Gil Vicente

Farsa de Inês Pereira, 1523

Vicente, Gil. Farsa de Inês Pereira (1523) . [on-line] En: Camões, José (dir.) Teatro de autores portugueses do Séc. XVI. Base de dados textual Lisboa: Centro de Estudos de Teatro, Universidade de Lisboa. [15 janeiro 2023] Disponível em: http://www.cet-e-quinhentos.com/

Joan Oleza Simó (Investigador principal) Camões, José (Editor de la edición crítica) Camões, José (Editor digital)

Português · Verso · 1144 versos

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Auto de Inês Pereira.
(Feito por Gil Vicente, representado ao muito alto e mui poderoso rei dom João o terceiro, no seu convento de Tomar. Era do Senhor de 1523.)
(O seu argumento é um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. As figuras são as seguintes: Inês Pereira, sua Mãe, Lianor Vaz, Pero Marques, dous judeus, um chamado Latão e outro Vidal, um Escudeiro com um seu Moço, um Ermitão.)
(Entra logo Inês Pereira e finge que está lavrando só em casa, e canta esta cantiga:)
(Canta Inês:)
[INÊS PEREIRA]
Quien con veros pena y muere 1
qué hará cuando no os viere? 2
(Falado:)
Renego deste lavrar 3
e do primeiro que o usou, 4
ao diabo que o eu dou 5
que tam mau é d’aturar. 6
Oh Jesu, que enfadamento 7
e que raiva e que tormento, 8
que cegueira e que canseira. 9
Eu hei de buscar maneira 10
dalgum outro aviamento. 11
Coitada, assi hei d’estar 12
encerrada nesta casa 13
como panela sem asa 14
que sempre está num lugar. 15
E assi hão de ser logrados 16
dous dias amargurados 17
que eu posso durar viva, 18
e assi hei d’estar cativa 19
em poder de desfiados. 20
Antes o darei ao diabo 21
que lavrar mais nem pontada, 22
já tenho a vida cansada 23
de jazer sempre dum cabo. 24
Todas folgam e eu não, 25
todas vem e todas vão 26
onde querem, senam eu. 27
Ui, que pecado é o meu 28
ou que dor de coração? 29
Esta vida é mais que morta. 30
Sam eu coruja ou corujo 31
ou sam algum caramujo 32
que nam sai senão à porta? 33
E quando me dão algum dia 34
licença, como a bugia, 35
que possa estar à janela 36
é já mais que a Madanela 37
quando achou a aleluia. 38
(Vem a Mãe da igreja e não na achando lavrando diz:)
[MÃE]
Logo eu adevinhei, 39
lá na missa onde eu estava, 40
como a minha Inês lavrava 41
a tarefa que lhe eu dei. 42
Acaba esse travesseiro. 43
Ui, naceu-te algum unheiro 44
ou cuidas que é dia santo? 45
INÊS PEREIRA
Praza a Deos que algum quebranto 46
me tire de cativeiro. 47
MÃE
Toda tu estás aquela. 48
Choram-te os filhos por pão? 49
INÊS PEREIRA
Prouvesse a Deos, que já é rezão 50
de nam estar tam singela. 51
MÃE
Olhade lá o mau pesar. 52
Como queres tu casar 53
com fama de preguiçosa? 54
INÊS PEREIRA
Mas eu, mãe, sam aguçosa, 55
e vós dais-vos de vagar. 56
MÃE
Ora espera assi, vejamos. 57
INÊS PEREIRA
Quem já visse esse prazer. 58
MÃE
Cal-te, que poderá ser, 59
que ante Páscoa vem os Ramos. 60
Nam te apresses tu Inês, 61
maior é o ano que o mês. 62
Quando te nam percatares 63
virão maridos a pares 64
e filhos de três em três. 65
INÊS PEREIRA
Quero-m’ora alevantar. 66
Folgo mais de falar nisso, 67
assi Deos me dê o paraíso 68
mil vezes que nam lavrar. 69
Isto nam sei que o faz. 70
MÃE
Aqui vem Lianor Vaz. 71
INÊS PEREIRA
E ela vem-se benzendo. 72
LIANOR VAZ
Jesu que me eu encomendo, 73
quanta cousa que se faz. 74
MÃE
Lianor Vaz, que é isso? 75
LIANOR VAZ
Venho eu, mana, amarela? 76
MÃE
Mais ruiva que ũa panela. 77
LIANOR VAZ
Nam sei como tenho siso. 78
Jesu, Jesu, que farei? 79
Não sei se me vá a el rei, 80
se me vá ao cardeal. 81
MÃE
E como? Tamanho é o mal? 82
LIANOR VAZ
Tamanho, eu to direi. 83
Vinha agora por ali 84
ò redor da minha vinha 85
e um clérigo, mana minha, 86
pardeos, lançou mão de mi. 87
Nam me podia valer. 88
Diz que havia de saber 89
se era eu fêmea se macho. 90
MÃE
Ui, seria algum mochacho 91
que brincava por prazer. 92
LIANOR VAZ
Si, mochacho sobejava. 93
Era um zote tamanhouço, 94
e eu andava no retouço 95
tam rouca que nam falava. 96
Quando o vi pegar comigo 97
que me achei naquele perigo: 98
assolverei! Nam assolverás! 99
Tomarei! Nam tomarás! 100
Jesu, homem, que hás contigo? 101
Irmã, eu te assolverei 102
c’o breviairo de Braga. 103
Que breviairo ou que praga, 104
que nam quero! Áque del rei! 105
Quando viu revolta a voda 106
foi e esfarrapou-me toda 107
o cabeção da camisa. 108
MÃE
Assi me fez dessa guisa 109
outro no tempo da poda. 110
Eu cuidei que era jogo 111
e ele dai-o vós ò fogo. 112
Tomou-me tamanho riso, 113
riso em todo meu siso, 114
e ele deixou-me logo. 115
LIANOR VAZ
Si, agora ieramá, 116
também eu me ria cá 117
das cousas que me dizia: 118
chamava-me luz do dia. 119
Nunca teu olho verá. 120
Se estivera de maneira 121
sem ser rouca bradara eu, 122
mas logo o demo me deu 123
cadarrão e peitogueira, 124
cócegas e cor de rir 125
