amar desprezos, desprezar amores,
1584
próprios efeitos que o ciúme causa.
1585
(Sai Rosa.)
Rosa
Licença para falar-te
1586
te pede Fadrique, agora.
1587
Dona Maria
Pois dize-lhe que entre embora.
1588
Rosa
Mas queres que vá buscar-te
1589
cadeiras donde sentar-te?
1590
Dona Maria
Para quê? Não é decente,
1591
que não quero que igualmente
1592
comigo esteja sentado,
1593
que ũa dama em seu estrado
1594
se deve sentar, somente.
1595
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Nesta, que tomo, ousadia,
1596
quando for de vós culpado
1597
merece ser desculpado
1598
quem vos busca por valia.
1599
Ditoso seja este dia
1600
em que vos venho a buscar,
1601
que despois de me apartar
1602
do que chego a conhecer
1603
nam tenho já mais que ver,
1604
falta-me com que cegar.
1605
Dona Maria
A lisonja que me dais
1606
aceito, com que me honreis
1607
nesta casa, pois sabeis
1608
o gosto que me causais.
1609
Mas dizei-me o que mandais
1610
ou em que devo servir-vos.
1611
Fadrique
Venho, senhora, a pedir-vos
1612
favor numa pretensão,
1613
que em vós cifradas estão
1614
as glórias que hei de advertir-vos.
1615
Já sabeis que adoro a infanta
1616
quanto me despreza mais,
1617
e, assi, quero que sejais
1618
medianeira em pena tanta,
1619
porque seu desdém me encanta,
1620
com que cruel me desama,
1621
a que desta ardente chama
1622
nam lhe encareça o afecto,
1623
que se turba o mais discreto
1624
em presença de quem ama.
1625
Dona Maria
Nam é delito, Fadrique,
1626
que à vista de quem namora
1627
se turbe o que mais adora
1628
sem que sua dor publique,
1629
e quando suspenso fique
1630
será por se acreditar,
1631
porque se nam pode achar
1632
melhor arte nem secreto
1633
para parecer discreto
1634
como sofrer e calar.
1635
(Falam à parte.)
(Sai o Infante e Medronho.)
Medronho
Olha que somos perdidos.
1636
Infante
Ai, céu, que em dor tão cruel,
1637
sendo a vista tam fiel,
1638
não são falsos os ouvidos.
1639
Medronho
Vês como estão divertidos,
1640
falando com tal despejo?
1641
Infante
Comigo mesmo pelejo
1642
quando, entre sonhos, tam certo
1643
estou c'os olhos abertos,
1644
mais cego quanto mais vejo,
1645
parece sono ou enredo
1646
isto que passa por mi.
1647
Dona Maria
Advirte que o infante aqui
1648
nos ouve, suspenso e quedo.
1649
Infante
Num laberinto me enredo
1650
donde livrar-me não posso.
1651
Medronho
Pois entra com fio grosso
1652
e não fies tam delgado
1653
que se apertas c’o fiado
1654
que quebre será forçoso.
1655
Dona Maria
Com Fadrique dar-lhe quero
1656
ciúmes agora aqui,
1657
já que ele mos deu a mi,
1658
porque assi vingar-me espero.
1659
Fadrique, eu me delibero
1660
a ser vossa medianeira
1661
fazendo com que vos queira.
1662
Porém, na harpa de amor
1663
muitas vezes tem valor
1664
XXXal a prima e terceira
1665
XXXXXX terceira servir quer,
1666
que é como colher de pão
1667
com quem, se comendo estão,
1668
comem depois a colher.
1669
Infante
A vida espero perder
1670
todo o juízo perdendo
1671
em ver que hei de estar querendo,
1672
com paga tam desumana,
1673
a quem cruel e tirana
1674
vejo que me está ofendendo.
1675
Medronho
Ham, hum, a senhora Rosa
1676
fale aos seus e guarde o seu.
1677
Rosa
Bem guardado está o meu.
1678
Medronho
Não sejas tam rigorosa,
1679
que, se bem és tam fermosa,
1680
sem que dizer tal te afronte,
1681
também tem rosas o monte.
1682
Mas, deixando isto até 'qui,
1683
quisera saber de ti
1684
se queres fazer como onte?
1685
Rosa
Não quero nada contigo
1686
porque és muito chocarreiro.
1687
Medronho
Sequer para alcoviteiro
1688
nam me terás por amigo?
1689
Dá-me este ofício que digo,
1690
nam te faças rigorosa
1691
porque desta sorte, Rosa,
1692
andando assi a teu lado
1693
serei delfim, neste estado,
1694
tu Anfitrite fermosa.
1695
Infante
Nunca vista confusão
1696
com que labuto e pelejo
1697
em ver que presente vejo
1698
minha desesperação!
1699
Dona Maria
Por vosso amor e afeição
1700
farei quanto me mandais.
1701
Fadrique
Muito nisso me obrigais,
1702
que em tudo sois tam sutil,
1703
tam perfeita e tam gentil
1704
que o mais tendes por demais.
1705
Infante
Que isto sofro?
1706
Dona Maria
Está picado.
Infante
Viva Deos, que é ter-me em pouco.
1707
Medronho
Pardez, que nunca vi louco
1708
que não fossse namorado.
1709
Senhor, deixa esse cuidado,
1710
chega, que estás aguardando?
1711
Infante
Estou, Medronho, cuidando
1712
que desgraçado é o amante
1713
que chega a não ter constante
1714
a fortuna de seu bando.
1715
(Sai a Infanta.)
Infanta
Fadrique falando está
1716
com Dona Maria à parte,
1717
não sei se daqui me aparte
1718
porque ciúme me dá.
1719
Amor, bem vejo que já
1720
me pesa de que me deixe,
1721
mas não sei de quem me queixe,
1722
se de mi, pelo deixar,
1723
se dele em me não amar
1724
quando contra amor peleije.
1725
O infante está rebatendo
1726
e bem creo que será
1727
porque com Fadrique está
1728
Dona Maria falando.
1729
Quero estrová-los entrando,
1730
que entre efeitos disiguais
1731
cada vez me força mais
1732
com ciúmes à perfia.
1733
Infante, Dona Maria,
1734
Fadrique, de que tratais?
1735
Dona Maria
Tratávamos de um amante
1736
que num cavalo de fama
1737
galanteando ũa dama
1738
passou onte mui galante,
1739
e com adorno brilhante
1740
tão enlevado a seguia
1741
que do cavalo em que ia
1742
vendo-se ir quasi caindo
1743
perguntou com gesto lindo
1744
para que parte caía.
1745
Infanta
Pois quisera-te advirtir
1746
antes que daqui te apartes
1747
para qual das duas partes
1748
deves primeiro cair.
1749
Dona Maria
Não tens que me persuadir
1750
porque estou bem advertida.
1751
Infanta
De ciúme estou perdida.
1752
Infante
Perdendo vou os sentidos.
1753
Fadrique
Todos estamos perdidos.
1754
Dona Maria
Em que pena estou metida.
1755
Infanta
Que laberinto de amor.
1756
Dona Maria
Que confusão de Babel.
1757
Infante
Que tirana, que cruel.
1758
Fadrique
Que tormento, que rigor.
1759
Infante
Que desdém, que desamor.
1760
Dona Maria
Que mudável, que inconstante.
1761
Infanta
Que falso, que pouco amante.
1762
Dona Maria
Que ingrato, que fementido.
1763
Infanta
Que louco, que presumido.
1764
Fadrique
Que dureza.
1765
Infante
Que diamante.
Medronho
Postos estão cara a cara
1766
cerra Espanha de vencida.
1767
Rosa
Todos derrota batida
1768
vão desta vez, quem cuidara
1769
que nisto, amor, tal parara.
1770
Infanta
De que tão suspenso estais,
1771
Infante? Que imaginais?
1772
Infante
Não sei, por Deos, que imagino,
1773
porfiar contra o destino
1774
sem ventura é por demais.
1775
Dona Maria
Porfiando vence amor.
1776
Infante
Mas talvez, Dona Maria,
1777
se cansa com a porfia
1778
quando lhe negam favor.
1779
Infanta
Não paga com desamor
1780
quem se vê conrespondida.
1781
Fadrique
Bem sei eu quem é querida
1782
e mais conresponde ingrata.
1783
Infanta
Quiçá porque se recata
1784
de não se ver ofendida.
1785
Fadrique
Ao menos faça esta dor
1786
ante vós fé de tal fé.
1787
Infanta
O que c’os olhos se vê
1788
não há mister prova melhor.
1789
Infante
Como é cego todo o amor
1790
não vê adonde se emprega.
1791
Dona Maria
Amor, infante, não cega
1792
senão só despois de amar.
1793
Infante
Bem cego deve de estar
1794
amor, que a outro se apega.
1795
Infanta
Todos picados estão
1796
e não sei qual dos dous queira,
1797
mas quero desta maneira,
1798
já que ciúme me dão,
1799
apurar esta afeição
1800
com deixar cair aqui
1801
esta luva em que meti
1802
este papel, que é do infante,
1803
porque o que for mais amante
1804
a tome só para si.
1805
(Deixa cair a luva, metendo dentro nela o papel que tomou a Dona Maria do Infante, o qual se lança a tomá-la, e Fadrique a ganha.)
Fadrique
A mi só pretenceI
levantar esta luva.
1806
Infante
Aqui não vence
mais que o valor. Fadrique, soltai logo.
1807
Fadrique
Que não canseis, vos rogo,
1808
que a luva perderei, perdendo a vida.
1809
Infante
Soltai, ou, se não, dai-a por perdida.
1810
Fadrique
Não temo, Infante, nada,
1811
pois para a defender trago esta espada.
1812
Infante
Isso é ser atrevido.
1813
Fadrique
Vós porfiado.
Infante
Por Deos que se me enfado...
1814
Fadrique
Infante, quedo.
Infante
Matar-vos poderei só com o medo.
1815
Fadrique
Para matar-me, Infante,
1816
se o que tendes me derdes é bastante.
1817
Infante
Pois assi desta sorte
1818
a luva ganharei com dar-vos morte.
1819
(Mete mão.)
Fadrique
Da ponta até ò punho
1820
em sangue tingerei, que esta empunho.
1821
(Mete mão.)
Infante
Na guerra poucas vezes
1822
trazem branca a espada os portugueses.
1823
(Sai a Rainha.)
Rainha
Que é isto, Infante? Passo.
1824
Sobre que é a questão?
1825
Infante
Foi um acaso,
que a vossa majestade
1826
pode informar Fadrique da verdade.
1827
Fadrique
Da infanta Beatriz, minha senhora,
1828
que está presente agora,
1829
esta luva caiu, que hei levantado.
1830
Quis o infante, cortês, se bem ousado,
1831
ganhar-me pela mão a luva dela,
1832
assi foi-me forçado o destendê-la
1833
com tomar este caso tanto a peito
1834
por não ceder aqui de meu direito.
1835
Rainha
Essa luva me dai, Fadrique, logo
1836
por que a mão nenhum ganhe deste jogo.
1837
Fadrique
A vossa majestade
1838
somente a entregarei com mais vontade.
1839
(Dá-lhe a luva e tira-lhe o papel.)
Rainha
Toma a luva outra vez e adverte, infanta,
1840
que te pode obrigar quem a levanta.
1841
(Dá-lhe a luva à infanta.)
Rainha
Os dous me acompanhai, vinde comigo.
1842
Infante
Obedecer é força.
1843
Fadrique
O mesmo digo.
(Vão-se.)
Medronho
Rosa, antes que me vá quero advertir-te,
1844
se algum escarapim tens que cair-te,
1845
que de luva te sirva, porque quero
1846
mostrar-me amante, com erguê-lo, fero.
1847
Rosa
Não quero por amante
1848
quem não sabe, inorante,
1849
o nome dar às cousas, pois que chama
1850
escarapim à luva de uma dama.
1851
Medronho
Pois, à fé, que se besta te chamara
1852
que desta vez o nome te acertara,
1853
mas porque teu melindre me desgosta
1854
não te quero aguardar outra reposta.
1855
(Vai-se.)
Dona Maria
Mui bem, infanta, fingiste
1856
o descuido do pensado
1857
deixando cair a luva,
1858
sobre que renhiram tanto.
1859
Infanta
Não sejas, dona Maria,
1860
tão suspeitosa, e mais quando
1861
a luva de que me culpas
1862
não caiu senão acaso.
1863
Dona Maria
Não pudeste imaginar,
1864
pera fazer sem engano
1865
prova de um e outro amante,
1866
melhor invenção nem passo.
1867
Infanta
Isto é já muita malícia,
1868
porque eu nem ao infante amo
1869
nem menos quero a Fadrique.
1870
Dona Maria
Isso quem pode julgá-lo?
1871
Infanta
Tu.
1872
Dona Maria
Enganas-te.
Infanta
Porquê?
Dona Maria
Porque é muito ao contrário.
