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1 Castro

António Ferreira — EMOTHE0557_Castro

Pessoas da tragédia

Castro
Ama
Coro das moças de Coimbra
Ifante dom Pedro
Secretário seu
el rei dom Afonso IV
Pêro Coelho
Diogo Lopes Pacheco
Messageiro

Acto I

(Castro. Ama. Coro.)
CASTRO
Colhei, colhei alegres 1
donzelas minhas, mil cheirosas flores. 2
Tecei frescas capelas 3
de lírios e de rosas, coroai todas 4
as douradas cabeças. 5
Espirem suaves cheiros 6
de que s’encha este ar todo. 7
Soem doces tangeres, doces cantos. 8
Honrai o claro dia 9
meu dia tam ditoso. A minha glória 10
com brandas liras, com suaves vozes. 11
AMA
Que novas festas, novos cantos pedes? 12
CASTRO
Ama, na criação ama, no amor mãe 13
ajuda-m’ao prazer. 14
AMA
Novos extremos vejo. 15
Nas palavras prazer, água nos olhos. 16
Quem te faz juntamente leda e triste? 17
CASTRO
Triste não pode estar quem vês alegre. 18
AMA
Mistura às vezes a fortuna tudo. 19
CASTRO
Riso, prazer, brandura n’alma tenho. 20
AMA
Lágrimas sinais são da má fortuna. 21
CASTRO
Também da boa fortuna companheiras. 22
AMA
À dor são naturais. 23
CASTRO
E ao prazer doces.
AMA
Que força de prazer tas traz aos olhos? 24
CASTRO
Vejo meu bem seguro que receava. 25
AMA
Que novo caso foi? que bem te veo? 26
Por que me tens suspensa? 27
Abre-me já senhora essa alma tua. 28
O mal s’abranda, o bem contando-o cresce. 29
CASTRO
Ó ama amanheceu-me um alvo dia. 30
Dia de meu descanso. Sofre um pouco 31
repetir de mais alto a minha história 32
enquanto o sprito ledo co a lembrança 33
de seu temor de que já está seguro 34
ajunta ao mal passado o bem presente. 35
Daquele grande Afonso forte e santo 36
por poderosa mão de Deos alçando 37
entre armas, ant‘imigos o real cetro 38
do grande Portugal que inda está tinto 39
do sangue de infiéis por seu bom braço 40
por legítima herança rege e manda 41
o bom velho glorioso da vitória 42
e nome do Salado, Afonso Quarto 43
dos reis de Portugal sétimo em ordem 44
filho do grande Dinis, de Isabel Santa 45
ambos já no alto céu claras estrelas 46
cuja alta casa e acrecentado império 47
pelos grandes avós, espera alegre 48
seu desejado herdeiro o ifante Pedro 49
meu doce amor, minha esperança e honra. 50
Sabes como em saindo dos teus braços 51
Ama, na viva flor da minha idade 52
(ou fosse fado seu ou estrela minha) 53
c’os olhos lhe acendi no peito fogo 54
fogo que sempre ardeu e inda arde agora 55
na primeira viveza inteiro e puro. 56
Por mim lhe aborreciam altos estados 57
por mim os nomes de princesas grandes 58
por tam grande me havia nos seus olhos. 59
Um tempo duro, mas em fim forçado 60
deu a Costança a mão, Costança aquela 61
por tantas armas e furor trazida 62
já quasi do seu fado triste agouro. 63
Deu a Costança a mão mas a alma livre, 64
amor, desejo e fé me guardou sempre. 65
Quantas vezes quisera honestamente 66
podê-la dar a mim. Quantas mais vezes 67
s’arrependeu despois de se ver preso. 68
Não lhe apagou o amor a nova esposa 69
não o tam festejado nascimento 70
do desejado parto: antes mais vivo 71
c’o tempo e c’o desejo ardia o fogo. 72
Que fará? Se o encobre então mais queima. 73
Descobri-lo nam quer nem lhe é honesto. 74
Mas quem o fogo guardará no seo? 75
Quem esconderá amor que em seus sinais 76
apesar da vontade se descobre? 77
Nos olhos e no rosto chamejava. 78
Nos meus olhos os seus o descobriam. 79
Suspira e geme e chora a alma cativa 80
forçada da brandura e doce força 81
sojeita ao cruel jugo que pesado 82
a seu desejo sacodir deseja. 83
Não pode, não convém, a fúria cresce. 84
Lavra a doce peçonha nas entranhas. 85
Òs homens foge, foge à luz e ò dia. 86
Só passea, só fala, triste cuida. 87
Castro na boca, Castro n’alma, Castro 88
em toda parte tem ante si presente. 89
Ele à molher cuidado, eu ódio e ira. 90
Arde o peito a Costança em furor novo. 91
Nem me ousam descobrir nem vedar nada. 92
D’antiga casa Castro em toda Espanha 93
já dantes do real cetro deste reino 94
por grande conhecida, inda meu sangue 95
do real sangue seu tinha grã parte. 96
Mas inda à natureza dobram força 97
arte ajuntando e manha: el rei ao neto 98
por madrinha me dá, comadre ao filho. 99
AMA
Cegos, que quanto mais vedam mais chamam. 100
Cresce co a força amor, e o que à vontade 101
se faz mais impossível mais deseja. 102
CASTRO
Em fim fortuna que me já chamava 103
esta glória tam grande quebra o nó 104
daquele jugo a meu amor contrário. 105
Leva ante tempo a morte à ifante triste. 106
Herdo eu mais livremente o amor constante 107
que a mim se entregou todo e todo vive 108
na minh’alma onde está seguro e firme 109
já com doces penhores confirmado. 110
Mas o sprito inquieto c’os clamores 111
do povo e rogos graves que trabalham 112
apartar est’amor, quebrar sua força 113
me traziam medrosa receando 114
a volta da fortuna, que ora amiga 115
ora imiga cruel, alça e derriba 116
que sempre do mor bem mor mal promete 117
falsa, inconstante, cega, vária e forte. 118
Lograva como a medo os meus amores. 119
Criava o grande amor desconfiança 120
e a conciência errada sempre teme. 121
AMA
Quem te segurou já? quem novo sprito 122
te deu aos temores? 123
CASTRO
O meu medo.
