Leonardo Saraiva Coutinho

Contra si faz quem mal cuida

Saraiva Coutinho, Leonardo. Contra si faz quem mal cuida . Editado por José Camões y José Pedro Sousa para o Centro de Estudos de Teatro, Teatro de Autores Portugueses do Séc. XVII – uma biblioteca digital. http://www.cet-e-seiscentos.com/

Joan Oleza Simó (Investigador principal) Camões, José; Sousa, José Pedro (Editor de la edición crítica) Tronch Pérez, Jesús (Editor digital)

Português · Verso · 4066 versos

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Comédia famosa Contra si faz quem mal cuida de Dom Leonardo Saraiva Coutinho, teólogo. Representou-se na Universidade de Coimbra.

Figuras que falam:

Infante D. João
Dona Maria Teles
Rosa criada
Medronho gracioso
Dous embuçados
Dona Leonor rainha
Infanta Dona Beatriz
Dom Fadrique
Diogo Afonso de Figueiredo
Garcia Afonso comendador de Elvas
Músicos

[Loa]

Loa que se lançou nesta comédia.

(Um Castelhano e um Português.)
(Sai o Castelhano.)
Castelhano
No salgo a pedir silencio 1
pera empezar la comedia, 2
mas antes vengo a reírme 3
de los que la representan, 4
porque me han dicho que aquí 5
recitan por cosa nueva 6
una comedia famosa 7
en la lengua portuguesa. 8
¿Quién vio mayor disparate? 9
Pues, de imperfecciones llen,a 10
silbada en vez de aplaudida 11
no puede ser que no sea. 12
Que esto de comedias sólo 13
(por ser la lengua más bella) 14
se debe a la castellana, 15
como a reina de las lenguas. 16
¡Cosa de risa parece 17
que haya en portugués comedia! 18
Daquí me pongo a escucharla 19
pera burlarme de verla. 20
(Sai o Português.)
Por esta vez lhe suplico, 21
senhor Castelhano, queira 22
franquear-nos livre o teatro 23
por que comece a comédia 24
Contra si faz quem mal cuida, 25
comédia, al fim, portuguesa, 26
porque a língua castelhana 27
já em Portugal não reina, 28
quando a nossa, por suave, 29
por elegante e suprema, 30
a todas leva aventage 31
e sobre todas campea. 32
Castelhano
Sí, mas no me habéis negar 33
que pera esto, es cosa cierta, 34
nacieron los castellanos, 35
que a todos la palma llevan. 36
Português
Será porque em Portugal 37
pera entrarem nas comédias 38
não se acha tanto vadio 39
como quantos tem Castela, 40
e não por falta de engenho, 41
nem da língua portuguesa, 42
pois não tem a castelhana 43
nenhum partido com ela. 44
Vejam-se livros antigos, 45
abram-se histórias modernas, 46
donde autores portugueses 47
(nessas antigas comédias) 48
logo que talvez queriam 49
que se introduzisse nelas 50
diabo, mouro, gentio, 51
bobo, fantasma, quimera 52
e outros redículos mais 53
desta semelhança mesma, 54
quasi sempre em castelhano 55
falavam desta maneira, 56
sendo o mais resto da obra 57
todo em língua portuguesa, 58
como se o mouro, diabo 59
bobo, fantasma, quimera, 60
só falassem castelhano, 61
por virem lá de Castela. 62
Castelhano
Por más, señor Portugués, 63
que acreditéis vuestra lengua, 64
pera esto que llaman cómico 65
la castellana es la reina. 66
¿Ha más bizarría que 67
ver salir echando piernas 68
un castellano, el cual entra 69
aderazando los guantes, 70
componiendo la melena, 71
consertandose el sombrero, 72
la capa de un lado suelta, 73
y luego puesto en tablado 74
en nuestra lengua materna 75
está dando con su gracia 76
alma a cuanto representan? 77
Português
Falar doçuras, amores, 78
dizer requebros, ternezas, 79
recitar branduras, chistes, 80
descrever guerras, tormentas, 81
se tudo isto quereis ver 82
com propriedade e eloquência, 83
satisfeito ficareis 84
ouvindo agora a comédia, 85
ũa verdadeira história 86
das antigas portuguesas. 87
E quando não vos contente, 88
quiçá que somente seja 89
não por defeito da língua 90
mas por falta do poeta, 91
que disso pede perdão, 92
por ser esta a vez primeira 93
que solecita obrigar-vos 94
pera que aplausos mereça. 95
(Vão-se.)