e coxa pera fugir 126
e fraca pera vencer. 127
Porém pude-me valer 128
sem me ninguém acudir. 129
O demo, e não pode al ser, 130
se meteu no corpo dele. 131
MÃE
Mana, conhecia-t’ele? 132
LIANOR VAZ
Mas queria-me conhecer. 133
MÃE
Vistes vós tamanho mal. 134
LIANOR VAZ
Eu me irei ao cardeal 135
e far-lh’-ei assi mesura 136
e contar-lh’-ei a aventura 137
que achei no meu olival. 138
MÃE
Nam estás tu arranhada 139
de te carpir nas queixadas. 140
LIANOR VAZ
Eu tenho as unhas cortadas 141
e mais estou trosquiada 142
e mais pera que era isso? 143
E mais pera que é o siso 144
E mais no meo da requesta 145
veo um homem de ũa besta 146
que em vê-lo vi o paraíso. 147
E soltou-me porque vinha 148
bem contra sua vontade. 149
Porém, a falar verdade, 150
já eu andava cansadinha. 151
Nam me valia rogar 152
nem me valia chamar: 153
áque de Vasco de Fóis, 154
acudi-me como sóis. 155
E ele senam pegar: 156
mais mansa Lianor Vaz, 157
assi Deos te faça santa. 158
Trama te dê na garganta. 159
Como isso assi se faz? 160
Isto nam releva nada, 161
tu nam vês que sam casada? 162
MÃE
Deras-lhe má hora boa 163
e mordera-lo na coroa. 164
LIANOR VAZ
Assi fora escomungada. 165
Nam lhe dera um empuxão 166
porque sou tam maviosa 167
que é cousa maravilhosa 168
e esta é a concrusão. 169
Leixemos isto. Eu venho 170
com grande amor que vos tenho, 171
porque diz o exemplo antigo 172
que amiga e bom amigo 173
mais aquenta que o bom lenho. 174
Inês está concertada 175
pera casar com alguém? 176
MÃE
Até ‘gora com ninguém 177
nam é ela embaraçada. 178
LIANOR VAZ
Em nome do anjo bento 179
eu vos trago um casamento. 180
Filha, nam sei se vos praz. 181
INÊS PEREIRA
E quando, Lianor Vaz? 182
LIANOR VAZ
Já vos trago aviamento. 183
INÊS PEREIRA
Porém, nam hei de casar 184
senam com homem avisado, 185
inda que pobre e pelado 186
seja discreto em falar, 187
que assi o tenho assentado. 188
LIANOR VAZ
Eu vos trago um bom marido, 189
rico, honrado, conhecido. 190
Diz que em camisa vos quer. 191
INÊS PEREIRA
Primeiro eu hei de saber 192
se é parvo se é sabido. 193
LIANOR VAZ
Nesta carta que aqui vem 194
pera vós, filha, d’amores 195
veredes vós, minhas flores, 196
a discrição que ele tem. 197
INÊS PEREIRA
Mostrai-ma cá, quero ver. 198
LIANOR VAZ
Tomai. E sabeis vós ler? 199
MÃE
Ui, e ela sabe latim 200
e gramáteca e alfaqui 201
e sabe quanto ela quer. 202
(Lê Inês Pereira a carta, a qual diz assi:)
[INÊS PEREIRA]
Senhora amiga Inês Pereira: 203
Pero Marques vosso amigo 204
que ora estou na nossa aldea, 205
mesmo na vossa mercea, 206
me encomendo, e mais digo: 207
digo que benza-vos Deos 208
que vos fez de tam bom jeito, 209
bom prazer e bom proveito 210
veja vossa mãe de vós. 211
E de mi também assi. 212
Ainda que eu vos vi 213
estoutro dia de folgar 214
e nam quisestes bailar 215
nem cantar presente mi... 216
Na voda de seu avô 217
ou donde me viu ora ele? 218
Lianor Vaz, este é ele? 219
LIANOR VAZ
Lede a carta sem dó 220
que inda eu sam contente dele. 221
(Torna Inês Pereira a prosseguir com a carta:)
[INÊS PEREIRA]
...Nem cantar presente mi 222
pois Deos sabe a rebentinha 223
que me fizestes então. 224
Ora Inês que hajais benção 225
de vosso pai e a minha 226
que venha isto a concrusão. 227
E rogo-vos como amiga, 228
que samicas vós sereis, 229
que de parte me faleis 230
antes que outrem vo-lo diga. 231
E se nam fiais de mi 232
esteja vossa mãe aí 233
e Lianor Vaz de presente. 234
Veremos se sois contente 235
que casemos na boa hora. 236
Dês que nasci até agora 237
nam vi tal vilão com’este 238
nem tanto fora de mão. 239
LIANOR VAZ
Nam queiras ser tam senhora, 240
casa filha que te preste 241
nam percas a ocasião. 242
Queres casar a prazer 243
no tempo d’agora, Inês? 244
Antes casa em que te pês 245
que não é tempo d’escolher. 246
Sempre eu ouvi dizer: 247
ou seja sapo ou sapinho 248
ou marido ou maridinho 249
tenha o que houver mister, 250
este é o certo caminho. 251
MÃE
Pardeos, amiga, essa é ela: 252
mata o cavalo de sela 253
e bô é o asno que me leva. 254
LIANOR VAZ
Filha, no Chão do Couce 255
quem nam puder andar choute, 256
e mais quero quem me adore 257
que quem faça com que chore. 258
Chamá-lo-ei? 259
INÊS PEREIRA
Si,
venha e veja-me a mi. 260
Quero ver quando me vir 261
se perderá o presumir 262
logo em chegando aqui 263
pera me fartar de rir. 264
MÃE
Touca-te bem se vier 265
pois que pera casar anda. 266
INÊS PEREIRA
Essa é boa demanda. 267
Cerimónias há mister 268
homem que tal carta manda? 269
Eu o estou cá pintando, 270
sabeis, mãe, que eu adevinho? 271
Deve ser um vilanzinho. 272
Ei-lo se vem penteando, 273
será com algum ancinho. 274
(Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo:)
[PERO MARQUES]
Homem que vai onde eu vou 275
nam se deve de correr, 276
ria embora quem quiser 277