1873
Bem que se amas ao infante,
1874
é gastar tempo baldado,
1875
porque eu sei que me quer bem
1876
e eu deveras o amo,
1877
e por que te deixe agora
1878
cuidar nisto mais d’espaço
1879
me vou, com tua licença,
1880
por te não dar mais enfado.
1881
(Faz que se vai.)
Infanta
Volta cá, detém-te um pouco
1882
porque sei que posso tanto
1883
que posso matar de amores
1884
e dar cuidado ao cuidado.
1885
Dona Maria
Nada disso me dá pena
1886
porque bem vejo e alcanço
1887
que poucos se querem bem
1888
dos corações alugados.
1889
Infanta
Não podes julgar que o meu
1890
ama por força em tal caso,
1891
que amar forçado não pode
1892
coração que é voluntário.
1893
Dona Maria
Também por força de amor
1894
não falta quem ame. E tanto
1895
que se desculpam com ele
1896
os que delinquem amando.
1897
Infanta
Não há nenhum grande amor
1898
que force o alvedrio humano,
1899
que amor nace da vontade
1900
que ama livre e não forçado
1901
Dona Maria
Antes cuido no que dizes,
1902
que argumentas ao contrário,
1903
que amor não há de ser livre
1904
para ser mais estimado,
1905
porque se livre nascera
1906
deixara de querer quando
1907
se enfadasse de correr
1908
e melhorara de trato.
1909
Mas nam falemos mais nisto
1910
e dêmo-lo por passado,
1911
que quem sabe mais de amor
1912
menos se atreve a explicá-lo.
1913
Infanta
Pois bem podes recolher-te
1914
a estudar sobre esse caso.
1915
(Vão-se. Sai o Infante.)
Infante
Que assi Dona Maria me maltrate
1916
com ciúmes, desdéns e disfavores,
1917
que assi de ver-me tanto se recate,
1918
que tirana me nega seus favores,
1919
ai, doce amor, quando cruel me mate
1920
esta que a todos dá morte de amores,
1921
direi que morro só porque é tão bela
1922
que inda nam sou pera morrer por ela.
1923
Oh, mil vezes feliz e venturoso
1924
quem de amor tal ventura há conseguido,
1925
que sem viver sentido nem queixoso,
1926
de ciúmes tiranos perseguido,
1927
em suave prisão, trato amoroso,
1928
docemente se vê conrespondido,
1929
gozando sempre em amorosos laços
1930
lisonjeiras prisões, doces abraços.
1931
Mas ai de quem só vive de esperanças,
1932
homicidas suaves de ũa vida,
1933
pois tam poucas promete seguranças
1934
numa conrespondência agradecida
1935
que a pena que ocasiona tais mudanças
1936
justamente se tem por homicida.
1937
E se o temor ũa alma tanto inflama
1938
é porque sempre teme quem bem ama.
1939
Quem dissera que amor bem empregado
1940
tão mal fosse de amor conrespondido
1941
que despois de ficar acrisolado
1942
no fogo em que talvez se viu metido
1943
em tam pouco valor seja avaliado
1944
que chegue a ter lugar de desvalido.
1945
Mas se um amor com outro amor se paga
1946
tenha um desdém outro desdém por paga.
1947
(Sai Medronho.)
Infante
Que vai, amigo Medronho,
1948
falaste a Dona Maria?
1949
Medronho
Senhor, muito baralhado
1950
anda o negócio, por vida.
1951
Não percas hora nem tempo:
1952
ama, quer, roga, perfia,
1953
porque não há dama que
1954
lhe pese de ser querida.
1955
E quando, Infante, se mostram
1956
mais melindrosas e esquivas,
1957
então imagina que
1958
estão de todo perdidas,
1959
não te acobarde o desdém
1960
logo na primeira vista
1961
de ũa dama melindrosa
1962
que de tudo se enfastia.
1963
Se acaso te dá ciúmes
1964
dá-los também à perfia
1965
porque a nódoa de ũa amora
1966
com outra verde se tira.
1967
Dize-lhe palavras doces,
1968
chama-lhe aurora, sol, dia,
1969
pérola, aljôfar, cristal,
1970
rosa, açucena, bonina,
1971
e, se tal vez lhe escreveres,
1972
chama-lhe por senhoria
1973
que desta sorte a ũa freira
1974
um certo amante escrevia
1975
só por que ela se obrigasse
1976
deste termo e cortesia,
1977
que é mui bem criado amor,
1978
posto que criança ainda,
1979
e assi, senhor, desta sorte
1980
toda a dama mais esquiva
1981
que ũa Lucrécia, ũa Porcia,
1982
ũa Dafne fugitiva,
1983
te terá por mais cortês
1984
que o que descobriu as Índias.
1985
E isto de damas, infante,
1986
é cousa muito sabida
1987
que também há chuvas d’ouro
1988
se há também Danes esquivas.
1989
Mas isto deixando à parte,
1990
inda que a dizer me obriga
1991
que onde aí não há molheres
1992
não há ter gosto nem vida.
1993
Infante
Conta-me, por vida tua,
1994
se viste a Dona Maria,
1995
que estou morto por saber
1996
o que de mi imagina.
1997
Medronho
Senhor, dá-o por contado,
1998
porque nam sei que te diga
1999
mais que estar de ti ciosa
2000
por cuidar que a infanta estimas.
2001
Mas antes que mais me esqueça,
2002
fui, entrei, eis que saía
2003
quando topei com Fadrique,
2004
que me trazia de espia,
2005
e em me vendo me entregou
2006
este papel que te invia.
2007
Toma o papel.
2008
Infante
Mostra cá.
(Lê o Infante:)
Para tratar convosco um negócio, vos suplico que venhais esta noite ao Campo de Santa Clara, às doze em ponto, donde somente vos espero com capa e espada. Fadrique.
Medronho
Por Deos, que te desafia
2010
por amor de algũa freira.
2011
Infante
Tem segredo, e a ninguém digas
2012
o que contém o papel.
2013
Medronho
Dar-te um conselho queria
2014
nesta ocasião.
2015
Infante
E que tal?
Medronho
Por Santa Iria,
2016
que te deve de agradar.
2017
Escuta, por vida minha,
2018
verás se tenho razão:
2019
dous fidalgos que serviam
2020
a certa dama em palácio,
2021
num serão, que então havia,
2022
sobre dançarem com ela
2023
desafiaram-se um dia
2024
para Val de Cavalinhos.
2025
Ambos de dous se partiram
2026
que aviriguar esta dança
2027
neste campo pretendiam.
2028
Chegaram ambos ao posto
2029
que já sinalado tinham,
2030
e dizendo um para o outro
2031
«arrancai», respondeu ele:
2032
«não posso, por vida minha,
2033
porque espada de brigar
2034
nam trago agora cingida,
2035
que é somente de vestir
2036
esta que trago de dia,
2037
mandarei por ela a casa
2038
e então com igual justiça
2039
a questão deslindaremos».
2040
Foram-se de companhia
2041
e não tornaram jamais.
2042
Agora o conto te aplica,
2043
se é que espada de brigar
2044
também não trazes cingida.
2045
Infante
Do conselho te aproveita
2046
que pode ser que te sirva,
2047
que agora deixar-te quero
2048
por que mais contos não digas.
2049
(Vai-se.)
Medronho
Pois, à fé, que melhor fora
2050
dizer-te «dói a barriga»
2051
ou fingir este doente,
2052
porque é grande boveria
2053
matar-se um homem de bem
2054
por nenhuma rapariga,
2055
quando todas são ranhosas,
2056
ũas nécias presumidas,
2057
que não sabem mais de amor
2058
do que eu sei de uma botica.
2059
(Vai-se. Sai a rainha com a Infanta.)
Rainha
Cerra essa porta, infanta, e entra passo
2060
por que não nos escute alguém acaso,
2061
que as cousas de importância
2062
devem-se de tratar com vigilância,
2063
e quem se não recata
2064
mostra pouca prudência no que trata,
2065
pois quem mais se acautela
2066
nenhum dano lhe faz nímia cautela
2067
Infanta
Cerrada a porta está, fala senhora.
2068
Rainha
Escuita.
2069
Infanta
Atenta escuito.
Rainha
Soube agora
que solicita o infante
2070
Dona Maria Teles como amante,
2071
pois de dia a passea com cuidado
2072
e de noite a visita desvelado,
2073
que amor não tem paciência
2074
para ũa noite só sofrer de ausência,
2075
e como é vandoleiro
2076
sai de noite a roubar mais sorrateiro,
2077
mas pode descuidar-se
2078
ficando preso sem poder soltar-se,
2079
porque nunca dos braços
2080
jamais se livra amor andando a braços,
2081
e se neles enlaça
2082
Dona Maria ao infante, que isto traça,
2083
pode vir a reinar por esta sorte
2084
quando a Parca a el rei o fio corte,
2085
e porque seu intento
2086
sortir não possa o feito, o casamento
2087
que em cortes se retratou c’o de Castela,
2088
dando-te por esposa, infanta bela,
2089
ao duque que agora é de Benavente,
2090
determino estrovar secretamente
2091
pera mor segurança
2092
de poder governar sempre em bonança,
2093
pois c’o infante casando
2094
terás sempre o governo de meu bando,
2095
e quando a el rei da vida prive a morte
2096
ficarei desta sorte
2097
sendo sempre rainha,
2098
pois por indústria minha
2099
cheguei a tal fortuna
2100
que na roda importuna
2101
me sustento até ‘gora
2102
sem que a enveja me possa lançar fora,
2103
mas da roda temer deve a mudança
2104
quem subiu, por fortuna, a tal bonança.
2105
Por isso estes gentios que a adoravam
2106
em trajos de molher a retratavam
2107
e por não ter constância nem firmeza
2108
a tinham fortemente atada e presa,
2109
que inda assim com prisão tão dura e forte
2110
por segura a não davam desta sorte,
2111
mas só por que não visse em quem se emprega,
2112
não tem mistério, a pintaram cega
2113
c’uma letra que diz «em bens e males
2114
nada podes, nem vês, mas assi vales».
2115
Infanta
Em nenhuma infortuna
2116
deve ninguém queixar-se da fortuna,
2117
que são queixas de nécios que imaginam
2118
que as estrelas nos homens predominam.
2119
Quando um santo falando das estrelas
2120
diz que os não criou Deos por amor delas,
2121
mas por amor dos homens, que criara,
2122
todo esse céu de estrelas marchetara.
2123
(Sai Garcia Afonso.)
Garcia
Se vossa majestade, que Deos guarde,
2124
há de dar audiência, faz-se tarde,
2125
porque há mui grande espaço
2126
que as partes esperando estão no paço
2127
e hão mister despachadas
2128
as consultas, que estão já consultadas.
2129
Rainha
Nam posso, por agora,
2130
dar audiência às partes, melhor fora
2131
que os memoriais tomasses
2132
e despois mais de espaço os despachasses,
2133
que com a infanta tenho
2134
que tratar um negócio de importância.
2135
Garcia
Em servir-vos me empenho,
2136
donde ponho o cuidado e vigilância.
2137
(Vai-se.)
Rainha
Disto que digo, infanta, é bem tratemos
2138
para que assi melhor nos conservemos.
2139
Infanta
Tenho por acertado
2140
quanto dizes, senhora, e com cuidado
2141
deves pôr nisto todo,
2142
pera poder reinar por este modo.
2143
(Vão-se.)
(Sai Dona Maria tapada com um manto e o Infante trás ela.)
Dona Maria
Pelo que a nobre deveis
2144
vos suplico, com cortesia,
2145
que daqui com tal perfia
2146
mais adiante nam passeis.
2147
Infante
Deixar-vos nam pode ser
2148
sem primeiro vos pedir
2149
que vos queirais descobrir
2150
ou vos deis a conhecer.
2151
Nam eclipseis, bela senhora,
2152
desses sóis os raios tanto
2153
com a nuve desse manto
2154
com que vos cobris agora.
2155
Deixai que deste arrebol
2156
entre amorosos ensaios
2157
aprenda de vossos raios
2158
a ser mais galhardo o sol,
2159
que se a luz mais ocultais
2160
desses tam superiores
2161
perderá seus esplendores
2162
todo esse céu que ilustrais,
2163
e a que me dá ciúme
2164
esse rosto peregrino,
2165
que ser um sol imagino,
2166
coberto com essa nuve.
2167
Um cego ver desejava
2168
do sol claro esplendor
2169
e para o saber melhor
2170
a todos o perguntava,
2171
que lhe firmava e dezia
2172
que era um celeste farol,
2173
e singular arrebo,
2174
autor e causa do dia,
2175
qual lhe pintava nos céus
2176
uma luz tam bela que,
2177
a faltar divina fé,
2178
fora adorada por Deos.
2179
Viu de uma celeste estrela
2180
a luz que no céu brilhava
2181
e como sol a adorava
2182
por ser tam fermosa e bela.
2183
Porém, despois que o arrebol
2184
viu que esse sol ostentava
2185
deixou a estrela que amava
2186
só por adorar ao sol.