Primeira Jornada

Fogo, fogo, que se abrasa esta casa, 96
venha água, fogo! 97
(Sai o Infante e Medronho:)
Medronho
Senhor, fujamos daqui, 98
que abrasa o fogo esta casa. 99
Infante
Outro mais cruel me abrasa 100
de uns belos olhos que vi, 101
a cuja vista rendi 102
a liberdade em rigor, 103
pois não há fogo maior, 104
mais intenso e de mor calma, 105
que aquele que abrasa ũa alma 106
no purgatório de amor. 107
Medronho
Deixa-te dessas quimeras, 108
saiamo-nos daqui logo 109
antes que nos colha o fogo 110
e jogue connosco às peras. 111
Que tens? Que aguardas? Que esperas, 112
tão suspenso e descuidado? 113
Não pretendas, por ousado, 114
seres Tifeu arrogante, 115
porque amor nam é gigante 116
para morrer abrasado. 117
Infante
Oxalá que me abrasara 118
todo esse fogo que vês 119
para que assi de ũa vez 120
a vida se me acabara. 121
Que amor, que em nada repara, 122
como a quem tudo obedece, 123
ver-se abrasado apetece 124
entre esse fogo fatal, 125
só porque dele imortal, 126
como Fénix, renacesse. 127
(Dentro:)
Fogo, fogo! 128
(Sai Rosa, criada.)
Rosa
Grão perigo, infante, corre 129
no fogo minha senhora, 130
se vosso valor agora 131
neste aperto a não socorre. 132
Entrai, subi nessa torre 133
antes que nesse edifício 134
entre por algum resquício 135
o fogo que anda ateado, 136
e depois de haver entrado 137
usurpe de Cloto o ofício. 138
Infante
Oh, que ditosa ocasião 139
se me ofrece nesta empresa, 140
para obrigar a beleza 141
que idolatra o coração. 142
Que ũa valente facção 143
merecedora de fama 144
talvez faz com que ũa dama 145
abrande de seu rigor, 146
porque obriga a muito amor 147
quem se arrisca pelo que ama. 148
(Entra-se.)
Rosa
Tu, Medronho, a teu senhor 149
não vás ajudar? Também 150
entra, seguindo me vem. 151
Medronho
Para quê? Não é melhor 152
noutro perigo maior 153
ver-me por ti arriscado? 154
Rosa
Oh como estás descansado! 155
Entra que inda o fogo dura. 156
Medronho
Sou eu judeu porventura 157
para que morra queimado? 158
De ser Medronho a medonho 159
o pouco que vai nam vês? 160
Pardeos que o medo me fez 161
mui branco, com ser Medronho. 162
Que não sou Moisés (suponho) 163
para, ousado, acometer 164
o fogo que vejo arder, 165
e porque em monte criei-me 166
temo que tanto me queime, 167
que Pirenes venha a ser. 168
Não sabes que a mão um dia 169
a certo astrólogo dei 170
e depois que lha mostrei 171
me disse que morreria 172
se em perigos me metia 173
de fogo? 174
Rosa
Pois quanto é d’água
nunca terei de ti mágoa, 175
que tal azar tens com ela, 176
que antes que beberes dela 177
te arrojarás numa frágua. 178
Bem contigo se pareça 179
o que caindo ũa vez 180
beber certa dama o fez 181
um púcaro de água a pressas; 182
pondo-lhe a mão na cabeça 183
«não foi nada» lhe dizia, 184
mas ele, que isto lhe ouvia, 185
respondeu muito afligido: 186
«e é pouco ter bebido 187
um púcaro d’água fria»? 188
Medronho
Pois já que por não me veres 189
assi com tal acrimónia 190
como os três de Babilónia 191
meter-me no fogo queres 192
vem comigo e não esperes 193
que faça de mim tam tarde 194
por teu amor mor alarde. 195
Porém, deixa-me primeiro 196
confessar-me. 197
Rosa
Malhadeiro,
entra, não sejas cobarde. 198
(Entram-se por ũa parte e sai pela outra o Infante com Dona Maria nos braços, e logo Medronho com Rosa ao colo.)
Infante
Livre já do fogo estais, 199
fermosa dona Maria, 200
que com vossa bizarria 201
a tanto amor me obrigais, 202
que quando outra vez volvais 203
a ser ingrata comigo 204
quisera noutro perigo 205
ver-me por vós arriscado, 206
se não sou tão desgraçado 207
que obrigando desobrigo. 208
Dona Maria
Infante, vosso valor 209
muito me chega a obrigar 210
e se me é lícito amar 211
não há dúvida, senhor, 212
que neste fogo apurastes 213
de vosso amor os quilates 214
e nesta casa, talvez, 215
como em jogo de xadrez, 216
ganhais a dama e dais mates. 217
Infante
Perigos, bela senhora, 218
não teme quem tem amor, 219
que não pode ter temor 220
um eos, quando nada ignora. 221
Se por vós somente agora 222
neste fogo me abrasara 223
ser como Pláucio, tomara, 224
com Hostília, porque assim 225
vendo-me abrasar a mim, 226
com outro, um fogo matara. 227
Dona Maria
Tão discreto me obrigais 228
com tal bizarria e gala 229
que amor, que as almas iguala 230
em sujeitos desiguais, 231
cada vez me força mais 232
a que em amorosos laços 233
vos dê honestos abraços, 234
porque bem pode, em rigor, 235
ser de meus braços senhor 236
quem me livrou em seus braços. 237
(Abraçam-se.)
Infante
Pois que Atlante deste céu 238
me fazeis, bela senhora, 239
gozando já desde agora 240
este amoroso troféu, 241
talvez como Prometeu 242
do fogo me hei de ajudar 243
para com ele abrasar 244
vosso peito desta sorte, 245
que amor é fogo e tam forte 246
que a um mármol faz abrandar. 247
Dona Maria
Ai, infante, quem pudera 248
não ser tam tenra e tam branda 249
que amor, que muito se abranda, 250
tem já condição de cera, 251
e se de seu fogo a esfera 252
na terra está, que pisais, 253
não há para que subais 254
a furtar a doutro céu 255
e a pena de Prometeu, 256
mudado em Proteu, tenhais. 257
Infante
Nunca me posso mudar 258
se não for para querer-vos, 259
porque o mais fora ofender-vos 260
e ser falso em vos amar. 261
Segura podeis estar 262
de que jamais se divida 263
dessa alma que tem unida 264
amor, que é tam verdadeiro, 265
porque sempre o amor primeiro 266
é o que dura na vida. 267
Poder-se-á mudar um monte, 268
produzir aves o mar, 269
nacerem peixes do ar, 270
voltar para trás a fonte, 271
rasgar-se todo o horizonte, 272
ser cada estrela ũa flor, 273
perder o sol o esplendor, 274
ser noite o que é dia agora, 275
antes que vejais, senhora, 276
mudar-se tam firme amor. 277
(Falam à parte.)
Medronho
Já que do fogo em que estavas 278
ardendo, qual alma em pena 279
como doutra Tróia a Helena, 280
te livrei das chamas bravas, 281
quando menos o cuidavas, 282
bem mereço que cortês 283
essa mão, Rosa, me dês, 284
pois só por livrar-te a ti 285
como Cévola meti 286
no fogo esta mão que vês. 287
Rosa
Dar-te-ei ũa mão-de-gato 288
sem ser d’ouro. 289
Medronho
Por meu gosto,
que essa ponhas no teu rosto, 290
pois sem ser contigo ingrato 291
inda o farei mais barato 292
se tomares um conselho 293
de quem já é perro velho 294
porque me podes, suponho, 295
pôr na boca por medronho 296
e no rosto por vermelho. 297
Rosa
Necessito eu porventura 298
de cor mais bela e graciosa 299
que a que tenho em ser rosa? 300
Medronho
Bem no creo, mas procura 301
com tal graça e fermosura, 302
que das três és a primeira, 303
antes ser rosa-albardeira 304
que rosa-de-Alexandria 305
por que não me dê algum dia, 306
já sabes, calo a viseira. 307
Rosa
Oh, que gracioso estás! 308
Medronho
É meu ofício ser gracioso 309
se bem mui pouco rendoso, 310
porque a ninguém rico faz. 311
Rosa
Que pouco que medrarás 312
com dizer graças tam frias. 313
Medronho
Pois se inda nisso porfias 314
ũa te quero contar 315
que te deve de agradar 316
por não ser de muitos dias. 317
Num palratório de frades 318
quis dizer graças um certo, 319
mas teve tam mau acerto 320
que disse mil necedades 321
cuidando que divindades 322
falou entre alguns sandeus, 323
a tomar parabéns seus 324
na porta donde lhos davam 325
se foi pôr e aos que passavam 326
dizia: «ajudou-me Deos». 327
Rosa
E que parabéns, Medronho, 328
levarás de quem te trata? 329
Medronho
Tenho graça gratis data 330
e de nada me envergonho. 331
Rosa
Por que nam? 332
Medronho
Porque suponho
dizer graças infinitas 333
das que tem Floresta escritas 334
ou quando outrem queira e faça 335
que diga graças sem graça 336
direi que nam estão fritas. 337
Infante
Já desde agora atropelo 338
impossíveis nesta empresa, 339
tendo por prémio a beleza 340
por quem tanto me desvelo. 341
Dona Maria
Infante, com tal desvelo 342
tanto podeis perfiar 343
que inda chegueis a alcançar 344
favores de mor empenho, 345
pois com dar-vos os que tenho 346
nam tenho mais que vos dar. 347
Infante
Tal favor, sem merecê-lo, 348
de vós chego a receber 349
que inda mais do que a morrer 350
passará o agradecê-lo. 351
Dona Maria
Nesse amoroso desvelo 352
com que, Infante, me obrigais 353
quero que agora infirais 354
daqui esta consequência: 355
que em doce correspondência 356
crece amor cada vez mais. 357
(À parte tudo.)
Infante
Que perigrina beleza! 358
Dona Maria
Que entendimento divino! 359
Infante
Que rosto tam perigrino! 360
Dona Maria
Que presença! Que grandeza! 361
Infante
Que doçura! Que terneza! 362
Dona Maria
Que discreto! Que sutil! 363
Infante
Que bizarra! Que gentil! 364
Dona Maria
Que Cupido! Que Narciso! 365
Infante
Que flor! Que Vénus! Que aviso! 366
Dona Maria
Que ramalhete! 367
Infante
Que Abril!
Medronho
Licença para falar 368
me dem, senhores, agora. 369
Infante
Sai-te, Medronho, lá fora. 370
Medronho
Mais barato me é calar, 371
mas quisera-te avisar 372
que tenho de aconselhar-te 373
para que as galas de Marte 374
pelas de Himineu trocasses 375
e com Rosa me casasses 376
que em tudo quero imitar-te. 377
Rosa
Nam há nécio que nam tenha 378
presunção para falar 379
contigo hei eu de casar? 380
Melhor estrea me venha. 381
Medronho
Esse melindre me empenha 382
a que teu desdém conquiste 383
que pois teu favor me assiste 384
quero tomar-te por dama 385
ou pelo menos por ama 386
que inda há pouco que pariste. 387
Dona Maria
Tam boa cousa, Medronho, 388
achas que é um casamento? 389
Medronho
São mil dias de tormento 390
e assi, senhora, o suponho 391
mas inda que é tam medonho 392
bem será que os atropeles 393
por dous gostos que trás eles 394
se seguem (que mais embebem) 395
um quando os dous se recebem 396
e outro quando morre um deles 397
Rosa
Esse da morte me agrada 398
se contigo me casar. 399
Medronho
Pois à fé que hás de cantar 400
«La bella mal maridada». 401
Rosa
Antes morta que casada. 402
Medronho
Assi dezia ũa dama, 403
de grande opinião e fama, 404
que casar-se não queria 405
e com um negro dormia 406
todas as noites na cama. 407
Rosa
Sempre estás de bom humor 408
e assi não te ponho culpa. 409
Medronho
Tenho em mi mesmo a desculpa 410
em ter tão alegre cor. 411
Rosa
Nem por isso ela é melhor 412
do que a da melancolia 413
porque essa muita alegria 414
(que é pera quem a condena 415
dessimulação da pena) 416
perto está de ser mania. 417
Dona Maria
Al fim, que me amais, senhor? 418
Infante
Vosso, senhora, hei de ser. 419
Dona Maria
Sereis firme? 420
Infante
Até morrer.
Dona Maria
Quem mo abona? 421
Infante
Meu amor.
Dona Maria
Quem mo afirma? 422
Infante
O ter favor.
Dona Maria
Perfiareis? 423
Infante
Com empenho.
Dona Maria
Tereis fé? 424
Infante
Nisso me empenho.
Dona Maria
Serei vossa?! 425
Infante
E mui querida.
Dona Maria
Amareis-me? 426
Infante
Em toda a vida.
Dona Maria
Quem me obriga? 427
Infante
O amor que tenho.
Dona Maria
Pois a Deos, Infante, esposo. 428
Infante
A Deos, prenda, a Deos, amores. 429
Dona Maria
Que fortuna! Que favores! 430
Infante
Que dia! Que venturoso! 431
Dona Maria
Que discreto! Que amoroso! 432
Infante
Que gala! Que fermosura! 433
Dona Maria
Ai que glória e que doçura! 434
Infante
Ai que esperança tam larga! 435
Dona Maria
Ai que pena tam amarga! 436
Infante
Ai que amorosa ventura! 437
(Vão-se.)
Medronho
Rosa, cuja bela cor 438
é de múrice desdém 439
preso teus olhos me tem 440
no limoeiro de amor, 441
modera de teu rigor 442
porque se preso hei de estar 443
bem posso agora cantar 444
entre grilhões tam esquivos 445
«que tus alfileres vivos 446
me prendieron sin pensar» 447
Deixa de tratar tam mal 448
a quem por ti se desvela, 449
não me faças ramoela 450
como pela c’o cendal. 451
E pois me vês que leal 452
te adoro de coração 453
dói-te desta prisão 454
em que (com tam dura pena) 455
«está metido en la trena 456
tu querido Escarramão». 457
Abracemo-nos a ratos, 458
que, se nos vem, em rigor 459
dirão que está nosso amor 460
como entre perros e gatos. 461
Rosa
Nam me estejas dando tratos, 462
se porfias em me amar 463
é fazer ao demo mangas, 464
que andando a caçar de gangas 465
grillos vendrás a cazar. 466
(Vai-se.)
Medronho
Oh nunca amor me metera 467
em grosar o Escarramão 468
só porque nesta ocasião 469
por poeta nam perdera 470
a dita que merecera 471
por músico de mão chea 472
se com diferente vea 473
cantasse ao som dum pipote 474
«Aquí lloró don Quixote 475
ausencias de Dulcinea». 476
(Vai-se.)
(Sai a Rainha.)
Rainha
Já que por sorte, ou fosse indústria minha, 477
Portugal me obedece 478
por senhora e legítima rainha 479
sem que nada pudesse, 480
a pesar de contrárias resistências. 481
dos astros impedir as influências 482
para que el rei comigo não casasse, 483
com inveja, não mais, que eu reinasse, 484
que quando amor é tam forte 485
que usurpa as armas inda à mesma morte. 486
Agora, pois, que el rei de mi confia 487
o ceptro de toda esta Monarquia, 488
que por achaques que não fazem termo, 489
jaz na cama doente e mui enfermo, 490
para que Portugal no régio ofício 491
possa lograr propício 492
sempre da minha parte, 493
aqui me hei de valer de engenho e arte. 494
Os grandes me murmuram, 495
o reino me moteja, 496
todos juntos procuram 497
que rainha não seja, 498
mas, a pesar da inveja 499
e da sorte importuna, 500
o ceptro hei de reger contra a fortuna. 501
(Sai Diogo Afonso e Garcia Afonso.)
Diogo
Que dizeis, que sentis dos que no paço 502
murmuram da rainha tam d’espaço? 503
Garcia
Digo que hei de seguir, sem ser covarde, 504
as partes da rainha, que Deos guarde, 505
porque tem, governando o régio ofício, 506
para ganhar vontades artifício. 507
Rainha
Os dous falam de mi; ouvi-los quero, 508
que apurar nas palavras só espero, 509
como próprios espelhos que são d’alma, 510
os segredos que ocultam dentro nela, 511
que é mui certo um descuido em mor cautela. 512
Diogo
El rei que desconfia 513
da saúde que vê lhe vai faltando, 514
a seu poder e mando 515
desta comete o ceptro, monarquia, 516
e os que o reino não querem que lhe entreguem 517
é porque outra facção contrária seguem. 518
Rainha
Estes de mi bem falam, 519
que os corações leais nunca se calam. 520
Garcia
Não há cousa que mais contrária seja 521
nem monstro mais cruel do que a inveja, 522
por isso os que talvez não consintiram 523
que Latona bebesse e lhe impediram 524
que na corrente fria 525
não mitigasse a sede que trazia, 526
dos deuses castigados 527
em rãs todos ficaram transformados. 528
Diogo
Oh quantas rãs houvera 529
se Deos nelas a todos convertera 530
quantos vemos que impedem com grão mágoa 531
que outros tenham também ũa vez d’água. 532
Mas aqui donde estamos 533
está sua majestade a quem buscamos. 534
Garcia
A falar-lhe cheguemos 535
para que estes despachos lhe entreguemos. 536
A vossa majestade 537
a quem venero como a deidade... 538
Diogo
A vós, ilustre sol, que não pudera 539
dá-lo maior a lusitana esfera... 540
Garcia
Em quem tem firme assento 541
de excelências divinas um portento... 542
Diogo
Em quem a natureza 543
cifrou todos os dotes da beleza... 544
Garcia
Quando todo o universo ser pudera 545
para tão grande sol pequena esfera. 546
Diogo
Quando para louvor tam sem segundo 547
é pouca toda a voz de todo o mundo. 548
Garcia
Mas se agora louvar-vos solicito 549
é querer limitar um infinito. 550
Diogo
Fora querer com breve concha, ufano, 551
esgotar os cristais desse oceano. 552
Rainha
Bem está por agora. 553
Cujos são os papéis? 554
Garcia
Estes, senhora, 555
me deu el rei, que o céu invicto guarde, 556
por que para mais tarde 557
nam fiquem os despachos preferidos 558
dos cargos que estão vagos, e providos 559
devem ser todos eles. 560
Rainha
O primeiro 561
lede, Comendador, sendo terceiro, 562
de quem vos parecer que é suficiente 563
para ocupar os cargos que despacho. 564
Garcia
Neste principal acho 565
que está vago presente 566
o cargo de Almirante, 567
sendo tam principal como importante. 568
Rainha
Quem vos parece que esse cargo agora 569
pode ocupar melhor? 570
Garcia
A mi, senhora, 571
o conde dom João Afonso Telo 572
é somente quem pode merecê-lo. 573
E se conselho deve dar quem prima 574
por que seguro viva 575
bem será, quando nisto se recate, 576
que vossa majestade sempre trate 577
de ter por esta via 578
a nobreza de toda a monarquia, 579
pois sendo desta sorte 580
Alcaide-Mor o conde, invicto e forte, 581
da principal cidade que é Lisboa, 582
com esta segurança 583
em perpétua bonança 584
regerá sempre o ceptro e a coroa. 585
Rainha
Pois ao conde esse cargo se lhe aplique. 586
Diogo
Para que lho publique, 587
quando ao conde servir me delibero, 588
daqui partir-me quero 589
com licença de vossa majestade. 590
(Vai-se.)
Rainha
Deos vos guarde. 591
Garcia
Também de qualidade 592
outro cargo está vago por agora. 593
Rainha
Inda que murmurada seja nisto. 594
Garcia
Este cargo é, senhora, 595
no Mestrado de Cristo. 596
Rainha
Por ser no meu estado 597
quero que a meu sobrinho seja dado. 598
Garcia
Outros estão aqui de menos porte. 599
Rainha
Esses vos despachei, porque na corte 600
de um privado são próprios interesses. 601
Garcia
A terra que pisais beijo mil vezes. 602
Rainha
Vamo-nos pois daqui, que el rei me aguarda. 603
Garcia
Oh, quanto esta privança me acobarda. 604
(Vão-se.)
(Sai a Infanta e Fadrique.)
Fadrique
Discreta e gentil infanta 605
em quem contemplo e admiro 606
divinamente um portento, 607
humanamente um prodígio, 608
glória de nossa região, 609
deusa deste paraíso, 610
pelo humano singular, 611
admirável pelo lindo, 612
donde as excelências tem 613
lustrosamente escolhido, 614
para lustre de si mesmas 615
grave assento, firme sítio. 616
Escutai, fermosa infanta, 617
as queixas que vos publico, 618
que enquanto conta seu mal 619
descansa um triste afligido. 620
Infanta
Fadrique, nam deve ser 621
vosso mal muito excessivo 622
que quem se atreve a contá-lo 623
pouco deve de senti-lo. 624
Fadrique
Cada um fala como sente 625
e eu, porque muito sinto, 626
me atrevo a contar meu mal 627
para que em vós ache alívio. 628
Infanta
Aliviar vosso mal 629
nunca podereis comigo, 630
que nam sou a causa dele 631
para poder diverti-lo. 632
Fadrique
Antes porque é vossa alteza 633
a causa aqui lho refiro, 634
para que assim lhe dê fim, 635
pois que lhe sabe o princípio. 636
Infanta
Princípio querem as cousas, 637
Fadrique. 638
Fadrique
Verdade é isso,
mas contra as que vos proponho, 639
que contra vós verifico, 640
nam podeis argumentar 641
sendo primeiros princípios 642
porque são cousas tam claras 643
estas que, Infanta, vos digo 644
que nam tem flor esse campo, 645
planta esse vale sombrio, 646
aves esse fresco prado, 647
peixes esse verde rio, 648
feras essa bruta selva, 649
brutos esse monte altivo, 650
que ignorem, discreta infanta, 651
quanto vos adoro e estimo, 652
que o fogo de amor nam pode 653
estar coberto e escondido. 654
Esta é a ocasião primeira 655
que, arrojado, vo-lo digo 656
porque, talvez, a fortuna 657
favorece os atrevidos. 658
Se mudas adorações, 659
se secretos sacrifícios, 660
se rendidos pensamentos 661
logram nome de serviços, 662
por prémio deles me basta 663
saber que os haveis sabido, 664
que perdidos ser não podem 665
bem empregados serviços 666
quando, senhora, não tenham 667
por meus, como desvalidos, 668
de desenganados se, 669
de presumidos, castigo. 670
Vós, com afecto piedoso, 671
aceitai o sacrifício, 672
que na aceitação consiste 673
conhecimento preciso. 674
Infanta
Serviços bem empregados 675
nunca podem ser perdidos 676
quando somente o servir 677
é paga de mor serviço. 678
Eu não confesso nem nego 679
que vos queixais sem alívio 680
que bem se pode queixar 681
quem se perde por perdido, 682
mas bem conheço e alcanço 683
nesta queixa e desvario 684
que amor que muito se queixa 685
não tem nada de sofrido, 686
inda que bem se permite 687
desculpa em tal desatino, 688
que desenganada queixa 689
desesperação há sido, 690
e só podeis por remédio 691
entre engano tam esquivo 692
ou sofrer desesperado 693
ou desesperar sofrido. 694
Que nam tem em mi lugar 695
vosso amor vos certifico, 696
porque a nenhũa fortuna 697
se sujeita o alvedrio. 698
Fadrique
Em desengano tam certo 699
inda, infanta, vos suplico 700
que entre mortas esperanças 701
me deis um engano vivo, 702
porque se nam há quem viva 703
sem um engano, imagino 704
que este me falte, talvez, 705
pois de desenganos vivo, 706
mas em ver que por vós peno 707
meu sentimento alivio 708
que o não poder já cair 709
é alívio de caídos, 710
por vós, infanta, me vejo 711
metido em tal labirinto 712
que a vida que vós me dais 713
vejo pendente de um fio 714
e temo que a Parca o corte 715
para exemplo de atrevidos, 716
que arrogantes pensamentos 717
sempre correrão perigos, 718
mas quando em tão alta empresa 719
tenha de Ícaro o castigo 720
ninguém me pode tirar 721
a glória que tenho visto. 722
Que culpa tenho em querer-vos 723
se vós, senhora, haveis sido 724
causa de tantos efeitos 725
e de tanto amor princípio? 726
Infanta
Eu? De que sorte? 727
Fadrique
Escutai,
que em breve vo-lo refiro. 728
Infanta
Dizei, pois. 729
Fadrique
Assi recito.
Na corte de Castela 730
donde, infanta, assisti sete anos nela, 731
tendo tréguas a Marte concedido 732
os arraiais seguia de Cupido, 733
sendo por vários modos 734
premática entre todos 735
que os que na corte assistem 736
na bandeira de amor logo se alistem, 737
nesta, pois, alistado, 738
sendo de amor soldado 739
comecei a empreender tam alta empresa 740
que os pensamentos pus numa princesa 741
que assistia na corte de Castela, 742
mais suave e mais bela 743
que a rosa que bebeu da fresca aurora 744
as primícias das lágrimas que chora, 745
em fim, era um tesouro, 746
pérolas dentes e palavras ouro, 747
mas pudera este assombro de beleza 748
ser um retrato só de vossa alteza, 749
pois quando a mais louvá-la me atrevera 750
dar-lhe melhor louvor nunca pudera. 751
Esta Raquel divina, 752
beleza perigrina, 753
ai, se nam fora ingrata, 754
beleza que dá vida quando mata, 755
sete anos, que julguei por breve instante, 756
como Jacob servi, servindo amante, 757
mas isto nam me admira 758
porque imagino que inda mais servira 759
se nam fora, ou por breve ou por comprida, 760
para tam largo amor tam curta vida. 761
Foi nosso amor crecendo com o trato, 762
vivendo sempre oculto e com recato, 763
guardado no tesouro de discreto 764
que dura muito amor quando é secreto 765
não se ofendia dele Florisbela, 766
que este era o nome da princesa bela, 767
porque nam há amor tam desvalido 768
que por tíbi,o ou por frouxo, ou por remisso, 769
nam seja pelo menos admitido. 770
Neste, pois, amoroso paraíso, 771
passando amantes calmas, 772
pelos olhos bebíamos as almas, 773
gerando amor, que todo é pensamentos, 774
vários atrevimentos, 775
que são as salamandras que se alentam 776
neste fogo, que os olhos representam. 777
Continuou por tempo este segredo 778
sem ser nunca entendido nosso enredo; 779
nesta correspondência, 780
pouco a pouco apurando-se a paciência, 781
sem outros messageiros 782
mais que os amantes olhos lisonjeiros, 783
eram estes em mi sem esperança 784