que eu em meu siso estou. 278
Nam sei onde mora. Aqui? 279
Olhai que me esquece a mi. 280
Eu creo que nesta rua... 281
Esta parreira é sua, 282
já conheço que é aqui. 283
(Chega Pero Marques aonde elas estão e diz:)
Digo que esteis muit’embora. 284
Folguei ora de vir cá, 285
eu vos escrevi de lá 286
ũa cartinha, senhora, 287
assi que... e de maneira... 288
MÃE
Tomai aquela cadeira. 289
PERO MARQUES
E que val aqui ũa destas? 290
INÊS PEREIRA
Oh Jesu, que Jão das Bestas, 291
olhai aquela canseira. 292
(Assentou-se com as costas pera elas e diz:)
Eu cuido que não estou bem. 293
MÃE
Como vos chamam, amigo? 294
PERO MARQUES
Eu Pero Marques me digo 295
como meu pai que Deos tem. 296
Faleceu, perdoe-lhe Deos, 297
que fora bem escusado, 298
e ficámos dous heréus, 299
perém, meu é o morgado. 300
MÃE
De morgado é vosso estado? 301
Isso veria dos céus. 302
PERO MARQUES
Mais gado tenho eu já quanto 303
e o mor de todo o gado, 304
digo maior algum tanto 305
e desejo ser casado, 306
prouguesse ao spírito santo, 307
com Inês, que eu me espanto 308
quem me fez seu namorado. 309
Parece moça de bem 310
e eu de bem er também. 311
Ora vós ide lá vendo 312
se lhe vem milhor ninguém, 313
a segundo o que eu entendo. 314
Cuido que lhe trago aqui 315
peras da minha pereira, 316
hão d’estar na derradeira. 317
Tende ora, Inês, por i. 318
INÊS PEREIRA
E isso hei de ter na mão? 319
PERO MARQUES
Deitai as peas no chão. 320
INÊS PEREIRA
As perlas pera enfiar, 321
três chocalhos e um novelo, 322
e as peas no capelo, 323
e as peras onde estão? 324
PERO MARQUES
Nunca tal me aconteceu. 325
Algum rapaz mas comeu, 326
que as meti no capelo 327
e ficou aqui o novelo 328
e o pentem nam se perdeu. 329
Pois trazi’-as de boa mente. 330
INÊS PEREIRA
Fresco vinha o presente 331
com folhinhas borrifadas. 332
PERO MARQUES
Nam, qu’elas vinham chentadas 333
cá no fundo, no mais quente. 334
Vossa mãe foi-se, ora bem. 335
Sós nos deixou ela assi, 336
quant’eu quero-me ir daqui 337
não diga algum demo alguém. 338
INÊS PEREIRA
E vós que havíeis de fazer, 339
nem ninguém que há de dizer? 340
O galante despejado. 341
PERO MARQUES
Se eu fora já casado 342
doutra arte havia de ser, 343
como homem de bom recado. 344
INÊS PEREIRA
Quam desviado este está. 345
Todos andam por caçar 346
suas damas sem casar 347
e este tomade-o lá. 348
PERO MARQUES
Vossa mãe é lá no muro? 349
INÊS PEREIRA
Minha mãe eu vos seguro 350
que ela venha cá dormir. 351
PERO MARQUES
Pois senhora quero-m’ir 352
antes que venha o escuro. 353
INÊS PEREIRA
E nam cureis mais de vir. 354
PERO MARQUES
Virá cá Lianor Vaz, 355
veremos que lhe dizeis. 356
INÊS PEREIRA
Homem nam aporfieis 357
que nam quero nem me praz. 358
Ide casar a Cascais. 359
PERO MARQUES
Nam vos anojarei mais 360
inda que saiba estalar 361
e prometo nam casar 362
até que vós nam queirais. 363
Estas vos são elas a vós, 364
anda homem a gastar calçado 365
e quando cuida que é aviado 366
escarnefucham de vós. 367
Nam sei se fica lá a pea, 368
pardeos, bô ia eu à aldea. 369
Senhora, cá fica o fato? 370
INÊS PEREIRA
Olhai se o levou o gato. 371
PERO MARQUES
Inda nam tendes candea? 372
Ponho per cajo que alguém 373
vem, como eu vim agora, 374
e vos acha só a tal hora, 375
parece-vos que será bem? 376
Ficai-vos ora com Deos, 377
çarrai a porta sobre vós 378
com vossa candeazinha 379
e sicais sereis vós minha, 380
entonces veremos nós. 381
INÊS PEREIRA
Pessoa conheço eu 382
que levará outro caminho. 383
Casai lá com um vilanzinho 384
mais covarde que um judeu. 385
Se fora outro homem agora 386
e me topara a tal hora, 387
estando assi às escuras, 388
falara-me mil doçuras, 389
ainda que mais nam fora. 390
(Vem a Mãe e diz:)
[MÃE]
Pero Marques foi-se já? 391
INÊS PEREIRA
Pera que era ele aqui? 392
MÃE
Nam te agrada ele a ti? 393
INÊS PEREIRA
Vá-se muit’ieramá, 394
que sempre disse e direi: 395
mãe, eu me nam casarei 396
senam com homem discreto. 397
E assi vo-lo prometo, 398
ou antes o leixarei. 399
Que seja homem mal feito, 400
feo, pobre, sem feição, 401
como tiver descrição 402
nam lhe quero mais proveito. 403
E saiba tanger viola 404
e coma eu pão e cebola, 405
siquer ũa cantiguinha, 406
discreto, feito em farinha, 407
porque isto me degola. 408
MÃE
Sempre tu hás de bailar 409
e sempre ele há de tanger? 410
Se nam tiveres que comer 411
o tanger te há de fartar. 412
INÊS PEREIRA
Cada louco com sua teima, 413
com ũa borda de boleima 414
e ũa vez d’água fria 415
nam quero mais cada dia. 416
MÃE
Como às vezes isso queima. 417
E que é desses escudeiros? 418
INÊS PEREIRA
Eu falei ontem ali, 419
que passaram por aqui 420
os judeus casamenteiros 421
e hão de vir logo aqui. 422
(Aqui entram os judeus casamenteiros, chamados um Latão e o outro Vidal, e diz Vidal:)
[VIDAL]
Ou de cá. 423
INÊS PEREIRA
Quem está lá?