2187
Assi eu, como vevia
2188
cego de amor, sospeitava
2189
que era um sol quando adorava
2190
a qualquer dama que via,
2191
mas chegando a conhecer
2192
vosso divino arrebol
2193
para adorar-vos por sol
2194
é bem que vos deixeis ver.
2195
Dona Maria
Se somente essa perfia
2196
consiste em ver-me, não mais.
2197
Basta que agora saibais
2198
que me vistes algum dia,
2199
mas como cego ficastes
2200
doutra luz e doutros raios,
2201
entre seus belos ensaios
2202
por estrela me julgastes.
2203
Agora que haveis estado
2204
menos cego e diferente,
2205
que todo o amor de repente
2206
aborrece de pensado,
2207
como arrependido estais
2208
me persuadis, lisonjeiro,
2209
que sou o solverdadeiro
2210
que vós somente adorais.
2211
E se bem me persuado
2212
em vós tenho conhecido
2213
efeitos de arrependido,
2214
mas não de desenganado,
2215
que em culpa tão conhecida
2216
bem alcanço no que trato,
2217
que o que ũa vez foi ingrato
2218
o há de ser em toda a vida.
2219
Infante
Confuso estou e admirado
2220
de que ingrato me chameis
2221
quando de mim não sabeis
2222
nem jamais me haveis tratado,
2223
mas nesta esperança calma
2224
está, não sem confusão,
2225
publicando o coração
2226
segredos que guarda a alma.
2227
E não sei, por Deos, que vejo
2228
nesse gesto que mostrais
2229
que mil sospeitas me dais
2230
quanto mais ver-vos desejo.
2231
Desde a igreja em que vos vi
2232
por entre esse negro manto,
2233
não sem mistério e espanto,
2234
vos vim seguindo até 'qui.
2235
E logo que nela entrastes
2236
se por anjo vos julguei
2237
despois me desenganei
2238
como água benta tomastes,
2239
porque bem claro se estava
2240
nisto que cheguei a ver
2241
que anjo não podia ser
2242
quem ter culpas confessava.
2243
E se os que sentem de amor
2244
dizem por causas sabidas
2245
que vertem sangue as feridas
2246
à vista do matador,
2247
das que n’alma me apontou
2248
amor, vós a causa sois,
2249
pois vertem sangue despois
2250
que ante vossa vista estou.
2251
E a luz desocultai
2252
desses dous sóis encobertos,
2253
e despois de descobertos
2254
raio a raio me matai.
2255
Dona Maria
Não perfieis mais, senhor,
2256
porque me vai muito a mi
2257
em não descobrir-me aqui.
2258
Infante
Valha-me o céu, que rigor,
2259
deixai-me essa mão beijar
2260
para que nesta ocasião
2261
possa afirmar que por mão
2262
vos começo de ganhar.
2263
Dona Maria
Algum dia pretendi
2264
com pensamento amoroso
2265
dar-vo-la como a esposo,
2266
mas despois me arrependi,
2267
porque traz um casamento
2268
consigo tam grande azar,
2269
que antes de se efeituar
2270
se segue o arrependimento.
2271
Infante
Nessas, que ouço, linsonjeiras
2272
tam equívocas rezões
2273
certas imaginações
2274
apuro por verdadeiras.
2275
De ter convosco, senhora,
2276
simpatia é cousa certa
2277
pois qual íman sempre alerta
2278
vos venho seguindo agora.
2279
Enfim, sois todo o meu bem.
2280
Dona Maria
Pois amais?
2281
Infante
Dês que vos vi.
Dona Maria
A quem?
2282
Infante
A vós.
Dona Maria
A mi?
Infante
Si.
Dona Maria
Que temeis?
2283
Infante
Vosso desdém.
Dona Maria
Que sentis?
2284
Infante
Que vos adoro.
Dona Maria
Que aguardais?
2285
Infante
Um bom sucesso.
Dona Maria
Quando será?
2286
Infante
Isso peço.
Dona Maria
Sabeis quem sou?
2287
Infante
Não ignoro.
Dona Maria
Pois que vos falta?
2288
Infante
Ventura.
Dona Maria
Para quê?
2289
Infante
Para alcançar-vos.
Dona Maria
Que pretendeis?
2290
Infante
Obrigar-vos.
Dona Maria
Pois quem obrigar procura
2291
deve em tudo obedecer.
2292
E assi vos peço que agora
2293
me deixeis.
2294
Infante
Vou-me, senhora,
só por vos não ofender.
2295
(Vai-se.)
Dona Maria
Olá, tirem-me este manto.
2296
(Sai Rosa.)
Rosa
Muito na missa tardastes.
2297
Dona Maria
Foi forçoso.
2298
Rosa
Que encontrastes,
que assi vos fez deter tanto?
2299
Dona Maria
Seguir-me o infante até 'qui,
2300
que intentou reconhecer-me
2301
por mais que quis esconder-me.
2302
Rosa
Viu-te?
2303
Dona Maria
Imagino que si.
Rosa
Pois sabe que me contou
2304
Medronho, como fiel,
2305
que ao infante num papel
2306
Fadrique desafiou,
2307
e que esta noite saía
2308
a campo.
2309
Dona Maria
Sabes porquê?
Rosa
Não sei.
2310
Dona Maria
Pois quisera que
essa contenda e perfia
2311
estorvássemos levando
2312
certo papel ao infante
2313
em que lhe escreva que, amante,
2314
estou por ele esperando,
2315
que esta noite, com cuidado,
2316
venha ao jardim.
2317
Rosa
Dizes bem.
Escreve logo.
2318
Dona Maria
Pois vem,
levar-lhe-ás este recado.
2319
(Vão-se. Sai Medronho.)
Medronho
Ando como atordado
2320
despois que dei também em namorado
2321
que amor, que todo é fumo,
2322
que me subiu, presumo,
2323
como vinho à cabeça,
2324
porque de amor de Baco me adormeça.
2325
Se bem, por Santiago,
2326
que outro vinho há mil dias que não trago,
2327
antes, com grande mágoa,
2328
bebo da fonte fria sempre a água,
2329
e já me consolara em tais dietas
2330
se da fonte bebera dos poetas
2331
ou de algum charco acaso,
2332
que fez a ferradura do Pegaso
2333
que também os poetas não são parcos
2334
que cantam como rãs d’entre estes charcos
2335
porque nem todos podem (por perene)
2336
beber da fonte limpa de Hipocrene,
2337
mas contra mi murmuro
2338
se isto de ser poeta mais apuro,
2339
que se bem nisto cudo
2340
imagino que dou no próprio escudo
2341
que também sou poeta, e Deos o sabe,
2342
se tal nome me cabe
2343
com razões tão perversas,
2344
pois al fim faço versos que são versas.
2345
Quiçá que tal espírito participe
2346
porque bebi na fonte de Aganipe
2347
por um velho cabaço com que Apolo
2348
regava o cebolinho sem miolo,
2349
assi que sou poeta jardineiro,
2350
que não sei, lisonjeiro,
2351
mais que falar em flores e boninas,
2352
chamando às águas turvas cristalinas
2353
e à corrente mais breve
2354
arminho de cristal, serpe de neve,
2355
e também por corrente
2356
lhe chamarei grilhão, forçadamente.
2357
Mas bem pareço nisto
2358
ser poeta de Abril, por Jesu Cristo,
2359
que se dele escapar o meu falsete
2360
ser músico de Maio me compete,
2361
pois sei que na Aretusa
2362
não bebi por panela nem infusa,
2363
antes doutra maneira
2364
sospeito que bebi pela caveira
2365
de um asno patalou,
2366
que por beber na fonte se afogou.
2367
Mas já me acordo agora
2368
que por nenhũa cousa destas fora
2369
porque um grande poeta,
2370
que não fazia versos à gineta,
2371
antes se cavalgava numa albarda
2372
c’os pés muito direitos à bastarda,
2373
esse me disse um dia,
2374
falando nesta fonte clara e fria,
2375
que os amantes de freiras
2376
bebiam pelos cornos das gualteiras
2377
e por este sospeito, sem mais tretas,
2378
que bebi nesta fonte dos poetas
2379
porque nunca de freiras, cousa rara,
2380
poeta me chamara,
2381
se no Parnaso monte
2382
não bebera por cornos nesta fonte.
2383
Mas quem nisto me vê não fazer pausa
2384
e não conhece a causa
2385
por que de freiras trato
2386
ter-me-á por mentecato,
2387
mas nisto não me fio
2388
pois sei que os altos pago de vazio,
2389
e com razão parece disparate
2390
ver que um lacaio destas cousas trate.
2391
Porém, quem entre doces mais se emprega
2392
algũa cousa deles se lhe pega.
2393
Oh, que sono me dá, deitar-me quero,
2394
que aqui neste lugar ao infante espero.
2395
(Deita-se a dormir. Sai Rosa.)
Rosa
Achar quisera o infante,
2396
porque minha senhora, como amante,
2397
esta carta lhe invia,
2398
intentando estrovar por esta via
2399
que não saia à campanha com Fadrique
2400
por que mais seu amor se não publique.
2401
Aqui aguardar quero
2402
que venha a recolher-se, como espero.
2403
Mas ali jaz um vulto
2404
e quem seja decerto deficulto.
2405
Quem será? Oh que lance,
2406
que é Medronho o que vejo neste transe,
2407
que ao sereno da noite está cozendo
2408
a fornada de quanto andou bebendo,
2409
e pois caiu no laço
2410
ũa burlha lhe faço
2411
de quantas me tem feito:
2412
aqui trago no peito
2413
inda umas escorralhas de vermelho
2414
que neste papel velho
2415
guardei, por cor precisa,
2416
de quando me infeitei para ir à missa,
2417
com este, por meu gosto,
2418
tingir-lhe quero agora todo o rosto.
2419
(Vai-o tingindo.)
Oh pícaro borracho,
2420
pois que tanto vermelho sem empacho
2421
sempre metes por dentro cada hora
2422
aqui to quero pôr também por fora.
2423
Se isto não te envergonha
2424
será porque antes queres ter vergonha
2425
no rosto do que mágoa
2426
dentro no coração, que não vê água.
2427
Porém, já que és Medronho
2428
só com este vermelho que te ponho,
2429
à mi fé que te juro
2430
que hás de ficar Medronho bem maduro.
2431
(Desperta Medronho.)
Medronho
Morto de sono estava,
2432
mas, por Deos, que não sei em que sonhava.
2433
Rosa
Já do sono acordou. Ir-me quisera
2434
sem que me conhecera.
2435
(Retira-se a ũa parte.)
Medronho
Não sei que vejo ali, se é fantesia
2436
que o cabelo esta vez me arrepia.
2437
Rosa
Quero ver se escapar-lhe posso agora
2438
fingindo-me fantasma.
2439
(Cobre-se toda c’o manto.)
Medronho
Oh, quem me fora
2440
pássaro que voara
2441
por que desta fantasma me escapara.
2442
Jesus seja comigo,
2443
que me vejo metido em grão perigo.
2444
Ai, que não sei que sinto,
2445
que a barriga me dói. Pardês, não minto,
2446
deixe-me, senhora alma pecadora,
2447
que me saia lá fora,
2448
se não eu te esconjuro
2449
que me deixes passar livre e seguro,
2450
não me faças caretas
2451
que as temo mais que às línguas dos poetas
2452
e deixa-me ir vestir outra camisa,
2453
cantarei-te um prefácio de ũa missa,
2454
que temo se me tocas com recato
2455
que te não cheire bem este meu fato.
2456
Ai, ai, ai, que me queres? Teu mal purga,
2457
não te chegues a mi, que estou de purga.
2458
Almas santas, valei-me,
2459
por que o fogo desta alma não me queime.
2460
(Vai-se retirando, e Rosa com ele.)
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Oh, mil vezes ditoso
2461
quem de amor tal ventura há conseguido,
2462
que, sem viver queixoso
2463
de enganos e ciúmes ofendido,
2464
gozando está presente
2465
o que cego idolatra e amante sente.
2466
Se geme, é socorrido
2467
com mimos, com regalos, com favores,
2468
e, se chora, é ouvido
2469
de quem piedosa escuta suas dores,
2470
que pode desta sorte
2471
dar vida à mesma vida e morte à morte.
2472
Sem ciúmes tiranos
2473
estima, adora, quer, ama e venera,
2474
e sem temer enganos,
2475
que não tem que temer quem nada espera,
2476
tudo o que quer alcança
2477
mas, ai de quem só vive de esperança.
2478
Ea, amor arrogante,
2479
que hoje esperas vencer ou ser vencido,
2480
porque se adora o infante
2481
a prenda a quem confesso estar rendido,
2482
neste campo presumes
2483
a batalha vencer de teus ciúmes.
2484
(Sai o Infante.)
Infante
Aqui neste teatro
2485
de meu braço o valor mostrar espero,
2486
que se a quem idolatro
2487
outro adorar se atreve, ousado e fero,
2488
vingar-me é cousa justa
2489
que ũa ousadia talvez morte custa.