AMA
Contrárias cousas falas. 124
CASTRO
O medo ousa
às vezes mais que o esforço, tomo os filhos 125
co as lágrimas nos olhos, rosto branco 126
a língua quasi muda, em choro solta 127
ant‘ele assi começo: meu senhor 128
soam-me as cruéis vozes deste povo 129
vejo del rei a força e império grave 130
armado contra mim, contra a constância 131
que em meu amor té ‘gora tens mostrado. 132
Não receo senhor que a fé tam firme 133
queiras quebrar a quem tua alma deste 134
mas receo a fortuna que mais possa 135
com seu furor que tu com teu amor brando. 136
Por estas minhas lágrimas, por esta 137
mão tua que em sinal de fé me deste 138
pelos doces amores, doce fruito 139
que deles tens diante, se me deves 140
amor igual ao meu ou se algũ‘hora 141
fui a teus olhos vista alegre e doce 142
me segures, me guardes, me conserves 143
contra os duros mandados de teu pai 144
contra importunas vozes dos que podem 145
mudar acaso teu constante peito. 146
Ou quando minha estrela e cruel génio 147
te puder arrancar dest’alma minha 148
com teu armado braço envolta em sangue 149
m’arranques deste corpo, que não veja 150
tam triste dia, tam cruel mudança. 151
Eu tomarei por doce a minha morte 152
por piadoso amor tal crueldade. 153
AMA
Moveste-me a alma e os olhos. 154
CASTRO
Assi disse. Ele então lançando os braços 155
estreitamente em mim, mudado todo 156
em vão trabalha de encobrir a mágoa 157
de meu temor e lágrimas. E pode 158
ó dona Inês, me diz, pode teu peito 159
conceber tal receo? Aquele dia 160
primeiro que te vi não mostrou logo 161
que esta minh’alma à tua só se deve? 162
Por ti a vida me é doce, por ti espero 163
acrecentar impérios, sem ti o mundo 164
duro deserto me pareceria. 165
Não poderá fortuna, não os homens 166
não estrelas, não fados, não planetas 167
apartar-me de ti por arte ou força. 168
Nesta tua mão te ponho firme e fixa 169
minh’alma, por ifante te nomeo 170
do meu amor senhora e do alto estado 171
que me espera e teu nome me faz doce. 172
O grande movedor dos céus e terras 173
invoco e chamo aqui: o alto céu m’ouça 174
e meu intento santo aprove e cumpra. 175
AMA
Entendo o teu prazer, as tuas lágrimas. 176
Também de prazer choro, tam contrária 177
nos é sempre a alegria que inda toma 178
lágrimas emprestadas à tristeza. 179
CASTRO
Já não temo fortuna, já segura 180
e leda vivirei. 181
AMA
No real sprito
não se deve esperar leve mudança. 182
Ajuda tua estrela co bom siso. 183
Muitas vezes a culpa empece ao fado. 184
Prudência e bom conselho o bem conserva 185
a soberba o destrue e em gram mal muda. 186
CASTRO
Rege tu Ama minha este meu peito. 187
O súbito prazer engana e erra. 188
AMA
Encobre teu segredo. 189
CASTRO
N’alma o tenho.
AMA
Deos to conserve. 190
CASTRO
Humilde aos céus o peço.
(Ifante. Coro.)
IFANTE
Poderoso senhor, grão pai do mundo 191
cujo poder ĩmenso, altas grandezas 192
cantam os céus, a terra, os elementos 193
a cujo aceno treme a redondeza 194
a cujo querer nada é impossível 195
fortalece meu peito, arma-me todo 196
de paciência igual à dura afronta. 197
Sossega os alvoroços deste povo 198
a fúria de meu pai, que em vão trabalha 199
arrancar-me minh’alma donde vive. 200
Sou humano senhor, tentações grandes 201
vencem ânimos fortes. 202
Ferve o sangue, arde o peito, cresce-me ira 203
contra quem me persegue, tu me amansa. 204
Não poderei sofrer, não poderei 205
a dura pertinácia, o cruel ódio 206
que ao meu doce amor mostram. 207
Vence a dor a razão, vence amor força. 208
Tu conserva, alto Deos, a prometida 209
fé a quem já de lá dar-ma mandaste. 210
Tudo de ti procede, sem ti nada 211
se move cá na terra. Quem entende 212
teus meos e teus fins e teus segredos? 213
Quantas vezes mal é o que bem parece. 214
Quantas vezes o mal causa bens grandes. 215
Quanto tempo sofreste ó grande Afonso 216
no nome de Bolonha celebrado 217
que novas torres ajuntou às quinas 218
dura força fazendo ao matrimónio 219
contr’as divinas leis, contra as humanas. 220
Quem então não chorava a crueldade 221
contra o primeiro amor? E quem calava 222
a dura pertinácia do segundo? 223
Mas tu querias dar ao mundo o grande 224
forte, prudente e santo, um só Dinis 225
paz e concórdia entre altos reis, que reinos 226
deu e tirou, em armas claro e em letras. 227
Eu de seu sangue, de seu estado herdeiro 228
por que do meu amor tam mal julgado 229
nam esperarei grandezas? Vê-las-ei 230
vê-las-ei de ti Castro, vive leda 231
vive segura, lança os medos fora 232
que antes morte que vida sem ti quero. 233
CORO
Não é desculpa ao mal outro mal grande. 234
Quam danoso é no mundo um mau exemplo. 235
Mas não pode assi ser a razão cega 236
que o que reprende em outro, em si o aprove. 237
Cada um levar se deixa da vontade. 238
(Secretário. Ifante. Coro.)
SECRETÁRIO
Quem ajuntar puder com água o fogo 239
quem misturar c’o dia a noite escura 240
e quem o mau pecado com a virtude 241
este no amor ajuntará razão 242
este em falsa lisonja a lealdade. 243
Um o amor não sofre, outro a virtude. 244
E eu destes ambos venho agora armado. 245
Não sei se poderei vencer com eles. 246
S’algum sprito bom me quisesse ora 247
ajudar lá dos céus e aqui acabasse 248
esta vida, que fim mais glorioso 249
que polos céus deixar a baixa terra 250
antes que por temor, honra e verdade? 251
Aquele é que lá vejo pensativo 252
Deos m’inspire que diga sem temor. 253
Confiança há mister e ânimo livre 254
quem quiser resistir ao mau propósito 255
do príncipe, em que está determinado. 256
Mas deixar de o fazer é vil fraqueza. 257
IFANTE
Que dirás Secretário a tam grã força 258
como querem fazer a esta minh’alma? 259
SECRETÁRIO
Senhor, mas antes querem dar-ta livre 260
donde está tam forçada e tam cativa. 261
IFANTE
Arrancam-me as entranhas. Que me querem? 262
Esta gente que quer, que assi me mata? 263
SECRETÁRIO
Querem-te só e procuram-te tua honra. 264
E quebrar daqui as asas à fortuna 265
que contra ti não tenha nunca forças. 266
IFANTE
Mas antes lhas vão dando quanto podem 267
procurando apartar-me donde vivo. 268
SECRETÁRIO
Se te visses senhor ver-te-ias morto. 269
Ver-te-ias cego. Enquanto homem não vive 270
com su’alma própria pode a tal ser vida? 271
IFANTE
Também tu me persegues. Também vens 272
afiado cortar-me estas raízes 273
que no meu peito já tam firmes tenho? 274
SECRETÁRIO
Piadosa obra faz ao que está preso 275
quem as prisões lhe corta e as más cadeas? 276
Ó claríssimo Ifante meu senhor 277
muito há que me conheces. Teus segredos 278
de mim com razão sempre confiaste 279
nunca te descobri as zombarias 280
nunca descobrirei o menor deles. 281
D’ũa parte me tens por secretário 282
mas doutra me hás de ter por conselheiro. 283
Comprirei eu contigo e c’o que devo 284
Então venha tua ira que eu não quero 285
melhor morte que aquela que de infâmia 286
livrar a vida, e a alma de perigo. 287
Não vês senhor que o sol se escurecesse 288
quanto cobre e descobre ficaria 289
tam triste e escuro como agora claro? 290
Pois tal é o bom príncipe: sol nosso 291
com cuja luz nós vemos e seguimos 292
a justiça que aos céus nos vai levando. 293
Se s’esta em ti perder onde a acharemos? 294
Quem a virtude seguirá, quem honra? 295
Abateres-te assi de príncipe alto 296
a pensamentos baixos que s’estranham 297
nos homens baixos, parecer-te pode 298
grandeza de ti digna e do que deves 299
a este estado tam alto que te espera? 300
IFANTE
Quem tam livre te faz e tam ousado? 301
SECRETÁRIO
Amor e lealdade esta ousadia 302
me dão, dá-ma a razão que tem tal força 303
que inda que se não siga não se nega. 304
Lá dentro em ti te vejo estar sentindo 305
em teu ânimo real e generoso 306
quasi ũa reverência a que te move 307
inda que com desgosto, a sã verdade. 308
Não me queres ouvir mas bem me julgas. 309
Move-te o zelo honesto, a fé tam pura. 310
Deixa-te reprender de quem bem t’ama 311
que ou te aproveita ou quer aproveitar-te. 312
Não recebas enganos de quem teme 313
ou deseja ou espera à custa tua, 314
de tua honra e dos teus, que a tantos mata. 315
Louvas tu ou alguém louvará aquele 316
que podendo ilustrar a glória antiga 317
de seus passados com mor honra e fama 318
não somente o não faz mas escurece 319
daquela luz antiga o claro raio? 320
IFANTE
Mas antes não viver merecia esse 321
antes não ser nascido, que a águia vemos 322
os filhos enjeitar que ao sol não olham. 323
SECRETÁRIO
E que dirás, que julgarás daquele 324
que em vez de se armar bem contr’a fortuna 325
causas anda buscando de a ter sempre 326
contrária à sua vida e seu estado? 327
IFANTE
Quem não teme a fortuna e não procura 328
de contr’ela se armar tê-la-á imiga 329
que aos que se lhe mais dão sempre persegue. 330
SECRETÁRIO
Julgaste-te a ti mesmo. 331
IFANTE
Em quê? Ou como?