VIDAL
Nome del Deu, aqui somos. 424
LATÃO
Nam sabeis quam longe fomos. 425
VIDAL
Corremos a ira má. 426
Este e eu. 427
LATÃO
Eu e este,
pola lama e polo pó, 428
que era pera haver dó, 429
com chuiva, sol e nordeste. 430
Foi a coisa de maneira, 431
tal friúra e tal canseira 432
que trago as tripas maçadas, 433
assi me fadem boas fadas 434
que me saltou caganeira. 435
Pera vossa mercê ver 436
o que nos encomendou. 437
O que nos encomendou 438
será se hoiver de ser. 439
Todo este mundo é fadiga, 440
vós dissestes, filha amiga, 441
que vos buscássemos logo... 442
VIDAL
E logo pusemos fogo. 443
LATÃO
Cal-te. 444
VIDAL
Nam queres que diga,
nam sou eu também do jogo? 445
LATÃO
Nam fui eu também contigo, 446
tu e eu nam somos eu? 447
Tu judeu e eu judeu, 448
nam somos massa dum trigo? 449
VIDAL
Si, somos, juro al Deu. 450
LATÃO
Deixa-me falar. 451
VIDAL
Já calo.
Senhora há já três dias... 452
LATÃO
Falas-lhe tu ou eu falo? 453
Ora dize. O que dizias? 454
Que foste, que fomos, que ias 455
buscá-lo, esgaravatá-lo. 456
VIDAL
Vós, amor, quereis marido 457
discreto e de viola. 458
LATÃO
Esta moça nam é tola, 459
que quer casar por sentido. 460
VIDAL
Judeu, queres-me leixar? 461
LATÃO
Deixo, não quero falar. 462
VIDAL
Buscámo-lo. 463
LATÃO
Demo foi logo.
Crede que o vosso rogo 464
vencera o Tejo e o mar. 465
Eu cuido que falo e calo, 466
calo eu agora ou não? 467
Ou falo se vem à mão? 468
Nam digas que nam te falo. 469
INÊS PEREIRA
Jesu, guarde-me ora Deos, 470
nam falará um de vós? 471
Já queria saber isso. 472
MÃE
Que siso, Inês, que siso 473
tens debaixo desses véus. 474
INÊS PEREIRA
Diz o exemplo da velha: 475
o que nam haveis de comer 476
dexai-o a outrem mexer. 477
MÃE
Eu nam sei quem t’aconselha. 478
INÊS PEREIRA
Enfim, que novas trazeis? 479
VIDAL
O marido que quereis, 480
de viola e dessa sorte, 481
nam no há senam na corte, 482
que cá não no achareis. 483
Falámos a Badajoz, 484
músico discreto, solteiro, 485
este fora o verdadeiro, 486
mas soltou-se-nos da noz. 487
Fomos a Villacastim 488
e falou-nos em latim: 489
vinde cá daqui a ũa hora 490
e trazei-me essa senhora. 491
INÊS PEREIRA
Tudo é nada, enfim. 492
VIDAL
Esperai, aguardai ora. 493
Soubemos dum escudeiro 494
de feição de atafoneiro 495
que virá logo ess’hora. 496
Que fala, e com’ora fala, 497
estrogirá esta sala, 498
e tange, e com’ora tange, 499
alcança quanto abrange, 500
e se preza bem da gala. 501
(Vem o Escudeiro com seu Moço, que lhe traz ũa viola, e diz falando só:)
[ESCUDEIRO]
Se esta senhora é tal 502
como os judeus ma gabaram 503
certo os anjos a pintaram 504
e nam pode ser i al. 505
Diz que os olhos com que via 506
eram de santa Luzia, 507
cabelos da Madanela. 508
Se ela fosse donzela 509
tudo essoutro passaria. 510
Moça de vila será ela 511
com sinalzinho postiço 512
e sarnosa no toutiço 513
como burra de Castela. 514
Eu assi como chegar 515
cumpre-me bem atentar 516
se é garrida se é honesta, 517
porque o milhor da festa 518
é achar siso e calar. 519
MÃE
Se este escudeiro há de vir 520
e é homem de discrição 521
hás-te de pôr em feição, 522
e falar pouco e nam rir. 523
E mais, Inês, nam muito olhar 524
e muito chão o menear 525
por que te julguem por muda, 526
porque a moça sesuda 527
é ũa perla pera amar. 528
ESCUDEIRO
Olha cá Fernando, eu vou 529
ver a com que hei de casar, 530
visa-te que hás de estar 531
sem barrete onde eu estou. 532
MOÇO
Como a rei, corpo de mi, 533
mui bem vai isso assi. 534
ESCUDEIRO
E se cuspir, pola ventura, 535
põe-lhe o pé e faze mesura. 536
MOÇO
Ainda eu isso nam vi. 537
ESCUDEIRO
E se me vires mintir 538
gabando-me de privado 539
está tu dissimulado 540
ou sai-te lá fora a rir. 541
Isto te aviso daqui, 542
faze-o por amor de mi. 543
MOÇO
Porém, senhor, digo eu 544
que mau calçado é o meu 545
pera estas vistas assi. 546
ESCUDEIRO
Que farei, que o sapateiro 547
nam tem solas nem tem pele? 548
MOÇO
Sapatos me daria ele 549
se me vós désseis dinheiro. 550
ESCUDEIRO
Eu o haverei agora, 551
e mais calças te prometo. 552
MOÇO
Homem que nam tem nem preto 553
casa muito na má hora. 554
(Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira e alevantam-se todos e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro:)
[ESCUDEIRO]
Antes que mais diga agora, 555
Deos vos salve fresca rosa 556
e vos dê por minha esposa, 557
por molher e por senhora. 558
Que bem vejo 559
nesse ar, nesse despejo, 560
mui graciosa donzela, 561
que vós sois minh’alma, aquela 562
que eu busco e que desejo. 563
Obrou bem a natureza 564
em vos dar tal condição, 565
que amais a discrição 566
muito mais que a riqueza. 567
Bem parece 568
que só discrição merece 569
gozar vossa fermosura 570
que é tal que de ventura 571
outra tal nam se acontece. 572
Senhora, eu me contento 573
receber-vos como estais, 574
se vós vos não contentais 575
o vosso contentamento 576
pode falecer, nô mais. 577
LATÃO
Como fala. 578
VIDAL
Mas ela como se cala. 579
Tem atento o ouvido. 580
LATÃO
Este há de ser seu marido 581
segundo a cousa s’abala. 582
ESCUDEIRO
Eu nam tenho mais de meu 583
somente ser comprador 584
do marichal meu senhor 585
e sam escudeiro seu. 586
Sei bem ler 587
e muito bem escrever 588
e bom jogador de bola, 589
e quanto a tanger viola 590
logo me ouvireis tanger. 591
Moço, que estás lá olhando? 592
MOÇO
Que manda vossa mercê? 593
ESCUDEIRO
Que venhas cá. 594
MOÇO
Pera quê?