2490
Fadrique ali me aguarda.
2491
Hei tardado?
2492
Fadrique
Deos guarde a vossa alteza.
Quem vem tam bem não tarda.
2493
Infante
Não pude vir mais cedo.
2494
Fadrique
Que me pesa
de inquietar-vos, infante,
2495
mas cumpro com as leis de ser amante.
2496
Infante
Ea, em campo estou posto,
2497
como amante fazei, e como honrado.
2498
Fadrique
Antes que rosto a rosto
2499
livremos a pendência deste enfado
2500
nas espadas, quisera
2501
que soubésseis a causa que tivera.
2502
Infante
Se hemos renhir, Fadrique,
2503
repeti vosso agravo a quem o ignora.
2504
Fadrique
Por que a justiça fique
2505
sempre da minha parte vencedora,
2506
meu agravo repito.
2507
Infante
Pedir satisfação não é delito.
2508
Fadrique
Amor, que por ser estrela,
2509
para o que pretende inclina,
2510
pois sendo livre a vontade
2511
talvez a faz ser cativa,
2512
quis que à infanta me inclinasse
2513
por natural simpatia,
2514
a quem, rendido, rendi
2515
alma, coração e vida.
2516
A noite em que me dissestes
2517
que ũa dama vos pedira
2518
que fôsseis só a falar-lhe
2519
sem levar mais companhia,
2520
acompanhando vos fui
2521
e não sei, por Deos, que diga.
2522
Infante
Já sei que fostes comigo
2523
naquela noite sabida,
2524
em que com dous embuçados,
2525
que o passo nos impediam,
2526
sobre as capas nos pedirem
2527
ũa pendência renhida,
2528
com ambos de dous tivemos,
2529
que enchendo-nos nela de ira
2530
metemos mãos às espadas
2531
e com igual valentia
2532
aqui talho, ali revés,
2533
passando escritos de vida,
2534
os fumos levando a todos,
2535
cevando-nos em a briga
2536
té que nos desencontrámos
2537
por escapar da justiça.
2538
Daqui podeis prosseguir.
2539
Fadrique
De aí é bem que prossiga:
2540
dei volta outra vez à rua
2541
e vi numa gelosia
2542
posta ũa dama à janela
2543
falando com voz sumida.
2544
Pus-me ao pé dela arrimado
2545
para ver se a conhecia
2546
e logo vi que era a infanta
2547
e a outra, Dona Maria.
2548
Não me pude encobrir tanto
2549
que me não vissem de cima,
2550
acenaram-me chegue,
2551
perguntei o que queriam,
2552
se era o infante, me disseram.
2553
Mas cuidando, ai, inimiga,
2554
que esta pergunta. e assi foi.
2555
da parte da infanta vinha,
2556
porque talvez os ciúmes
2557
acertam no que adivinham,
2558
ser o infante respondi,
2559
com voz turbada e fengida.
2560
E não me saiu frustrada
2561
esta sospeita e malícia,
2562
pois vi que a infanta, enganada,
2563
tantas cousas me dezia
2564
que me persuadi que amor,
2565
a querer-vos, muito a obriga.
2566
Neste comenos chegastes
2567
com Medronho em campanha,
2568
que foi causa de que então,
2569
por escusar outra briga,
2570
da infanta me despedisse,
2571
fingindo que gente vinha,
2572
e com as sombras da noite
2573
me encobri de vossa vista
2574
retirando-me do posto
2575
que a vós usurpado tinha.
2576
E como amor não consente
2577
que outrem lhe roube o que estima,
2578
pois sabeis que adoro a infanta
2579
e que me vai nela a vida,
2580
ou me tirai a que tenho
2581
ou por estorvar desditas
2582
palavra me haveis de dar
2583
de disistir, por ser minha,
2584
desta empresa, porque amor
2585
a tal extremo me obriga.
2586
Infante
Dessa empresa que dizeis,
2587
Fadrique, não disistira,
2588
se, como vós suspeitais,
2589
tivera amor algum dia
2590
ou quisera bem à infanta.
2591
Fadrique
Logo negais, sem mentira,
2592
que não lhe fostes falar
2593
aquela noite da briga.
2594
Infante
É verdade, bem que a infanta
2595
mandado chamar me tinha
2596
nessa noite, porém eu
2597
que adoro...
2598
Fadrique
A quem?
Infante
Quem duvida?
Que a dona Maria Teles
2599
que como na gelosia,
2600
pois que vai a dizer tudo,
2601
estava, desgraça minha,
2602
com a infanta a quem então
2603
falastes, foi grão desdita,
2604
cuidando que eu lhe falava
2605
e que à infanta queria,
2606
morta de desconfianças
2607
e de ciúmes, não viva,
2608
nem se paga de desculpas
2609
nem de firmezas se obriga.
2610
Fadrique
Pois podeis negar, infante,
2611
que não é vossa esta firma
2612
(Dá-lhe a carta que tirou da luva caída.)
que na luva que caiu
2613
da infanta vinha metida?
2614
Infante
Não nego, Fadrique, aqui
2615
não ser essa letra minha,
2616
pois é essa a própria carta
2617
que escrevi a dona Maria
2618
na noite em que pretendi
2619
falar-lhe, e, desavertida,
2620
lha tomaria a infanta
2621
por sospeitas que teria.
2622
Mas, pois satisfeito estais
2623
nesta parte, quanto à minha
2624
me deveis satisfação,
2625
pois sois causa de que viva
2626
morto, com mil disfavores
2627
que me faz dona Maria.
2628
E assi pois em campo estamos
2629
por que de nós não se diga
2630
que a desafio saímos
2631
e por medo ou cobardia
2632
as espadas não medimos,
2633
tomais do campo a medida
2634
que quiserdes, que esta espada
2635
vos mostrará quem a vibra.
2636
Ea, que vos suspendeis?
2637
Mostrai vossa valentia.
2638
Fadrique
Infante, nunca o céu queira
2639
que contra vós algum dia
2640
desembainhe esta espada,
2641
posta a vossos pés rendida,
2642
eu me dou por satisfeito
2643
da queixa que de vós tinha,
2644
que pera estar obrigado
2645
a satisfação me obriga.
2646
Se esta desculpa não basta
2647
para desculpar-me ainda,
2648
a dona Maria Teles
2649
direi que por culpa minha
2650
contra vós, injustamente,
2651
tantos rigores fulmina.
2652
Se, contudo, infante amigo,
2653
desta culpa cometida
2654
vos não dais por satisfeiro
2655
para vingar vossa ira
2656
aqui tendes esta espada.
2657
(Dá-lhe a espada.)
Tomai-a, que por ser minha
2658
podereis mais facilmente
2659
tirar-me com ela a vida,
2660
quando somente quisera
2661
viver para que vos sirva.
2662
Infante
Tão discreto me obrigais
2663
que, se a infanta fora minha,
2664
tomara, Fadrique amigo,
2665
ser Alexandre por vida
2666
para deixar-vos a dama
2667
a quem dar mate podia.
2668
Fadrique
Os pés bejo a vossa alteza,
2669
Infante
Os braços melhor se estimam.
2670
Fadrique
Ânimo, amor, que talvez
2671
se vence com a perfia.
2672
(Vão-se.)
(Sai Medronho com Rosa, que traz um espelho.)
Rosa
Toma e vê-te neste espelho,
2673
se crédito me não dás,
2674
porque nele te verás
2675
mais que Medronho vermelho.
2676
Medronho
Viva Deos, que isto me fez
2677
esta noite alguma bruja
2678
que em figura de coruja
2679
me quis chupar do envés.
2680
Rosa
Não vês como tens coradas
2681
as faces?
2682
Medronho
Bem vejo, à fé,
que estão mais vermelhas que
2683
se foram esbofeteadas.
2684
Rosa
Não sei se esta cor puseste
2685
para ser mais gentil-home.
2686
Medronho
Por ventura sou eu home
2687
que para Narciso preste?
2688
Eu, vermelho? Eu, cor no rosto?
2689
Rosa
Nam sei que isto possa ser
2690
Medronho
Deixa-me tornar a ver
2691
nesse espelho, por meu gosto,
2692
que folgo de ver-me agora
2693
tam gentil-home e corado.
2694
Rosa
Tens como deciplinado
2695
o rosto todo por fora.
2696
Mas essa cor, soponho,
2697
que diz bem com o nome de Medronho.
2698
Medronho
Mui bem nisso reparaste,
2699
porém, dá-me cá um pano
2700
para alimpar esta cor,
2701
que se bem me nam engano
2702
folgas de que eu aproveite
2703
para te enfeitardes quando
2704
fores amanhã à missa.
2705
Rosa
Toma esse lenço, borracho.
2706
Medronho
Mostra.
2707
Rosa
Alimpa.
Medronho
Molha.
Rosa
Toma
Medronho
Estou já mais descorado?
2708
Rosa
Bem estás.
2709
Medronho
Que te pareço?
Rosa
Que me pareces.
2710
Medronho
Zombamos?
Rosa
À fé.
2711
Medronho
Toca.
Rosa
Toco.
Medronho
Lindo.
Rosa
Mas antes creo que um trago
2712
melhor tocaras agora.
2713
Medronho
Oh, quem me vira corado
2714
antes com esse vermelho.
2715
Rosa
Pois vem, porque eu quero dar-to.
2716
Medronho
Dessa cor quero os ciúmes
2717
que, sendo, como está claro,
2718
filhos bastardos de amor,
2719
se por bastardos os trato
2720
também Baco tem ciúmes,
2721
pois se compõem de bastardo.
2722
(Vão-se.)
Terceira Jornada
(Sai o Infante e Dona Maria, dadas as mãos.)
Infante
Agora, sim que vejo
2723
cumprido meu desejo
2724
agora sim que a mando resoluto
2725
gozo de meu amor o doce fruto
2726
agora sim que logro venturoso
2727
a ventura de ver-me vosso esposo
2728
que amor, que tudo alcança e facilita,
2729
em possessão ditosa solecita
2730
gozar-se em doces laços
2731
abrindo braços e apertando abraços.
2732
Dona Maria
Estes vos dou, Infante,
2733
já como a vossa esposa e como amante
2734
pois porque al fim me viste bem lograda
2735
para sempre convosco estou casada
2736
porque é desluzimento
2737
amor que nam se ordena a casamento.
2738
Infante
Mil parabéns vos dou de Dona Maria.
2739
O sol, autor do dia,
2740
quando deixar as águas neptuninas,
2741
torquezadas cortinas
2742
do leito azul de Tétis, que obediente
2743
lhe corre, lá na casa do Ocidente
2744
e quando ao deos nocturno a porta abrindo
2745
for as horas do dia destinguindo
2746
em seu carro luzente
2747
d’entre os belos topázios do Oriente
2748
vendo os raios divinos
2749
que ostentam vossos olhos perigrinos
2750
deixando logo seu dourado carro
2751
baxe, alegre e bizarro,
2752
para servir somente de juolhos
2753
às mininas de vossos lindos olhos
2754
porque no céu bem podem por melhores
2755
sustutuir de sol luzes maiores.
2756
Ofereçamos a Aurora
2757
de pérolas, que chora
2758
belíssimas grinaldas.
2759
Flora, vós de tapetes de esmeraldas
2760
a Primavera, flores e boninas
2761
sirvam-vos estas fontes cristalinas
2762
de espelho, a vossa vista sempre bela
2763
alegre-se com ela
2764
este jardim de flores matizado
2765
cubra-se de matizes todo o prado
2766
vista-se de alegria
2767
o campo, o monte, o vale, a selva humbria
2768
cantem as belas ninfas
2769
corram sempre risonhas estas linfas
2770
repitam ledas aves
2771
doces endechas e canções suaves
2772
as plantas reverdeçam
2773
os bosques se guarneçam
2774
de boninas e cores
2775
dispam-se de rigores
2776
as feras desses montes
2777
mostrem-se os horizontes
2778
cobertos de escarlata
2779
estas fontes de prata
2780
correndo transparentes
2781
banhem sonoras flores diferentes,
2782
seu manto estenda neste campo flora,
2783
cantem as de Hipocrene em voz sonora
2784
e mostre esta alameda
2785
movendo as folhas que me escuta leda
2786
vinci feniceos anos
2787
sem desvelos tiranos
2788
queixumes da ventura
2789
gozando sempre vossa fermosura
2790
de alegres passatempos
2791
tendo em todos os tempos
2792
novas felicidades
2793
glórias de eternidades
2794
eternas alegrias
2795
alegres noites e felizes dias.
2796
(Sai Rosa e Medronho .)
Rosa
A dar-te mil parabéns
2797
te vimos, senhora, a ver
2798
cheos de gosto e prazer
2799
do novo estado que tens.
2800
Nesse amoroso troféu
2801
sem que a morte te devida
2802
gozes mais anos de vida
2803
que tem estrelas o céu.
2804
Tal ventura tenhas que
2805
jamais não vivas ciosa
2806
que esta pensão rigorosa
2807
paga quem não guarde fé.