SECRETÁRIO
Aquele claro sangue, aquele nome 332
heróico, tam alto e em todo o mundo 333
honrado e conhecido dos reis grandes 334
de cujo tronco vens, não fica escuro 335
misturado com outro diferente 336
dos que foram nascidos e criados 337
pera humildes sofrerem teu real jugo 338
obedecendo ao império e aos acenos? 339
Despois disto não vês o grão desprezo 340
em que serás aos teus? O grão perigo 341
em que pões este reino co a soberba 342
de poucos que ergues tanto e tanto podem 343
com teu favor que mostram já desprezo 344
a quem devem mostrar acatamento? 345
Que cousa mais destrue o rei e reino? 346
Que cousa cria mor desprezo e ódio 347
que vê-lo sojeitar-se a cousas baixas? 348
Que vê-lo ser mandado de seus vícios? 349
Com que rosto senhor darás castigo 350
aos que assi cometerem o que cometes? 351
Como conservarás a obediência 352
santa devida aos pais, pois tu a negas 353
aos teus no que te pedem justamente? 354
Memória deixarás de mau exemplo 355
a teus filhos: darás licença larga 356
a reis que isto souberem: ao mundo causa 357
d’escurecer teu nome pera sempre. 358
De um mal vê quantos males nascem logo 359
todos sobre ti caem. Senhor vê-te 360
conhece-te melhor, entra em ti mesmo. 361
Verás então o por que te importunam 362
o que te pede el rei, o que teu povo. 363
CORO
Conselheiro fiel, ousado e forte 364
feriste co a razão a alma que dura 365
os olhos em vão cerra. 366
IFANTE
Eu não sou nem fui nunca qual me julgas 367
ou qual me julgais todos. Outros olhos 368
diferentes dos vossos são os meus 369
com que me vejo, e vejo que o que faço 370
não é tamanho mal como vós vedes. 371
Eu não faço erro algum: sigo o que o sprito 372
me diz e me revela, a quem eu creo. 373
C’os príncipes tem Deos outros segredos 374
que vós não alcançais, e como cegos 375
nos juízos errais de seus mistérios. 376
Olhai esta molher, vede o que há nela. 377
Dum sangue nos formou a natureza: 378
real é, de reis vem, de reis é digna. 379
Do mundo quisera eu ser só monarca 380
monarca de mil mundos pera todos 381
debaixo dos pés pôr de quem tanto amo. 382
Mui baixa me parece esta coroa 383
para aquela cabeça. Olha o que mando 384
tu jamais me não fales em tal cousa 385
meus duros pais não curem de cansar-me 386
porque nem posso nisso obedecer-lhes 387
nem em o não fazer desobedeço. 388
Arranquem-me a vontade deste peito 389
arranquem-me do peito est’alma minha 390
entam acabarão o que começam. 391
Não cuidem que me posso apartar donde 392
estou todo, onde vivo, que primeiro 393
a terra subirá onde os céus andam 394
o mar abrasará os céus e terra 395
o fogo será frio, o sol escuro 396
a lua dará dia e todo mundo 397
andará ao contrário de sua ordem 398
que eu ó Castro te deixe ou nisso cuide. 399
Dei-te alma, dei-te fé, guardá-la-ei firme. 400
Confio isto de ti não mo descubras. 401
SECRETÁRIO
Oh senhor que me matas. Deos quisera 402
que nunca merecera honra tamanha 403
pois me põe em perigo de desonra. 404
Seguir tua vontade é destruir-te 405
destruir este reino e teu pai triste 406
querer-te apartar dela é impossível. 407
IFANTE
Sigue minha razão, minha vontade. 408
SECRETÁRIO
Não te vejo razão, vejo vontade. 409
IFANTE
Sigue a vontade que forçar não podes. 410
SECRETÁRIO
Manda-me o que te devo que a não siga. 411
IFANTE
Queres mandar teu príncipe? 412
SECRETÁRIO
Mas sirvo.
IFANTE
Obedece ao que quero. 413
SECRETÁRIO
Manda o justo.
IFANTE
Deos só me julga. 414
SECRETÁRIO
E a razão te obriga.
IFANTE
Livre há de ser um príncipe. 415
SECRETÁRIO
Cativo
é quem de si se vence. 416
IFANTE
Inda importunas?
SECRETÁRIO
Se te não conselhar meus são teus erros. 417
IFANTE
Eu te livrarei deles. 418
SECRETÁRIO
A Deos temo.
Tu no corpo só podes, ele n’alma. 419
Eu aconselhar-te posso, forçar não. 420
Testemunha me é Deos e tu também. 421
Amor em ti só reina, amor te manda 422
peçonha doce d’alma, d’honra e vida. 423
Mas porque te não movem tantos choros 424
da rainha tua mãe? Os tantos rogos 425
del rei teu pai? Os tam leais conselhos 426
de quantos a teus pés estão lançados 427
pedindo-te piedade deste reino 428
que ameaçado está assi da fortuna? 429
Não te declararás por honra tua 430
e prova pera o mundo que t’infama 431
com nome de pecado pertinaz? 432
Eu choro de assi ver ũa molher fraca 433
mais forte contra ti que quantas forças 434
de Deos, do mundo, estão por ti tirando. 435
IFANTE
Oh persiguição forte, oh ódio estranho. 436
Oh duros fados, todos conjurados 437
c’os céus e com as estrelas a perder-me. 438
Que me quereis? Que sem-razão vos faço 439
homens d’entranhas feras e danadas 440
em ter igual amor a quem mo tem? 441
Quem é tam devido? Quem o mundo 442
todo merece ter, e inda é pequeno? 443
Homens que procurais meu mal e morte 444
vede bem o que eu vejo. Que alto império 445
daquele real rosto não será 446
honrado e acrecentado? Aquele rosto 447
que tanto aborreceis, que mundos pede. 448
Que estados, que grandezas, que triunfos. 449
Em corpo tam fermoso, a fermosa alma 450
tam santa, tam honesta, casta e pura 451
que tacha podeis dar? Ou que virtudes 452
que graças das mais raras e excelentes 453
não achareis em tudo quanto mostra? 454
Pode ser mais cru ódio e mais injusto? 455
Pode ser mor inveja e mais sem causa? 456
CORO
Oh quam perigoso é qualquer princípio 457
de mal, que um só descuido pode tanto 458
que traz um ânimo alto a tal baixeza. 459
IFANTE
Para onde fugirei por que me deixem? 460
SECRETÁRIO
De ti hás de fugir por teu remédio. 461
IFANTE
Não me valerá já ver que não posso? 462
SECRETÁRIO
Tu mesmo te puseste em tal fraqueza. 463
IFANTE
Não quero nem desejo arrepender-me. 464
SECRETÁRIO
Acrecentas o erro co a vontade. 465
IFANTE
S’é erro como dizes, não houve outros? 466
SECRETÁRIO
Houve, mas todavia foram erros. 467
IFANTE
Desculpem-me outros reis e emperadores. 468
SECRETÁRIO
Como o farão pois a si não puderam? 469
IFANTE
Não me persigas mais. 470
SECRETÁRIO
O mal persigo.