ESCUDEIRO
Pera fazeres o que mando. 595
MOÇO
Logo vou. 596
O diabo me tomou 597
tirar-me de João Montês 598
por servir um tavanês 599
mor doudo que Deos criou. 600
ESCUDEIRO
Fui despedir um rapaz, 601
por tomar este ladrão, 602
que valia Perpinhão. 603
Moço. 604
MOÇO
Que vos praz?
ESCUDEIRO
A viola. 605
MOÇO
Oh como ficará tola, 606
se nam fosse casar ante 607
c’o mais sáfio bargante 608
que coma pão e cebola. 609
Ei-la aqui bem temperada, 610
nam tendes que temperar. 611
ESCUDEIRO
Faria bem de ta quebrar 612
na cabeça bem migada. 613
MOÇO
E se ela é emprestada 614
quem na havia de pagar? 615
Meu amo, eu quero-m’ir. 616
ESCUDEIRO
E quando queres partir? 617
MOÇO
Antes que venha o Inverno 618
porque vós não dais governo 619
pera vos ninguém servir. 620
ESCUDEIRO
Nam dormes tu que te farte? 621
MOÇO
No chão e o telhado por manta, 622
e çarra-se-m’a garganta 623
com fome. 624
ESCUDEIRO
Isso tem arte.
MOÇO
Vós sempre zombais assi. 625
ESCUDEIRO
Oh que boas vozes tem 626
esta viola aqui. 627
Deixa-me casar a mi, 628
depois eu te farei bem. 629
MÃE
Agora vos digo eu 630
que Inês está no paraíso. 631
INÊS PEREIRA
Que tendes de ver com isso? 632
Todo o mal há de ser meu. 633
MÃE
Quanta doudice. 634
INÊS PEREIRA
Como é seca a velhice. 635
Leixai-me ouvir e folgar 636
que nam me hei de contentar 637
de casar com parvoíce. 638
Pode ser maior riqueza 639
que um homem avisado? 640
MÃE
Muitas vezes, mal pecado, 641
é milhor boa simpreza. 642
LATÃO
Ora ouvi e ouvireis. 643
Escudeiro cantareis 644
algũa boa cantadela, 645
namorai esta donzela, 646
esta cantiga direis: 647
(Canta o Judeu:)
Canas do amor canas 648
canas do amor 649
polo longo de um rio 650
canaval vi florido 651
canas do amor. 652
(Canta o Escudeiro o romance de Mal me quieren en Castilla, e diz Vidal:)
[VIDAL]
Latão, já o sono é comigo 653
como oivo cantar guaiado 654
que nam vai esfandegado. 655
LATÃO
Esse é o demo qu’eu digo. 656
Viste cantar dona Sol 657
Pelo mar vai a vela, 658
vela vai polo mar? 659
VIDAL
Filha Inês, assi vivais, 660
que tomeis esse senhor, 661
escudeiro cantador 662
e caçador de pardais, 663
sabedor, rebolvedor, 664
falador, gracejador, 665
afoitado pela mão 666
e sabe de gavião. 667
Tomai-o por meu amor. 668
Podeis topar um rabugento, 669
desmazalado, baboso, 670
descancarrado, brigoso, 671
medroso, carrapatento. 672
Este escudeiro, aosadas, 673
onde se derem pancadas 674
ele as há de levar 675
boas, senam apanhar. 676
Nele tendes boas fadas. 677
MÃE
Quero rir com toda a mágoa 678
destes teus casamenteiros, 679
nunca vi judeus ferreiros 680
aturar tam bem a frágua. 681
Não te é milhor, mal por mal, 682
Inês, um bom oficial 683
que te ganhe nessa praça, 684
que é um escravo de graça 685
e casarás com teu igual? 686
LATÃO
Senhora, perdei cuidado. 687
O que há de ser há de ser 688
e ninguém pode tolher 689
o que está determinado. 690
VIDAL
Assi diz rabi Zarão. 691
MÃE
Inês guar-te de rascão. 692
Escudeiro queres tu? 693
INÊS PEREIRA
Jesu, nome de Jesu, 694
quam fora sois de feição. 695
Já minha mãe adevinha. 696
Houvestes por vaidade 697
casar à vossa vontade, 698
eu quero casar à minha. 699
MÃE
Casa filha muito embora. 700
ESCUDEIRO
Dai-me essa mão, senhora. 701
INÊS PEREIRA
Senhor, de mui boa mente. 702
ESCUDEIRO
Por palavras de presente 703
vos recebo desd’agora. 704
Nome de Deos, assi seja. 705
Eu, Brás da Mata, escudeiro, 706
recebo a vós, Inês Pereira, 707
por molher e por parceira 708
como manda a santa igreja. 709
INÊS PEREIRA
Eu, aqui diante Deos, 710
Inês Pereira, recebo a vós, 711
Brás da Mata, sem demanda, 712
como a santa igreja manda. 713
LATÃO
Juro al Deu, aí somos nós. 714
OS JUDEUS AMBOS
Alça manim, dona o dono há, 715
arrea espeçulá, 716
bento o Deu de Jacob, 717
bento o Deu que a faraó 718
espantou e espantará, 719
bento o Deu de Abraão, 720
benta a terra de Canão, 721
pera bem sejais casados. 722
VIDAL
Dai-nos cá senhos ducados. 723
MÃE
Amenhã vo-los darão. 724
Pois assi é bem será 725
que nam passe isto assi, 726
eu quero chegar ali 727