por nam ter confiança 785
nesta amorosa empresa 786
de gozar a beleza 787
que via em Florisbela, 788
que era merecer muito o merecê-la. 789
Porém, como o poder de amor se mostra 790
quando tudo a seus pés humilha e prostra, 791
em ter em menos conta a mor grandeza, 792
fez tanto co a princesa 793
que humanos interesses esquecendo, 794
perigos nam temendo, 795
que amor nunca temeu pôr-se a perigo, 796
desprezando a fortuna, 797
fugir comigo trata, 798
por fugir a ocasião de ser ingrata, 799
escolhida a que foi mais oportuna, 800
levando ela consigo 801
as jóias de mor preço, 802
o mais rico vestindo-se adereço, 803
nos saímos da corte, 804
ofrecidos nas mãos de nossa sorte 805
sobre um filho de Zéfiro gerado, 806
de pescoço um pouco alto e levantado, 807
cujas trenças beijavam 808
a terra que as briosas mãos pisavam, 809
de narizes fendidos 810
que vertem fogo quando mais partidos, 811
bem seguro de cascos 812
que velozes romper sabem penhascos, 813
canas grossas, enxutas e tiradas, 814
as ancas grandes e proporcionadas, 815
larga a cola e comprida, o pêlo brando, 816
os olhos bem rasgados, na cor baio. 817
Neste, pois, caminhando, 818
correndo mais fogoso do que raio, 819
em pouco espaço andámos 820
quanto nos foi possível e tratámos 821
de assi pormos em salvo desta sorte 822
as vidas, que o rigor de Henrique forte 823
nos peitos amorosos 824
castigos ameaçava rigorosos. 825
Caminhava o cavalo sempre ufano 826
contra a parte do reino lusitano 827
até chegar a um rio e fresco prado, 828
do caminho geral bem desviado, 829
se há desvios que possam com excesso 830
estrovar da fortuna um mau sucesso. 831
Aqui nos apeámos 832
na margem deste rio que encontrámos, 833
que alegre se desata 834
em céus de cristal, em voz de prata, 835
cujas águas sonoras 836
emudecem as aves mais canoras, 837
a salva se suspende, 838
confuso o bosque atende 839
a tanta melodia 840
quanta forma a corrente doce e fria, 841
a cuja voz suave Florisbela 842
deu tributo a Morfeu quando amor vela. 843
Mas, ai, que pouco dura 844
um gosto limitado, um sono leve, 845
que quem não tem ventura 846
jamais descanso algum em tempo teve 847
Velavam meus sentidos a beleza 848
no tempo em que os dous sóis dormidos via 849
no rosto cristalino da princesa, 850
por não abrasar com três sóis ao dia, 851
quando del rei Henrique alguns vassalos, 852
juntos numa grão tropa de cavalos 853
seguindo-nos da corte, 854
se avançaram connosco desta sorte. 855
Desmaiou este assalto a Florisbela, 856
quis a vida perder em defendê-la, 857
mas a inimiga sorte 858
para sempre morrer me nega a morte, 859
e claramente vejo 860
que há-de fugir de mi, pois a desejo. 861
Vendo-me neste estado, 862
que a princesa me tinham já ganhado, 863
vali-me do cavalo e posto nele 864
antes que algum dos outros me atropele, 865
com denodado alento, ânimo e brio, 866
passei em claro da outra parte o rio, 867
e apertando ao cavalo os acicates 868
despois de ter passado estes combates 869
em breve tempo, sem que mais aguarde 870
por nam ter que temer-me, 871
a Portugal passei a socorrer-me 872
del rei Fernando invicto, que Deos guarde 873
idades largas e felices anos, 874
para assombro fatal dos castelhanos. 875
Aqui el rei costuma sempre honrar-me 876
nos cargos de mais porte 877
que ocupam os maiores desta corte, 878
donde soube, depois que assisto nela, 879
que de puras saudades e tristeza 880
era morta a princesa Florisbela, 881
ai, mal lograda e infeliz beleza, 882
mas não me espanta dor que tam mal trata, 883
porque um grande desgosto também mata. 884
Isto posto de parte, 885
antes que doutro caso mais me aparte, 886
aqui começo agora 887
como se aqui, senhora, Tróia fora. 888
Soube que el rei pretende desposar-vos 889
c’o duque que agora é de Benavente, 890
este enigma pretendo declarar-vos 891
porque o amor que vos tenho não consente 892
que outro, Beatriz fermosa, 893
senão eu, vos receba por esposa. 894
Se por duque, senhora, 895
vos merece mais que eu, é bem que agora 896
sem me ter declarado 897
vos confesse que sou de mor estado 898
do que o de Benavente 899
sendo mais poderoso e mais potente, 900
e se o nome até 'qui tive encoberto 901
é porque sei de certo 902
que Henrique de Castela, 903
porque furtei da corte a Florisbela, 904
solicita tomar vengança disto, 905
sabendo adonde estou ou donde assisto. 906
Agora, infanta, pois quem sou confesso 907
e a verdade sabeis deste sucesso, 908
permiti-me que tenha em tais memórias 909
passadas penas e presentes glórias, 910
que outra maior não quero 911
que amar essa beleza que venero. 912
Prenda, infanta, senhora, 913
rendido a vossos pés me postro agora 914
(Ajoelha-se) para que essa beleza 915
de mim se compadeça 916
aqui de meus queixumes magoados, 917
aqui de meus sospiros namorados, 918
aqui de meu tormento, 919
aqui de lágrimas minhas cento a cento, 920
aqui de meu amor firme e constante, 921
aqui que morro por morrer amante. 922
Infanta
Fadrique, vida, amor, mas, ai, que digo? 923
que não sei donde estou, se estou comigo, 924
que tenro se há mostrado, 925
que amante, que rendido e namorado. 926
Estou para o abraçar, piedosa e humana 927
se não fora mostrar-me aqui liviana, 928
mas quanto mais me obriga com amar-me 929
não posso ter-lhe amor nem sujeitar-me 930
a lhe corresponder agradecida, 931
que de amores do Infante estou perdida. 932
Assi que agora quero aqui fingir-me 933
muito queixosa com deixá-lo e ir-me. 934
Fadrique, vosso louco atrevimento 935
se agora o não castigo é porque intento 936
vingar-me desta sorte, 937
fazendo desterrar-vos desta corte, 938
que quem traidor tem sido 939
a seu rei natural pode, atrevido, 940
ser traidor, fementido e lisonjeiro 941
a qualquer outro rei sendo estrangeiro. 942
(Vai-se.)
Fadrique
Aguarde, escute, advirta vossa alteza... 943
ai que sorte cruel, ai que dureza 944
ea, fortuna ingrata, 945
aqui me tens agora, aqui me mata 946
ea, tirano amor, ea, arrogante, 947
amar vivendo por morrer amante, 948
pois vejo desta sorte 949
que tudo é vida, amor, desamor, morte. 950
(Vai-se.)
(Sai Dona Maria com Rosa.)
Dona Maria
Publicarei minha dor? 951
Rosa
Por amor. 952
Dona Maria
Pois quem me tolhe e põe medo? 953
Rosa
O segredo. 954
Dona Maria
E quem manda que padeça? 955
Rosa
A firmeza. 956
Dona Maria
Logo, se em tal aspereza 957
a vida venho a passar, 958
tenho por certo acabar 959
de amor, segredo e firmeza. 960
Como vivirei penando? 961
Rosa
Amando. 962
Dona Maria
E para não afligir-me? 963
Rosa
Ser firme. 964
Dona Maria
Ser firme é morrer de amante? 965
Rosa
Por constante. 966
Dona Maria
Pois logo ninguém se espante 967
que descubra meu querer 968
se é que hei-de vir a morrer 969
amando, firme e constante. 970
Descobrirei afeição? 971
Rosa
Em ocasião. 972
Dona Maria
E que ocasião é melhor? 973
Rosa
A de amor. 974
Dona Maria
Amor quando ma assegura? 975
Rosa
Na ventura. 976
Dona Maria
Por isso meu mal procura 977
que a vida venha acabar 978
antes que chegue a gozar 979
ocasião, amor, ventura. 980
Quem de amor ventura alcança? 981
Rosa
A esperança. 982
Dona Maria
Quando gozada se vê? 983
Rosa
Com ter fé. 984
Dona Maria
E quem gozá-la confia? 985
Rosa
A perfia. 986
Dona Maria
Logo com justa alegria 987
darei remédio a meu mal 988
tendo amor para imortal 989
esperança, fé, perfia. 990
Serei, se venho a ser tal,... 991
Rosa
Sem igual. 992
Dona Maria
Hei-de ser conrespondida? 993
Rosa
Mui querida. 994
Dona Maria
Virei a ser desamada? 995
Rosa
Mais amada. 996
Dona Maria
Logo dou por bem pagada 997
pena que padecer 998
pois espero vir a ser 999
sem igual, querida e amada. 1000
(Sai Medronho.)
Medronho
Um lugar de Barrabás 1001
é a corte para nós: 1002
há mercê, há tu, há vós 1003
y trecientas cosas más, 1004
há cavaleiros andantes, 1005
há homens de maus semblantes, 1006
há forçantes, 1007
guarda-infantes, 1008
muita soma de ignorantes, 1009
também muito mentecapto, 1010
homens qui vivunt ex rapto, 1011
unhas de gato, 1012
maldicentes, 1013
damas com postiços dentes, 1014
há barrigas alũadas 1015
com minguantes e crecentes, 1016
donzelas mal maridadas, 1017
guitarradas 1018
por não dizer violadas, 1019
há em todas quantas acho 1020
emprastos de incenso macho, 1021
há donzelas quinquagésimas 1022
que de tudo pedem décimas, 1023
devotas de São Tomás 1024
y trecientas cosas más, 1025
há podengos 1026
cantos sengos 1027
e poetas bordalengos 1028
há num poleiro dous galos, 1029
intendimentos cavalos, 1030
há nos estrados coxins, 1031
munchachins, 1032
arreliquins, 1033
bodegões, 1034
requeijões, 1035
cuscuz quente, 1036
laranjada e aguardente, 1037
há geração dos Fialhos, 1038
barba d’alhos 1039
e cabeças de bugalhos, 1040
há bruxas e feiticeiras, 1041
muitos amantes de freiras 1042
todos nécios namorados, 1043
há telhas em os telhados, 1044
há damas tam atiladas 1045
que abrem as bolsas tapadas, 1046
e todos por modos vários 1047
tem cada dia ordinários, 1048
há tendas de lapidários, 1049
unguentos e boticários 1050
e tavernas de Hipocrás 1051
y trecientas cosas más. 1052
Rosa
Adonde, Medronho, vás 1053
com tal arenga? 1054
Medronho
É de um cego 1055
certa oração que comprei 1056
que todos os dias rezo. 1057
Dona Maria
Donde fica teu senhor, 1058
Medronho? 1059
Medronho
Senhora, creo
que estará sonhando em ti 1060
se acaso dormindo o deixo, 1061
porque agora dormem muito 1062
os amantes deste tempo, 1063
e eu por mim somente o julgo 1064
pois durmo mais do que um bêbado, 1065
mas que muito me embebede 1066
se é medronho o amor que tenho. 1067
Rosa
E que bem com tal amor 1068
granjearás um casamento 1069
pois pera seres cornudo 1070
é o sono o melhor meo, 1071
mas se dormes quanto dizes 1072
já desde agora te vejo 1073
dormir sono de cornudo. 1074
Medronho
Nada disso me receo 1075
que se bem todo o cornudo 1076
tem dous contra um espero 1077
ter sempre mui boa mesa. 1078
Rosa
Cornicabras pelo menos 1079
nunca te faltarão nela. 1080
Medronho
Oxalá, mas se pretendo 1081
casar contigo bem posso 1082
dizer o que diz um certo 1083
que vendo que lhe deziam, 1084
por caso mui verdadeiro, 1085
que a molher lhe punha os cornos 1086
respondeu, como discreto: 1087
«inda mal que não tem ela 1088
cara para isso» e isto mesmo 1089
presumo dizer de ti. 1090
Rosa
Isso, pícaro, mereço 1091
pois te não dou mil punhadas. 1092
Medronho
Tem-te, não me piques, quedo, 1093
porque és Rosa com espinhas. 1094
Dona Maria
Basta, Rosa, nécia, deix’-ò 1095
Rosa
Se não fora... 1096
Medronho
Muito sentes
chamar-te fea, mas creo 1097
que te acertei com o nome 1098
Rosa
Que isto sofre e não lhe quebro... 1099
Medronho
Não te agastes. 1100
Rosa
A cabeça.
Medronho
Serás discreta em extremo 1101
mas a ti, senhora minha, 1102
esta vez te rogo e peço 1103
que em paga deste papel 1104
que te trago com segredo, 1105
que é do Infante meu senhor, 1106
me faças, pois to mereço, 1107
amigo outra vez com Rosa, 1108
que pedir-lhe perdão quero. 1109
Dona Maria
Por mim, que sejais amigos. 1110
Rosa
Eu por sua me confesso. 1111
Medronho
E eu por seu me publico. 1112
Dona Maria
Romper esta nema quero 1113
para ler este papel 1114
que espelhos do intendimento 1115
são os escritos de amor 1116
estas cifras que contemplo 1117
como caracteres d’alma 1118
adonde estão sempre impressos 1119
assi dizem desta sorte, 1120
ânimo, amor, que vencemos. 1121
((Lê o papel.))
Se quereis que não perca a vida quem só vive de querer-vos, dai-me licença para ver-vos esta noite, porque com mais olhos de estrelas possa contemplar vossa fermosura. O Infante.
Já vejo neste papel 1123
que aqui recitado tenho 1124
equívocos os sentidos 1125
entre amoroso e discreto. 1126
Rosa
Adverte que sai sua alteza. 1127
Dona Maria
Dizes bem, com pressa quero 1128
esconder este papel. 1129
Vai-te, Medronho, primeiro 1130
que te veja, e a teu senhor 1131
dirás que esta noite o espero. 1132
Medronho
A servir-te me disponho 1133
e vou, senhora, correndo. 1134
((Vai-se))
Dona Maria
Sai-te, também, Rosa, fora. 1135
Rosa
Desta sorte te obedeço. 1136
((Vai-se))
(Sai a Infanta.)
Infanta
Zéfiros suaves 1137
desta fresca selva 1138
que correndo alegres 1139
levais tristes queixas 1140
brincadas boninas 1141
graciosas e belas 1142
que teceis grinaldas 1143
para a Primavera 1144
cristalinas fontes 1145
claras e serenas 1146
que as cheirosas flores 1147
guarneceis de perlas 1148
Lisonjeiras aves 1149
suaves e ledas 1150
que vos queixais tristes 1151
e não sentis queixas 1152
parai, suspendei, 1153
escutai suspensas 1154
por que meus queixumes 1155
canteis em endechas. 1156
Dona Maria
Se às almas mortais 1157
pede vossa alteza 1158
para seus queixumes 1159
queixosas endechas 1160
bem pode queixar-se 1161
que eu a escuito atenta 1162
que uma alma inmortal 1163
melhor sente penas. 1164
Infanta
Meu mal desacredito 1165
se aqui queixar-me dele solicito 1166
que medir com a voz o sentimento 1167
é nam saber sentir de seu tormento. 1168
Dona Maria
Acordo-me que um dia 1169
li de um sábio, senhora, que dezia 1170
que a troco de queixar-se 1171
haviam as desditas de buscar-se 1172
e assi cuido que agora 1173
também deves de ser. Amas, senhora? 1174
Infanta
Amor tenho ao infante 1175
a quem adoro e idolatro, amante. 1176
Dona Maria
Ai Deos, que ao Infante estima, 1177
nam sei como esta mágoa me reprima. 1178
Infanta
E para não cansar-te 1179
quero meu pensamento declarar-te: 1180
sabe, pois, que um recado 1181
ao Infante dom João tenho mandado 1182
pera que nesta noite a ver-me venha 1183
que me importa falar-lhe e é bem que tenha 1184
de meu amor notícia 1185
que todo é guerra em mi, todo milícia. 1186
Dona Maria
Oh que lance tão forte 1187
que ocasiono ciúmes que dão morte. 1188
Não sei se fazes bem em declarar-teI 1189
que pode amar o Infante noutra parte. 1190
Infanta
Quando outra dama adore 1191
farei com que de mi só se enamore. 1192
Dona Maria
Que não farás, te juro. 1193
Que tod'o amor primeiro é mais seguro 1194
e não pode acabar-se 1195
amor que se empenhou por empenhar-se. 1196
Infanta
Vamo-nos, pois, que é tarde 1197
e pode ser que o Infante já me aguarde. 1198
Dona Maria
Oh nunca amor nacera 1199
se nacido não fora não morrera. 1200
(Vão-se.)
(Sai o Infante.)
Infante
Indiscreta anda a Infanta se me chama 1201
pois não sabe que amor que todo é chama 1202
para nunca acabar-se 1203
na própria esfera sabe só parar-se 1204
assi que vou buscando neste ocaso 1205
esta esfera de fogo em que me abraso 1206
que pois tanto a venero 1207
subir a região do fogo espero 1208
é amor lisonjeiro 1209
temerário, Tiseu, Marte guerreiro 1210
que audaz/andas meu pensamento 1211
asas vestido se calçado vendo 1212
Faetonte atrevido 1213
Ícaro presumido 1214
águia voadora 1215
que a tanta luz que adora 1216
desta vez solicita, 1217
que um desejo impossíveis solicita, 1218
penetrar o divino de seus raios 1219
a cuja vista o sol fica em desmaios 1220
mas que muito se afronta o sol de vê-los 1221
sendo estes raios doutros sóis mais belos. 1222
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Acompanhar-vos quero, Infante amigo,II 1223
porque se acaso houver algum perigo 1224
nessa pretensão vossa 1225
acompanhar-vos nela também possa. 1226
Infante
Suplico-vos, Fadrique, em cortesia 1227
que me deixeis ir só, sem companhia. 1228
Fadrique
Bem conheceis, Infante, 1229
quanto secreto sou e quanto amante 1230
pera o posto guardar-vos 1231
determino esta vez de acompanhar-vos. 1232
Infante
Não quero porfiar. 1233
Fadrique
É cousa justa.
Infante
Ai quantas penas que ũa glória custa. 1234
(Vão-se.)
(Saem dous Embuçados.)
Embuçado I
Aqui juntos paremos 1235
a ver se passa alguém a quem furtemos 1236
ũa capa sequer. 1237
Embuçado II
Hei de roubá-la
ou quando não puder, acutilá-la. 1238
Embuçado I
Eu a capa que trago anda mais rota 1239
que a mesma consciência que a denota. 1240
Embuçado II
Não vamos nós buscar algũa capa 1241
e tragamos por capa ũa gualdrapa. 1242
Embuçado I
Nada disso temamos 1243
porque nós puramente capeamos 1244
mas esperai que hei visto 1245
três homens desta vez, por Jesu Cristo. 1246
Embuçado II
Capas são, não duvido, 1247
que nos cornos do touro tem caído. 1248
(Sai o Infante, Fadrique e Medronho com espadas e broquéis.)
Infante
Alegre noite fria 1249
que em teus braços descansa o claro dia 1250
noite serena e clara 1251
com teu manto estelífero me ampara. 1252
Embuçado I
Larguem logo essas capas, cé, fidalgos. 1253
Medronho
Por Deos, que nos colheram como galgos 1254
Embuçado II
Cá, senhores, cá. 1255
Infante
Desta sorte
lhe daremos as capas com a morte. 1256
Embuçado I
Morram todos, por Cristo. 1257
Medronho
Pardês, que noutra tal nunca me hei visto. 1258
Fadrique
Desta espada os rigores 1259
exprimentam cobardes e traidores. 1260
Infante
A eles, que sou raio. 1261
Fadrique
E eu corisco. 1262
Medronho
Mata, mata. 1263
Embuçado II
Fujamos. 1264
Medronho
Por são pisco.
que também nas comédias são mil vezes 1265
valentes os lacaios portugueses. 1266
(Vão-se acutilando todos e entram-se.)
(Sai a Infanta à janela com Dona Maria Teles e Rosa.)
Infanta
Noite venturosa 1267
alegre e serena 1268
capa de cobardes 1269
de amantes terceira. 1270
Noite em quem descansam 1271
de cansadas penas 1272
humanas fadigas 1273
amorosas queixas. 1274
Noite em quem concedem 1275
aos cuidados tréguas 1276
as vidas que lidam 1277
as almas que penam. 1278
Não me mexeriques 1279
desta acção travessa 1280
de dia ao sol 1281
de noite às estrelas. 1282
Amparem-me, noite, 1283
tuas asas negras 1284
por que nas da fama 1285
meu amor nam leão. 1286
Dona Maria
Que rigoroso é meu mal 1287
que cruel é minha estrela 1288
pois chego a ver com meus olhos 1289
o que jamais ver quisera. 1290
Infanta
Cuidado me dá o Infante 1291
pois é tão tarde e não chega. 1292
Dona Maria
Sempre correm devagar 1293
as horas a quem espera. 1294
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Morto ficara o ladrão 1295
se dos pés se não valera 1296
correr o vi mais que um gamo 1297
custou-lhe cara a pendência 1298
aqui pelo Infante espero 1299
que se foi cenando nela 1300
e com as sombras da noite 1301
não vi onde se metera. 1302
Rosa
Gente vejo àquela parte. 1303
Infanta
Quiçá que o Infante seja 1304
dize-lhe, Rosa, que chegue. 1305
Dona Maria
A morte aqui se me ordena 1306
Rosa
Ah fidalgo, cé. 1307
Fadrique
Quem chama? 1308
Rosa
É o Infante? 1309
Fadrique
Aqui é ela? 1310
Fingir-me o Infante quero. 1311
Rosa
Não fala? 1312
Fadrique
Saber quisera 1313
quem pergunta pelo Infante. 1314
(Muda a fala.)
Infanta
Quem por ele se desvela 1315
Fadrique
Viva Deos, que esta é a infanta 1316
pois o infante sou, que chega 1317
a pagar favor tam grande 1318
ah ingrata, quem dissera 1319
que assi pagasses tam falsa 1320
ũa fé tam verdadeira. 1321
Infanta
Que vos adoro, Infante, 1322
bem o deveis saber, passo adiante 1323
porque se o não soubéreis 1324
amante pouco firme parecêreis 1325
que os olhos lisonjeiros 1326
são de amor os espelhos verdadeiros 1327
e se livro os chamar não é delito 1328
sendo a margem o branco, o negro o escrito 1329
e nos meus lestes como em livro aberto 1330
que não pode o amor ser incobertos 1331
sentindo seus afectos 1332
por natural, pensam só dos discretos 1333
em fim, sabe infante 1334
queimando morro porque vivo amante. 1335
Fadrique
Dentro em meu peito atesouro 1336
esse amor, como discreto, 1337
porque só o amor secreto 1338
se pode ter por tesouro 1339
mas seu valor nam desdouro 1340
se calo dentro na idea 1341
efeitos que a alma recea 1342
declarar, não sem temor, 1343
pois nam há pena maior 1344
como amar a ũa alma alhea. 1345
Infanta
Alhea não pode ser, 1346
quando tal nome mereça, 1347
ũa alma que vos confessa 1348
querer e só por querer 1349
vós senhor bem podeis ver 1350
que em vos amar sou constante 1351
e nam duvideis, infante, 1352
que faça meu amor pausa 1353
porque duvidar sem causa 1354
é delito num amante. 1355
Fadrique
Pois que chego a merecer 1356
tal prémio antes de servir-vos 1357
nam tenho mais que pedir-vos 1358
nem vós que me conceder 1359
se não hei de endoudecer 1360
quando em tal glória imagino 1361
nam tenho por bom destino 1362
não fazer um grande excesso 1363
porque um ditoso sucesso 1364
acredita um desatino. 1365
Dona Maria
Ouves, Rosa, o que lhe diz? 1366
Rosa
Todo nela se esmoreceu. 1367
Dona Maria
Ah, ingrato. 1368
Rosa
Quem tal cresce. 1369
Dona Maria
Mal em declarar-me fiz. 1370
(Sai o Infante e Medronho.)
Infante
Seguir um dos ladrões quis 1371
mas as costas me virou. 1372
Medronho
Atilado nisso andou 1373
que se as costas nam virara 1374
eu só lhe cruzara a cara. 1375
Infante
Foi-se Fadrique? 1376
Medronho
Voou. 1377
Infante
Gente vejo aparecer. 1378
Fadrique
Este é o Infante que espero. 1379
Ir-me retirando quero 1380
sem me dar a conhecer. 1381
Infanta
Antes que cheguem a ver, 1382
Infante, quem aqui está 1383
retirar-vos bom será. 1384
Fadrique
Pois vós me mandais, senhora, 1385
retirar-me quero agora. 1386
Infanta
Adeus, Infante. 1387
((Vai-se).)
Fadrique
Aqui já 1388
que espero quero escapar-me. 1389
((Vai-se).)
Dona Maria
Deixa-me, Rosa, que agora 1390
hei de afrontá-lo. 1391
Rosa
Senhora. 1392
Dona Maria
Não tens mais que porfiar-me 1393
que não sofro desprezar-me 1394
um traidor. Esta é, Infante, 1395
aquela fé tam constante? 1396
Isto é firmeza? Isto amor? 1397
Medronho
Ela é, chega, senhor, 1398
nam sejas cobarde amante. 1399
(Põe-se o Infante aonde estava Fadrique.)
Infante
Amores, meu bem, senhora 1400
a quem amante e rendido. 1401
Dona Maria
Ah traidor, ah fementido 1402
que assi me trates agora 1403
despois de estares um hora 1404
com mil requebros e amores 1405
com a Infanta? 1406
Infante
Que favores 1407
nem qual Infanta, também? 1408
Deixai-vos desse desdém 1409
e abrandai tantos rigores. 1410
Apurar mais meu amor 1411
não pretendais dessa sorte 1412
dando-me vida na morte 1413
sustento do mesmo ardor 1414
quem viu fineza maior 1415
de amor que nam desfalece 1416
antes com rigores crece 1417
mas nisto venho a alcançar 1418
que nam se sabe mudar 1419
quem ama sem interesse. 1420
Desta que espero vitória 1421
tanto me cansa a peleja 1422
que temo que a morte veja 1423
antes que chegue tal glória 1424
nesta esperança e memória 1425
que amor por troféu aguarda 1426
o temor não me acobarda 1427
nem a perfia me altera 1428
que o prémio que não se espera 1429
nunca parece que tarda. 1430
Dona Maria
Dar-te n’alma uma ferida, 1431
falso amante, desejara 1432
por ser de quem me agravara 1433
injustamente homicida 1434
não me vejas toda a vida 1435
nem trates mais de querer I 1436
que somente com viver 1437
porque matar-te pudera 1438
ser basilisco quisera 1439
porém não pera te ver. 1440
((Vai-se).)
Infante
Aguarda, detém-te, espera 1441
quem viu desgraça maior? 1442
Foi-se, Medronho. 1443
Medronho
Senhor. 1444
correndo como ũa fera. 1445
Infante
Entrar trás ela quisera 1446
que de paixão desatino 1447
mas vamo-nos, que imagino 1448
que hei de perder o sentido. 1449
Medronho
Pois dá-o já por perdido 1450
que amor todo é desatino. 1451
(Vão-se.)