IFANTE
Um príncipe de um reino tam cativo 471
há de ser que não faça o que costuma 472
qualquer do povo seu? 473
SECRETÁRIO
Um príncipe antes
há de ter seu sprito tam alçado 474
da terra, que dela erga o pensamento 475
ao baixo povo seu pera que o siga. 476
Sprito há de ser puro, um ouro limpo 477
sem fezes e sem liga, exemplo claro 478
de fortaleza, mansidão e justiça. 479
IFANTE
Vai-te diante mim, fuge minha ira. 480
SECRETÁRIO
Quem governará ũa vontade livre 481
que outro senhor não tem senão a si mesma? 482
CORO I
Quando amor nasceu 483
nasceu ao mundo vida 484
claros raios ao sol, luz às estrelas. 485
O céu resplandeceu 486
e de sua luz vencida 487
a escuridão mostrou as cousas belas. 488
Aquela, que subida 489
está na terceira esfera 490
do bravo mar nascida 491
amor ao mundo dá, doce amor gera. 492
Por amor s’orna a terra 493
d’águas e de verdura 494
às árvores dá folhas, cor às flores. 495
Em doce paz a guerra 496
a dureza em brandura 497
e mil ódios converte em mil amores. 498
Quantas vidas a dura 499
morte desfaz, renova 500
a fermosa pintura 501
do mundo, amor a tem inteira e nova. 502
Ninguém tema seus fogos 503
e chamas furiosas. 504
Amor é tudo, amor suave e brando 505
sojeito a brandos rogos 506
as águas amorosas 507
dos olhos com brandura está alimpando. 508
Douradas e fermosas 509
setas n’aljaba soam 510
à vista perigosas 511
mas amor levam, dos amores voam. 512
Amor em doces cantos 513
em doces liras soe 514
torne seu brando nome est’ar sereno. 515
Fujam mágoas e prantos 516
o ledo prazer voe 517
e claro o rio faça, o vale ameno. 518
No terceiro céu toe 519
d’amor a doce lira 520
e de lá te coroe 521
Castro, d’ouro o grão Deos que amor inspira. 522
CORO II
Antes cego tirano 523
dos poetas fingido 524
cruel desejo e engano 525
Deos de vã gente, de ócio só nascido. 526
Geral estrago e dano 527
da gloriosa fama 528
com sua seta e chama 529
tirando a toda parte 530
ardendo fica Apolo, ardendo Marte. 531
Vai pelos ares voando 532
arde cá toda a terra 533
e d’aljaba soando 534
o tiro empece mais quanto o mais erra. 535
Tem por glória ir juntando 536
estados diferentes 537
os mais convenientes 538
a amor, e iguais aparta. 539
Nunca de sangue e lágrimas se farta. 540
No tenro e casto peito 541
da moça vergonhosa 542
tempo esperando e jeito 543
entra com força branda ou furiosa. 544
O fogo já desfeito 545
da cinza outra vez cria 546
no frio sangue e fria 547
neve outra vez se acende. 548
Dos olhos no meo d’alma o raio prende. 549
Dali sua peçonha 550
vai por todas as veas. 551
A alma dormente sonha 552
em seu engano, e tece doces teas. 553
Foge a casta vergonha 554
foge a constância forte. 555
Entra tristeza e morte 556
debaixo de brandura 557
que a razão mata, o coração endura. 558
Quem a ferrada maça 559
ao grande Alcides toma? 560
E quer que assi aos pés jaça 561
da moça, feito moça, quem leões doma? 562
Quem da espantosa caça 563
os despojos famosos 564
lhe converte em mimosos 565
trajos de dama, e o uso 566
das duras mãos lhe põe no brando fuso? 567
Júpiter transformado 568
em tam várias figuras 569
deixando desprezado 570
o céu, quam baixo o mostram mil pinturas. 571
Poderosas branduras 572
que assi as almas convertem 573
no que amam. Assi sovertem 574
por manha a grande alteza 575
do sprito que s’enterra em vil fraqueza. 576
De que outro fogo ardia 577
dos teucros a alta glória? 578
De que deixou história 579
tam triste ao mundo Espanha a forte e pia? 580
Amor cego vencia. 581
Amor cruel matava. 582
Um moço triunfava 583
de tanto sangue e vidas 584
por um vão apetite mal vendidas. 585
Ditoso, oh quam ditoso 586
quem o seu peito armou 587
contra o raio furioso 588
ou em alçando as chamas o apagou. 589
Poucos que Deos amou 590
dos céus tanto alcançaram. 591
E mil e mil choraram 592
do vão contentamento 593
ao cego Ifante seu rependimento. 594

Acto II

(El rei dom Afonso IV. Pêro Coelho, Diogo Lopes Pacheco, conselheiros.)