2808
Nesta companhia tal
2809
logres estrela tão boa
2810
que te aclame ? por Lisboa
2811
rainha de Portugal
2812
e tão conformes vivais
2813
que sendo dous devididos
2814
digam que estais tão unidos
2815
que pareceis um, não mais.
2816
Vivei com muita alegria
2817
rendendo graças aos céus
2818
por vos haver dado Deos
2819
tão fermosa companhia.
2820
Infante
Só a Deos, nesta ocasião,
2821
dou as graças de ser vosso.
2822
Dona Maria
Só com amor pagar posso,
2823
esposo, tanta afeição.
2824
Medronho
Pois eu, como te direi
2825
senhor, o que vejo em ti?
2826
Tal prazer recebo em mi
2827
que ser papa desejei
2828
porque assim em gosto tal
2829
quando contigo falasse
2830
tantas bênças te lançasse
2831
que igualem com o missal.
2832
Cantem os músicos logo,
2833
tracem-se festas estranhas,
2834
comam-se muitas castanhas
2835
todas assadas no fogo.
2836
Mais de cem mil boticários
2837
toquem seu almofarices,
2838
tomem-se pelos narices
2839
tabaco por modos vários.
2840
Comam-se muitos pepinos
2841
beringelas e bananas,
2842
vendam-se pelas cabanas
2843
os autos de Valdevinos.
2844
Tanjam em harpas de couro
2845
com trombetas de funil,
2846
toquem-se pipotes mil,
2847
sirva um casado de touro,
2848
e, pera ter tudo graça,
2849
nesta festa, por devisa
2850
saiam correndo em camisa
2851
cem bruxas por toda a praça.
2852
Infante
Que bem a festa traçaste.
2853
Rosa
Nunca outra vejas melhor
2854
em teus dias.
2855
Medronho
Pois, senhor,
se da festa te pagaste,
2856
pera ajuda dela intento
2857
pedir-te certas mercês
2858
porque é justo que mas dês
2859
em dia de casamento.
2860
Confiado nisto quero
2861
dar-te este memorial
2862
porque de ti, libaral,
2863
famoso despacho espero.
2864
Infante
Mostra.
2865
Medronho
Meus serviços nele
todos cifro desta vez
2866
e se poucos nele vês
2867
outros tenho fora dele.
2868
((Dá-lhe o memorial.))
O que nele mais atento
2869
é que o ofício, senhor,
2870
me dês de monteiro-mor
2871
porque no monte pretendo
2872
como Medronho viver.
2873
Infante
Dous mil cruzados em pago
2874
de me servires te pago.
2875
Medronho
Deixa-me, infante, sequer
2876
descalçar-te este sapato
2877
pera te beijar no pé,
2878
por que ninguém cuide que
2879
fingo que o sapato te ato.
2880
Dona Maria
Eu do mestrado de Cristo
2881
que administradora sou
2882
também a Rosa lhe dou
2883
uma tença.
2884
Rosa
Bem, com isto
pagas mais do que me deves.
2885
Medronho
Pois já tenho tanta renda
2886
há quem casar-se pretenda?
2887
Rosa, se a sofrer te atreves
2888
achaque de casamento
2889
com todos cinco sentidos
2890
o menor de teus maridos
2891
serei se assi te contento,
2892
porque havendo dous casados
2893
parece fim de comédia.
2894
Rosa
Antes parece tragédia.
2895
Medronho
Porquê? Se estão desposados
2896
nossos amos?
2897
Rosa
Por casar-nos
antes que a comédia acabe.
2898
Medronho
Quem a história desta sabe
2899
nada terá que notar-vos.
2900
Casar-nos aqui convém
2901
que não é cousa roim
2902
que cada um se casa al fim
2903
adonde lhe está mais bem.
2904
E a esses ossos me toca
2905
pois se lembram nossos amos
2906
de dar-nos com que comamos.
2907
Rosa
São neve e cristal de Rosa.
2908
Medronho
Não são senão, voto a Deos,
2909
tudo polpa na verdade.
2910
Oh que mão sem alvaiade.
2911
Dona Maria
Deixem-vos lograr os céus.
2912
Infante
Por ser cousa mui vulgar
2913
música nos casamentos
2914
saiam com seus instrumentos
2915
os músicos a cantar.
2916
(Saem os músicos.)
Músico
Aqui nos apresentamos
2917
pera em tudo obedecer.
2918
Infante
Cantai e, se puder ser,
2919
não tempereis.
2920
Músico
Não estamos
pera a nenhum aguardar
2921
se de temperar se acorda
2922
que me dá tratos de corda
2923
qualquer nécio temperar.
2924
(Cantam:)
[MÚSICOS]
Entre aquele álamo verde
2925
queixas formava de amor
2926
breve cítera de pena
2927
um ramalhete com voz.
2928
Ai que rigor
2929
queixar-se sem remédio por amor.
2930
Lágrimas verte queixoso
2931
queixas canta em triste tom
2932
que se o cantar alevia
2933
o chorar aumenta a dor.
2934
Ai que rigor
2935
queixar-se sem remédio por amor.
2936
Venturoso aquele que
2937
amor nunca exprimentou
2938
pois até um passarinho
2939
se sabe queixar de amor.
2940
Ai que rigorI
2941
queixar-se sem remédio por amor.
2942
(Enquanto estão cantando, sai a infanta ao pano, e acabando diz:)
Infanta
Música neste jardim,
2943
ai Deos, a quem se dará?
2944
Mas quiçá que o infante seja
2945
quem a música vem dar.
2946
D'entre estas ramas oculta
2947
quero ver a quem se dá.
2948
se também (como a de Orfeu)
2949
estas trás si não levar.
2950
(Esconde-se entre umas ramas enquanto os músicos tornam a cantar.)
(Cantam os músicos:)
[MÚSICOS]
Entre aquele álamo verde
2951
queixas formava de amor
2952
breve cítera de pena
2953
um ramalhete com voz.
2954
Ai que rigor
2955
queixar-se sem remédio por amor.
2956
(Vão-se os músicos.)
Infante
Se comparar com a luz do sol quisesse
2957
(Dona Maria) vossa fermosura
2958
e se com sangue sobre neve pura
2959
a cor de vosso rosto engrandecesse
2960
se nome de robis à boca desse
2961
(que um brinquinho de cravo me afigura)
2962
e com a Rosa de melhor frescura
2963
comparar vossa graça pretendesse
2964
se chamasse trençados de ouro fino
2965
vossos cabelos em que a natureza
2966
mostrou de seus poderes o tesouro
2967
fora grande ousadia e desatino
2968
pois vence vossa angélica beleza
2969
rosa, cravo, rubis, sol, ouro.
2970
Medronho
Advirte, senhor, que é tarde
2971
e vamo-nos acostar
2972
que temo muito os serenos
2973
que me fazem grande mal,
2974
e, já que recém-casado
2975
com Dona Maria estás,
2976
não faças a noite curta
2977
que larga tomara mais,
2978
que, pardês, quisera agora
2979
lá na Noruega estar
2980
por ter seis meses de noite
2981
só pera dormir em paz.
2982
Infante
Dizes bem, daqui nos vamos.
2983
(Faz a Infanta ruído entre as ramas.)
Mas aguarda, que ali está
2984
bolindo entre aquelas ramas
2985
alguém que traição nos faz.
2986
Medronho
Alguma bruxa, senhor,
2987
imagino que será
2988
que anda por baxo da folha
2989
por se ter untado mal.
2990
(Tornam a bulir as ramas.)
Infante
É força reconhecer
2991
quem nos espreita sagaz.
2992
Desembainha a espada a tempo que Dona Maria se abraça com ele e fere-se numa mão.
2993
Dona Maria
Esposo, senhor, detém-te!
2994
Infante
Solta, desvia-te lá.
2995
Dona Maria
Ai que me feriste, Infante.
2996
Infante
Viva o céu, que me farás
2997
matar-me com esta espada
2998
pois com ela te fiz mal.
2999
Que desastre!
3000
Dona Maria
Que presságio!
Rosa
Caso estranho!
3001
Medronho
Mau sinal.
Dona Maria
Bem dizes, infaustas bodas,
3002
pois começo a celebrar
3003
com sangue as bodas primeiras,
3004
anúncio de um grande mal.
3005
(Sai a Infanta d'entre as ramas.)
Infanta
Que é isto, Dona Maria?
3006
Medronho
Há tal cousa?
3007
Rosa
Quem viu tal?
Infante
Que ela fosse.
3008
Dona Maria
Foi desgraça.
Infanta
Que tens, que ferida estás?
3009
Dona Maria
Tu, alteza, teve a culpa.
3010
Infanta
Sinto de te ocasionar
3011
tal ferida. Toma presto
3012
e at’a com esse cendal.
3013
((Dá-lhe o cendal.))
Ouvi cantar no jardim
3014
baxei, cheguei até cá
3015
pera ajudar-vos a todos
3016
estas bodas celebrar.
3017
Medronho
Não cuides que estão de veras
3018
casados, que voto a tal
3019
que estamos representando
3020
as bodas de Cananá.
3021
Por Deos, que esta bruxa infanta
3022
ouviu tudo.
3023
Infanta
Bem está.
Deste novo estado Infante
3024
parabéns vos quero dar
3025
mil anos vós gozeis ambos
3026
em tálamo conjugal.
3027
Infante
Os pés bejo a vossa alteza
3028
por favor tão singular.
3029
Viva o céu, que me há pesado
3030
de que a Infanta saiba tal
3031
nem que com dona Maria
3032
estou desposado já.
3033
Dona Maria
Licença me dê tu’alteza
3034
por que esta mão vá curar.
3035
Infanta
Quem sem licença se casa
3036
tem licença pera o mais
3037
mas à fé que desta raiva
3038
desta pena, este pesar,
3039
eu me vingue, e deste Infante
3040
que comigo usou tão mal
3041
que ũa molher ofendida
3042
nunca sabe perdoar.
3043
Infante, vinde comigo.
3044
Infante
Obedeço ao que mandais.
3045
(Vão-se todos três.)
Medronho
Cê, mondongueira! Que digo?
3046
Com quem falo? Escute cá.
3047
Rosa
Que temos, ouque me dá
3048
de estar casado comigo?
3049
Medronho
Sabes, olhos de cachucho,
3050
que estar comigo casada
3051
é vida mais apertada
3052
do que ser frade capucho?
3053
Rosa
Sei que num hábito desses
3054
ver-te mui cedo te espero
3055
porque então cantar-te quero
3056
um requies todos os meses.
3057
Medronho
Por são Vasco, que um capuz
3058
cedo por ti vestirei
3059
que mui pouco sofrerei
3060
deste matrimónio a cruz.
3061
Rosa
Mau agouro por ti venha
3062
pois já matar-me desejas.
3063
Medronho
Não há casado que envejas
3064
ao viúvo não tenha.
3065
Rosa
Pera que casar querias
3066
sendo ainda tão moderno?
3067
Medronho
Porque estas noites de inverno
3068
sem companhia são frias.
3069
Rosa
Mas oh que frio que estás
3070
vem-te comigo deitar.
3071
Medronho
Receo alagado estar.
3072
Rosa
Ligado, milhor dirás.
3073
Medronho
Seja ligado, ou legado,
3074
que nada disso aproveita.
3075
Mas vamos, que desta feita
3076
hei de ver se sou castrado.
3077
Rosa
Bode me parecerás
3078
se castrado queres ser.
3079
Medronho
Se bode te parecer
3080
também tu cabra serás.
3081
(Vão-se.)
(Sai a Infanta e Fadrique.)
Fadrique
Até quando, ingrata Infanta,
3082
até quando, Infanta ingrata,
3083
matar-me teu desdém trata
3084
por querer-te com fé tanta?
3085
Se essa beleza me encanta
3086
como à de Circe rendido
3087
culpa não hei cometido
3088
vencendo-me teu amor.
3089
Mas ai, que culpa maior
3090
que confessar-me vencido?
3091
Neste vencimento quer
3092
amor ter por mais vitória
3093
ficar vencido com glória
3094
do que sem glória vencer.
3095
Por prémio de meu querer
3096
outra não quero melhor
3097
que estar vencido de amor
3098
ante esses olhos rendido
3099
que é glória pera um vencido
3100
ter um grande vencedor.
3101
Vencer teu desdém procuro
3102
e não sei, bela inimiga,
3103
como te não vence e obriga
3104
esta fé, este amor puro.
3105
Se em querer-te me asseguro
3106
duvido da segurança
3107
pois me tem minha esperança
3108
de todo desconfiado
3109
que perder por confiado
3110
é mui nécia confiança.
3111
Se desconfio de ti
3112
a culpa, senhora, tem
3113
esse teu tanto desdém
3114
com que me tratas assi.
3115
Se te confesso, ai de mi,
3116
o muito com que te adoro
3117
padeço, suspiro, choro,
3118
e das feridas sentido
3119
não sentes ver-me ferido
3120
como Angélica a Medoro.