Segunda Jornada

(Sai a Infanta com Dona Maria, pegadas de um papel.)
Infanta
Solta o papel. 1452
Dona Maria
É cansar-te
se nessa perfia dás. 1453
Infanta
Porquê?
Dona Maria
Porque o não lerás. 1454
Infanta
Por vida del rei, hei de dar-te. 1455
Dona Maria
Não jures. 1456
Infanta
Pois com tomar-te
este papel desta sorte 1457
veremos qual é mais forte. 1458
Solta. 1459
Dona Maria
Jesus, que cruel.
Infanta
Já vejo neste papel 1460
sentença de minha morte. 1461
Dona Maria
Pois aí verás quanto a vida 1462
desejo dar-te, senhora, 1463
antes do que ser agora 1464
tua cruel homicida, 1465
mas daqui fica advertida 1466
para que noutro perigo 1467
não sejas cruel comigo, 1468
pois nisto vens a entender 1469
que talvez inda é bom ter 1470
té o verdugo por amigo. 1471
Infanta
Bem dizes, pois, sem engano, 1472
isso que afirmando estás 1473
neste papel que me dás 1474
apuro este desengano, 1475
e quando, como tirano 1476
verdugo, intente acabar-me, 1477
quero aqui reconciliar-me 1478
com ele, já que, cruel, 1479
c’uma bala de papel 1480
pretende agora matar-me, 1481
neste como em branco vaso 1482
apurei mais o veneno 1483
com que mortalmente peno 1484
no fogo em que aqui me abraso, 1485
e bem vejo neste acaso 1486
quanta ũa desgraça é forte, 1487
pois por ter no papel morto 1488
fez que o prémio se trocasse 1489
e em branco a tenção ficasse 1490
por sair em negro a sorte; 1491
consigo traz o veneno 1492
este papel, que é do infante, 1493
retrato de um falso amante 1494
por quem tanto sinto e peno, 1495
nele meu amor condeno 1496
por pouco considerado, 1497
mas que muito, se arrojado, 1498
quis de tal sorte empenhar-se 1499
que antes de desempenhar-se 1500
se julgou mal empenhado. 1501
E tu, que atrevidamente 1502
me ocasionas esta dor, 1503
adverte que é meu amor 1504
tão mal sofrido e paciente 1505
que a nenhum outro consente 1506
de qualquer sorte e aparência 1507
que em doce conrespondência 1508
queira com ele igualar-se, 1509
porque saberá vingar-se 1510
de quem lhe faz competência. 1511
(Faz que se vai.)
Dona Maria
Aguarda, detém-te, espera, 1512
que se presumes vingar-te 1513
bom será desenganar-te 1514
dessa, que formas, quimera. 1515
Pois quando em vingar-te, fera, 1516
me desprezes, tão cruel, 1517
quero que neste papel, 1518
como instrumento de amor, 1519
leas que o meu é milhor 1520
pois tem melhor aranzel. 1521
Infanta
Que dizes, estás em ti, 1522
que assi falas dessa sorte? 1523
Dona Maria
Dizes bem, que mal tão forte 1524
me faz não estar em mi, 1525
mas quero, infanta, que aqui 1526
isto te não esquecesse, 1527
que se amor ao trato crece 1528
e nace dele, é melhor 1529
amor que nace de amor 1530
que o que nace de interesse. 1531
Infanta
Logo, posso claramente 1532
inferir de provas tais 1533
que de interesse, não mais, 1534
nace meu amor somente, 1535
e pois queres justamente 1536
que te tenha por sesuda, 1537
desse pensamento muda 1538
ou cuidarei mal de ti. 1539
Dona Maria
Quando cuides mal de mi 1540
contra si faz quem mal cuda, 1541
e se queres persuadir-me 1542
a que deixe de querer, 1543
enganas-te em pretender, 1544
por tal modo, dissuadir-me, 1545
que só por morrer de firme 1546
tanto comigo labuto, 1547
que amargo pagam tributo 1548
meus olhos ao desamor, 1549
pois duma esperança em flor 1550
é já desengano o fruto. 1551
Infanta
Sabes que quero ao infante. 1552
Dona Maria
Sei que lhe quero, também. 1553
Infanta
A ti nunca te está bem 1554
que ele seja teu amante. 1555
Dona Maria
Por que não? 1556
Infanta
Oh, que galante!
Não vês que amor entre iguais 1557
é mais firme e dura mais? 1558
Dona Maria
Dizes bem, mas em rigor 1559
amor, que é rei e senhor, 1560
faz iguais de desiguais, 1561
quanto mais que por igual 1562
me tenho. E se é meu amante, 1563
tam boa sou como o infante. 1564
Infanta
Pois se com presunção tal, 1565
sendo em tudo desigual, 1566
queres com ele igualar-te, 1567
adverte que posso dar-te 1568
morte, quando te condeno, 1569
que é o mesmo que veneno 1570
ciúme, com que matar-te. 1571
(Vai-se.)
Dona Maria
Na guerra descansar, na paz cansar-se, 1572
ter por neve o calor, por calma o frio, 1573
achar que é doce o mar, salgado o rio 1574
de si desconfiar, noutrem fiar-se, 1575
alegrar-se c’o mal, c’o bem queixar-se, 1576
dar entrada à inconstância, à fé desvio, 1577
chamar ao claro escuro, ao sol sombrio, 1578
ter ódio à luz, das trévoas contentar-se, 1579
cantar na pena com chorar na glória, 1580
deixar branduras por buscar rigores, 1581
seguir a dor, fazer ao alívio pausa, 1582
perder ganhando, sem ganhar vitória, 1583
amar desprezos, desprezar amores, 1584
próprios efeitos que o ciúme causa. 1585
(Sai Rosa.)
Rosa
Licença para falar-te 1586
te pede Fadrique, agora. 1587
Dona Maria
Pois dize-lhe que entre embora. 1588
Rosa
Mas queres que vá buscar-te 1589
cadeiras donde sentar-te? 1590
Dona Maria
Para quê? Não é decente, 1591
que não quero que igualmente 1592
comigo esteja sentado, 1593
que ũa dama em seu estrado 1594
se deve sentar, somente. 1595
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Nesta, que tomo, ousadia, 1596
quando for de vós culpado 1597
merece ser desculpado 1598
quem vos busca por valia. 1599
Ditoso seja este dia 1600
em que vos venho a buscar, 1601
que despois de me apartar 1602
do que chego a conhecer 1603
nam tenho já mais que ver, 1604
falta-me com que cegar. 1605
Dona Maria
A lisonja que me dais 1606
aceito, com que me honreis 1607
nesta casa, pois sabeis 1608
o gosto que me causais. 1609
Mas dizei-me o que mandais 1610
ou em que devo servir-vos. 1611
Fadrique
Venho, senhora, a pedir-vos 1612
favor numa pretensão, 1613
que em vós cifradas estão 1614
as glórias que hei de advertir-vos. 1615
Já sabeis que adoro a infanta 1616
quanto me despreza mais, 1617
e, assi, quero que sejais 1618
medianeira em pena tanta, 1619
porque seu desdém me encanta, 1620
com que cruel me desama, 1621
a que desta ardente chama 1622
nam lhe encareça o afecto, 1623
que se turba o mais discreto 1624
em presença de quem ama. 1625
Dona Maria
Nam é delito, Fadrique, 1626
que à vista de quem namora 1627
se turbe o que mais adora 1628
sem que sua dor publique, 1629
e quando suspenso fique 1630
será por se acreditar, 1631
porque se nam pode achar 1632
melhor arte nem secreto 1633
para parecer discreto 1634
como sofrer e calar. 1635
(Falam à parte.)
(Sai o Infante e Medronho.)
Medronho
Olha que somos perdidos. 1636
Infante
Ai, céu, que em dor tão cruel, 1637
sendo a vista tam fiel, 1638
não são falsos os ouvidos. 1639
Medronho
Vês como estão divertidos, 1640
falando com tal despejo? 1641
Infante
Comigo mesmo pelejo 1642
quando, entre sonhos, tam certo 1643
estou c'os olhos abertos, 1644
mais cego quanto mais vejo, 1645
parece sono ou enredo 1646
isto que passa por mi. 1647
Dona Maria
Advirte que o infante aqui 1648
nos ouve, suspenso e quedo. 1649
Infante
Num laberinto me enredo 1650
donde livrar-me não posso. 1651
Medronho
Pois entra com fio grosso 1652
e não fies tam delgado 1653
que se apertas c’o fiado 1654
que quebre será forçoso. 1655
Dona Maria
Com Fadrique dar-lhe quero 1656
ciúmes agora aqui, 1657
já que ele mos deu a mi, 1658
porque assi vingar-me espero. 1659
Fadrique, eu me delibero 1660
a ser vossa medianeira 1661
fazendo com que vos queira. 1662
Porém, na harpa de amor 1663
muitas vezes tem valor 1664
XXXal a prima e terceira 1665
XXXXXX terceira servir quer, 1666
que é como colher de pão 1667
com quem, se comendo estão, 1668
comem depois a colher. 1669
Infante
A vida espero perder 1670
todo o juízo perdendo 1671
em ver que hei de estar querendo, 1672
com paga tam desumana, 1673
a quem cruel e tirana 1674
vejo que me está ofendendo. 1675
Medronho
Ham, hum, a senhora Rosa 1676
fale aos seus e guarde o seu. 1677
Rosa
Bem guardado está o meu. 1678
Medronho
Não sejas tam rigorosa, 1679
que, se bem és tam fermosa, 1680
sem que dizer tal te afronte, 1681
também tem rosas o monte. 1682
Mas, deixando isto até 'qui, 1683
quisera saber de ti 1684
se queres fazer como onte? 1685
Rosa
Não quero nada contigo 1686
porque és muito chocarreiro. 1687
Medronho
Sequer para alcoviteiro 1688
nam me terás por amigo? 1689
Dá-me este ofício que digo, 1690
nam te faças rigorosa 1691
porque desta sorte, Rosa, 1692
andando assi a teu lado 1693
serei delfim, neste estado, 1694
tu Anfitrite fermosa. 1695
Infante
Nunca vista confusão 1696
com que labuto e pelejo 1697
em ver que presente vejo 1698
minha desesperação! 1699
Dona Maria
Por vosso amor e afeição 1700
farei quanto me mandais. 1701
Fadrique
Muito nisso me obrigais, 1702
que em tudo sois tam sutil, 1703
tam perfeita e tam gentil 1704
que o mais tendes por demais. 1705
Infante
Que isto sofro? 1706
Dona Maria
Está picado.
Infante
Viva Deos, que é ter-me em pouco. 1707
Medronho
Pardez, que nunca vi louco 1708
que não fossse namorado. 1709
Senhor, deixa esse cuidado, 1710
chega, que estás aguardando? 1711
Infante
Estou, Medronho, cuidando 1712
que desgraçado é o amante 1713
que chega a não ter constante 1714
a fortuna de seu bando. 1715
(Sai a Infanta.)
Infanta
Fadrique falando está 1716
com Dona Maria à parte, 1717
não sei se daqui me aparte 1718
porque ciúme me dá. 1719
Amor, bem vejo que já 1720
me pesa de que me deixe, 1721
mas não sei de quem me queixe, 1722
se de mi, pelo deixar, 1723
se dele em me não amar 1724
quando contra amor peleije. 1725
O infante está rebatendo 1726
e bem creo que será 1727
porque com Fadrique está 1728
Dona Maria falando. 1729
Quero estrová-los entrando, 1730
que entre efeitos disiguais 1731
cada vez me força mais 1732
com ciúmes à perfia. 1733
Infante, Dona Maria, 1734
Fadrique, de que tratais? 1735
Dona Maria
Tratávamos de um amante 1736
que num cavalo de fama 1737
galanteando ũa dama 1738
passou onte mui galante, 1739
e com adorno brilhante 1740
tão enlevado a seguia 1741
que do cavalo em que ia 1742
vendo-se ir quasi caindo 1743
perguntou com gesto lindo 1744
para que parte caía. 1745
Infanta
Pois quisera-te advirtir 1746
antes que daqui te apartes 1747
para qual das duas partes 1748
deves primeiro cair. 1749
Dona Maria
Não tens que me persuadir 1750
porque estou bem advertida. 1751
Infanta
De ciúme estou perdida. 1752
Infante
Perdendo vou os sentidos. 1753
Fadrique
Todos estamos perdidos. 1754
Dona Maria
Em que pena estou metida. 1755
Infanta
Que laberinto de amor. 1756
Dona Maria
Que confusão de Babel. 1757
Infante
Que tirana, que cruel. 1758
Fadrique
Que tormento, que rigor. 1759
Infante
Que desdém, que desamor. 1760
Dona Maria
Que mudável, que inconstante. 1761
Infanta
Que falso, que pouco amante. 1762
Dona Maria
Que ingrato, que fementido. 1763
Infanta
Que louco, que presumido. 1764
Fadrique
Que dureza. 1765
Infante
Que diamante.
Medronho
Postos estão cara a cara 1766
cerra Espanha de vencida. 1767
Rosa
Todos derrota batida 1768
vão desta vez, quem cuidara 1769
que nisto, amor, tal parara. 1770
Infanta
De que tão suspenso estais, 1771
Infante? Que imaginais? 1772
Infante
Não sei, por Deos, que imagino, 1773
porfiar contra o destino 1774
sem ventura é por demais. 1775
Dona Maria
Porfiando vence amor. 1776
Infante
Mas talvez, Dona Maria, 1777
se cansa com a porfia 1778
quando lhe negam favor. 1779
Infanta
Não paga com desamor 1780
quem se vê conrespondida. 1781
Fadrique
Bem sei eu quem é querida 1782
e mais conresponde ingrata. 1783
Infanta
Quiçá porque se recata 1784
de não se ver ofendida. 1785
Fadrique
Ao menos faça esta dor 1786
ante vós fé de tal fé. 1787
Infanta
O que c’os olhos se vê 1788
não há mister prova melhor. 1789
Infante
Como é cego todo o amor 1790
não vê adonde se emprega. 1791
Dona Maria
Amor, infante, não cega 1792
senão só despois de amar. 1793
Infante
Bem cego deve de estar 1794
amor, que a outro se apega. 1795
Infanta
Todos picados estão 1796
e não sei qual dos dous queira, 1797
mas quero desta maneira, 1798
já que ciúme me dão, 1799
apurar esta afeição 1800
com deixar cair aqui 1801
esta luva em que meti 1802
este papel, que é do infante, 1803
porque o que for mais amante 1804
a tome só para si. 1805
(Deixa cair a luva, metendo dentro nela o papel que tomou a Dona Maria do Infante, o qual se lança a tomá-la, e Fadrique a ganha.)
Fadrique
A mi só pretenceI
levantar esta luva. 1806
Infante
Aqui não vence
mais que o valor. Fadrique, soltai logo. 1807
Fadrique
Que não canseis, vos rogo, 1808
que a luva perderei, perdendo a vida. 1809
Infante
Soltai, ou, se não, dai-a por perdida. 1810
Fadrique
Não temo, Infante, nada, 1811
pois para a defender trago esta espada. 1812
Infante
Isso é ser atrevido. 1813
Fadrique
Vós porfiado.
Infante
Por Deos que se me enfado... 1814
Fadrique
Infante, quedo.
Infante
Matar-vos poderei só com o medo. 1815
Fadrique
Para matar-me, Infante, 1816
se o que tendes me derdes é bastante. 1817
Infante
Pois assi desta sorte 1818
a luva ganharei com dar-vos morte. 1819
(Mete mão.)
Fadrique
Da ponta até ò punho 1820
em sangue tingerei, que esta empunho. 1821
(Mete mão.)
Infante
Na guerra poucas vezes 1822
trazem branca a espada os portugueses. 1823
(Sai a Rainha.)
Rainha
Que é isto, Infante? Passo. 1824
Sobre que é a questão? 1825
Infante
Foi um acaso,
que a vossa majestade 1826
pode informar Fadrique da verdade. 1827
Fadrique
Da infanta Beatriz, minha senhora, 1828
que está presente agora, 1829
esta luva caiu, que hei levantado. 1830
Quis o infante, cortês, se bem ousado, 1831
ganhar-me pela mão a luva dela, 1832
assi foi-me forçado o destendê-la 1833
com tomar este caso tanto a peito 1834
por não ceder aqui de meu direito. 1835
Rainha
Essa luva me dai, Fadrique, logo 1836
por que a mão nenhum ganhe deste jogo. 1837
Fadrique
A vossa majestade 1838
somente a entregarei com mais vontade. 1839
(Dá-lhe a luva e tira-lhe o papel.)
Rainha
Toma a luva outra vez e adverte, infanta, 1840
que te pode obrigar quem a levanta. 1841
(Dá-lhe a luva à infanta.)
Rainha
Os dous me acompanhai, vinde comigo. 1842
Infante
Obedecer é força. 1843
Fadrique
O mesmo digo.
(Vão-se.)
Medronho
Rosa, antes que me vá quero advertir-te, 1844
se algum escarapim tens que cair-te, 1845
que de luva te sirva, porque quero 1846
mostrar-me amante, com erguê-lo, fero. 1847
Rosa
Não quero por amante 1848
quem não sabe, inorante, 1849
o nome dar às cousas, pois que chama 1850
escarapim à luva de uma dama. 1851
Medronho
Pois, à fé, que se besta te chamara 1852
que desta vez o nome te acertara, 1853
mas porque teu melindre me desgosta 1854
não te quero aguardar outra reposta. 1855
(Vai-se.)
Dona Maria
Mui bem, infanta, fingiste 1856
o descuido do pensado 1857
deixando cair a luva, 1858
sobre que renhiram tanto. 1859
Infanta
Não sejas, dona Maria, 1860
tão suspeitosa, e mais quando 1861
a luva de que me culpas 1862
não caiu senão acaso. 1863
Dona Maria
Não pudeste imaginar, 1864
pera fazer sem engano 1865
prova de um e outro amante, 1866
melhor invenção nem passo. 1867
Infanta
Isto é já muita malícia, 1868
porque eu nem ao infante amo 1869
nem menos quero a Fadrique. 1870
Dona Maria
Isso quem pode julgá-lo? 1871
Infanta
Tu. 1872
Dona Maria
Enganas-te.
Infanta
Porquê?
Dona Maria
Porque é muito ao contrário. 1873
Bem que se amas ao infante, 1874
é gastar tempo baldado, 1875
porque eu sei que me quer bem 1876
e eu deveras o amo, 1877
e por que te deixe agora 1878
cuidar nisto mais d’espaço 1879
me vou, com tua licença, 1880
por te não dar mais enfado. 1881
(Faz que se vai.)
Infanta
Volta cá, detém-te um pouco 1882
porque sei que posso tanto 1883
que posso matar de amores 1884
e dar cuidado ao cuidado. 1885
Dona Maria
Nada disso me dá pena 1886
porque bem vejo e alcanço 1887
que poucos se querem bem 1888
dos corações alugados. 1889
Infanta
Não podes julgar que o meu 1890
ama por força em tal caso, 1891
que amar forçado não pode 1892
coração que é voluntário. 1893
Dona Maria
Também por força de amor 1894
não falta quem ame. E tanto 1895
que se desculpam com ele 1896
os que delinquem amando. 1897
Infanta
Não há nenhum grande amor 1898
que force o alvedrio humano, 1899
que amor nace da vontade 1900
que ama livre e não forçado 1901
Dona Maria
Antes cuido no que dizes, 1902
que argumentas ao contrário, 1903
que amor não há de ser livre 1904
para ser mais estimado, 1905
porque se livre nascera 1906
deixara de querer quando 1907
se enfadasse de correr 1908
e melhorara de trato. 1909
Mas nam falemos mais nisto 1910
e dêmo-lo por passado, 1911
que quem sabe mais de amor 1912
menos se atreve a explicá-lo. 1913
Infanta
Pois bem podes recolher-te 1914
a estudar sobre esse caso. 1915
(Vão-se. Sai o Infante.)
Infante
Que assi Dona Maria me maltrate 1916
com ciúmes, desdéns e disfavores, 1917
que assi de ver-me tanto se recate, 1918
que tirana me nega seus favores, 1919
ai, doce amor, quando cruel me mate 1920
esta que a todos dá morte de amores, 1921
direi que morro só porque é tão bela 1922
que inda nam sou pera morrer por ela. 1923
Oh, mil vezes feliz e venturoso 1924
quem de amor tal ventura há conseguido, 1925
que sem viver sentido nem queixoso, 1926
de ciúmes tiranos perseguido, 1927
em suave prisão, trato amoroso, 1928
docemente se vê conrespondido, 1929
gozando sempre em amorosos laços 1930
lisonjeiras prisões, doces abraços. 1931
Mas ai de quem só vive de esperanças, 1932
homicidas suaves de ũa vida, 1933
pois tam poucas promete seguranças 1934
numa conrespondência agradecida 1935
que a pena que ocasiona tais mudanças 1936
justamente se tem por homicida. 1937
E se o temor ũa alma tanto inflama 1938
é porque sempre teme quem bem ama. 1939
Quem dissera que amor bem empregado 1940
tão mal fosse de amor conrespondido 1941
que despois de ficar acrisolado 1942
no fogo em que talvez se viu metido 1943
em tam pouco valor seja avaliado 1944
que chegue a ter lugar de desvalido. 1945
Mas se um amor com outro amor se paga 1946
tenha um desdém outro desdém por paga. 1947
(Sai Medronho.)
Infante
Que vai, amigo Medronho, 1948
falaste a Dona Maria? 1949
Medronho
Senhor, muito baralhado 1950
anda o negócio, por vida. 1951
Não percas hora nem tempo: 1952
ama, quer, roga, perfia, 1953
porque não há dama que 1954
lhe pese de ser querida. 1955
E quando, Infante, se mostram 1956
mais melindrosas e esquivas, 1957
então imagina que 1958
estão de todo perdidas, 1959
não te acobarde o desdém 1960
logo na primeira vista 1961
de ũa dama melindrosa 1962
que de tudo se enfastia. 1963
Se acaso te dá ciúmes 1964
dá-los também à perfia 1965
porque a nódoa de ũa amora 1966
com outra verde se tira. 1967
Dize-lhe palavras doces, 1968
chama-lhe aurora, sol, dia, 1969
pérola, aljôfar, cristal, 1970
rosa, açucena, bonina, 1971
e, se tal vez lhe escreveres, 1972
chama-lhe por senhoria 1973
que desta sorte a ũa freira 1974
um certo amante escrevia 1975
só por que ela se obrigasse 1976
deste termo e cortesia, 1977
que é mui bem criado amor, 1978
posto que criança ainda, 1979
e assi, senhor, desta sorte 1980
toda a dama mais esquiva 1981
que ũa Lucrécia, ũa Porcia, 1982
ũa Dafne fugitiva, 1983
te terá por mais cortês 1984
que o que descobriu as Índias. 1985
E isto de damas, infante, 1986
é cousa muito sabida 1987
que também há chuvas d’ouro 1988
se há também Danes esquivas. 1989
Mas isto deixando à parte, 1990
inda que a dizer me obriga 1991
que onde aí não há molheres 1992
não há ter gosto nem vida. 1993
Infante
Conta-me, por vida tua, 1994
se viste a Dona Maria, 1995
que estou morto por saber 1996
o que de mi imagina. 1997
Medronho
Senhor, dá-o por contado, 1998
porque nam sei que te diga 1999
mais que estar de ti ciosa 2000
por cuidar que a infanta estimas. 2001
Mas antes que mais me esqueça, 2002
fui, entrei, eis que saía 2003
quando topei com Fadrique, 2004
que me trazia de espia, 2005
e em me vendo me entregou 2006
este papel que te invia. 2007
Toma o papel. 2008
Infante
Mostra cá.
(Lê o Infante:)
Para tratar convosco um negócio, vos suplico que venhais esta noite ao Campo de Santa Clara, às doze em ponto, donde somente vos espero com capa e espada. Fadrique.
Medronho
Por Deos, que te desafia 2010
por amor de algũa freira. 2011
Infante
Tem segredo, e a ninguém digas 2012
o que contém o papel. 2013
Medronho
Dar-te um conselho queria 2014
nesta ocasião. 2015
Infante
E que tal?
Medronho
Por Santa Iria, 2016
que te deve de agradar. 2017
Escuta, por vida minha, 2018
verás se tenho razão: 2019
dous fidalgos que serviam 2020
a certa dama em palácio, 2021
num serão, que então havia, 2022
sobre dançarem com ela 2023
desafiaram-se um dia 2024
para Val de Cavalinhos. 2025
Ambos de dous se partiram 2026
que aviriguar esta dança 2027
neste campo pretendiam. 2028
Chegaram ambos ao posto 2029
que já sinalado tinham, 2030
e dizendo um para o outro 2031
«arrancai», respondeu ele: 2032
«não posso, por vida minha, 2033
porque espada de brigar 2034
nam trago agora cingida, 2035
que é somente de vestir 2036
esta que trago de dia, 2037
mandarei por ela a casa 2038
e então com igual justiça 2039
a questão deslindaremos». 2040
Foram-se de companhia 2041
e não tornaram jamais. 2042
Agora o conto te aplica, 2043
se é que espada de brigar 2044
também não trazes cingida. 2045
Infante
Do conselho te aproveita 2046
que pode ser que te sirva, 2047
que agora deixar-te quero 2048
por que mais contos não digas. 2049
(Vai-se.)
Medronho
Pois, à fé, que melhor fora 2050
dizer-te «dói a barriga» 2051
ou fingir este doente, 2052
porque é grande boveria 2053
matar-se um homem de bem 2054
por nenhuma rapariga, 2055
quando todas são ranhosas, 2056
ũas nécias presumidas, 2057
que não sabem mais de amor 2058
do que eu sei de uma botica. 2059
(Vai-se. Sai a rainha com a Infanta.)
Rainha
Cerra essa porta, infanta, e entra passo 2060
por que não nos escute alguém acaso, 2061
que as cousas de importância 2062
devem-se de tratar com vigilância, 2063
e quem se não recata 2064
mostra pouca prudência no que trata, 2065
pois quem mais se acautela 2066
nenhum dano lhe faz nímia cautela 2067
Infanta
Cerrada a porta está, fala senhora. 2068
Rainha
Escuita. 2069
Infanta
Atenta escuito.
Rainha
Soube agora
que solicita o infante 2070
Dona Maria Teles como amante, 2071
pois de dia a passea com cuidado 2072
e de noite a visita desvelado, 2073
que amor não tem paciência 2074
para ũa noite só sofrer de ausência, 2075
e como é vandoleiro 2076
sai de noite a roubar mais sorrateiro, 2077
mas pode descuidar-se 2078
ficando preso sem poder soltar-se, 2079
porque nunca dos braços 2080
jamais se livra amor andando a braços, 2081
e se neles enlaça 2082