REI
Ó cetro rico, a quem te não conhece 595
como és fermoso e belo. E quem soubesse 596
bem quam diferente és do que prometes 597
neste chão que te achasse, quereria 598
pisar-te antes c’os pés que levantar-te. 599
Não louvo os que se louvam por impérios 600
a ferro, sangue e fogo destruírem, 601
o seu próprio estendendo, mas aqueles 602
(oh grandeza espantosa e ânimo livre) 603
que tendo-os muito grandes os deixaram. 604
Mor alteza e mor ânimo é as grandezas 605
desprezar que aceitar, e mais seguro 606
a si cada um reger que o mundo todo. 607
O resplandor deste ouro nos engana. 608
E é terra em fim, e terra a mais pesada. 609
De ũa alta fortaleza estamos sempre 610
postos por atalaias à fortuna 611
por escudos do povo oferecidos 612
a receber seus golpes, não fazê-lo 613
é usar mal do cetro, e bem fazê-lo 614
é não ter vida mais segura e certa 615
que quanto estes perigos nos prometem. 616
COELHO
Gloriosos perigos e trabalhos 617
oh bem-aventurados pois te sobem 618
da coroa da terra à que nos céus 619
mais rica, mais gloriosa te darão. 620
PACHECO
Trabalho mais que estado tem os reis 621
os bons reis que não amam assi seus vícios 622
como as obrigações de se mostrarem 623
contra si mais isentos e mais fortes 624
que o povo baixo que anda só após eles. 625
E tal rei como tu senhor, é rei. 626
Não te pese de o ser, que virá tempo 627
que te hajam mais inveja a esses trabalhos 628
sofridos com paciência e bem regidos 629
que a vitórias famosas com grã perda 630
de homens e de riquezas mal ganhadas. 631
Isto faz os reis grandes dignos sempre 632
de memória ĩmortal, sofrer trabalhos 633
polo público bem, quebrar a força 634
do sangue e próprio amor, fazer-se exemplo 635
de todo bem ao povo, atalhar prestes 636
o mal em seu começo, antes que empeça. 637
Despois nem forças bastam nem conselho. 638
Atalhando a este mal que t’assi agora 639
tam trabalhado traz, ficarás livre 640
rindo-te da fortuna e de seus medos. 641
REI
Vence o mal ao remédio. Vejo o Ifante 642
de todo contra mim determinado, 643
duro a meus rogos, mais duro aos mandados. 644
Que estrela foi aquela tam escura? 645
Que mau signo ou que fado ou que planeta? 646
PACHECO
Enquanto há ocasião dura o pecado 647
tirando-lha, ei-lo livre. 648
REI
Forte cousa
endurecer-se assi aquela vontade. 649
PACHECO
Endureça-se a tua com justiça. 650
REI
Duro remédio. Quanto melhor fora 651
amor e obediência. Meus pecados 652
quam gravemente sobre mim caíram. 653
COELHO
Senhor pera que é mais? Moura esta dama. 654
REI
Que moura todavia? 655
PACHECO
Senhor moura
por salvação do povo. 656
REI
Não é crueza
matar quem não tem culpa? 657
COELHO
Muitos podes
mandar matar sem culpa mas com causa. 658
REI
Com que cor, com que causa esta matamos? 659
PACHECO
Não basta que em sua morte só se atalham 660
os males que sua vida nos promete? 661
REI
Ela que culpa tem? 662
PACHECO
Dá ocasião.
REI
Oh que ela não a dá, o Ifante a toma 663
que lei há que a condene, ou que justiça? 664
COELHO
O bem comum senhor tem tais larguezas 665
com que justifica obras duvidosas. 666
REI
Assi que assentais nisto? 667
COELHO
Nisto, moura.
PACHECO
Moura. 668
REI
Ũa ĩnocente?
COELHO
Que nos mata.
REI
Não haverá outro meo? 669
PACHECO
Não o temos.
REI
Metê-la-ei num mosteiro. 670
COELHO
Ei-lo queimado.
REI
Mandá-la-ei deste reino. 671
COELHO
O amor voa.
Este fogo senhor não morre logo. 672
Quanto lhe mais resistes mais s’acende. 673
Contra amor que lugar darás seguro? 674
REI
Matá-la é cruel meo e rigoroso. 675
PACHECO
Não vês, não ouves quantas vezes morrem 676
muitos que o não merecem? Deos o quer 677
polo bem que se segue. 678
REI
Deos o faça.
Cuja vontade é lei e a minha não. 679
PACHECO
Essa licença tem também os reis 680
que em seu lugar estão. 681
REI
Antes não tem
licença pera mais que quanto pede 682
a razão e justiça. A mais licença 683
é bárbara crueza de infiéis. 684
PACHECO
Pois que dirás daqueles que a seus próprios 685
filhos e a seu amor não perdoaram 686
polo exemplo comum e bem do povo? 687
REI
Aos que o bem fizeram hei inveja. 688
Òs outros nem os louvo nem os sigo. 689
COELHO
Inda que houvesse excessos, todavia 690
mais males atalharam do que deram. 691
REI
Não se há de fazer mal por quantos bens 692
se possam daí seguir. 693
COELHO
Nem bem nenhum
de que se sigam males. 694
REI
Mal parece
matar ũa ĩnocente. 695
PACHECO
Não é mal
que a causa o justifica. 696
REI
Antes Deos quer
que se perdoe um mau que um bom padeça. 697
COELHO
O bem geral quer Deos que mais s’estime 698
que o bem particular. Nas circunstâncias 699
se salvam ou se perdem as obras todas. 700
REI
Enganam-se os juízos muitas vezes. 701
COELHO
Os dos reis bem fundados Deos inspira. 702
REI
Hei medo de deixar nome de injusto. 703
COELHO
De justo o deixarás pois te conselhas 704
c’os juízos dos teus leais prudentes. 705
PACHECO
Vês poderoso rei, vês c’os teus olhos 706
a peçonha cruel que vai lavrando 707
gerada deste amor cego, vês quanto 708
a soberba e desprezo destes homens 709
contra ti e contra todos vai crescendo. 710
S’em tua vida nos tememos tanto 711
que faremos despois de tua morte? 712
Por dar saúde ao corpo qualquer membro 713
que apodrece se corta, e pelo são 714
por que o são não corrompa. Este teu corpo 715
de que tu és cabeça está em perigo 716
por esta molher só, corta-lh’a vida, 717
atalha esta peçonha, tê-lo-ás salvo. 718
Médico senhor és desta república. 719
O poder que tem o médico num corpo 720
tens tu sobre nós todos, usa dele. 721
Se te parece em parte isto crueza 722
não é crueza aquela mas justiça, 723
quando de cruel ânimo não nasce. 724
Tua tenção não peca, em si se salva. 725
A aspereza dest’obra é medicina 726
com que s’atalham as mortes que adiante 727
muitos é que por força te mereçam. 728
A clemência por certo é grã virtude 729
e digna mais dos reis que outras virtudes 730
polo perigo grande que há na ira 731
em quem tam livremente assi a executa, 732
mas com esta o rigor é necessário 733
por não vir em desprezo tal virtude. 734
Este é o que se chamou severidade 735
de que tantos exemplos nos deixaram 736
os famosos romãos em paz e guerra. 737
Estas colũnas ambas são tam fortes 738
que bem-aventurado este teu reino 739
que nelas por ti só está tam fundado. 740
De tal modo senhor hás de usar delas 741
que ũa vá sempre doutra acompanhada. 742
Exemplos tens mostrado de clemência 743
mostra agora, que é bem, severidade. 744
REI
A parte que me cabe deste feito 745
eu a ponha em vós toda, como aqueles 746
que sem ódio e temor sois obrigados 747
aquilo conselhar-me que é só justo 748
mais serviço de Deos e bem do povo. 749
Vós outros sois meus olhos que eu não vejo. 750
Vós sois minhas orelhas que eu não ouço. 751
Minha tenção me leve, ela me salve. 752