3121
Ea ingrata, quem pudera
3122
dessa luz e vista bela
3123
viver ausente, sem vê-la
3124
inda que ausente morrera.
3125
Se quem tanto te venera
3126
jamais espera favor
3127
viver ausente é melhor
3128
por não ver seu mal presente
3129
que tal vês tiranamente
3130
esquivança aparta amor.
3131
Infanta
Por meu conselho te dera
3132
que te apartasses de mi
3133
que pode bem ser que assi
3134
algum amor te tivera.
3135
Se em partir-se persevera
3136
quem contra amor se descarta
3137
quiçá que antes que se parta
3138
obrigue em partir também
3139
que sempre parece bem,
3140
todo o amante que se aparta.
3141
Fadrique
Se confessas que obrigar-te
3142
poderei com me apartar,
3143
a troco de te obrigar
3144
quero partir e deixar-te.
3145
E pera em tudo agradar-te
3146
vou ordenar a partida
3147
que inda que me custe a vida
3148
a partir amor me chama,
3149
que a qualquer ingrata dama
3150
castiga uma despedida.
3151
(Vai-se.)
Infanta
Tal estou que me há pesado
3152
de ver que tão mal o trato,
3153
porque perder qualquer trato
3154
não deixa de dar cuidado.
3155
Temo que estando apartado
3156
viva de mim esquecido
3157
e nada disto duvido
3158
pera ter mais que sintir
3159
pois vejo que trás partir
3160
nam há mais que ter partido.
3161
(Vai-se.)
(Sai a rainha com Garcia Afonso e Diogo Afonso.)
Rainha
Adonde a infanta vistes? Que sem elaI
3162
tratar quero um pesar que me quebranta.
3163
Garcia
Daqui se vai agora a infanta bela.
3164
Rainha
Folgo por que não saiba disto a infanta
3165
neste caso que tanto me desvela
3166
(por ser negócio de importância tanta)
3167
segredo, amigos, e conselho peço
3168
que um bom conselho estorva um mau sucesso.
3169
Garcia
Em nome aqui de todos te prometo
3170
de servir-te fiel, como constante.
3171
Rainha
Já sabeis que casada está em secreto
3172
Dona Maria Teles c'o infante
3173
(a Beatriz do que digo me remeto)
3174
pois nas bodas se achou prova bastante.
3175
Diogo
Bem sabemos que quer Dona Maria
3176
ver se pode reinar por esta via.
3177
Rainha
Pois por que lhe atalhemos seus intentos
3178
(que excedem as maiores esperanças)
3179
amigos, escutai-me agora atentos
3180
que em vós tenho librado as seguranças
3181
em que estribo estes altos pensamentos.
3182
Eu vos prometo cargos e privanças
3183
se esta minha facção tam importante
3184
fomentardes leais contra o infante.
3185
Garcia
Tu, senhora, és rainha e a ti se deve
3186
a coroa do reino lusitano.
3187
Rainha
Pois contra quem ousado se me atreve
3188
sem temer da fortuna um desengano
3189
pelas voltas que dá em tempo breve
3190
hei traçado valer-me de um engano
3191
do qual somente podes ser Ulisses
3192
só por que em teu engenho te eternizes.
3193
Amigo, esta traição que te cometo,
3194
é digna de louvor e nam te infama,
3195
restaurador da pátria te prometo
3196
que há de aclamar-te o tempo, o povo, a fama.
3197
Consegue esta facção como discreto
3198
pois o mundo por tal assi te aclama,
3199
livrando o reino (não sem glória pouca)
3200
do cativeiro desta Circe louca.
3201
Faze com que Dom João se persuada
3202
que lhe faz traição Dona Maria
3203
porque uma indústria tenho já traçada
3204
com que te dê mais ânimo e ousadia,
3205
tal que nesta ocasião tam acertada
3206
possa enganar a mesma fantesia
3207
desso infante, enganando-se com Rosa
3208
que lhe faz tanta ofensa sua esposa.
3209
Isto com Rosa tenho já traçado
3210
(se bem o fim não sabe deste enredo)
3211
porque lhe tenho dito e declarado
3212
que me importa esta noite com segredo
3213
apurar as sospeitas de um cuidado
3214
pondo-lhe nesta parte grande medo
3215
sob pena de que a vida perderia
3216
se este engano algum tempo descobria.
3217
Porque lhe declarei que meu intento
3218
era só intentar por esta via
3219
estrovar de Fadrique um casamento.
3220
Para isto, ser a infanta fingiria
3221
vestindo-se com grande paramento
3222
num vestido que traz Dona Maria
3223
por que lhe fale assim por arte tanta
3224
que imagine Fadrique que é a infanta.
3225
Isto Rosa fará de sua parte
3226
tomando-lhe um vestido em que, galante,
3227
se vista de tal sorte e com tal arte
3228
que por Dona Maria a julgue o Infante
3229
e viva o céu de em meu governo dar-te
3230
tanta parte que a todo o mundo espante,
3231
pois tanto te darei, com tal sobejo,
3232
que os lemites exceda a teu desejo.
3233
Garcia
Causa tam justa deves principiá-la
3234
pois quando a consegui-la mais me atrevo
3235
menos tenho ocasião para deixá-la
3236
se amor da pátria ante os olhos levo;
3237
de morrer nesta empresa ou de acabá-la
3238
palavra aqui te dou que cumprir devo
3239
e me parto a tratar deste negócio
3240
que empresas grandes não permitem ócio.
3241
(Vai-se.)
Diogo
Eu, que sempre a servir-te me acomodo
3242
como leal vassalo e verdadeiro,
3243
pois nunca em teu serviço de algum modo
3244
jamais segundo fui, por ser primeiro,
3245
nam sendo dos que o mundo ofrecem todo
3246
e nada sabem dar por derradeiro
3247
aos mais nobres sentidos farei claro
3248
(que são os olhos) este engano raro.
3249
(Vai-se.)
Rainha
Que bem conheci logo desta sorte
3250
o génio que este tem para um engano.
3251
Nunca faltam traidores em a corte
3252
aptos para traçarem qualquer dano.
3253
dar a Dona Maria intento morte
3254
se é que aspira ao cetro lusitano,
3255
que pouco em subir tanto persevera
3256
quem passar quis além de sua esfera.
3257
(Vai-se.)
(Sai o infante com Garcia Afonso e Dom Afonso.)
Garcia
Isto, Infante, me mandou
3258
que te dissesse a rainha
3259
como quem tanto lhe pesa
3260
de que com Dona Maria
3261
estejas casado já,
3262
porque pensamento tinha
3263
de casar-te co a infanta
3264
para que por esta via
3265
pudesses vir a reinar.
3266
Porque por direita linha
3267
e por morte de Fernando
3268
o reino te competia
3269
se com a infanta casasses;
3270
suposto que ela não tinha
3271
filho varão que pudesse
3272
herdar esta monarquia,
3273
que mais desejava ver-te
3274
casado com sua filha
3275
de que ser ela molher
3276
(o que não consenteria)
3277
do Duque de Benavente
3278
com quem casar solecita
3279
como se tem assentado
3280
em as cortes de Leiria.
3281
Pois mais rezão era, infante,
3282
que este império possuíras
3283
que fora de teus avós
3284
casando como convinha
3285
com Beatriz tão singular
3286
que não os que vem por linha
3287
del rei dom Henrique, que
3288
neste império e monarquia
3289
nos tem feitos tantos danos
3290
com tantas guerras contínuas
3291
como experimentado temos
3292
à custa/a custas de tantas vidas.
3293
Infante
Amigo, bem desejara
3294
que isso que diz a rainha
3295
pudesse surtir efeito
3296
nesta ocasião tam precisa
3297
se nesta em que agora estou
3298
livre (como ante) me vira
3299
pera poder conseguir
3300
esse intento da rainha,
3301
mas a impossibilidade
3302
me acobarda e desanima
3303
pois vejo que já casado
3304
estou com Dona Matia.
3305
Garcia
Tudo, infante, tem remédio
3306
se este aplicá-lo te animas.
3307
Infante
Como remédio, se estou
3308
casado?
3309
Garcia
Cousa é sabida
que Dona Maria Teles
3310
te faz traição.
3311
Infante
Quem podia
tomar tal atrevimento
3312
se não tu? Queres que a vida
3313
te tire com esta adaga
3314
pois que com tanta ousadia
3315
te atreves a dizer tal?
3316
Bárbaro, que determinas?
3317
Garcia
Jesus, tu, adaga em meu peito?
3318
Infante
Hás visto fonte mais limpa
3319
cristal mais resplandecente
3320
corrente mais cristalina
3321
neve mais cândida e pura
3322
prata mais bela e mais fina
3323
arminho mais alvo e branco
3324
flor mais intacta e bonita
3325
luz mais clara e transparente
3326
sol, estrela mais altiva
3327
que se atreva a competir
3328
com a honestidade e vida
3329
de Dona Maria Teles,
3330
honra desta monarquia
3331
em quem mais claros se vem
3332
céu, estrelas, raios, dia?
3333
Pois por que, infame, te atreves
3334
a pôr a boca atrevida
3335
naquela que em excelências
3336
vence as romanas antigas?
3337
Garcia
Sabe que é cousa tão certa
3338
e tão fora de mentira
3339
isto que, infante, te digo
3340
(como quem tanto te estima)
3341
que Diogo Afonso que aí está
3342
é testemunha de vista
3343
a quem me remeto agora
3344
pera que o demais te diga.
3345
Infante
Dize-me, amigo, o que viste,
3346
conta-me, por tua vida.
3347
(Ai que pena tão cruel)
3348
minha desonra e desdicha!
3349
Oh, quem nunca se casara
3350
por que em transe não se vira
3351
de perder, casando, a honra
3352
que sem ser casado tinha!
3353
Quem viu maior desventura
3354
que a jóia de mais estima
3355
de maior valor e preço
3356
(prenda em que tanto se arrisca)
3357
estar sujeita ao mau trato
3358
de ũa molher fementida?
3359
Ah céu, que em raiva me abraso
3360
e me estou comendo em ira.
3361
Diogo
Por não dar-te este desgosto
3362
esta traição te encobria
3363
e sabe Deus que me pesa
3364
de chegar a descobri-la.
3365
Viva o céu, que antes tomara
3366
que a terra me consumira
3367
e que me abrasasse um raio
3368
fazendo-me em pó e cinza
3369
que um leão me espedaçasse
3370
que um basilisco me vira
3371
que um áspide me mordesse
3372
que me picasse ũa bíbora
3373
antes que ver com meus olhos
3374
o que sem eles não vira
3375
porque quisera cegar
3376
por não ver quem te ofendia
3377
mas quem te serve leal
3378
não te ofende se te avisa
3379
do que te pode ofender
3380
por que ofendido não vivas.
3381
Sabe, infante, que há na corte
3382
quem tua esposa solecita
3383
e com quem foi menos casta
3384
do que, a ser quem é, devia.
3385
À noite pelo jardim
3386
certo fidalgo a visita
3387
e no paço, serão, festas
3388
a galantea de dia.
3389
Se esta verdade melhor
3390
averiguar determinas
3391
acolhe ao jardim de noite.
3392
Quere-lo mais claro ainda?
3393
Infante
Que isto sofro e me reporte!
3394
Vai-te de aqui, que me obrigas…
3395
Diogo
Senhor…
3396
Infante
A dar-te…
Diogo
Mal pagas…
Infante
Mil mortes.
3397
Diogo
A quem te avisa!
Que se esta muita maldade
3398
tanto, infante, não sentira
3399
não me atrevera a dizer-ta
3400
nem menos a descobri-la
3401
mas vou-me porque te enfadas
3402
de que verdade te diga
3403
que hoje só privam na corte
3404
falsidades e mentiras.
3405
(Vai-se.)
Garcia
Infante, aos que assim te dizem
3406
verdades tam conhecidas
3407
com ânimo de servir-te
3408
sem lisonjas fementidas
3409
não deves tam mal tratá-los
3410
com tal desprezo e inomínia
3411
desobrigando inimigo
3412
a quem amigo te obriga
3413
que o que desta sorte ofende
3414
a quem verdade lhe afirma
3415
é bem que viva ofendido
3416
porque ofensa não castiga.
3417
(Vai-se.)
Infante
Apurar ofensas tantas
3418
obrigação é precisa
3419
porque a honra mais segura
3420
se há tropeçado periga
3421
e quem se põe a perigo
3422
quando perigando arrisca
3423
se perigar arriscado
3424
no risco se precipita.
3425
Quero apurar isto mais.
3426
Que haja quem livre me diga
3427
que se não castigo ofensas
3428
que é bem que ofendido viva!
3429
E que não lhe dou a morte
3430
tirando-lhe logo a vida
3431
que repitir as ofensas
3432
é maior ofensa ainda.
3433
Viva Deus de castigá-las
3434
com tal castigo que sirva
3435
de exemplo a saberem todos
3436
como ofensas se castigam.