Dona Maria ao infante, que isto traça, 2083
pode vir a reinar por esta sorte 2084
quando a Parca a el rei o fio corte, 2085
e porque seu intento 2086
sortir não possa o feito, o casamento 2087
que em cortes se retratou c’o de Castela, 2088
dando-te por esposa, infanta bela, 2089
ao duque que agora é de Benavente, 2090
determino estrovar secretamente 2091
pera mor segurança 2092
de poder governar sempre em bonança, 2093
pois c’o infante casando 2094
terás sempre o governo de meu bando, 2095
e quando a el rei da vida prive a morte 2096
ficarei desta sorte 2097
sendo sempre rainha, 2098
pois por indústria minha 2099
cheguei a tal fortuna 2100
que na roda importuna 2101
me sustento até ‘gora 2102
sem que a enveja me possa lançar fora, 2103
mas da roda temer deve a mudança 2104
quem subiu, por fortuna, a tal bonança. 2105
Por isso estes gentios que a adoravam 2106
em trajos de molher a retratavam 2107
e por não ter constância nem firmeza 2108
a tinham fortemente atada e presa, 2109
que inda assim com prisão tão dura e forte 2110
por segura a não davam desta sorte, 2111
mas só por que não visse em quem se emprega, 2112
não tem mistério, a pintaram cega 2113
c’uma letra que diz «em bens e males 2114
nada podes, nem vês, mas assi vales». 2115
Infanta
Em nenhuma infortuna 2116
deve ninguém queixar-se da fortuna, 2117
que são queixas de nécios que imaginam 2118
que as estrelas nos homens predominam. 2119
Quando um santo falando das estrelas 2120
diz que os não criou Deos por amor delas, 2121
mas por amor dos homens, que criara, 2122
todo esse céu de estrelas marchetara. 2123
(Sai Garcia Afonso.)
Garcia
Se vossa majestade, que Deos guarde, 2124
há de dar audiência, faz-se tarde, 2125
porque há mui grande espaço 2126
que as partes esperando estão no paço 2127
e hão mister despachadas 2128
as consultas, que estão já consultadas. 2129
Rainha
Nam posso, por agora, 2130
dar audiência às partes, melhor fora 2131
que os memoriais tomasses 2132
e despois mais de espaço os despachasses, 2133
que com a infanta tenho 2134
que tratar um negócio de importância. 2135
Garcia
Em servir-vos me empenho, 2136
donde ponho o cuidado e vigilância. 2137
(Vai-se.)
Rainha
Disto que digo, infanta, é bem tratemos 2138
para que assi melhor nos conservemos. 2139
Infanta
Tenho por acertado 2140
quanto dizes, senhora, e com cuidado 2141
deves pôr nisto todo, 2142
pera poder reinar por este modo. 2143
(Vão-se.)
(Sai Dona Maria tapada com um manto e o Infante trás ela.)
Dona Maria
Pelo que a nobre deveis 2144
vos suplico, com cortesia, 2145
que daqui com tal perfia 2146
mais adiante nam passeis. 2147
Infante
Deixar-vos nam pode ser 2148
sem primeiro vos pedir 2149
que vos queirais descobrir 2150
ou vos deis a conhecer. 2151
Nam eclipseis, bela senhora, 2152
desses sóis os raios tanto 2153
com a nuve desse manto 2154
com que vos cobris agora. 2155
Deixai que deste arrebol 2156
entre amorosos ensaios 2157
aprenda de vossos raios 2158
a ser mais galhardo o sol, 2159
que se a luz mais ocultais 2160
desses tam superiores 2161
perderá seus esplendores 2162
todo esse céu que ilustrais, 2163
e a que me dá ciúme 2164
esse rosto peregrino, 2165
que ser um sol imagino, 2166
coberto com essa nuve. 2167
Um cego ver desejava 2168
do sol claro esplendor 2169
e para o saber melhor 2170
a todos o perguntava, 2171
que lhe firmava e dezia 2172
que era um celeste farol, 2173
e singular arrebo, 2174
autor e causa do dia, 2175
qual lhe pintava nos céus 2176
uma luz tam bela que, 2177
a faltar divina fé, 2178
fora adorada por Deos. 2179
Viu de uma celeste estrela 2180
a luz que no céu brilhava 2181
e como sol a adorava 2182
por ser tam fermosa e bela. 2183
Porém, despois que o arrebol 2184
viu que esse sol ostentava 2185
deixou a estrela que amava 2186
só por adorar ao sol. 2187
Assi eu, como vevia 2188
cego de amor, sospeitava 2189
que era um sol quando adorava 2190
a qualquer dama que via, 2191
mas chegando a conhecer 2192
vosso divino arrebol 2193
para adorar-vos por sol 2194
é bem que vos deixeis ver. 2195
Dona Maria
Se somente essa perfia 2196
consiste em ver-me, não mais. 2197
Basta que agora saibais 2198
que me vistes algum dia, 2199
mas como cego ficastes 2200
doutra luz e doutros raios, 2201
entre seus belos ensaios 2202
por estrela me julgastes. 2203
Agora que haveis estado 2204
menos cego e diferente, 2205
que todo o amor de repente 2206
aborrece de pensado, 2207
como arrependido estais 2208
me persuadis, lisonjeiro, 2209
que sou o solverdadeiro 2210
que vós somente adorais. 2211
E se bem me persuado 2212
em vós tenho conhecido 2213
efeitos de arrependido, 2214
mas não de desenganado, 2215
que em culpa tão conhecida 2216
bem alcanço no que trato, 2217
que o que ũa vez foi ingrato 2218
o há de ser em toda a vida. 2219
Infante
Confuso estou e admirado 2220
de que ingrato me chameis 2221
quando de mim não sabeis 2222
nem jamais me haveis tratado, 2223
mas nesta esperança calma 2224
está, não sem confusão, 2225
publicando o coração 2226
segredos que guarda a alma. 2227
E não sei, por Deos, que vejo 2228
nesse gesto que mostrais 2229
que mil sospeitas me dais 2230
quanto mais ver-vos desejo. 2231
Desde a igreja em que vos vi 2232
por entre esse negro manto, 2233
não sem mistério e espanto, 2234
vos vim seguindo até 'qui. 2235
E logo que nela entrastes 2236
se por anjo vos julguei 2237
despois me desenganei 2238
como água benta tomastes, 2239
porque bem claro se estava 2240
nisto que cheguei a ver 2241
que anjo não podia ser 2242
quem ter culpas confessava. 2243
E se os que sentem de amor 2244
dizem por causas sabidas 2245
que vertem sangue as feridas 2246
à vista do matador, 2247
das que n’alma me apontou 2248
amor, vós a causa sois, 2249
pois vertem sangue despois 2250
que ante vossa vista estou. 2251
E a luz desocultai 2252
desses dous sóis encobertos, 2253
e despois de descobertos 2254
raio a raio me matai. 2255
Dona Maria
Não perfieis mais, senhor, 2256
porque me vai muito a mi 2257
em não descobrir-me aqui. 2258
Infante
Valha-me o céu, que rigor, 2259
deixai-me essa mão beijar 2260
para que nesta ocasião 2261
possa afirmar que por mão 2262
vos começo de ganhar. 2263
Dona Maria
Algum dia pretendi 2264
com pensamento amoroso 2265
dar-vo-la como a esposo, 2266
mas despois me arrependi, 2267
porque traz um casamento 2268
consigo tam grande azar, 2269
que antes de se efeituar 2270
se segue o arrependimento. 2271
Infante
Nessas, que ouço, linsonjeiras 2272
tam equívocas rezões 2273
certas imaginações 2274
apuro por verdadeiras. 2275
De ter convosco, senhora, 2276
simpatia é cousa certa 2277
pois qual íman sempre alerta 2278
vos venho seguindo agora. 2279
Enfim, sois todo o meu bem. 2280
Dona Maria
Pois amais? 2281
Infante
Dês que vos vi.
Dona Maria
A quem? 2282
Infante
A vós.
Dona Maria
A mi?
Infante
Si.
Dona Maria
Que temeis? 2283
Infante
Vosso desdém.
Dona Maria
Que sentis? 2284
Infante
Que vos adoro.
Dona Maria
Que aguardais? 2285
Infante
Um bom sucesso.
Dona Maria
Quando será? 2286
Infante
Isso peço.
Dona Maria
Sabeis quem sou? 2287
Infante
Não ignoro.
Dona Maria
Pois que vos falta? 2288
Infante
Ventura.
Dona Maria
Para quê? 2289
Infante
Para alcançar-vos.
Dona Maria
Que pretendeis? 2290
Infante
Obrigar-vos.
Dona Maria
Pois quem obrigar procura 2291
deve em tudo obedecer. 2292
E assi vos peço que agora 2293
me deixeis. 2294
Infante
Vou-me, senhora,
só por vos não ofender. 2295
(Vai-se.)
Dona Maria
Olá, tirem-me este manto. 2296
(Sai Rosa.)
Rosa
Muito na missa tardastes. 2297
Dona Maria
Foi forçoso. 2298
Rosa
Que encontrastes,
que assi vos fez deter tanto? 2299
Dona Maria
Seguir-me o infante até 'qui, 2300
que intentou reconhecer-me 2301
por mais que quis esconder-me. 2302
Rosa
Viu-te? 2303
Dona Maria
Imagino que si.
Rosa
Pois sabe que me contou 2304
Medronho, como fiel, 2305
que ao infante num papel 2306
Fadrique desafiou, 2307
e que esta noite saía 2308
a campo. 2309
Dona Maria
Sabes porquê?
Rosa
Não sei. 2310
Dona Maria
Pois quisera que
essa contenda e perfia 2311
estorvássemos levando 2312
certo papel ao infante 2313
em que lhe escreva que, amante, 2314
estou por ele esperando, 2315
que esta noite, com cuidado, 2316
venha ao jardim. 2317
Rosa
Dizes bem.
Escreve logo. 2318
Dona Maria
Pois vem,
levar-lhe-ás este recado. 2319
(Vão-se. Sai Medronho.)
Medronho
Ando como atordado 2320
despois que dei também em namorado 2321
que amor, que todo é fumo, 2322
que me subiu, presumo, 2323
como vinho à cabeça, 2324
porque de amor de Baco me adormeça. 2325
Se bem, por Santiago, 2326
que outro vinho há mil dias que não trago, 2327
antes, com grande mágoa, 2328
bebo da fonte fria sempre a água, 2329
e já me consolara em tais dietas 2330
se da fonte bebera dos poetas 2331
ou de algum charco acaso, 2332
que fez a ferradura do Pegaso 2333
que também os poetas não são parcos 2334
que cantam como rãs d’entre estes charcos 2335
porque nem todos podem (por perene) 2336
beber da fonte limpa de Hipocrene, 2337
mas contra mi murmuro 2338
se isto de ser poeta mais apuro, 2339
que se bem nisto cudo 2340
imagino que dou no próprio escudo 2341
que também sou poeta, e Deos o sabe, 2342
se tal nome me cabe 2343
com razões tão perversas, 2344
pois al fim faço versos que são versas. 2345
Quiçá que tal espírito participe 2346
porque bebi na fonte de Aganipe 2347
por um velho cabaço com que Apolo 2348
regava o cebolinho sem miolo, 2349
assi que sou poeta jardineiro, 2350
que não sei, lisonjeiro, 2351
mais que falar em flores e boninas, 2352
chamando às águas turvas cristalinas 2353
e à corrente mais breve 2354
arminho de cristal, serpe de neve, 2355
e também por corrente 2356
lhe chamarei grilhão, forçadamente. 2357
Mas bem pareço nisto 2358
ser poeta de Abril, por Jesu Cristo, 2359
que se dele escapar o meu falsete 2360
ser músico de Maio me compete, 2361
pois sei que na Aretusa 2362
não bebi por panela nem infusa, 2363
antes doutra maneira 2364
sospeito que bebi pela caveira 2365
de um asno patalou, 2366
que por beber na fonte se afogou. 2367
Mas já me acordo agora 2368
que por nenhũa cousa destas fora 2369
porque um grande poeta, 2370
que não fazia versos à gineta, 2371
antes se cavalgava numa albarda 2372
c’os pés muito direitos à bastarda, 2373
esse me disse um dia, 2374
falando nesta fonte clara e fria, 2375
que os amantes de freiras 2376
bebiam pelos cornos das gualteiras 2377
e por este sospeito, sem mais tretas, 2378
que bebi nesta fonte dos poetas 2379
porque nunca de freiras, cousa rara, 2380
poeta me chamara, 2381
se no Parnaso monte 2382
não bebera por cornos nesta fonte. 2383
Mas quem nisto me vê não fazer pausa 2384
e não conhece a causa 2385
por que de freiras trato 2386
ter-me-á por mentecato, 2387
mas nisto não me fio 2388
pois sei que os altos pago de vazio, 2389
e com razão parece disparate 2390
ver que um lacaio destas cousas trate. 2391
Porém, quem entre doces mais se emprega 2392
algũa cousa deles se lhe pega. 2393
Oh, que sono me dá, deitar-me quero, 2394
que aqui neste lugar ao infante espero. 2395
(Deita-se a dormir. Sai Rosa.)
Rosa
Achar quisera o infante, 2396
porque minha senhora, como amante, 2397
esta carta lhe invia, 2398
intentando estrovar por esta via 2399
que não saia à campanha com Fadrique 2400
por que mais seu amor se não publique. 2401
Aqui aguardar quero 2402
que venha a recolher-se, como espero. 2403
Mas ali jaz um vulto 2404
e quem seja decerto deficulto. 2405
Quem será? Oh que lance, 2406
que é Medronho o que vejo neste transe, 2407
que ao sereno da noite está cozendo 2408
a fornada de quanto andou bebendo, 2409
e pois caiu no laço 2410
ũa burlha lhe faço 2411
de quantas me tem feito: 2412
aqui trago no peito 2413
inda umas escorralhas de vermelho 2414
que neste papel velho 2415
guardei, por cor precisa, 2416
de quando me infeitei para ir à missa, 2417
com este, por meu gosto, 2418
tingir-lhe quero agora todo o rosto. 2419
(Vai-o tingindo.)
Oh pícaro borracho, 2420
pois que tanto vermelho sem empacho 2421
sempre metes por dentro cada hora 2422
aqui to quero pôr também por fora. 2423
Se isto não te envergonha 2424
será porque antes queres ter vergonha 2425
no rosto do que mágoa 2426
dentro no coração, que não vê água. 2427
Porém, já que és Medronho 2428
só com este vermelho que te ponho, 2429
à mi fé que te juro 2430
que hás de ficar Medronho bem maduro. 2431
(Desperta Medronho.)
Medronho
Morto de sono estava, 2432
mas, por Deos, que não sei em que sonhava. 2433
Rosa
Já do sono acordou. Ir-me quisera 2434
sem que me conhecera. 2435
(Retira-se a ũa parte.)
Medronho
Não sei que vejo ali, se é fantesia 2436
que o cabelo esta vez me arrepia. 2437
Rosa
Quero ver se escapar-lhe posso agora 2438
fingindo-me fantasma. 2439
(Cobre-se toda c’o manto.)
Medronho
Oh, quem me fora 2440
pássaro que voara 2441
por que desta fantasma me escapara. 2442
Jesus seja comigo, 2443
que me vejo metido em grão perigo. 2444
Ai, que não sei que sinto, 2445
que a barriga me dói. Pardês, não minto, 2446
deixe-me, senhora alma pecadora, 2447
que me saia lá fora, 2448
se não eu te esconjuro 2449
que me deixes passar livre e seguro, 2450
não me faças caretas 2451
que as temo mais que às línguas dos poetas 2452
e deixa-me ir vestir outra camisa, 2453
cantarei-te um prefácio de ũa missa, 2454
que temo se me tocas com recato 2455
que te não cheire bem este meu fato. 2456
Ai, ai, ai, que me queres? Teu mal purga, 2457
não te chegues a mi, que estou de purga. 2458
Almas santas, valei-me, 2459
por que o fogo desta alma não me queime. 2460
(Vai-se retirando, e Rosa com ele.)
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Oh, mil vezes ditoso 2461
quem de amor tal ventura há conseguido, 2462
que, sem viver queixoso 2463
de enganos e ciúmes ofendido, 2464
gozando está presente 2465
o que cego idolatra e amante sente. 2466
Se geme, é socorrido 2467
com mimos, com regalos, com favores, 2468
e, se chora, é ouvido 2469
de quem piedosa escuta suas dores, 2470
que pode desta sorte 2471
dar vida à mesma vida e morte à morte. 2472
Sem ciúmes tiranos 2473
estima, adora, quer, ama e venera, 2474
e sem temer enganos, 2475
que não tem que temer quem nada espera, 2476
tudo o que quer alcança 2477
mas, ai de quem só vive de esperança. 2478
Ea, amor arrogante, 2479
que hoje esperas vencer ou ser vencido, 2480
porque se adora o infante 2481
a prenda a quem confesso estar rendido, 2482
neste campo presumes 2483
a batalha vencer de teus ciúmes. 2484
(Sai o Infante.)
Infante
Aqui neste teatro 2485
de meu braço o valor mostrar espero, 2486
que se a quem idolatro 2487
outro adorar se atreve, ousado e fero, 2488
vingar-me é cousa justa 2489
que ũa ousadia talvez morte custa. 2490
Fadrique ali me aguarda. 2491
Hei tardado? 2492
Fadrique
Deos guarde a vossa alteza.
Quem vem tam bem não tarda. 2493
Infante
Não pude vir mais cedo. 2494
Fadrique
Que me pesa
de inquietar-vos, infante, 2495
mas cumpro com as leis de ser amante. 2496
Infante
Ea, em campo estou posto, 2497
como amante fazei, e como honrado. 2498
Fadrique
Antes que rosto a rosto 2499
livremos a pendência deste enfado 2500
nas espadas, quisera 2501
que soubésseis a causa que tivera. 2502
Infante
Se hemos renhir, Fadrique, 2503
repeti vosso agravo a quem o ignora. 2504
Fadrique
Por que a justiça fique 2505
sempre da minha parte vencedora, 2506
meu agravo repito. 2507
Infante
Pedir satisfação não é delito. 2508
Fadrique
Amor, que por ser estrela, 2509
para o que pretende inclina, 2510
pois sendo livre a vontade 2511
talvez a faz ser cativa, 2512
quis que à infanta me inclinasse 2513
por natural simpatia, 2514
a quem, rendido, rendi 2515
alma, coração e vida. 2516
A noite em que me dissestes 2517
que ũa dama vos pedira 2518
que fôsseis só a falar-lhe 2519
sem levar mais companhia, 2520
acompanhando vos fui 2521
e não sei, por Deos, que diga. 2522
Infante
Já sei que fostes comigo 2523
naquela noite sabida, 2524
em que com dous embuçados, 2525
que o passo nos impediam, 2526
sobre as capas nos pedirem 2527
ũa pendência renhida, 2528
com ambos de dous tivemos, 2529
que enchendo-nos nela de ira 2530
metemos mãos às espadas 2531
e com igual valentia 2532
aqui talho, ali revés, 2533
passando escritos de vida, 2534
os fumos levando a todos, 2535
cevando-nos em a briga 2536
té que nos desencontrámos 2537
por escapar da justiça. 2538
Daqui podeis prosseguir. 2539
Fadrique
De aí é bem que prossiga: 2540
dei volta outra vez à rua 2541
e vi numa gelosia 2542
posta ũa dama à janela 2543
falando com voz sumida. 2544
Pus-me ao pé dela arrimado 2545
para ver se a conhecia 2546
e logo vi que era a infanta 2547
e a outra, Dona Maria. 2548
Não me pude encobrir tanto 2549
que me não vissem de cima, 2550
acenaram-me chegue, 2551
perguntei o que queriam, 2552
se era o infante, me disseram. 2553
Mas cuidando, ai, inimiga, 2554
que esta pergunta. e assi foi. 2555
da parte da infanta vinha, 2556
porque talvez os ciúmes 2557
acertam no que adivinham, 2558
ser o infante respondi, 2559
com voz turbada e fengida. 2560
E não me saiu frustrada 2561
esta sospeita e malícia, 2562
pois vi que a infanta, enganada, 2563
tantas cousas me dezia 2564
que me persuadi que amor, 2565
a querer-vos, muito a obriga. 2566
Neste comenos chegastes 2567
com Medronho em campanha, 2568
que foi causa de que então, 2569
por escusar outra briga, 2570
da infanta me despedisse, 2571
fingindo que gente vinha, 2572
e com as sombras da noite 2573
me encobri de vossa vista 2574
retirando-me do posto 2575
que a vós usurpado tinha. 2576
E como amor não consente 2577
que outrem lhe roube o que estima, 2578
pois sabeis que adoro a infanta 2579
e que me vai nela a vida, 2580
ou me tirai a que tenho 2581
ou por estorvar desditas 2582
palavra me haveis de dar 2583
de disistir, por ser minha, 2584
desta empresa, porque amor 2585
a tal extremo me obriga. 2586
Infante
Dessa empresa que dizeis, 2587
Fadrique, não disistira, 2588
se, como vós suspeitais, 2589
tivera amor algum dia 2590
ou quisera bem à infanta. 2591
Fadrique
Logo negais, sem mentira, 2592
que não lhe fostes falar 2593
aquela noite da briga. 2594
Infante
É verdade, bem que a infanta 2595
mandado chamar me tinha 2596
nessa noite, porém eu 2597
que adoro... 2598
Fadrique
A quem?
Infante
Quem duvida?
Que a dona Maria Teles 2599
que como na gelosia, 2600
pois que vai a dizer tudo, 2601
estava, desgraça minha, 2602
com a infanta a quem então 2603
falastes, foi grão desdita, 2604
cuidando que eu lhe falava 2605
e que à infanta queria, 2606
morta de desconfianças 2607
e de ciúmes, não viva, 2608
nem se paga de desculpas 2609
nem de firmezas se obriga. 2610
Fadrique
Pois podeis negar, infante, 2611
que não é vossa esta firma 2612
(Dá-lhe a carta que tirou da luva caída.)
que na luva que caiu 2613
da infanta vinha metida? 2614
Infante
Não nego, Fadrique, aqui 2615
não ser essa letra minha, 2616
pois é essa a própria carta 2617
que escrevi a dona Maria 2618
na noite em que pretendi 2619
falar-lhe, e, desavertida, 2620
lha tomaria a infanta 2621
por sospeitas que teria. 2622
Mas, pois satisfeito estais 2623
nesta parte, quanto à minha 2624
me deveis satisfação, 2625
pois sois causa de que viva 2626
morto, com mil disfavores 2627
que me faz dona Maria. 2628
E assi pois em campo estamos 2629
por que de nós não se diga 2630
que a desafio saímos 2631
e por medo ou cobardia 2632
as espadas não medimos, 2633
tomais do campo a medida 2634
que quiserdes, que esta espada 2635
vos mostrará quem a vibra. 2636
Ea, que vos suspendeis? 2637
Mostrai vossa valentia. 2638
Fadrique
Infante, nunca o céu queira 2639
que contra vós algum dia 2640
desembainhe esta espada, 2641
posta a vossos pés rendida, 2642
eu me dou por satisfeito 2643
da queixa que de vós tinha, 2644
que pera estar obrigado 2645
a satisfação me obriga. 2646
Se esta desculpa não basta 2647
para desculpar-me ainda, 2648
a dona Maria Teles 2649
direi que por culpa minha 2650
contra vós, injustamente, 2651
tantos rigores fulmina. 2652
Se, contudo, infante amigo, 2653
desta culpa cometida 2654
vos não dais por satisfeiro 2655
para vingar vossa ira 2656
aqui tendes esta espada. 2657
(Dá-lhe a espada.)
Tomai-a, que por ser minha 2658
podereis mais facilmente 2659
tirar-me com ela a vida, 2660
quando somente quisera 2661
viver para que vos sirva. 2662
Infante
Tão discreto me obrigais 2663
que, se a infanta fora minha, 2664
tomara, Fadrique amigo, 2665
ser Alexandre por vida 2666
para deixar-vos a dama 2667
a quem dar mate podia. 2668
Fadrique
Os pés bejo a vossa alteza, 2669
Infante
Os braços melhor se estimam. 2670
Fadrique
Ânimo, amor, que talvez 2671
se vence com a perfia. 2672
(Vão-se.)
(Sai Medronho com Rosa, que traz um espelho.)
Rosa
Toma e vê-te neste espelho, 2673
se crédito me não dás, 2674
porque nele te verás 2675
mais que Medronho vermelho. 2676
Medronho
Viva Deos, que isto me fez 2677
esta noite alguma bruja 2678
que em figura de coruja 2679
me quis chupar do envés. 2680
Rosa
Não vês como tens coradas 2681
as faces? 2682
Medronho
Bem vejo, à fé,
que estão mais vermelhas que 2683
se foram esbofeteadas. 2684
Rosa
Não sei se esta cor puseste 2685
para ser mais gentil-home. 2686
Medronho
Por ventura sou eu home 2687
que para Narciso preste? 2688
Eu, vermelho? Eu, cor no rosto? 2689
Rosa
Nam sei que isto possa ser 2690
Medronho
Deixa-me tornar a ver 2691
nesse espelho, por meu gosto, 2692
que folgo de ver-me agora 2693
tam gentil-home e corado. 2694
Rosa
Tens como deciplinado 2695
o rosto todo por fora. 2696
Mas essa cor, soponho, 2697
que diz bem com o nome de Medronho. 2698
Medronho
Mui bem nisso reparaste, 2699
porém, dá-me cá um pano 2700
para alimpar esta cor, 2701
que se bem me nam engano 2702
folgas de que eu aproveite 2703
para te enfeitardes quando 2704
fores amanhã à missa. 2705
Rosa
Toma esse lenço, borracho. 2706
Medronho
Mostra. 2707
Rosa
Alimpa.
Medronho
Molha.
Rosa
Toma
Medronho
Estou já mais descorado? 2708
Rosa
Bem estás. 2709
Medronho
Que te pareço?
Rosa
Que me pareces. 2710
Medronho
Zombamos?
Rosa
À fé. 2711
Medronho
Toca.
Rosa
Toco.
Medronho
Lindo.
Rosa
Mas antes creo que um trago 2712
melhor tocaras agora. 2713
Medronho
Oh, quem me vira corado 2714
antes com esse vermelho. 2715
Rosa
Pois vem, porque eu quero dar-to. 2716
Medronho
Dessa cor quero os ciúmes 2717
que, sendo, como está claro, 2718
filhos bastardos de amor, 2719
se por bastardos os trato 2720
também Baco tem ciúmes, 2721
pois se compõem de bastardo. 2722
(Vão-se.)