O engano se é vosso em vós só caia. 753
PACHECO
Sobre nós descarrega esse teu peso. 754
COELHO
Eu tomo minha parte, ou tomo todo. 755
Almas e honras temos, estas ambas 756
a ti senhor se devem a ti as damos. 757
Estas sós te conselham, que bem vês 758
quam grande mal é nosso o que fazemos. 759
Aventuramos vidas e fazendas 760
que em ódio de teu filho ficam sempre 761
sob cujos pés ficamos e em cuja ira. 762
Mas percamo-nos nós, percamos vidas 763
soframos cruéis mortes, nossos filhos 764
fiquem órfãos de nós e deserdados 765
a fúria de teu filho nos persiga 766
antes que esse tal medo em nós mais possa 767
que o que a virtude manda e te devemos. 768
REI
I-vos aparelhar que em vós me salvo. 769
Senhor que estás nos céus e vês as almas 770
que cuidam, que propõem, que determinam 771
alumia minh’alma, não se cegue 772
no perigo em que está, não sei que siga. 773
Entre medo e conselho fico agora 774
Matar injustamente é grã crueza. 775
Socorrer a mal público é piedade. 776
D’ũa parte receo mas doutra ouso. 777
Ó filho meu que queres destruir-me. 778
Há dó desta velhice tam cansada, 779
muda essa pertinácia em bom conselho. 780
Não dês ocasião pera que eu fique 781
julgado mal na terra e condenado 782
ant’aquele grão juiz que está nos céus. 783
Oh vida felicíssima a que vive 784
o pobre lavrador só no seu campo 785
seguro da fortuna e descansado 786
livre destes desastres que cá reinam. 787
Ninguém menos é rei que quem tem reino. 788
Ah que não é isto estado, é cativeiro 789
de muitos desejado mas mal crido. 790
ũa servidão pomposa, um grão trabalho 791
escondido sob nome de descanso. 792
Aquele é rei somente que assi vive 793
(inda que cá seu nome nunca s’ouça) 794
que de medo e desejo e d’esperança 795
livre passa seus dias. Oh bons dias 796
com que eu todos meus anos tam cansados 797
trocara alegremente. Temo os homens 798
com outros dissimulo, outros não posso 799
castigar ou não ouso. Um rei não ousa. 800
Também teme seu povo, também sofre. 801
Também suspira e geme e dissimula. 802
Não sou rei sou cativo, e tam cativo 803
como quem nunca tem vontade livre. 804
Salvo-me no conselho dos que creo 805
que me serão leais, isto me salve 806
senhor contigo, ou tu me mostra cedo 807
remédio mais seguro com que viva 808
conforme a este alto estado que me deste. 809
E me livra algum tempo antes que moura 810
de tanta obrigação, pera que possa 811
conhecer-me melhor e a ti voar 812
com mais ligeiras asas do que pode 813
ũa alma carregada de tal peso. 814
CORO I
Quanto mais livre, quanto mais seguro 815
é aquele estado que de si contente 816
não se levanta mais que quanto pode 817
fugir misérias. 818
Tristes pobrezas ninguém as deseje. 819
Cegas riquezas ninguém as procure. 820
Num meo honesto está a felicidade 821
dos céus e terra. 822
Reis poderosos, príncipes, monarcas 823
sobre nós pondes vossos pés, pisai-nos. 824
Mas sobre vós está sempre a fortuna. 825
Nos livres dela. 826
Nos altos muros soam mais os ventos. 827
As mais crescidas árvores derribam. 828
As mais inchadas velas no mar rompem 829
caem mores torres. 830
Pompas e ventos, títulos inchados 831
não dão descanso nem mais doce sono. 832
Antes mais cansam, antes em mais medo 833
põem e perigo. 834
Como se volvem no grão mar as ondas 835
assi se volvem estes peitos cheos 836
e nunca fartos, nunca satisfeitos 837
nunca seguros. 838
S’eu me pudesse à minha vontade 839
formar meus fados, mais não quereria 840
que meãmente segurar a vida 841
c’o necessário. 842
Quem mais deseja muitas vezes s’acha 843
triste, enganado, poucas vezes dorme 844
temendo o fogo, ventos, ares, sombras 845
temendo os homens. 846
Rei poderoso, tu porque desejas 847
nunca ter reino? Porque essa coroa 848
chamas pesada? Polo peso d’alma 849
que te carrega. 850
CORO II
Quam poucas vezes vimos 851
tardar a grã justiça 852
que não decesse sobre 853
aqueles livres filhos 854
que contra a natural 855
obrigação e lei 856
negaram obediência 857
àqueles que os geraram. 858
Pecado torpe e feo 859
ante Deos, ant‘os homens. 860
Mais pera hircanos tigres 861
mais pera leões bravos 862
que razão não conhecem 863
que pera quem só dela 864
e par’ela é formado. 865
Aquele amor tam grande 866
dos pais com que te criam 867
c’o sangue do seu peito 868
que fereza há tamanha 869
que tal brutalidade 870
que contr’ele te mova? 871
Rei dom Afonso, rei 872
lembra-te de ti mesmo. 873
Aqueles erros feos 874
com que tu perseguiste 875
teu pai tam cruamente 876
lhe dão de ti vingança. 877
Por outro tu teu filho 878
que te desobedece. 879
Viram-se as reais quinas, 880
polo mesmo Deos dadas 881
àquele rei primeiro 882
de que herdaste esse nome 883
com esse cetro rico 884
levantadas por ti 885
não contra cinco reis 886
com cujo sangue as houve 887
mas contra el rei teu pai 888
mas contra teus vassalos. 889
Viram-se as reais quinas 890
cruéis contra si mesmas 891
em bravo fogo acesas 892
contr’ũa parte e outra 893
de que tam cruelmente 894
corria um mesmo sangue. 895
Quantas vezes a santa 896
rainha tua mãe 897
se meteu nesse fogo 898
por te salvar a vida? 899
Por ela era apagado. 900
Por ti tornava arder. 901
Agora ardes nestoutro 902
justiça de Deos grande. 903

Acto Terceiro

(Castro. Ama.)
CASTRO
Nunca mais tarde pera mim que agora 904
amanheceu. Ó sol claro e fermoso 905
como alegras os olhos que esta noite 906
cuidaram não te ver. Ó noite triste. 907
Ó noite escura quam comprida foste. 908
Como cansaste est’alma em sombras vãs. 909
Em medos me trouxeste tais que cria 910
que ali se me acabava o meu amor 911
ali a saudade da minh’alma 912
que me ficava cá, e vós meus filhos 913
meus filhos tam fermosos, em que eu vejo 914
aquele rosto e olhos do pai vosso, 915
de mim ficáveis cá desemparados. 916
Oh sonho triste que assi me assombraste. 917
Tremo ind‘agora, tremo. Deos afaste 918
de nós tam triste agouro. Deos o mude 919
em mais ditoso fado, em melhor dia. 920
Crescereis vós primeiro filhos meus 921
que chorais de me ver estar-vos chorando. 922
Meus filhos tam pequenos, ai meus filhos 923
quem em vida vos ama e teme tanto 924
na morte que fará? Mas vivireis 925
crescereis vós primeiro, que veja eu 926
que pisais este campo em que nascestes 927
em fermosos ginetes arraiados 928
quais vosso pai vos guarda, com que o rio 929
passeis a nado a ver esta mãe vossa 930
com que canseis as feras e os imigos 931
vos temam de tam longe que não ousem 932
nomear-vos somente. Entam me venham 933
buscar meus fados, venha aquele dia 934
que me está esperando, em vossos olhos 935
ficarei eu meus filhos, vossa vida 936
tomarei eu por vida em minha morte. 937
AMA
Que choros e que gritos senhora eram 938
os que t’ouvi esta noite? 939
CASTRO
Ó Ama minha
vi a morte esta noite, crua e fera. 940
AMA