3437
E com esta própria adaga
3438
hei de desfazer um dia
3439
deste ídolo que adorei
3440
o altar em que se sustinha
3441
que como tam falso foi
3442
bem merece esta ruína
3443
pois quem se deixa arruinar
3444
presto há de ver a caída.
3445
Quem cuidara, falsa aleive,
3446
molher torpe e fementida,
3447
que àquele a quem mais te adora
3448
e a quem mais teu bem estima
3449
tratasses com tal maldade!
3450
Não sei como me reprima
3451
mas beberei, dessangrando-te,
3452
esse sangue que te anima.
3453
Honra, vinganças, verás
3454
de tanta desonra minha
3455
que dessimular castigos
3456
os delitos facelita.
3457
(Vai-se.)
(Sai Dona Maria muito triste com Rosa.)
Rosa
Que triste melanconia
3458
te obriga a chorar, senhora,
3459
desde que recorda a aurora
3460
até que adormece o dia?
3461
Porque essa muita tristeza
3462
que em matar-te não faz pausa,
3463
me obriga a saber a causa
3464
de tanta pena e aspereza.
3465
Teus pesares comunica
3466
a quem, piadosa, te assiste
3467
que sempre descansa um triste
3468
enquanto seu mal publica.
3469
Algum secreto desgosto
3470
em teu peito está sujeito
3471
porque os segredos do peito
3472
logo aparecem no rosto.
3473
Não te divirtem as flores
3474
de que este jardim se esmalta
3475
tão belas que não lhe falta
3476
mais que dizerem-te amores?
3477
Não te divertem as aves
3478
que, ramalhetes com voz,
3479
com passo e salto veloz
3480
cantam endechas suaves?
3481
Não te alegra essa campina
3482
alcatifada de flores
3483
de variedade de cores
3484
formada uma tela fina?
3485
Não te diverte (senhora)
3486
veres esses frescos prados
3487
todos de aljofar bordados
3488
que a aurora sobre eles chora?
3489
Não te diverte a frescura
3490
dessas árvores e plantas
3491
que formam de folhas tantas
3492
uma graciosa espessura?
3493
Não te divertes em vendo
3494
esse arroio murmurando
3495
de jaspe em jaspe saltando
3496
e de flor em flor correndo?
3497
Dona Maria
Bem vejo que divertir-me
3498
tão várias cousas puderam
3499
se a caso lugar me deram
3500
mais do que para sentir-me.
3501
Rosa
Conta-me secretamente
3502
a dor que tantas te ordena
3503
que se diminue a pena
3504
se se diz a quem a sente.
3505
Que tens? Que cousa te faz
3506
padecer tanta tristeza
3507
que parece que te pesa
3508
de ver que casada estás?
3509
Não te obriga a que me fales
3510
esta minha compaixão?
3511
Desabafa o coração
3512
com me contares teus males.
3513
Dona Maria
Não solecito aliviá-los
3514
meus males com referi-los
3515
mas morrerei de senti-los
3516
já que vivo de contá-los.
3517
Sabe, Rosa, que sonhava
3518
uma das noites passadas
3519
que morria a punhaladas
3520
com que o Infante me matava.
3521
E despois que alcançou bem
3522
que inocente me matou
3523
tanto disto lhe pesou
3524
que se quis matar também.
3525
Acordei achando então
3526
mil lágrimas derramadas
3527
que são lágrimas sonhadas
3528
presságios do coração.
3529
Era este sonho ao romper
3530
da alva, nas portas do oriente
3531
quando o sol adolecente
3532
se deixava um pouco ver.
3533
Esse crédito se dá
3534
quanto pode a humana fé
3535
aos que em sonhos dizem que
3536
verdades sonhadas há.
3537
Vê se bastante ocasião
3538
tenho pera triste ser
3539
pois do que há de acontecer
3540
é presságio o coração.
3541
Rosa
Jesus, senhora, é possível
3542
que isso cuidado te dê
3543
quando em sonhos sabes que
3544
nam há verdade infalível?
3545
Deixa essa imaginação
3546
com que os sentidos enleas
3547
e nada em sonhos mais creas
3548
porque os sonhos sonhos são.
3549
Do Infante que não se muda
3550
em querer-te e guardar fé
3551
não cuides tão mal porque
3552
contra si faz quem mal cuida.
3553
Dona Maria
Deixa-me, Rosa, ficar
3554
um pouco somente aqui
3555
pera ver se posso assi
3556
tributo a Morfeu pagar.
3557
Rosa
Dizes bem, que o não dormir
3558
aumenta a melanconia.
3559
Dona Maria
Cerra essa porta e vegia
3560
não deixes alguém cá vir.
3561
(Vai-se Rosa.)
(Estará no teatro uma alcatifa e coxim, em que se deita Dona Maria a dormir, e sai o Infante só:)
Vinganças solecito
3562
porque ofensas vingar não é delito
3563
e quem se está julgando
3564
ofendido de amor ofende amando
3565
pois amor não consente
3566
que tributo lhe paguem docemente
3567
fulminando-lhe ingratos
3568
tratando falsidades, falsos tratos
3569
que só estão sujeitos
3570
baxos enganos em humildes peitos.
3571
Ai amor quem cuidara
3572
que contra mi enganos fulminara
3573
aquela em quem se viam
3574
quantas nocturnas luzes alumiam
3575
esse globo celeste
3576
a quem com raios de seus olhos veste
3577
mas molher e fermosa
3578
é causa de guardar deficultosa
3579
que nunca tem firmeza
3580
molher com pouco amor, muita beleza.
3581
Mas ai que ao sono entregue
3582
por que seus olhos vendo o sol não cegue
3583
ali dormida vejo
3584
esta inimiga minha em quem desejo
3585
tomar vingança justa
3586
que desta sorte (ai quanto que me custa)
3587
castigar uma ofensa solecito
3588
que tal pena merece tal delito.
3589
(Mete mão à adaga, e quando vai pera lhe dar com ela Dona Maria lhe irá ao que diz o Infante, respondendo-lhe por sonhos:)
Morra esta falsa ingrata.
3590
Dona Maria
Ai Jesus, quem me ofende, ou quem me mata?
3591
Infante
Quem se julga ofendido.
3592
Dona Maria
Pois que culpa, senhor, hei cometido?
3593
Infante
Que maior que ofender-me?
3594
Dona Maria
Aqui minha inocência há de valer-me.
3595
Infante
Viva o céu, que sonhando
3596
comigo desta sorte está falando.
3597
Morra esta fementida.
3598
Dona Maria
Por que intentas, senhor, tirar-me a vida?
3599
Infante
Porque traição me fazes.
3600
Dona Maria
Para culpar-me assi culpas não trazes.
3601
Infante
Dar-te morte mereces.
3602
Dona Maria
O peito adonde estás não atravesses.
3603
Infante
Tirar-me dele aceito
3604
porque não tenho fé em falso peito.
3605
Dona Maria
Esse teu de diamamte
3606
com sangue de meu peito lavra, infante,
3607
que como pelicano
3608
sustento te dará em sangue humano.
3609
Com essa tua adaga
3610
teu nome de meu peito, esposo, apaga
3611
por que não viva, infante,
3612
tão vário nome em peito tão constante.
3613
Ai, quantos fulminarão
3614
enganos com que, infante, te burlarão!
3615
Que tens? Que estás prevendo?
3616
Acaba de matar-me se te ofendo.
3617
Infante
Ai que se está queixando
3618
quando em sonhos comigo vai falando.
3619
Ir-me quero e deixá-la
3620
por não ter coração pera matá-la
3621
porque em vendo seus olhos
3622
estou para adorá-los de juolhos
3623
mas quando me resolvo
3624
se amando parto, mais amante volvo.
3625
Beleza mal lograda
3626
que al fim naceste pera mal fadada
3627
pois tem sempre à perfia
3628
beleza com ventura antepatia
3629
se ventura te falta
3630
nacendo por teu mal com esta falta
3631
queixa-te de ser bela
3632
e nam culpes algũa infausta estrela
3633
que estrela nam domina
3634
beleza tam gentil e peregrina
3635
corrido estou de ver-te
3636
pois nam tenho valor pera ofender-te
3637
mas nisto vou resoluto
3638
que não te ofendo se ofendido volto.
3639
(Vai-se.)
Dona Maria
Aguarda! Escuta! Tem-te!
3640
(Desperta.)
Jesus, que triste sonho e que acidente.
3641
O coração me falta
3642
foge-me o sangue se o calor me falta.
3643
Nenhum sentido acerta
3644
se inda dormida estou ou se desperta
3645
imagino e suponho
3646
que foi tudo ilusão, tudo foi sonho.
3647
Mas já vejo que morro
3648
presságio é este sonho em que discorro
3649
porque imagem da morte
3650
um sábio lhe chamou. Ai dura sorte!
3651
Que morro é cousa certa
3652
que o coração mo diz, que sempre acerta.
3653
Esta melancolia
3654
quimeras fabricou na fantesia.
3655
Ai amor mal logrado
3656
sempre por casamentos desgraçado.
3657
Pois nunca se lograrão
3658
amantes que por firmes se casaram
3659
quem nunca se casara
3660
pera que estando livre livre amara
3661
que prisões da vontade
3662
são mais suaves que as da liberdade
3663
e pois que ma tiraste
3664
por que, tirano amor, me não mataste?
3665
Mas pera que me deixo
3666
levar desta ilusão de que me queixo?
3667
Afora sonho, afora
3668
que não pode matar-me quem me adora.
3669
(Vai-se.)
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Alegre venho e contente
3670
vendo que antes de partir-me
3671
a troco de despedir-me
3672
hei de ver meu bem presente.
3673
Sucedeu-me felizmente
3674
esta minha despedida
3675
pois pera partir com vida
3676
a Infanta manda chamar-me
3677
por que havendo de apartar-me
3678
parta esta alma na partida.
3679
Se este bem chego alcançar
3680
conseguindo tanta glória
3681
não quero maior vitória
3682
da glória de meu amor
3683
troque-se em gosto o pesar
3684
que tive em ver que partia
3685
pois converto em alegria
3686
a tristeza de partir-me
3687
vendo que hei de despedir-me
3688
de quem não me despedia.
3689
Rode a fortuna inimiga
3690
que estando amor de meu bando
3691
quando tarde espero um quando
3692
que amor a esperar me obriga.
3693
Já não temo me persiga
3694
rigores de infausta estrela
3695
que pois minha ingrata bela
3696
em glória me troca a pena
3697
se entrar na glória me ordena
3698
já não posso cair dela.
3699
Oh se a noite se parece
3700
que corre com pressa tanta
3701
que parece que se espanta
3702
de ver que tanto esperasse.
3703
Parece que já renace
3704
o dia contente e ledo.
3705
Mas de que me espanto, e enredo
3706
em ver que o dia se aviste?
3707
Pois sei de certo que a um triste
3708
sempre amanhece mais cedo.
3709
(Sai Rosa nos trajos de Dona Maria.)
Rosa
Hoje o papel represento
3710
da infanta Beatriz. Que bem
3711
este vestido me vem
3712
pera seguir este intento.
3713
Enganar Fadrique intento
3714
com este trajo e disfraz
3715
porque a rainha me faz
3716
meter-me em tão grande enredo
3717
que algum mistério e segredo
3718
consigo este engano traz.
3719
Aqui pela Infanta aguarda
3720
Fadrique. Este é que aqui vem.
3721
Fingir-me a Infanta convém.
3722
Fadrique
Muito já a Infanta tarda,
3723
mas quem do dia se guarda
3724
até da noite tem medo
3725
de quem fia seu segredo.
3726
Ela chega. Ânimo, amor
3727
que noutro enredo maior
3728
de novo outra vez me enredo.
3729
Fermosíssima senhora
3730
tão discreta como linda
3731
em cujo rosto se vem
3732
céu, estrelas, raios, dia,
3733
extremo das mais discretas
3734
(quando não das mais esquivas)
3735
glória de toda esta pena
3736
regalo, bem , prémio, dita.
3737
Envolta em tristes endechas
3738
despido esta amarga vida
3739
qual Cisne que, quando morre,
3740
geme, chora, canta, expira.
3741
Se folgais de ver meus males
3742
por que tristemente viva
3743
vosso gosto me conduz
3744
tumba, aromas, urna, pira.
3745
Oh bela Infanta, oh cruel
3746
minha suave homicida
3747
sempre comigo tirana
3748
crua, forte, áspera, esquiva.
3749
Deixai que esta alma vos ame
3750
e como amante vos siga
3751
entregando em vosso céu
3752
coração, alma, olhos, vida.
3753
Pois não é bem que um serafim
3754
de humano tanto se vista
3755
que por cruel e por belo
3756
fira, mate, vença, oprima.
3757
Não duvideis deste amor
3758
animai esta perfia
3759
favorecei meu desvelo
3760
fé, constância, amor, fadiga.
3761
Porque somente em amar-vos
3762
Infanta, prenda querida,
3763
ocupo todas as horas
3764
tempo, instantes, noites, dias.