Terceira Jornada

(Sai o Infante e Dona Maria, dadas as mãos.)
Infante
Agora, sim que vejo 2723
cumprido meu desejo 2724
agora sim que a mando resoluto 2725
gozo de meu amor o doce fruto 2726
agora sim que logro venturoso 2727
a ventura de ver-me vosso esposo 2728
que amor, que tudo alcança e facilita, 2729
em possessão ditosa solecita 2730
gozar-se em doces laços 2731
abrindo braços e apertando abraços. 2732
Dona Maria
Estes vos dou, Infante, 2733
já como a vossa esposa e como amante 2734
pois porque al fim me viste bem lograda 2735
para sempre convosco estou casada 2736
porque é desluzimento 2737
amor que nam se ordena a casamento. 2738
Infante
Mil parabéns vos dou de Dona Maria. 2739
O sol, autor do dia, 2740
quando deixar as águas neptuninas, 2741
torquezadas cortinas 2742
do leito azul de Tétis, que obediente 2743
lhe corre, lá na casa do Ocidente 2744
e quando ao deos nocturno a porta abrindo 2745
for as horas do dia destinguindo 2746
em seu carro luzente 2747
d’entre os belos topázios do Oriente 2748
vendo os raios divinos 2749
que ostentam vossos olhos perigrinos 2750
deixando logo seu dourado carro 2751
baxe, alegre e bizarro, 2752
para servir somente de juolhos 2753
às mininas de vossos lindos olhos 2754
porque no céu bem podem por melhores 2755
sustutuir de sol luzes maiores. 2756
Ofereçamos a Aurora 2757
de pérolas, que chora 2758
belíssimas grinaldas. 2759
Flora, vós de tapetes de esmeraldas 2760
a Primavera, flores e boninas 2761
sirvam-vos estas fontes cristalinas 2762
de espelho, a vossa vista sempre bela 2763
alegre-se com ela 2764
este jardim de flores matizado 2765
cubra-se de matizes todo o prado 2766
vista-se de alegria 2767
o campo, o monte, o vale, a selva humbria 2768
cantem as belas ninfas 2769
corram sempre risonhas estas linfas 2770
repitam ledas aves 2771
doces endechas e canções suaves 2772
as plantas reverdeçam 2773
os bosques se guarneçam 2774
de boninas e cores 2775
dispam-se de rigores 2776
as feras desses montes 2777
mostrem-se os horizontes 2778
cobertos de escarlata 2779
estas fontes de prata 2780
correndo transparentes 2781
banhem sonoras flores diferentes, 2782
seu manto estenda neste campo flora, 2783
cantem as de Hipocrene em voz sonora 2784
e mostre esta alameda 2785
movendo as folhas que me escuta leda 2786
vinci feniceos anos 2787
sem desvelos tiranos 2788
queixumes da ventura 2789
gozando sempre vossa fermosura 2790
de alegres passatempos 2791
tendo em todos os tempos 2792
novas felicidades 2793
glórias de eternidades 2794
eternas alegrias 2795
alegres noites e felizes dias. 2796
(Sai Rosa e Medronho .)
Rosa
A dar-te mil parabéns 2797
te vimos, senhora, a ver 2798
cheos de gosto e prazer 2799
do novo estado que tens. 2800
Nesse amoroso troféu 2801
sem que a morte te devida 2802
gozes mais anos de vida 2803
que tem estrelas o céu. 2804
Tal ventura tenhas que 2805
jamais não vivas ciosa 2806
que esta pensão rigorosa 2807
paga quem não guarde fé. 2808
Nesta companhia tal 2809
logres estrela tão boa 2810
que te aclame ? por Lisboa 2811
rainha de Portugal 2812
e tão conformes vivais 2813
que sendo dous devididos 2814
digam que estais tão unidos 2815
que pareceis um, não mais. 2816
Vivei com muita alegria 2817
rendendo graças aos céus 2818
por vos haver dado Deos 2819
tão fermosa companhia. 2820
Infante
Só a Deos, nesta ocasião, 2821
dou as graças de ser vosso. 2822
Dona Maria
Só com amor pagar posso, 2823
esposo, tanta afeição. 2824
Medronho
Pois eu, como te direi 2825
senhor, o que vejo em ti? 2826
Tal prazer recebo em mi 2827
que ser papa desejei 2828
porque assim em gosto tal 2829
quando contigo falasse 2830
tantas bênças te lançasse 2831
que igualem com o missal. 2832
Cantem os músicos logo, 2833
tracem-se festas estranhas, 2834
comam-se muitas castanhas 2835
todas assadas no fogo. 2836
Mais de cem mil boticários 2837
toquem seu almofarices, 2838
tomem-se pelos narices 2839
tabaco por modos vários. 2840
Comam-se muitos pepinos 2841
beringelas e bananas, 2842
vendam-se pelas cabanas 2843
os autos de Valdevinos. 2844
Tanjam em harpas de couro 2845
com trombetas de funil, 2846
toquem-se pipotes mil, 2847
sirva um casado de touro, 2848
e, pera ter tudo graça, 2849
nesta festa, por devisa 2850
saiam correndo em camisa 2851
cem bruxas por toda a praça. 2852
Infante
Que bem a festa traçaste. 2853
Rosa
Nunca outra vejas melhor 2854
em teus dias. 2855
Medronho
Pois, senhor,
se da festa te pagaste, 2856
pera ajuda dela intento 2857
pedir-te certas mercês 2858
porque é justo que mas dês 2859
em dia de casamento. 2860
Confiado nisto quero 2861
dar-te este memorial 2862
porque de ti, libaral, 2863
famoso despacho espero. 2864
Infante
Mostra. 2865
Medronho
Meus serviços nele
todos cifro desta vez 2866
e se poucos nele vês 2867
outros tenho fora dele. 2868
((Dá-lhe o memorial.))
O que nele mais atento 2869
é que o ofício, senhor, 2870
me dês de monteiro-mor 2871
porque no monte pretendo 2872
como Medronho viver. 2873
Infante
Dous mil cruzados em pago 2874
de me servires te pago. 2875
Medronho
Deixa-me, infante, sequer 2876
descalçar-te este sapato 2877
pera te beijar no pé, 2878
por que ninguém cuide que 2879
fingo que o sapato te ato. 2880
Dona Maria
Eu do mestrado de Cristo 2881
que administradora sou 2882
também a Rosa lhe dou 2883
uma tença. 2884
Rosa
Bem, com isto
pagas mais do que me deves. 2885
Medronho
Pois já tenho tanta renda 2886
há quem casar-se pretenda? 2887
Rosa, se a sofrer te atreves 2888
achaque de casamento 2889
com todos cinco sentidos 2890
o menor de teus maridos 2891
serei se assi te contento, 2892
porque havendo dous casados 2893
parece fim de comédia. 2894
Rosa
Antes parece tragédia. 2895
Medronho
Porquê? Se estão desposados 2896
nossos amos? 2897
Rosa
Por casar-nos
antes que a comédia acabe. 2898
Medronho
Quem a história desta sabe 2899
nada terá que notar-vos. 2900
Casar-nos aqui convém 2901
que não é cousa roim 2902
que cada um se casa al fim 2903
adonde lhe está mais bem. 2904
E a esses ossos me toca 2905
pois se lembram nossos amos 2906
de dar-nos com que comamos. 2907
Rosa
São neve e cristal de Rosa. 2908
Medronho
Não são senão, voto a Deos, 2909
tudo polpa na verdade. 2910
Oh que mão sem alvaiade. 2911
Dona Maria
Deixem-vos lograr os céus. 2912
Infante
Por ser cousa mui vulgar 2913
música nos casamentos 2914
saiam com seus instrumentos 2915
os músicos a cantar. 2916
(Saem os músicos.)
Músico
Aqui nos apresentamos 2917
pera em tudo obedecer. 2918
Infante
Cantai e, se puder ser, 2919
não tempereis. 2920
Músico
Não estamos
pera a nenhum aguardar 2921
se de temperar se acorda 2922
que me dá tratos de corda 2923
qualquer nécio temperar. 2924
(Cantam:)
[MÚSICOS]
Entre aquele álamo verde 2925
queixas formava de amor 2926
breve cítera de pena 2927
um ramalhete com voz. 2928
Ai que rigor 2929
queixar-se sem remédio por amor. 2930
Lágrimas verte queixoso 2931
queixas canta em triste tom 2932
que se o cantar alevia 2933
o chorar aumenta a dor. 2934
Ai que rigor 2935
queixar-se sem remédio por amor. 2936
Venturoso aquele que 2937
amor nunca exprimentou 2938
pois até um passarinho 2939
se sabe queixar de amor. 2940
Ai que rigorI 2941
queixar-se sem remédio por amor. 2942
(Enquanto estão cantando, sai a infanta ao pano, e acabando diz:)
Infanta
Música neste jardim, 2943
ai Deos, a quem se dará? 2944
Mas quiçá que o infante seja 2945
quem a música vem dar. 2946
D'entre estas ramas oculta 2947
quero ver a quem se dá. 2948
se também (como a de Orfeu) 2949
estas trás si não levar. 2950
(Esconde-se entre umas ramas enquanto os músicos tornam a cantar.)
(Cantam os músicos:)
[MÚSICOS]
Entre aquele álamo verde 2951
queixas formava de amor 2952
breve cítera de pena 2953
um ramalhete com voz. 2954
Ai que rigor 2955
queixar-se sem remédio por amor. 2956
(Vão-se os músicos.)
Infante
Se comparar com a luz do sol quisesse 2957
(Dona Maria) vossa fermosura 2958
e se com sangue sobre neve pura 2959
a cor de vosso rosto engrandecesse 2960
se nome de robis à boca desse 2961
(que um brinquinho de cravo me afigura) 2962
e com a Rosa de melhor frescura 2963
comparar vossa graça pretendesse 2964
se chamasse trençados de ouro fino 2965
vossos cabelos em que a natureza 2966
mostrou de seus poderes o tesouro 2967
fora grande ousadia e desatino 2968
pois vence vossa angélica beleza 2969
rosa, cravo, rubis, sol, ouro. 2970
Medronho
Advirte, senhor, que é tarde 2971
e vamo-nos acostar 2972
que temo muito os serenos 2973
que me fazem grande mal, 2974
e, já que recém-casado 2975
com Dona Maria estás, 2976
não faças a noite curta 2977
que larga tomara mais, 2978
que, pardês, quisera agora 2979
lá na Noruega estar 2980
por ter seis meses de noite 2981
só pera dormir em paz. 2982
Infante
Dizes bem, daqui nos vamos. 2983
(Faz a Infanta ruído entre as ramas.)
Mas aguarda, que ali está 2984
bolindo entre aquelas ramas 2985
alguém que traição nos faz. 2986
Medronho
Alguma bruxa, senhor, 2987
imagino que será 2988
que anda por baxo da folha 2989
por se ter untado mal. 2990
(Tornam a bulir as ramas.)
Infante
É força reconhecer 2991
quem nos espreita sagaz. 2992
Desembainha a espada a tempo que Dona Maria se abraça com ele e fere-se numa mão. 2993
Dona Maria
Esposo, senhor, detém-te! 2994
Infante
Solta, desvia-te lá. 2995
Dona Maria
Ai que me feriste, Infante. 2996
Infante
Viva o céu, que me farás 2997
matar-me com esta espada 2998
pois com ela te fiz mal. 2999
Que desastre! 3000
Dona Maria
Que presságio!
Rosa
Caso estranho! 3001
Medronho
Mau sinal.
Dona Maria
Bem dizes, infaustas bodas, 3002
pois começo a celebrar 3003
com sangue as bodas primeiras, 3004
anúncio de um grande mal. 3005
(Sai a Infanta d'entre as ramas.)
Infanta
Que é isto, Dona Maria? 3006
Medronho
Há tal cousa? 3007
Rosa
Quem viu tal?
Infante
Que ela fosse. 3008
Dona Maria
Foi desgraça.
Infanta
Que tens, que ferida estás? 3009
Dona Maria
Tu, alteza, teve a culpa. 3010
Infanta
Sinto de te ocasionar 3011
tal ferida. Toma presto 3012
e at’a com esse cendal. 3013
((Dá-lhe o cendal.))
Ouvi cantar no jardim 3014
baxei, cheguei até cá 3015
pera ajudar-vos a todos 3016
estas bodas celebrar. 3017
Medronho
Não cuides que estão de veras 3018
casados, que voto a tal 3019
que estamos representando 3020
as bodas de Cananá. 3021
Por Deos, que esta bruxa infanta 3022
ouviu tudo. 3023
Infanta
Bem está.
Deste novo estado Infante 3024
parabéns vos quero dar 3025
mil anos vós gozeis ambos 3026
em tálamo conjugal. 3027
Infante
Os pés bejo a vossa alteza 3028
por favor tão singular. 3029
Viva o céu, que me há pesado 3030
de que a Infanta saiba tal 3031
nem que com dona Maria 3032
estou desposado já. 3033
Dona Maria
Licença me dê tu’alteza 3034
por que esta mão vá curar. 3035
Infanta
Quem sem licença se casa 3036
tem licença pera o mais 3037
mas à fé que desta raiva 3038
desta pena, este pesar, 3039
eu me vingue, e deste Infante 3040
que comigo usou tão mal 3041
que ũa molher ofendida 3042
nunca sabe perdoar. 3043
Infante, vinde comigo. 3044
Infante
Obedeço ao que mandais. 3045
(Vão-se todos três.)
Medronho
Cê, mondongueira! Que digo? 3046
Com quem falo? Escute cá. 3047
Rosa
Que temos, ouque me dá 3048
de estar casado comigo? 3049
Medronho
Sabes, olhos de cachucho, 3050
que estar comigo casada 3051
é vida mais apertada 3052
do que ser frade capucho? 3053
Rosa
Sei que num hábito desses 3054
ver-te mui cedo te espero 3055
porque então cantar-te quero 3056
um requies todos os meses. 3057
Medronho
Por são Vasco, que um capuz 3058
cedo por ti vestirei 3059
que mui pouco sofrerei 3060
deste matrimónio a cruz. 3061
Rosa
Mau agouro por ti venha 3062
pois já matar-me desejas. 3063
Medronho
Não há casado que envejas 3064
ao viúvo não tenha. 3065
Rosa
Pera que casar querias 3066
sendo ainda tão moderno? 3067
Medronho
Porque estas noites de inverno 3068
sem companhia são frias. 3069
Rosa
Mas oh que frio que estás 3070
vem-te comigo deitar. 3071
Medronho
Receo alagado estar. 3072
Rosa
Ligado, milhor dirás. 3073
Medronho
Seja ligado, ou legado, 3074
que nada disso aproveita. 3075
Mas vamos, que desta feita 3076
hei de ver se sou castrado. 3077
Rosa
Bode me parecerás 3078
se castrado queres ser. 3079
Medronho
Se bode te parecer 3080
também tu cabra serás. 3081
(Vão-se.)
(Sai a Infanta e Fadrique.)
Fadrique
Até quando, ingrata Infanta, 3082
até quando, Infanta ingrata, 3083
matar-me teu desdém trata 3084
por querer-te com fé tanta? 3085
Se essa beleza me encanta 3086
como à de Circe rendido 3087
culpa não hei cometido 3088
vencendo-me teu amor. 3089
Mas ai, que culpa maior 3090
que confessar-me vencido? 3091
Neste vencimento quer 3092
amor ter por mais vitória 3093
ficar vencido com glória 3094
do que sem glória vencer. 3095
Por prémio de meu querer 3096
outra não quero melhor 3097
que estar vencido de amor 3098
ante esses olhos rendido 3099
que é glória pera um vencido 3100
ter um grande vencedor. 3101
Vencer teu desdém procuro 3102
e não sei, bela inimiga, 3103
como te não vence e obriga 3104
esta fé, este amor puro. 3105
Se em querer-te me asseguro 3106
duvido da segurança 3107
pois me tem minha esperança 3108
de todo desconfiado 3109
que perder por confiado 3110
é mui nécia confiança. 3111
Se desconfio de ti 3112
a culpa, senhora, tem 3113
esse teu tanto desdém 3114
com que me tratas assi. 3115
Se te confesso, ai de mi, 3116
o muito com que te adoro 3117
padeço, suspiro, choro, 3118
e das feridas sentido 3119
não sentes ver-me ferido 3120
como Angélica a Medoro. 3121
Ea ingrata, quem pudera 3122
dessa luz e vista bela 3123
viver ausente, sem vê-la 3124
inda que ausente morrera. 3125
Se quem tanto te venera 3126
jamais espera favor 3127
viver ausente é melhor 3128
por não ver seu mal presente 3129
que tal vês tiranamente 3130
esquivança aparta amor. 3131
Infanta
Por meu conselho te dera 3132
que te apartasses de mi 3133
que pode bem ser que assi 3134
algum amor te tivera. 3135
Se em partir-se persevera 3136
quem contra amor se descarta 3137
quiçá que antes que se parta 3138
obrigue em partir também 3139
que sempre parece bem, 3140
todo o amante que se aparta. 3141
Fadrique
Se confessas que obrigar-te 3142
poderei com me apartar, 3143
a troco de te obrigar 3144
quero partir e deixar-te. 3145
E pera em tudo agradar-te 3146
vou ordenar a partida 3147
que inda que me custe a vida 3148
a partir amor me chama, 3149
que a qualquer ingrata dama 3150
castiga uma despedida. 3151
(Vai-se.)
Infanta
Tal estou que me há pesado 3152
de ver que tão mal o trato, 3153
porque perder qualquer trato 3154
não deixa de dar cuidado. 3155
Temo que estando apartado 3156
viva de mim esquecido 3157
e nada disto duvido 3158
pera ter mais que sintir 3159
pois vejo que trás partir 3160
nam há mais que ter partido. 3161
(Vai-se.)
(Sai a rainha com Garcia Afonso e Diogo Afonso.)
Rainha
Adonde a infanta vistes? Que sem elaI 3162
tratar quero um pesar que me quebranta. 3163
Garcia
Daqui se vai agora a infanta bela. 3164
Rainha
Folgo por que não saiba disto a infanta 3165
neste caso que tanto me desvela 3166
(por ser negócio de importância tanta) 3167
segredo, amigos, e conselho peço 3168
que um bom conselho estorva um mau sucesso. 3169
Garcia
Em nome aqui de todos te prometo 3170
de servir-te fiel, como constante. 3171
Rainha
Já sabeis que casada está em secreto 3172
Dona Maria Teles c'o infante 3173
(a Beatriz do que digo me remeto) 3174
pois nas bodas se achou prova bastante. 3175