Entre sonhos t’ouvi chorar tam alto 941
que de medo e d’espanto fiquei fria. 942
CASTRO
Ind’agora minh’alma s’entristece 943
assombrada dos medos em que estive. 944
Cansada de cuidar na saudade 945
que sempre leva e deixa aqui o Ifante 946
adormeci tam triste que a tristeza 947
me fez tomar o sono mais pesado 948
do que nunca me lembra que tivesse. 949
Então sonhei que estando eu só num bosque 950
escuro e triste, de ũa sombra negra 951
coberto todo, ouvia ao longe uns brados 952
de feras espantosas cujo medo 953
m’arrepiava toda e meimpidia 954
a língua e os pés, eu co alma quasi morta 955
sem me mover, meus filhos abraçava. 956
Nisto um bravo leão a mim se vinha 957
co a catadura fera e logo manso 958
para trás se tornava, mas em s’indo 959
não sei donde saíam uns bravos lobos 960
que remetendo a mim com suas unhas 961
os peitos me rasgavam. Então alçava 962
vozes aos céus, chamava meu senhor 963
ouvia-me e tardava, e eu morria 964
com tanta saudade que ind'agora 965
parece que a cá tenho, e est’alma triste 966
se m’arrancava tam forçadamente 967
como quem antetempo assi deixava 968
seu lugar, e deixava pera sempre 969
(que este na minha morte era o mor mal) 970
a doce vista de quem me ama tanto. 971
AMA
Ai, e como estaria essa tu’alma 972
tam morta. Deos te guarde. Mas às vezes 973
o pensamento triste traz visões 974
escuras e medonhas. Do cuidado 975
com que senhora andaste e adormeceste 976
se te representaram esses medos. 977
CASTRO
Choro daquela dor, daquela mágoa 978
que ao meu Ifante dera a minha morte. 979
AMA
Pera que choras sonhos? 980
CASTRO
Não sei que hei
não sei que peso é este que cá tenho 981
assi no coração que me carrega. 982
Soía ser que quando só ficava 983
como agora me vejo, em meu senhor 984
eram todos meus sonhos tam alegres 985
que desejava a noite pera nela 986
me lograr dos enganos que com ele 987
se me representavam. Ali o via 988
ali cria que o tinha e que falava 989
comigo e eu com ele e muitas vezes 990
muitas palavras que ele em se partindo 991
me dizia chorando, ali chorando 992
mas tornava a dizer. E eu o detinha 993
apertado em meus braços, senão quando 994
acordava abraçada só comigo. 995
Aqueles meus enganos me sostinham 996
das noites pera os dias. E esta noite 997
perdia estes enganos com a vida. 998
AMA
Outro dia verás que te amanheça 999
mais claro e mais ditoso, em que a coroa 1000
que t’espera terás sobr’esses teus 1001
cabelos d’ouro. Alegra-te entretanto. 1002
Deixa vãs sombras, deixa tristes medos. 1003
CASTRO
Não sei que est’alma vê que tanto teme. 1004
AMA
A imaginação é perigosa. 1005
CASTRO
Que fará quem não pode fugir dela? 1006
AMA
Cuidar no bem, lança a tristeza fora. 1007
CASTRO
Faze-me o bem seguro, que eu não vejo. 1008
AMA
Por que temes o mal de que estás livre? 1009
CASTRO
Porque temo perder o bem que espero. 1010
AMA
Temer de longe o mal é mal dobrado. 1011
CASTRO
Como estará alma leda em culpa sua? 1012
Julgam-me mal os homens e a Deos temo. 1013
AMA
Dos secretos senhora que parecem 1014
ao mundo (que os não vê, e do de fora 1015
julga somente) feos, maus e torpes, 1016
basta a só consciência, basta tanto 1017
que com esta há de ter Deos toda a conta. 1018
Esta senhora é boa prova d’alma. 1019
Pois esta está segura no teu peito. 1020
Se pecado houve já, já está purgado 1021
com esse ânimo firme com que já ambos 1022
estais confederados santamente. 1023
O tempo Deos trará com mor seguro 1024
do que vos este dá, pera mais claro 1025
o mundo conhecer quam grão perigo 1026
é as almas julgar que só Deos vê. 1027
Entretanto contente espera e vive. 1028
Vive pera que viva quem tanto ama 1029
esta tua vida em que toda está a sua. 1030
CASTRO
Nunca o tanto meus olhos desejaram. 1031
Nunca meu pensamento o imaginou 1032
de mim tam esquecido. Deos o guarde. 1033
Deos te guarde senhor, que me parece 1034
que algum mal te detém, algum mal grande. 1035
Arranca-se a minh’alma de mim mesma 1036
parece que voar quer onde estás. 1037
Parece que lhe foges, que me deixas. 1038
Ah pensamentos tristes, pensamentos 1039
escuros, carregados, i-vos, i-vos. 1040
AMA
Ah não te agoures mal que melhor fado 1041
o teu será senhora, quem tristeza 1042
de sua vontade chama mal a pode 1043
lançar de si, que às vezes n’alegria 1044
entra tam furiosa que a destrue? 1045
Olha pera estes teus doces penhores 1046
tam seguros e certos desse amor 1047
de que foram gerados, em seus olhos 1048
alegra ora esses teus que assi desfazes 1049
com essas cruéis lágrimas. Não chores 1050
danas esse teu rosto tam fermoso 1051
filha, com tantas lágrimas, não chores 1052
não ofendas teus olhos, ah não vejam 1053
neles sinais tamanhos de tristeza 1054
aqueles cuja glória é ver-te alegre. 1055
Olha as águas do rio como correm 1056
pera onde está tam saudosamente. 1057
De lá te vê senhora, elas lhe lembram 1058
este aposento seu ou da su’alma. 1059
Estes campos fermosos que parecem 1060
debaixo deste céu dourado e belo 1061
quem os verá que logo não se alegre? 1062
Ouve a música doce com que sempre 1063
te vem a receber os passarinhos 1064
por cima destas árvores fermosas. 1065
Cuida senhora de lograres isto. 1066
Em algum tempo com dobrado gosto 1067
segura da fortuna e de seus medos 1068
senhora do teu bem e desta terra. 1069
(Coro. Castro. Ama.)
CORO
Tristes novas, cruéis 1070
novas mortais te trago dona Inês. 1071
Ah coitada de ti, ah triste, triste. 1072
Que não mereces tu a cruel morte 1073
que assi te vem buscar. 1074
AMA
Que dizes? Fala.
CORO
Não posso. Choro. 1075
CASTRO
De que choras?
CORO
Vejo
esse rosto, esses olhos, essa. 1076
CASTRO
Triste
de mim triste. Que mal? Que mal tamanho 1077
é esse que me trazes? 1078
CORO
É tua morte.
CASTRO
É morto o meu senhor? O meu Ifante? 1079
CORO
Ambos morrereis cedo. 1080
CASTRO
Oh novas tristes.
Matam-me o meu amor? Por que mo matam? 1081
CORO
Porque te matarão, por ti só vive. 1082
Por ti morrerá logo. 1083
AMA
Deos não queira
tal mal, tal desventura. 1084
CORO
Vem mui perto.
nam te tardará muito, põe-te em salvo. 1085
Fuge coitada, fuge que já soam 1086
as duras ferraduras, que te trazem 1087
correndo a morte triste. Gente armada 1088
correndo vem senhora em busca tua. 1089
El rei te vem buscar determinado 1090
d’em ti vingar sua fúria. Vê se podes 1091
salvar também teus filhos, não lh’empeça 1092
parte de teus maus fados. 1093
CASTRO
Oh coitada
só, triste, perseguida, ai meu senhor 1094
onde estás que não vens? El rei me busca? 1095
CORO
El rei. 1096
CASTRO
Por que me mata?
CORO
Rei cruel.
Cruéis os que o moveram a tal crueza. 1097
Por ti vem perguntando. Esses teus peitos 1098
vem só buscar pera com duro ferro 1099
serem furiosamente traspassados. 1100
AMA
Cumpriram-se teus sonhos. 1101
CASTRO
Sonhos tristes.