chamar meus amigos cá 728
e cantarão de terreiro. 729
ESCUDEIRO
Oh quem me fora solteiro. 730
INÊS PEREIRA
Já vos vós arrependeis? 731
ESCUDEIRO
Ó esposa nam faleis 732
que casar é cativeiro. 733
(Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz ũa delas per nome Luzia:)
[LUZIA]
Inês, por teu bem te seja. 734
Oh que esposo e que alegria. 735
INÊS PEREIRA
Venhas embora Luzia 736
e cedo te eu assi veja. 737
MÃE
Ora vai tu ali, Inês, 738
e bailareis três por três. 739
FERNANDO
Tu connosco, Luzia, aqui 740
e a desposada ali. 741
Ora vede qual direis. 742
(Cantam todos a cantiga que se segue:)
[TODOS]
Mal ferida va la garza, 743
enamorada, 744
sola va y gritos daba. 745
A las orillas de un río 746
la garza tenía el nido, 747
ballestero la ha herido 748
en el alma. 749
Sola va y gritos daba. 750
FERNANDO
Ora, senhores honrados, 751
ficai com vossa mercê 752
e nosso senhor vos dê 753
com que vivais descansados. 754
Isto foi assi agora 755
mas melhor será outr’hora, 756
perdoai pelo presente, 757
foi pouco e de boa mente. 758
Com vossa mercê, senhora. 759
LUZIA
Ficai com Deos, desposados, 760
com prazer e com saúde, 761
e sempre ele vos ajude 762
com que sejais bem logrados. 763
MÃE
Ficai com Deos, filha minha, 764
nam virei cá tam asinha. 765
A minha benção hajais, 766
esta casa em que ficais 767
vos dou e vou-me à casinha. 768
Senhor filho e senhor meu, 769
pois que já Inês é vossa, 770
vossa molher e esposa, 771
encomendo-vo-la eu. 772
E pois que dês que nasceu 773
a outrem nam conheceu 774
senam a vós por senhor, 775
que lhe tenhais muito amor, 776
que amado sejais no céu. 777
(Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro, e senta-se Inês Pereiraa lavrar e canta esta cantiga:)
[INÊS PEREIRA]
Si no os hubiera mirado 778
no penara 779
pero tan poco os mirara. 780
(O Escudeiro vendo cantar a Inês Pereira, mui agastado lhe diz:)
[ESCUDEIRO]
Vós cantais, Inês Pereira, 781
em bodas me andáveis vós? 782
Juro ao corpo de Deos 783
que esta seja a derradeira. 784
Se vos eu vejo cantar 785
eu vos farei assoviar. 786
INÊS PEREIRA
Bofé, senhor meu marido, 787
se vós disso sois servido 788
bem o posso eu escusar. 789
ESCUDEIRO
Mas é bem que o escuseis 790
e outras cousas que não digo. 791
INÊS PEREIRA
Por que bradais vós comigo? 792
ESCUDEIRO
Será bem que vos caleis. 793
E mais, sereis avisada 794
que não me respondais nada 795
em que ponha fogo a tudo, 796
porque o homem sesudo 797
traz a molher sopeada. 798
Vós não haveis de falar 799
com homem nem molher que seja, 800
nem somente ir à igreja 801
nam vos quero eu leixar. 802
Já vos preguei as janelas 803
por que vos não ponhais nelas, 804
estareis aqui encerrada 805
nesta casa, tam fechada 806
como freira d’Oudivelas. 807
INÊS PEREIRA
Que pecado foi o meu? 808
Por que me dais tal prisão? 809
ESCUDEIRO
Vós buscais discrição 810
que culpa vos tenho eu? 811
Pode ser maior aviso, 812
maior discrição e siso, 813
que guardar eu meu tisouro? 814
Nam sois vós, molher, meu ouro? 815
Que mal faço em guardar isso? 816
Vós não haveis de mandar 817
em casa somente um pêlo, 818
se eu disser isto é novelo 819
havei-lo de confirmar. 820
E mais, quando eu vier 821
de fora haveis de tremer 822
e cousa que vós digais 823
nam vos há de valer mais 824
que aquilo que eu quiser. 825
Moço, às partes dalém 826
me vou fazer cavaleiro. 827
MOÇO
Se vós tivésseis dinheiro 828
nam seria senam bem. 829
ESCUDEIRO
Tu hás de ficar aqui, 830
olha, por amor de mi, 831
o que faz tua senhora. 832
Fechá-la-ás sempre de fora. 833
Vós lavrai, ficai per i. 834
MOÇO
Com o que me vós deixais 835
nam comerei eu galinhas. 836
ESCUDEIRO
Vai-te tu por essas vinhas, 837
que diabo queres mais? 838
MOÇO
Olhai, olhai como rima, 839
e depois de ida a vendima? 840
ESCUDEIRO
Apanha desse rabisco. 841
MOÇO
Pesar ora de sam Pisco, 842
convidarei minha prima. 843
E o rabisco acabado 844
ir-m’-ei espojar às eiras. 845
ESCUDEIRO
Vai-te por essas figueiras 846
e farta-te, desmazelado. 847
MOÇO
Assi. 848
ESCUDEIRO
Pois que cuidavas?