Diogo
Bem sabemos que quer Dona Maria 3176
ver se pode reinar por esta via. 3177
Rainha
Pois por que lhe atalhemos seus intentos 3178
(que excedem as maiores esperanças) 3179
amigos, escutai-me agora atentos 3180
que em vós tenho librado as seguranças 3181
em que estribo estes altos pensamentos. 3182
Eu vos prometo cargos e privanças 3183
se esta minha facção tam importante 3184
fomentardes leais contra o infante. 3185
Garcia
Tu, senhora, és rainha e a ti se deve 3186
a coroa do reino lusitano. 3187
Rainha
Pois contra quem ousado se me atreve 3188
sem temer da fortuna um desengano 3189
pelas voltas que dá em tempo breve 3190
hei traçado valer-me de um engano 3191
do qual somente podes ser Ulisses 3192
só por que em teu engenho te eternizes. 3193
Amigo, esta traição que te cometo, 3194
é digna de louvor e nam te infama, 3195
restaurador da pátria te prometo 3196
que há de aclamar-te o tempo, o povo, a fama. 3197
Consegue esta facção como discreto 3198
pois o mundo por tal assi te aclama, 3199
livrando o reino (não sem glória pouca) 3200
do cativeiro desta Circe louca. 3201
Faze com que Dom João se persuada 3202
que lhe faz traição Dona Maria 3203
porque uma indústria tenho já traçada 3204
com que te dê mais ânimo e ousadia, 3205
tal que nesta ocasião tam acertada 3206
possa enganar a mesma fantesia 3207
desso infante, enganando-se com Rosa 3208
que lhe faz tanta ofensa sua esposa. 3209
Isto com Rosa tenho já traçado 3210
(se bem o fim não sabe deste enredo) 3211
porque lhe tenho dito e declarado 3212
que me importa esta noite com segredo 3213
apurar as sospeitas de um cuidado 3214
pondo-lhe nesta parte grande medo 3215
sob pena de que a vida perderia 3216
se este engano algum tempo descobria. 3217
Porque lhe declarei que meu intento 3218
era só intentar por esta via 3219
estrovar de Fadrique um casamento. 3220
Para isto, ser a infanta fingiria 3221
vestindo-se com grande paramento 3222
num vestido que traz Dona Maria 3223
por que lhe fale assim por arte tanta 3224
que imagine Fadrique que é a infanta. 3225
Isto Rosa fará de sua parte 3226
tomando-lhe um vestido em que, galante, 3227
se vista de tal sorte e com tal arte 3228
que por Dona Maria a julgue o Infante 3229
e viva o céu de em meu governo dar-te 3230
tanta parte que a todo o mundo espante, 3231
pois tanto te darei, com tal sobejo, 3232
que os lemites exceda a teu desejo. 3233
Garcia
Causa tam justa deves principiá-la 3234
pois quando a consegui-la mais me atrevo 3235
menos tenho ocasião para deixá-la 3236
se amor da pátria ante os olhos levo; 3237
de morrer nesta empresa ou de acabá-la 3238
palavra aqui te dou que cumprir devo 3239
e me parto a tratar deste negócio 3240
que empresas grandes não permitem ócio. 3241
(Vai-se.)
Diogo
Eu, que sempre a servir-te me acomodo 3242
como leal vassalo e verdadeiro, 3243
pois nunca em teu serviço de algum modo 3244
jamais segundo fui, por ser primeiro, 3245
nam sendo dos que o mundo ofrecem todo 3246
e nada sabem dar por derradeiro 3247
aos mais nobres sentidos farei claro 3248
(que são os olhos) este engano raro. 3249
(Vai-se.)
Rainha
Que bem conheci logo desta sorte 3250
o génio que este tem para um engano. 3251
Nunca faltam traidores em a corte 3252
aptos para traçarem qualquer dano. 3253
dar a Dona Maria intento morte 3254
se é que aspira ao cetro lusitano, 3255
que pouco em subir tanto persevera 3256
quem passar quis além de sua esfera. 3257
(Vai-se.)
(Sai o infante com Garcia Afonso e Dom Afonso.)
Garcia
Isto, Infante, me mandou 3258
que te dissesse a rainha 3259
como quem tanto lhe pesa 3260
de que com Dona Maria 3261
estejas casado já, 3262
porque pensamento tinha 3263
de casar-te co a infanta 3264
para que por esta via 3265
pudesses vir a reinar. 3266
Porque por direita linha 3267
e por morte de Fernando 3268
o reino te competia 3269
se com a infanta casasses; 3270
suposto que ela não tinha 3271
filho varão que pudesse 3272
herdar esta monarquia, 3273
que mais desejava ver-te 3274
casado com sua filha 3275
de que ser ela molher 3276
(o que não consenteria) 3277
do Duque de Benavente 3278
com quem casar solecita 3279
como se tem assentado 3280
em as cortes de Leiria. 3281
Pois mais rezão era, infante, 3282
que este império possuíras 3283
que fora de teus avós 3284
casando como convinha 3285
com Beatriz tão singular 3286
que não os que vem por linha 3287
del rei dom Henrique, que 3288
neste império e monarquia 3289
nos tem feitos tantos danos 3290
com tantas guerras contínuas 3291
como experimentado temos 3292
à custa/a custas de tantas vidas. 3293
Infante
Amigo, bem desejara 3294
que isso que diz a rainha 3295
pudesse surtir efeito 3296
nesta ocasião tam precisa 3297
se nesta em que agora estou 3298
livre (como ante) me vira 3299
pera poder conseguir 3300
esse intento da rainha, 3301
mas a impossibilidade 3302
me acobarda e desanima 3303
pois vejo que já casado 3304
estou com Dona Matia. 3305
Garcia
Tudo, infante, tem remédio 3306
se este aplicá-lo te animas. 3307
Infante
Como remédio, se estou 3308
casado? 3309
Garcia
Cousa é sabida
que Dona Maria Teles 3310
te faz traição. 3311
Infante
Quem podia
tomar tal atrevimento 3312
se não tu? Queres que a vida 3313
te tire com esta adaga 3314
pois que com tanta ousadia 3315
te atreves a dizer tal? 3316
Bárbaro, que determinas? 3317
Garcia
Jesus, tu, adaga em meu peito? 3318
Infante
Hás visto fonte mais limpa 3319
cristal mais resplandecente 3320
corrente mais cristalina 3321
neve mais cândida e pura 3322
prata mais bela e mais fina 3323
arminho mais alvo e branco 3324
flor mais intacta e bonita 3325
luz mais clara e transparente 3326
sol, estrela mais altiva 3327
que se atreva a competir 3328
com a honestidade e vida 3329
de Dona Maria Teles, 3330
honra desta monarquia 3331
em quem mais claros se vem 3332
céu, estrelas, raios, dia? 3333
Pois por que, infame, te atreves 3334
a pôr a boca atrevida 3335
naquela que em excelências 3336
vence as romanas antigas? 3337
Garcia
Sabe que é cousa tão certa 3338
e tão fora de mentira 3339
isto que, infante, te digo 3340
(como quem tanto te estima) 3341
que Diogo Afonso que aí está 3342
é testemunha de vista 3343
a quem me remeto agora 3344
pera que o demais te diga. 3345
Infante
Dize-me, amigo, o que viste, 3346
conta-me, por tua vida. 3347
(Ai que pena tão cruel) 3348
minha desonra e desdicha! 3349
Oh, quem nunca se casara 3350
por que em transe não se vira 3351
de perder, casando, a honra 3352
que sem ser casado tinha! 3353
Quem viu maior desventura 3354
que a jóia de mais estima 3355
de maior valor e preço 3356
(prenda em que tanto se arrisca) 3357
estar sujeita ao mau trato 3358
de ũa molher fementida? 3359
Ah céu, que em raiva me abraso 3360
e me estou comendo em ira. 3361
Diogo
Por não dar-te este desgosto 3362
esta traição te encobria 3363
e sabe Deus que me pesa 3364
de chegar a descobri-la. 3365
Viva o céu, que antes tomara 3366
que a terra me consumira 3367
e que me abrasasse um raio 3368
fazendo-me em pó e cinza 3369
que um leão me espedaçasse 3370
que um basilisco me vira 3371
que um áspide me mordesse 3372
que me picasse ũa bíbora 3373
antes que ver com meus olhos 3374
o que sem eles não vira 3375
porque quisera cegar 3376
por não ver quem te ofendia 3377
mas quem te serve leal 3378
não te ofende se te avisa 3379
do que te pode ofender 3380
por que ofendido não vivas. 3381
Sabe, infante, que há na corte 3382
quem tua esposa solecita 3383
e com quem foi menos casta 3384
do que, a ser quem é, devia. 3385
À noite pelo jardim 3386
certo fidalgo a visita 3387
e no paço, serão, festas 3388
a galantea de dia. 3389
Se esta verdade melhor 3390
averiguar determinas 3391
acolhe ao jardim de noite. 3392
Quere-lo mais claro ainda? 3393
Infante
Que isto sofro e me reporte! 3394
Vai-te de aqui, que me obrigas… 3395
Diogo
Senhor… 3396
Infante
A dar-te…
Diogo
Mal pagas…
Infante
Mil mortes. 3397
Diogo
A quem te avisa!
Que se esta muita maldade 3398
tanto, infante, não sentira 3399
não me atrevera a dizer-ta 3400
nem menos a descobri-la 3401
mas vou-me porque te enfadas 3402
de que verdade te diga 3403
que hoje só privam na corte 3404
falsidades e mentiras. 3405
(Vai-se.)
Garcia
Infante, aos que assim te dizem 3406
verdades tam conhecidas 3407
com ânimo de servir-te 3408
sem lisonjas fementidas 3409
não deves tam mal tratá-los 3410
com tal desprezo e inomínia 3411
desobrigando inimigo 3412
a quem amigo te obriga 3413
que o que desta sorte ofende 3414
a quem verdade lhe afirma 3415
é bem que viva ofendido 3416
porque ofensa não castiga. 3417
(Vai-se.)
Infante
Apurar ofensas tantas 3418
obrigação é precisa 3419
porque a honra mais segura 3420
se há tropeçado periga 3421
e quem se põe a perigo 3422
quando perigando arrisca 3423
se perigar arriscado 3424
no risco se precipita. 3425
Quero apurar isto mais. 3426
Que haja quem livre me diga 3427
que se não castigo ofensas 3428
que é bem que ofendido viva! 3429
E que não lhe dou a morte 3430
tirando-lhe logo a vida 3431
que repitir as ofensas 3432
é maior ofensa ainda. 3433
Viva Deus de castigá-las 3434
com tal castigo que sirva 3435
de exemplo a saberem todos 3436
como ofensas se castigam. 3437
E com esta própria adaga 3438
hei de desfazer um dia 3439
deste ídolo que adorei 3440
o altar em que se sustinha 3441
que como tam falso foi 3442
bem merece esta ruína 3443
pois quem se deixa arruinar 3444
presto há de ver a caída. 3445
Quem cuidara, falsa aleive, 3446
molher torpe e fementida, 3447
que àquele a quem mais te adora 3448
e a quem mais teu bem estima 3449
tratasses com tal maldade! 3450
Não sei como me reprima 3451
mas beberei, dessangrando-te, 3452
esse sangue que te anima. 3453
Honra, vinganças, verás 3454
de tanta desonra minha 3455
que dessimular castigos 3456
os delitos facelita. 3457
(Vai-se.)
(Sai Dona Maria muito triste com Rosa.)
Rosa
Que triste melanconia 3458
te obriga a chorar, senhora, 3459
desde que recorda a aurora 3460
até que adormece o dia? 3461
Porque essa muita tristeza 3462
que em matar-te não faz pausa, 3463
me obriga a saber a causa 3464
de tanta pena e aspereza. 3465
Teus pesares comunica 3466
a quem, piadosa, te assiste 3467
que sempre descansa um triste 3468
enquanto seu mal publica. 3469
Algum secreto desgosto 3470
em teu peito está sujeito 3471
porque os segredos do peito 3472
logo aparecem no rosto. 3473
Não te divirtem as flores 3474
de que este jardim se esmalta 3475
tão belas que não lhe falta 3476
mais que dizerem-te amores? 3477
Não te divertem as aves 3478
que, ramalhetes com voz, 3479
com passo e salto veloz 3480
cantam endechas suaves? 3481
Não te alegra essa campina 3482
alcatifada de flores 3483
de variedade de cores 3484
formada uma tela fina? 3485
Não te diverte (senhora) 3486
veres esses frescos prados 3487
todos de aljofar bordados 3488
que a aurora sobre eles chora? 3489
Não te diverte a frescura 3490
dessas árvores e plantas 3491
que formam de folhas tantas 3492
uma graciosa espessura? 3493
Não te divertes em vendo 3494
esse arroio murmurando 3495
de jaspe em jaspe saltando 3496
e de flor em flor correndo? 3497
Dona Maria
Bem vejo que divertir-me 3498
tão várias cousas puderam 3499
se a caso lugar me deram 3500
mais do que para sentir-me. 3501
Rosa
Conta-me secretamente 3502
a dor que tantas te ordena 3503
que se diminue a pena 3504
se se diz a quem a sente. 3505
Que tens? Que cousa te faz 3506
padecer tanta tristeza 3507
que parece que te pesa 3508
de ver que casada estás? 3509
Não te obriga a que me fales 3510
esta minha compaixão? 3511
Desabafa o coração 3512
com me contares teus males. 3513
Dona Maria
Não solecito aliviá-los 3514
meus males com referi-los 3515
mas morrerei de senti-los 3516
já que vivo de contá-los. 3517
Sabe, Rosa, que sonhava 3518
uma das noites passadas 3519
que morria a punhaladas 3520
com que o Infante me matava. 3521
E despois que alcançou bem 3522
que inocente me matou 3523
tanto disto lhe pesou 3524
que se quis matar também. 3525
Acordei achando então 3526
mil lágrimas derramadas 3527
que são lágrimas sonhadas 3528
presságios do coração. 3529
Era este sonho ao romper 3530
da alva, nas portas do oriente 3531
quando o sol adolecente 3532
se deixava um pouco ver. 3533
Esse crédito se dá 3534
quanto pode a humana fé 3535
aos que em sonhos dizem que 3536
verdades sonhadas há. 3537
Vê se bastante ocasião 3538
tenho pera triste ser 3539
pois do que há de acontecer 3540
é presságio o coração. 3541
Rosa
Jesus, senhora, é possível 3542
que isso cuidado te dê 3543
quando em sonhos sabes que 3544
nam há verdade infalível? 3545
Deixa essa imaginação 3546
com que os sentidos enleas 3547
e nada em sonhos mais creas 3548
porque os sonhos sonhos são. 3549
Do Infante que não se muda 3550
em querer-te e guardar fé 3551
não cuides tão mal porque 3552
contra si faz quem mal cuida. 3553
Dona Maria
Deixa-me, Rosa, ficar 3554
um pouco somente aqui 3555
pera ver se posso assi 3556
tributo a Morfeu pagar. 3557
Rosa
Dizes bem, que o não dormir 3558
aumenta a melanconia. 3559
Dona Maria
Cerra essa porta e vegia 3560
não deixes alguém cá vir. 3561
(Vai-se Rosa.)
(Estará no teatro uma alcatifa e coxim, em que se deita Dona Maria a dormir, e sai o Infante só:)
Vinganças solecito 3562
porque ofensas vingar não é delito 3563
e quem se está julgando 3564
ofendido de amor ofende amando 3565
pois amor não consente 3566
que tributo lhe paguem docemente 3567
fulminando-lhe ingratos 3568
tratando falsidades, falsos tratos 3569
que só estão sujeitos 3570
baxos enganos em humildes peitos. 3571
Ai amor quem cuidara 3572
que contra mi enganos fulminara 3573
aquela em quem se viam 3574
quantas nocturnas luzes alumiam 3575
esse globo celeste 3576
a quem com raios de seus olhos veste 3577
mas molher e fermosa 3578
é causa de guardar deficultosa 3579
que nunca tem firmeza 3580
molher com pouco amor, muita beleza. 3581
Mas ai que ao sono entregue 3582
por que seus olhos vendo o sol não cegue 3583
ali dormida vejo 3584
esta inimiga minha em quem desejo 3585
tomar vingança justa 3586
que desta sorte (ai quanto que me custa) 3587
castigar uma ofensa solecito 3588
que tal pena merece tal delito. 3589
(Mete mão à adaga, e quando vai pera lhe dar com ela Dona Maria lhe irá ao que diz o Infante, respondendo-lhe por sonhos:)
Morra esta falsa ingrata. 3590
Dona Maria
Ai Jesus, quem me ofende, ou quem me mata? 3591
Infante
Quem se julga ofendido. 3592
Dona Maria
Pois que culpa, senhor, hei cometido? 3593
Infante
Que maior que ofender-me? 3594
Dona Maria
Aqui minha inocência há de valer-me. 3595
Infante
Viva o céu, que sonhando 3596
comigo desta sorte está falando. 3597
Morra esta fementida. 3598
Dona Maria
Por que intentas, senhor, tirar-me a vida? 3599
Infante
Porque traição me fazes. 3600
Dona Maria
Para culpar-me assi culpas não trazes. 3601
Infante
Dar-te morte mereces. 3602
Dona Maria
O peito adonde estás não atravesses. 3603
Infante
Tirar-me dele aceito 3604
porque não tenho fé em falso peito. 3605
Dona Maria
Esse teu de diamamte 3606
com sangue de meu peito lavra, infante, 3607
que como pelicano 3608
sustento te dará em sangue humano. 3609
Com essa tua adaga 3610
teu nome de meu peito, esposo, apaga 3611
por que não viva, infante, 3612
tão vário nome em peito tão constante. 3613
Ai, quantos fulminarão 3614
enganos com que, infante, te burlarão! 3615
Que tens? Que estás prevendo? 3616
Acaba de matar-me se te ofendo. 3617