3765
Aceitai bela senhora
3766
esta adoração devida
3767
que um desdém não muda ũa alma
3768
que ama, quer, adora, estima.
3769
Rosa
Esse desvelo e cuidado
3770
com que vosso amor me obriga
3771
me fez, piadosa, admitir-vos
3772
e aceitar-vos compassiva.
3773
Que quem sabe amar tam bem
3774
que um negado bem conquista
3775
tanto obriga porfiando
3776
tanto obrigando porfia.
3777
(Sai o Infante com Garcia Afonso e Diogo Afonso.)
Fadrique
Se a conrespondência falta
3778
a quem, senhora, é devida
3779
tem-se amor por necedade
3780
e por loucura a porfia.
3781
Infante
Se tal vejo, o coração
3782
me pedaços lhe devida.
3783
Diogo
Neste mesmo lugar juntos
3784
a tais horas (não te afliga)
3785
costumam ambos falar.
3786
Garcia
Daqui podes como espia
3787
ser Argos desta maldade.
3788
Diogo
Pois se não me engana a vista
3789
esses dous são que ali vês.
3790
Que te parece Garcia?
3791
Garcia
Que a ponto estava o engano.
3792
Foi grande acerto por vida.
3793
Infante
No vestido, viva o céu
3794
que aquela é Dona Maria.
3795
Rosa
Já não corresponde, ingrata,
3796
que Fadrique vos estima
3797
que na estimação que faço
3798
amor seu crédito estriba.
3799
Fadrique
Conresponder com amor
3800
é pagar de amor a dívida
3801
que em doce conrespondência
3802
amor com amor se cria.
3803
Rosa
Pagar amor com amor
3804
é de amor usança antiga
3805
e mais livre vos pagara
3806
estando menos cativa.
3807
Trocar desdéns em favores
3808
é satisfação devida
3809
e tal vês: amor que mata
3810
premea quando castiga.
3811
Do vosso estou satisfeita
3812
e me confesso rendida
3813
que mais que se Infante fôreis
3814
vos tenho em maior estima
3815
que quem persevera amando
3816
impossíveis facelita.
3817
Diogo
Ouves aquilo senhor?
3818
Que te parece, é mentira?
3819
Infante
Possível é que cometa
3820
tal baxeza esta inimiga?
3821
Ah fementida molher!
3822
Fadrique
Atar da fortuna minha
3823
a roda esta vez quisera
3824
por que jamais me persiga
3825
dando mais voltas comigo,
3826
que sempre teme a caída
3827
quem por fortuna subiu.
3828
Rosa
Se a temeis como inimiga
3829
prende-a com esta prenda
3830
porque não falta quem diga
3831
que por ser de meus cabelos
3832
vossa sorte e vossa vida
3833
pendente está de um cabelo
3834
nesta ocasião tão precisa.
3835
E se vem pelos cabelos
3836
será bem que vos advirta
3837
que os guardeis como Sansão
3838
de alguma Dalila iníqua.
3839
(Dá-lhe uns cabelos.)
Fadrique
Estes dourados cabelos
3840
sempre do sol envejados
3841
tanto vencem por dourados
3842
quanto cativam por belos.
3843
Mas ai, que em chegando a vê-los
3844
cego de amor e afeição
3845
tanto anela o coração
3846
por ver-me enredado neles
3847
que por morrer preso deles
3848
quisera ser Absalão.
3849
Com rezão se admire a gente
3850
do ouro destes cabelos
3851
tendo junto a esses sóis belos
3852
mina e crisol juntamente,
3853
e se deste ouro excelente
3854
fazer jóias pretendeis
3855
seus quilates não trateis
3856
apurar em pedras finas
3857
porque já das próprias minas
3858
todo vem feito em anéis.
3859
Neste dourado desvelo
3860
conheci, senhora, que
3861
quem vossos cabelos vê
3862
traz a vida em um cabelo,
3863
mas vós com piadoso zelo
3864
mostrais que sem isenção
3865
aceitais a adoração
3866
dos que vem esse tesouro
3867
pois não tendes anel d’ouro
3868
que não tenha um coração.
3869
De que sois sol nam duvido
3870
nacido neste horizonte
3871
porque esse dourado monte
3872
me diz que o sol é nacido,
3873
nele amor tem conhecido
3874
d’ouro fino os luzimentos
3875
e com vários instrumentos
3876
lavra com mil sutilezas
3877
anéis, cadeas, firmezas,
3878
lembranças e pensamentos.
3879
Destes anéis dos cabelos
3880
tenho formado na idea
3881
fazer d’ouro ũa cadea
3882
(prisão de quem chegue a vê-los
3883
de fuzis ricos e belos
3884
me servirão os anéis
3885
donde, infanta, me vereis
3886
preso em tam rico tesouro,
3887
que se a muitos livra o ouro
3888
vós com ouro me prendeis.
3889
Livrar-me desta prisão
3890
já não pertendo algum hora
3891
pois me lançastes, senhora,
3892
prisões d’ouro por grilhão
3893
e se estas o nome dão
3894
de forçado a meus desvelos
3895
por vossos cabelos belos
3896
tão livremente me empenho
3897
que de forçado nam tenho
3898
mais que o estar pelos cabelos.
3899
Com dourada seta amor
3900
matar de amores procura
3901
porque a ferida assegura
3902
com lhe dourar o rigor.
3903
Mas já perdeu seu valor
3904
a seta que em vós retrata
3905
os poderes que recata
3906
pois amor, bela senhora,
3907
dizem que já desde agora
3908
com vossos cabelos mata.
3909
Rosa
Sobre um fio que lançado
3910
tinha um pintor sutilmente
3911
deu Apeles excelente
3912
outro mais fino e delgado;
3913
em vós contemplo cifrado
3914
este mesmo paralelo
3915
pois se eu dei um fio belo
3916
destes outro tão gentil
3917
que por discreto e sutil
3918
podeis partir um cabelo.
3919
Infante
Há tal cousa, ó fementida,
3920
falsa, ingrata e, al fim, molher?
3921
Viva Deus, que hás de perder
3922
a punhaladas a vida.
3923
Aguarda, infame atrevida.
3924
Garcia
Senhor.
3925
Rosa
Gente vem.
Garcia
Detém-te.
Rosa
Fadrique, como prudente
3926
ao jardim vos retirai.
3927
Fadrique
Adeus, adeus.
3928
Rosa
Presto, entrai,
que é conhecida esta gente.
3929
(Entram-se Rosa e Fadrique.)
Garcia
Com que amoroso desvelo
3930
os cabelos celebrou.
3931
Diogo
Imagino que levou,
3932
desta vez, couro e cabelo.
3933
Infante
Por minha honra atropelo
3934
se a não mato, pois que a vi.
3935
Ide-vos ambos daqui
3936
e nada digais.
3937
Garcia
Adeus.
Diogo
Guardem-te, senhor, os céus.
3938
Garcia
Bem nos sucedeu assi.
3939
(Vão-se os dous.)
Infante
Quem havia de cuidar
3940
que isto pudesse caber
3941
em peito de uma molher
3942
despois de casada estar?
3943
Porém, não há que espantar
3944
achar em molher tal paga.
3945
Mas com esta própria adaga
3946
quero, tirando-lhe a vida,
3947
cobrar a honra perdida
3948
que assi paga quem mal paga.
3949
(Entra-se por ũa porta e logo pela outra sai Dona Maria, em fraldelim, como que vem da cama alvorotada com medo.)
Dona Maria
Gente! Criados! Ouvi-me!
3950
Há quem aqui me socorra?
3951
Infante
Morra esta traidora, morra.
3952
(Isto vai dizendo de dentro o Infante batendo na porta.)
Dona Maria
Valei-me céu, acudi-me!
3953
Ai Deus, que o temor me oprime!
3954
Infante
Abre esta porta, traidora,
3955
se a nam queres ver agora
3956
em mil pedaços desfeita.
3957
Dona Maria
Quer-me matar desta feita!
3958
Oh, quem nacida nam fora!
3959
(Dá o Infante na porta, e entra com o punhal na mão.)
Dona Maria
Que é isto, Infante e senhor?
3960
Vós com adaga empunhada
3961
contra mim desembainhada
3962
cheo de ira e rigor?
3963
Como vindes? Que furor
3964
vos obriga a entrar assi?
3965
Há inimigos aqui?
3966
Mas já na reposta vejo
3967
que vos tem dito sem pejo
3968
algũa cousa de mi.
3969
Esposo, Infante, meu bem,
3970
vós contra mim indinado?
3971
Estais de mim agravado
3972
ou agravou-vos alguém?
3973
Em que ofendido vos tem
3974
este amor tam singular?
3975
Quereis acaso matar
3976
quem n’alma vos reconcentra?
3977
Que há homem que a matar entra
3978
e despois tudo é chorar.
3979
Infante
Molher pouco afortunada
3980
em triste ponto nacida
3981
mais que amada fementida
3982
com ser em extremo amada
3983
pois que foste tam malvada
3984
que ofendes a quem te adora
3985
vingar-me em teu sangue agora
3986
é tomar vingança justa.
3987
Mas ai, quanto que me custa
3988
matar-te sendo traidora.
3989
Dona Maria
Aguarda. Deixa-me, tem-te!
3990
Infante
Nam te canses, desta sorte
3991
te deixo com dar-te morte.
3992
Dona Maria
Contra meu sangue inocente
3993
ah, traidor, que injustamente
3994
me matas com tal desonra.
3995
Infante
Morre, que o matar-te me honra.
3996
Dona Maria
Ai Jesus que morta sou!
3997
Ai de mim!
3998
(Vai-se retirando até que cai morta.)
Infante
Vingado estou,
que assim ressucita a honra.
3999
Entra o Infante por ũa porta e sai logo pela outra trás Fadrique, que vem retirando-se do Infante só com adaga e o Infante o comete com espada.
4000
Fadrique
Tem-te, Infante.
4001
Infante
Meu valor
não sabe deter-se a nada.
4002
Fadrique
Deixa-me cobrar a espada,
4003
cobarde.
4004
Infante
Dá-te, traidor.
Fadrique
Nunca me vence o temor.
4005
Infante
Viva o céu de atravessar-te
4006
por ver-te aqui nesta parte
4007
falar com Dona Maria.
4008
Fadrique
Não há tal. Foi fantesia.
4009
Infante
Nam trates de desculpar-te.
4010
(Sai a Rainha, Infanta, Diogo Afonso, Garcia Afonso, Rosa.)
Rainha
Que é isto? Armas donde estou?
4011
Fadrique
Matar-me o infante queria
4012
porque com Dona Maria
4013
diz que falando me achou
4014
e por Deos que se enganou
4015
em presumir tal de mim
4016
porque é tam falso isto assim
4017
que ao tempo que o infante entrava
4018
porque com a infanta estava
4019
me retirei do jardim.
4020
Infanta
Nam há tal. É falsidade!
4021
Fadrique
Pois senhora!
4022
Infanta
Vós comigo?
Fadrique
Podeis negar o que digo?
4023
Infanta
Digo que nam é verdade!
4024
Rosa
Senhores, esta maldade
4025
é justo que aqui publique
4026
por que culpado não fique
4027
ninguém no que eu cometi
4028
pois ser a infanta fingi
4029
por burlar-me de Fadrique.
4030
Infante
Falai vós outros.
4031
Diogo
Cuidei
no vestido que trazia
4032
que era al fim Dona Maria.
4033
Garcia
Também nisso me enganei.
4034
Rosa
Esse vistido tomei
4035
com que melhor me enfeitasse.
4036
(Que isto a Rainha traçasse
4037
e que me obrigue a calar?)
4038
Infante
(Estes, só por não reinar,
4039
fizeram com que a matasse.)
4040
(Sai Medronho.)
Medronho
Saiba vossa majestade
4041
que é morta minha senhora.
4042
Infante
A morte lhe dei agora
4043
cuidando que falsidade
4044
me fazia.
4045
Rainha
Há tal maldade?
A vê-la é razão que acuda.
4046
Medronho
Pois, senhor, por ti direi
4047
contra si faz quem mal cuida.
4048
(Estará no teatro, a uma parte, Dona Maria que aparece morta toda ensanguentada.)
Rainha
Mal lograda fermosura.
4049
Culpa foi nacer tão bela
4050
debaixo de alguma estrela
4051
que influi tal desventura.
4052
Levem logo à sepultura
4053
esse cadáver a quem
4054
honroso túmulo dem.
4055
E vós, infante, ide preso
4056
que de castigar me prezo
4057
delitos como convém.
4058
Infante
Todos al fim me enganaram.
4059
Em falsos não há fiar
4060
pois por não vir a reinar
4061
estes enredos traçaram.
4062
Medronho
De ti, senhor, se burlaram
4063
com que tudo se te muda.
4064
E aqui o senado me acuda
4065
com um vítor, por que assim
4066
tenha a comédia aqui fim
4067
contra si faz quem mal cuida.
4068
Fim.