E depois virão as favas. 849
Conheces túbaras da terra? 850
MOÇO
I-vos vós embora à guerra 851
que eu vos guardarei oitavas. 852
(Ido o Escudeiro, diz o Moço:)
[MOÇO]
Senhora, o que ele mandou 853
nam posso menos fazer. 854
INÊS PEREIRA
Pois que te dá de comer 855
faze o que te encomendou. 856
MOÇO
Vós fartai-vos de lavrar, 857
eu me vou desenfadar 858
com essas moças lá fora. 859
Vós perdoai-me, senhora, 860
porque vos hei de fechar. 861
(Aqui fica Inês Pereirasó, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:)
[INÊS PEREIRA]
Quem bem tem e mal escolhe 862
por mal que lhe venha nam s’anoje. 863
(Falado:)
Renego da discrição, 864
comendo ao demo o aviso, 865
que sempre cuidei que nisso 866
estava a boa condição. 867
Cuidei que fossem cavaleiros, 868
fidalgos e escudeiros, 869
nam cheos de desvarios, 870
e em suas casas macios 871
e na guerra lastimeiros. 872
Vede que cavalaria, 873
vede já que mouros mata 874
quem sua molher maltrata 875
sem lhe dar de paz um dia. 876
E sempre ouvi dizer 877
que homem que isto fizer 878
nunca mata drago em vale 879
nem mouro que chamem Ale, 880
e assi deve de ser. 881
Juro em todo meu sentido 882
que se solteira me vejo, 883
assi como eu desejo, 884
que eu saiba escolher marido, 885
à boa fé, sem mal engano, 886
pacífico todo o ano, 887
que ande a meu mandar. 888
Havia-me eu de vingar 889
deste mal e deste dano. 890
(Entra o Moço com ũa carta de Arzila e diz:)
[MOÇO]
Esta carta vem dalém, 891
creo que é de meu senhor. 892
INÊS PEREIRA
Mostrai cá, meu guarda mor, 893
veremos o que aí vem. 894
(Lê o sobrescrito:)
À mui prezada senhora 895
Inês Pereira da Grã, 896
a senhora minha irmã. 897
De meu irmão. Venha embora. 898
MOÇO
Vosso irmão está em Arzila, 899
apostarei que i vem 900
nova de meu senhor também. 901
INÊS PEREIRA
Já ele partiu de Tavila? 902
MOÇO
Há três meses que é passado. 903
INÊS PEREIRA
Aqui virá logo recado 904
se lhe vai bem ou que faz. 905
MOÇO
Bem pequena é a carta assaz. 906
INÊS PEREIRA
Carta de homem avisado. 907
(Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:)
Muito honrada irmã, 908
esforçai o coração 909
e tomai por devação 910
de querer o que Deos quer. 911
E isto que quer dizer? 912
(Prossegue:)
E nam vos maravilheis 913
de cousa que o mundo faça, 914
que sempre nos embaraça 915
com cousas. Sabei que indo 916
vosso marido fogindo 917
da batalha pera a vila, 918
a mea légua de Arzila 919
o matou um mouro pastor. 920
MOÇO
Oh meu amo e meu senhor. 921
INÊS PEREIRA
Dai-me vós cá essa chave 922
e i buscar vossa vida. 923
MOÇO
Oh que triste despedida. 924
INÊS PEREIRA
Mas que nova tam suave. 925
Desatado é o nó. 926
Se eu por ele ponho dó 927
o diabo m’arrebente. 928
Pera mi era valente 929
e matou-o um mouro só. 930
Guardar de cavaleirão, 931
barbudo, repetenado, 932
que em figura d’avisado 933
é malino e sotrancão. 934
Agora quero tomar, 935
pera boa vida gozar, 936
um muito manso marido. 937
Nam no quero já sabido 938
pois tam caro há de custar. 939
(Aqui vem Lianor Vaz e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:)
[LIANOR VAZ]
Como estais, Inês Pereira? 940
INÊS PEREIRA
Muito triste, Lianor Vaz. 941
LIANOR VAZ
Que fareis ao que Deos faz? 942
INÊS PEREIRA
Casei por minha canseira. 943
LIANOR VAZ
Se ficastes prenhe basta. 944
INÊS PEREIRA
Bem quisera eu dele casta 945
mas nam quis minha ventura. 946
LIANOR VAZ
Filha, nam tomeis tristura 947
que a morte a todos gasta. 948
O que havedes de fazer? 949
Casade-vos, filha minha. 950
INÊS PEREIRA
Jesu, Jesu, tam asinha 951
isso me haveis de dizer? 952
Quem perdeu um tal marido, 953
tam discreto e tam sabido 954
e tam amigo de minha vida... 955
LIANOR VAZ
Dai isso por esquecido 956
e buscai outra guarida. 957
Pero Marques tem que herdou 958
fazenda de mil cruzados, 959
mas vós quereis avisados. 960
INÊS PEREIRA
Nam, já esse tempo passou. 961
Sobre quantos mestres são 962
a experiência dá lição. 963
LIANOR VAZ
Pois tendes esse saber, 964
querei ora quem vos quer, 965
dai ò demo a openião. 966
(Vai Lianor Vaz por Pero Marques e fica Inês Pereira só, dizendo:)
[INÊS PEREIRA]
Andar. Pero Marques seja. 967
Quero tomar por esposo 968
quem se tenha por ditoso 969
de cada vez que me veja. 970
Por usar de siso mero 971
asno que me leve quero 972
e nam cavalo folão, 973
antes lebre que leão, 974
antes lavrador que Nero. 975
(Vem Lianor Vaz com Pero Marques, e diz Lianor Vaz:)
[LIANOR VAZ]
Nô mais cerimónias agora, 976
abraçai Inês Pereira 977
por molher e por parceira. 978
PERO MARQUES
Há homem empacho má hora. 979
Quanta a dizer abraçar, 980
depois que a eu usar 981
entonces poderá ser. 982
INÊS PEREIRA
Nam lhe quero mais saber, 983
já me quero contentar. 984
LIANOR VAZ
Ora dai-me essa mão cá. 985
Sabeis as palavras, si? 986
PERO MARQUES
Ensinaram-mas a mi 987
porém esquecem-me já. 988
LIANOR VAZ
Ora dizei como digo. 989
PERO MARQUES
E tendes vós aqui trigo 990
pera nos jeitar por cima? 991
LIANOR VAZ
Inda é cedo, como rima. 992
PERO MARQUES
Soma vós casais comigo 993
e eu convosco. Pardelhas. 994
nam compre aqui mais falar, 995