Infante
Ai que se está queixando 3618
quando em sonhos comigo vai falando. 3619
Ir-me quero e deixá-la 3620
por não ter coração pera matá-la 3621
porque em vendo seus olhos 3622
estou para adorá-los de juolhos 3623
mas quando me resolvo 3624
se amando parto, mais amante volvo. 3625
Beleza mal lograda 3626
que al fim naceste pera mal fadada 3627
pois tem sempre à perfia 3628
beleza com ventura antepatia 3629
se ventura te falta 3630
nacendo por teu mal com esta falta 3631
queixa-te de ser bela 3632
e nam culpes algũa infausta estrela 3633
que estrela nam domina 3634
beleza tam gentil e peregrina 3635
corrido estou de ver-te 3636
pois nam tenho valor pera ofender-te 3637
mas nisto vou resoluto 3638
que não te ofendo se ofendido volto. 3639
(Vai-se.)
Dona Maria
Aguarda! Escuta! Tem-te! 3640
(Desperta.)
Jesus, que triste sonho e que acidente. 3641
O coração me falta 3642
foge-me o sangue se o calor me falta. 3643
Nenhum sentido acerta 3644
se inda dormida estou ou se desperta 3645
imagino e suponho 3646
que foi tudo ilusão, tudo foi sonho. 3647
Mas já vejo que morro 3648
presságio é este sonho em que discorro 3649
porque imagem da morte 3650
um sábio lhe chamou. Ai dura sorte! 3651
Que morro é cousa certa 3652
que o coração mo diz, que sempre acerta. 3653
Esta melancolia 3654
quimeras fabricou na fantesia. 3655
Ai amor mal logrado 3656
sempre por casamentos desgraçado. 3657
Pois nunca se lograrão 3658
amantes que por firmes se casaram 3659
quem nunca se casara 3660
pera que estando livre livre amara 3661
que prisões da vontade 3662
são mais suaves que as da liberdade 3663
e pois que ma tiraste 3664
por que, tirano amor, me não mataste? 3665
Mas pera que me deixo 3666
levar desta ilusão de que me queixo? 3667
Afora sonho, afora 3668
que não pode matar-me quem me adora. 3669
(Vai-se.)
(Sai Fadrique.)
Fadrique
Alegre venho e contente 3670
vendo que antes de partir-me 3671
a troco de despedir-me 3672
hei de ver meu bem presente. 3673
Sucedeu-me felizmente 3674
esta minha despedida 3675
pois pera partir com vida 3676
a Infanta manda chamar-me 3677
por que havendo de apartar-me 3678
parta esta alma na partida. 3679
Se este bem chego alcançar 3680
conseguindo tanta glória 3681
não quero maior vitória 3682
da glória de meu amor 3683
troque-se em gosto o pesar 3684
que tive em ver que partia 3685
pois converto em alegria 3686
a tristeza de partir-me 3687
vendo que hei de despedir-me 3688
de quem não me despedia. 3689
Rode a fortuna inimiga 3690
que estando amor de meu bando 3691
quando tarde espero um quando 3692
que amor a esperar me obriga. 3693
Já não temo me persiga 3694
rigores de infausta estrela 3695
que pois minha ingrata bela 3696
em glória me troca a pena 3697
se entrar na glória me ordena 3698
já não posso cair dela. 3699
Oh se a noite se parece 3700
que corre com pressa tanta 3701
que parece que se espanta 3702
de ver que tanto esperasse. 3703
Parece que já renace 3704
o dia contente e ledo. 3705
Mas de que me espanto, e enredo 3706
em ver que o dia se aviste? 3707
Pois sei de certo que a um triste 3708
sempre amanhece mais cedo. 3709
(Sai Rosa nos trajos de Dona Maria.)
Rosa
Hoje o papel represento 3710
da infanta Beatriz. Que bem 3711
este vestido me vem 3712
pera seguir este intento. 3713
Enganar Fadrique intento 3714
com este trajo e disfraz 3715
porque a rainha me faz 3716
meter-me em tão grande enredo 3717
que algum mistério e segredo 3718
consigo este engano traz. 3719
Aqui pela Infanta aguarda 3720
Fadrique. Este é que aqui vem. 3721
Fingir-me a Infanta convém. 3722
Fadrique
Muito já a Infanta tarda, 3723
mas quem do dia se guarda 3724
até da noite tem medo 3725
de quem fia seu segredo. 3726
Ela chega. Ânimo, amor 3727
que noutro enredo maior 3728
de novo outra vez me enredo. 3729
Fermosíssima senhora 3730
tão discreta como linda 3731
em cujo rosto se vem 3732
céu, estrelas, raios, dia, 3733
extremo das mais discretas 3734
(quando não das mais esquivas) 3735
glória de toda esta pena 3736
regalo, bem , prémio, dita. 3737
Envolta em tristes endechas 3738
despido esta amarga vida 3739
qual Cisne que, quando morre, 3740
geme, chora, canta, expira. 3741
Se folgais de ver meus males 3742
por que tristemente viva 3743
vosso gosto me conduz 3744
tumba, aromas, urna, pira. 3745
Oh bela Infanta, oh cruel 3746
minha suave homicida 3747
sempre comigo tirana 3748
crua, forte, áspera, esquiva. 3749
Deixai que esta alma vos ame 3750
e como amante vos siga 3751
entregando em vosso céu 3752
coração, alma, olhos, vida. 3753
Pois não é bem que um serafim 3754
de humano tanto se vista 3755
que por cruel e por belo 3756
fira, mate, vença, oprima. 3757
Não duvideis deste amor 3758
animai esta perfia 3759
favorecei meu desvelo 3760
fé, constância, amor, fadiga. 3761
Porque somente em amar-vos 3762
Infanta, prenda querida, 3763
ocupo todas as horas 3764
tempo, instantes, noites, dias. 3765
Aceitai bela senhora 3766
esta adoração devida 3767
que um desdém não muda ũa alma 3768
que ama, quer, adora, estima. 3769
Rosa
Esse desvelo e cuidado 3770
com que vosso amor me obriga 3771
me fez, piadosa, admitir-vos 3772
e aceitar-vos compassiva. 3773
Que quem sabe amar tam bem 3774
que um negado bem conquista 3775
tanto obriga porfiando 3776
tanto obrigando porfia. 3777
(Sai o Infante com Garcia Afonso e Diogo Afonso.)
Fadrique
Se a conrespondência falta 3778
a quem, senhora, é devida 3779
tem-se amor por necedade 3780
e por loucura a porfia. 3781
Infante
Se tal vejo, o coração 3782
me pedaços lhe devida. 3783
Diogo
Neste mesmo lugar juntos 3784
a tais horas (não te afliga) 3785
costumam ambos falar. 3786
Garcia
Daqui podes como espia 3787
ser Argos desta maldade. 3788
Diogo
Pois se não me engana a vista 3789
esses dous são que ali vês. 3790
Que te parece Garcia? 3791
Garcia
Que a ponto estava o engano. 3792
Foi grande acerto por vida. 3793
Infante
No vestido, viva o céu 3794
que aquela é Dona Maria. 3795
Rosa
Já não corresponde, ingrata, 3796
que Fadrique vos estima 3797
que na estimação que faço 3798
amor seu crédito estriba. 3799
Fadrique
Conresponder com amor 3800
é pagar de amor a dívida 3801
que em doce conrespondência 3802
amor com amor se cria. 3803
Rosa
Pagar amor com amor 3804
é de amor usança antiga 3805
e mais livre vos pagara 3806
estando menos cativa. 3807
Trocar desdéns em favores 3808
é satisfação devida 3809
e tal vês: amor que mata 3810
premea quando castiga. 3811
Do vosso estou satisfeita 3812
e me confesso rendida 3813
que mais que se Infante fôreis 3814
vos tenho em maior estima 3815
que quem persevera amando 3816
impossíveis facelita. 3817
Diogo
Ouves aquilo senhor? 3818
Que te parece, é mentira? 3819
Infante
Possível é que cometa 3820
tal baxeza esta inimiga? 3821
Ah fementida molher! 3822
Fadrique
Atar da fortuna minha 3823
a roda esta vez quisera 3824
por que jamais me persiga 3825
dando mais voltas comigo, 3826
que sempre teme a caída 3827
quem por fortuna subiu. 3828
Rosa
Se a temeis como inimiga 3829
prende-a com esta prenda 3830
porque não falta quem diga 3831
que por ser de meus cabelos 3832
vossa sorte e vossa vida 3833
pendente está de um cabelo 3834
nesta ocasião tão precisa. 3835
E se vem pelos cabelos 3836
será bem que vos advirta 3837
que os guardeis como Sansão 3838
de alguma Dalila iníqua. 3839
(Dá-lhe uns cabelos.)
Fadrique
Estes dourados cabelos 3840
sempre do sol envejados 3841
tanto vencem por dourados 3842
quanto cativam por belos. 3843
Mas ai, que em chegando a vê-los 3844
cego de amor e afeição 3845
tanto anela o coração 3846
por ver-me enredado neles 3847
que por morrer preso deles 3848
quisera ser Absalão. 3849
Com rezão se admire a gente 3850
do ouro destes cabelos 3851
tendo junto a esses sóis belos 3852
mina e crisol juntamente, 3853
e se deste ouro excelente 3854
fazer jóias pretendeis 3855
seus quilates não trateis 3856
apurar em pedras finas 3857
porque já das próprias minas 3858
todo vem feito em anéis. 3859
Neste dourado desvelo 3860
conheci, senhora, que 3861
quem vossos cabelos vê 3862
traz a vida em um cabelo, 3863
mas vós com piadoso zelo 3864
mostrais que sem isenção 3865
aceitais a adoração 3866
dos que vem esse tesouro 3867
pois não tendes anel d’ouro 3868
que não tenha um coração. 3869
De que sois sol nam duvido 3870
nacido neste horizonte 3871
porque esse dourado monte 3872
me diz que o sol é nacido, 3873
nele amor tem conhecido 3874
d’ouro fino os luzimentos 3875
e com vários instrumentos 3876
lavra com mil sutilezas 3877
anéis, cadeas, firmezas, 3878
lembranças e pensamentos. 3879
Destes anéis dos cabelos 3880
tenho formado na idea 3881
fazer d’ouro ũa cadea 3882
(prisão de quem chegue a vê-los 3883
de fuzis ricos e belos 3884
me servirão os anéis 3885
donde, infanta, me vereis 3886
preso em tam rico tesouro, 3887
que se a muitos livra o ouro 3888
vós com ouro me prendeis. 3889
Livrar-me desta prisão 3890
já não pertendo algum hora 3891
pois me lançastes, senhora, 3892
prisões d’ouro por grilhão 3893
e se estas o nome dão 3894
de forçado a meus desvelos 3895
por vossos cabelos belos 3896
tão livremente me empenho 3897
que de forçado nam tenho 3898
mais que o estar pelos cabelos. 3899
Com dourada seta amor 3900
matar de amores procura 3901
porque a ferida assegura 3902
com lhe dourar o rigor. 3903
Mas já perdeu seu valor 3904
a seta que em vós retrata 3905
os poderes que recata 3906
pois amor, bela senhora, 3907
dizem que já desde agora 3908
com vossos cabelos mata. 3909
Rosa
Sobre um fio que lançado 3910
tinha um pintor sutilmente 3911
deu Apeles excelente 3912
outro mais fino e delgado; 3913
em vós contemplo cifrado 3914
este mesmo paralelo 3915
pois se eu dei um fio belo 3916
destes outro tão gentil 3917
que por discreto e sutil 3918
podeis partir um cabelo. 3919
Infante
Há tal cousa, ó fementida, 3920
falsa, ingrata e, al fim, molher? 3921
Viva Deus, que hás de perder 3922
a punhaladas a vida. 3923
Aguarda, infame atrevida. 3924
Garcia
Senhor. 3925
Rosa
Gente vem.
Garcia
Detém-te.
Rosa
Fadrique, como prudente 3926
ao jardim vos retirai. 3927
Fadrique
Adeus, adeus. 3928
Rosa
Presto, entrai,
que é conhecida esta gente. 3929
(Entram-se Rosa e Fadrique.)
Garcia
Com que amoroso desvelo 3930
os cabelos celebrou. 3931
Diogo
Imagino que levou, 3932
desta vez, couro e cabelo. 3933
Infante
Por minha honra atropelo 3934
se a não mato, pois que a vi. 3935
Ide-vos ambos daqui 3936
e nada digais. 3937
Garcia
Adeus.
Diogo
Guardem-te, senhor, os céus. 3938
Garcia
Bem nos sucedeu assi. 3939
(Vão-se os dous.)
Infante
Quem havia de cuidar 3940
que isto pudesse caber 3941
em peito de uma molher 3942
despois de casada estar? 3943
Porém, não há que espantar 3944
achar em molher tal paga. 3945
Mas com esta própria adaga 3946
quero, tirando-lhe a vida, 3947
cobrar a honra perdida 3948
que assi paga quem mal paga. 3949
(Entra-se por ũa porta e logo pela outra sai Dona Maria, em fraldelim, como que vem da cama alvorotada com medo.)
Dona Maria
Gente! Criados! Ouvi-me! 3950
Há quem aqui me socorra? 3951
Infante
Morra esta traidora, morra. 3952
(Isto vai dizendo de dentro o Infante batendo na porta.)
Dona Maria
Valei-me céu, acudi-me! 3953
Ai Deus, que o temor me oprime! 3954
Infante
Abre esta porta, traidora, 3955
se a nam queres ver agora 3956
em mil pedaços desfeita. 3957
Dona Maria
Quer-me matar desta feita! 3958
Oh, quem nacida nam fora! 3959
(Dá o Infante na porta, e entra com o punhal na mão.)
Dona Maria
Que é isto, Infante e senhor? 3960
Vós com adaga empunhada 3961
contra mim desembainhada 3962
cheo de ira e rigor? 3963
Como vindes? Que furor 3964
vos obriga a entrar assi? 3965
Há inimigos aqui? 3966
Mas já na reposta vejo 3967
que vos tem dito sem pejo 3968
algũa cousa de mi. 3969
Esposo, Infante, meu bem, 3970
vós contra mim indinado? 3971
Estais de mim agravado 3972
ou agravou-vos alguém? 3973
Em que ofendido vos tem 3974
este amor tam singular? 3975
Quereis acaso matar 3976
quem n’alma vos reconcentra? 3977
Que há homem que a matar entra 3978
e despois tudo é chorar. 3979
Infante
Molher pouco afortunada 3980
em triste ponto nacida 3981
mais que amada fementida 3982
com ser em extremo amada 3983
pois que foste tam malvada 3984
que ofendes a quem te adora 3985
vingar-me em teu sangue agora 3986
é tomar vingança justa. 3987
Mas ai, quanto que me custa 3988
matar-te sendo traidora. 3989
Dona Maria
Aguarda. Deixa-me, tem-te! 3990
Infante
Nam te canses, desta sorte 3991
te deixo com dar-te morte. 3992
Dona Maria
Contra meu sangue inocente 3993
ah, traidor, que injustamente 3994
me matas com tal desonra. 3995
Infante
Morre, que o matar-te me honra. 3996
Dona Maria
Ai Jesus que morta sou! 3997
Ai de mim! 3998
(Vai-se retirando até que cai morta.)
Infante
Vingado estou,
que assim ressucita a honra. 3999
Entra o Infante por ũa porta e sai logo pela outra trás Fadrique, que vem retirando-se do Infante só com adaga e o Infante o comete com espada. 4000
Fadrique
Tem-te, Infante. 4001
Infante
Meu valor
não sabe deter-se a nada. 4002
Fadrique
Deixa-me cobrar a espada, 4003
cobarde. 4004
Infante
Dá-te, traidor.
Fadrique
Nunca me vence o temor. 4005
Infante
Viva o céu de atravessar-te 4006
por ver-te aqui nesta parte 4007
falar com Dona Maria. 4008
Fadrique
Não há tal. Foi fantesia. 4009
Infante
Nam trates de desculpar-te. 4010
(Sai a Rainha, Infanta, Diogo Afonso, Garcia Afonso, Rosa.)
Rainha
Que é isto? Armas donde estou? 4011
Fadrique
Matar-me o infante queria 4012
porque com Dona Maria 4013
diz que falando me achou 4014
e por Deos que se enganou 4015
em presumir tal de mim 4016
porque é tam falso isto assim 4017
que ao tempo que o infante entrava 4018
porque com a infanta estava 4019
me retirei do jardim. 4020
Infanta
Nam há tal. É falsidade! 4021
Fadrique
Pois senhora! 4022
Infanta
Vós comigo?
Fadrique
Podeis negar o que digo? 4023
Infanta
Digo que nam é verdade! 4024
Rosa
Senhores, esta maldade 4025
é justo que aqui publique 4026
por que culpado não fique 4027
ninguém no que eu cometi 4028
pois ser a infanta fingi 4029
por burlar-me de Fadrique. 4030
Infante
Falai vós outros. 4031
Diogo
Cuidei
no vestido que trazia 4032
que era al fim Dona Maria. 4033
Garcia
Também nisso me enganei. 4034
Rosa
Esse vistido tomei 4035
com que melhor me enfeitasse. 4036
(Que isto a Rainha traçasse 4037
e que me obrigue a calar?) 4038
Infante
(Estes, só por não reinar, 4039
fizeram com que a matasse.) 4040
(Sai Medronho.)
Medronho
Saiba vossa majestade 4041
que é morta minha senhora. 4042
Infante
A morte lhe dei agora 4043
cuidando que falsidade 4044
me fazia. 4045
Rainha
Há tal maldade?
A vê-la é razão que acuda. 4046
Medronho
Pois, senhor, por ti direi 4047
contra si faz quem mal cuida. 4048
(Estará no teatro, a uma parte, Dona Maria que aparece morta toda ensanguentada.)
Rainha
Mal lograda fermosura. 4049
Culpa foi nacer tão bela 4050
debaixo de alguma estrela 4051
que influi tal desventura. 4052
Levem logo à sepultura 4053
esse cadáver a quem 4054
honroso túmulo dem. 4055
E vós, infante, ide preso 4056
que de castigar me prezo 4057
delitos como convém. 4058
Infante
Todos al fim me enganaram. 4059
Em falsos não há fiar 4060
pois por não vir a reinar 4061
estes enredos traçaram. 4062
Medronho
De ti, senhor, se burlaram 4063
com que tudo se te muda. 4064
E aqui o senado me acuda 4065
com um vítor, por que assim 4066
tenha a comédia aqui fim 4067
contra si faz quem mal cuida. 4068
Fim.