e quando vos eu negar 996
que me cortem as orelhas. 997
LIANOR VAZ
Vou-me, ficai-vos embora. 998
(Vai-se e diz Inês Pereira:)
[INÊS PEREIRA]
Marido, sairei eu agora 999
que há muito que nam saí? 1000
PERO MARQUES
Si, Molher, saí vós i 1001
que eu me irei para fora. 1002
INÊS PEREIRA
Marido, nam digo disso. 1003
PERO MARQUES
Pois que dizeis vós, molher? 1004
INÊS PEREIRA
Ir folgar onde eu quiser. 1005
PERO MARQUES
I onde quiserdes ir, 1006
vinde quando quiserdes vir, 1007
estai quando quiserdes estar. 1008
Com que podeis vós folgar 1009
que eu nam deva consentir? 1010
(Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:)
[ERMITÃO]
Señores, por caridad, 1011
dad limosna al dolorido 1012
ermitaño de Cupido 1013
para siempre en soledad, 1014
pues su siervo soy nascido. 1015
Por exemplo 1016
me metí en su santo templo, 1017
ermitaño en pobre ermita 1018
fabricada de infinita 1019
tristeza en quien contemplo, 1020
adonde rezo mis horas 1021
y mis días y mis años, 1022
mis servicios y mis daños, 1023
donde tú, mi alma, lloras 1024
el fin de tantos engaños. 1025
Y acabando 1026
las horas todas, llorando, 1027
tomo las cuentas una a una 1028
con que tomo a la fortuna 1029
cuenta del mal en que ando 1030
sin esperar paga alguna. 1031
Y ansí, sin esperanza 1032
de cobrar lo merescido, 1033
sirvo allí mis días Copido, 1034
con tanto amor sin mudanza 1035
que soy su santo escogido. 1036
Oh señores, 1037
los que bien os va d’amores 1038
dad limosna al sin holgura 1039
que habita en sierra escura, 1040
uno de los amadores 1041
que tuvo menos ventura. 1042
Yo rogaré al dios de mí, 1043
en que mis sentidos traigo, 1044
que recibáis mejor pago 1045
de lo que yo recebí 1046
en esta vida que hago. 1047
Y rezaré 1048
con gran devoción y fe 1049
que Dios os libre d’engaño, 1050
que eso me hizo ermitaño 1051
y para siempre seré 1052
pues para siempre es mi daño. 1053
INÊS PEREIRA
Olhai cá, marido amigo, 1054
eu tenho por devação 1055
dar esmola a um ermitão, 1056
e nam vades vós comigo. 1057
PERO MARQUES
I-vos embora, molher, 1058
nam tenho lá que fazer. 1059
INÊS PEREIRA
Tomai a esmola padre lá, 1060
pois que Deos vos trouxe aqui. 1061
ERMITÃO
Sea por amor de mí 1062
vuestra buena caridad. 1063
Deo gracias mi señora. 1064
La limosna mata el pecado 1065
pero vos tenéis cuidado 1066
de matarme cada hora. 1067
Debéis saber, 1068
para merced me hacer, 1069
que por vos soy ermitaño, 1070
y aún más os desengaño 1071
que esperanzas de os ver 1072
me hicieron vestir tal paño. 1073
INÊS PEREIRA
Jesu, Jesu, manas minhas, 1074
sois vós aquele que um dia 1075
em casa de minha tia 1076
me mandastes camarinhas. 1077
E quando aprendia a lavrar 1078
mandáveis-me tanta cousinha, 1079
eu era ainda Inesinha 1080
nam vos queria falar. 1081
ERMITÃO
Señora, téngoos servido 1082
y vos a mí despreciado. 1083
Haced que el tiempo pasado 1084
no se cuente por perdido. 1085
INÊS PEREIRA
Padre, mui bem vos entendo, 1086
ò demo vos encomendo 1087
que bem sabeis vós pedir. 1088
Eu determino lá d´ir 1089
à ermida, Deos querendo. 1090
ERMITÃO
Y cuándo? 1091
INÊS PEREIRA
I-vos, meu santo,
que eu irei um dia destes, 1092
muito cedo, muito prestes. 1093
ERMITÃO
Señora, yo me voy en tanto. 1094
INÊS PEREIRA
Em tudo é boa a concrusão. 1095
Marido, aquele ermitão 1096
é um anjinho de Deos. 1097
PERO MARQUES
Corregê vós esses véus 1098
e ponde-vos em feição. 1099
INÊS PEREIRA
Sabeis vós o que eu queria? 1100
PERO MARQUES
Que quereis minha molher? 1101
INÊS PEREIRA
Que houvésseis por prazer 1102
de irmos lá em romaria. 1103
PERO MARQUES
Seja logo sem deter. 1104
INÊS PEREIRA
Este caminho é comprido, 1105
contai ũa estória, marido. 1106
PERO MARQUES
Bofá que me praz, molher. 1107
INÊS PEREIRA
Passemos primeiro o rio. 1108
Descalçai-vos. 1109
PERO MARQUES
E pois como?
INÊS PEREIRA
E levar-me-eis ao ombro, 1110
não me corte a madre o frio. 1111
(Põe-se Inês Pereira às costas do marido e diz:)
Marido, assi me levade. 1112
PERO MARQUES
Ides à vossa vontade? 1113
INÊS PEREIRA
Como estar no paraíso. 1114
PERO MARQUES
Muito folgo eu com isso. 1115
INÊS PEREIRA
Esperade, ora esperade, 1116
olhai que lousas aquelas 1117
pera poer as talhas nelas. 1118
PERO MARQUES
Quereis que as leve? 1119
INÊS PEREIRA
Si.
Ũa aqui e outra aqui. 1120
Oh como folgo com elas. 1121
Cantemos marido, quereis? 1122
PERO MARQUES
Eu nam saberei entoar. 1123
INÊS PEREIRA
Pois eu hei só de cantar 1124
e vós me respondereis 1125
cada vez que eu acabar: 1126
pois assi se fazem as cousas. 1127
(Canta Inês Pereira:)
Marido cuco me levades 1128
e mais duas lousas. 1129
PERO MARQUES
Pois assi se fazem as cousas. 1130
INÊS PEREIRA
Bem sabedes vós marido 1131
quanto vos amo, 1132
sempre fostes percebido 1133
pera gamo. 1134
Carregado ides noss’amo 1135
com duas lousas. 1136
PERO MARQUES
Pois assi se fazem as cousas. 1137
INÊS PEREIRA
Bem sabedes vós marido 1138
quanto vos quero, 1139
sempre fostes percebido 1140
pera cervo. 1141
Agora vos tomou o demo 1142
com duas lousas. 1143
PERO MARQUES
Pois assi se fazem as cousas. 1144
(E assi se vão e se acaba o dito auto.)