Sonhos cruéis. Por que tam verdadeiros 1102
me quisestes sair? Ó sprito meu. 1103
Como não creste mais o mal tamanho 1104
que crias e sabias? Ama fuge. 1105
Fuge desta ira grande que nos busca. 1106
Eu fico, fico só, mas ĩnocente. 1107
Não quero mais ajudas, venha a morte 1108
moura eu, mas ĩnocente. Vós meus filhos 1109
vivireis cá por mim, meus tam pequenos 1110
que cruelmente vem tirar de mim. 1111
Socorra-me só Deos e socorrei-me 1112
vós moças de Coimbra. Homens que vedes 1113
esta ĩnocência minha, socorrei-me. 1114
Meus filhos não choreis, eu por vós choro. 1115
Lograi-vos desta mãe, desta mãe triste 1116
enquanto a tendes viva. E vós amigas 1117
cercai-me em roda todas, e podendo 1118
defendei-me da morte que me busca. 1119
CORO I
Teme teus erros mocidade cega. 1120
Fuge a ti mesma, logra-te do tempo 1121
que assi te deixa correndo e voando 1122
com suas asas. 1123
Oh quanto ũa hora, quanto um só momento 1124
breve algũ‘hora quererás debalde. 1125
Poupa o presente, guarda-o, entesoura-o 1126
tê-lo-ás seguro. 1127
Todo ouro e prata, pedras preciosas 1128
a que correndo vão todos perdidos 1129
por água e fogo, não temendo a morte 1130
cavar nas veas 1131
nunca puderam, nunca poderão 1132
comprar um ponto deste tempo livre 1133
que assi atrás deixa príncipes, senhores 1134
como os mais baixos. 1135
Iguala a todos, igualmente foge. 1136
Não valem forças, não val gentileza. 1137
Por tudo passa, tudo calca e pisa. 1138
Ninguém o força. 1139
Com sua fouce, cruel vai cortando 1140
vidas a moços, trabalhos a velhos. 1141
Só boa fama, só virtude casta 1142
pode mais que ele. 1143
Esta se salva somente em si mesma. 1144
Esta o sprito segue, sempre vive. 1145
Esta seguindo vencerás o tempo 1146
rir-te-ás da morte. 1147
Vive, pois, vive mocidade cega 1148
vive co tempo, dele te enriquece. 1149
Dele só t’arma contr’aquele dia 1150
do grande aperto. 1151
CORO II
Após amor vem morte 1152
ou da vida ou da honra 1153
e d’alma juntamente 1154
que em noite escura põe 1155
sem ver, o claro dia 1156
da razão que lhe diz 1157
os males e perigos 1158
em que este amor acaba. 1159
Ó príncipe tam cego. 1160
Ó príncipe tam duro. 1161
Que cerraste os teus olhos 1162
àqueles bons conselhos 1163
que cerraste as orelhas 1164
àqueles bons avisos 1165
tu dormes ou passeas 1166
e pelos campos vem 1167
do Mondego correndo 1168
a cruel morte em busca 1169
da tua doce vida 1170
do teu amor tam doce. 1171
Cruel morte que vens 1172
buscar esta ĩnocente 1173
há piadade e mágoa 1174
dos seus fermosos olhos 1175
do seu fermoso rosto 1176
não desates um nó 1177
tam firme com que dous 1178
corações ajuntou 1179
amor tam estreitamente. 1180
Crueza farás grande 1181
partir uns olhos doutros 1182
ũa alma assi doutr’alma 1183
e derramar o sangue 1184
o sangue tam fermoso 1185
do seu fermoso corpo. 1186
Doam-te aqueles peitos 1187
de marfim ou de neve 1188
doam-te aquelas faces 1189
de lírios e de rosas 1190
que já perdem sua cor 1191
pola falta do sangue 1192
que no coração junto 1193
lhe tens frio e coalhado 1194
com medo do teu nome. 1195
Aquela alva garganta 1196
de cristal ou de prata 1197
que sostém a cabeça 1198
tam alva e tam dourada 1199
por que cortar a queres 1200
com golpe tam cruel? 1201
E derramar nos ares 1202
aquele sprito digno 1203
do corpo em que vivia 1204
há piedade e mágoa 1205
de tanta fermosura 1206
daquele triste Ifante 1207
e destes seus penhores. 1208
Detém-te enquanto chega 1209
detém-te enquanto tarda. 1210
Corre ó Ifante corre 1211
socorre ao teu amor. 1212
Ai tardas, saberás 1213
como o amor sempre acaba. 1214

Acto Quarto

(Pacheco. El Rei. Coro. Castro. Coelho.)
PACHECO
A presteza em tal caso é bom seguro. 1215
E piedade senhor será crueza. 1216
Cerra os olhos a lágrimas e mágoas 1217
que te podem mover dessa constância. 1218
REI
Esta é que a mim se vem. Oh rosto digno 1219
de mais ditosos fados. 1220
CORO
Eis a morte
vem. Vai-te entregar a ela, vai depressa 1221
terás que chorar menos. 1222
CASTRO
Vou amigas
acompanhai-me vós amigas minhas 1223
ajudai-me a pedir misericórdia. 1224
Chorai o desemparo destes filhos 1225
tam tenros e ĩnocentes. Filhos tristes 1226
vedes aqui o pai de vosso pai. 1227
Eis aqui vosso avô nosso senhor 1228
beijai-lhe a mão, pedi-lhe piedade 1229
de vós, desta mãe vossa cuja vida 1230
vos vem, filhos, roubar. 1231
CORO
Quem pode ver-te
que não chore e s’abrande? 1232
CASTRO
Meu senhor
esta é a mãe de teus netos. Estes são 1233
filhos daquele filho que tanto amas. 1234
Esta é aquela coitada molher fraca 1235
contra quem vens armado de crueza. 1236
Aqui me tens, bastava teu mandado 1237
pera eu segura e livre t’esperar 1238
em ti e em minh’ĩnocência confiada. 1239
Escusaras senhor todo este estrondo 1240
d’armas e cavaleiros, que não foge 1241
nem se teme a ĩnocência da justiça. 1242
E quando meus pecados me acusaram 1243
a ti fora buscar, a ti tomara 1244
por vida em minha morte, agora vejo 1245
que tu me vens buscar. Beijo estas mãos 1246
reais tam piadosas, pois quiseste 1247
por ti vir-te informar de minhas culpas. 1248
Conhece-mas senhor, como bom rei 1249
como clemente e justo e como pai 1250
de teus vassalos todos a quem nunca 1251
negaste piedade com justiça. 1252
Que vês em mim senhor? Que vês em quem 1253
em tuas mãos se mete tam segura? 1254
Que fúria, que ira esta é com que me buscas? 1255
Mais contra imigos vens que cruelmente 1256
t’andassem tuas terras destruindo 1257
a ferro e fogo. Eu tremo senhor, tremo 1258
de me ver ante ti como me vejo 1259
molher, moça, ĩnocente, serva tua 1260
tam só, sem por mim ter quem me defenda. 1261
Que a língua não s’atreve, o sprito treme 1262
ante tua presença, porém possam 1263
estes moços, teus netos defender-me. 1264
Eles falem por mim, eles sós ouve 1265
mas não te falarão senhor com língua 1266
que inda não podem, falam-te co as almas 1267
com suas idades tenras, com seu sangue 1268
que é teu te falarão, seu desemparo 1269
t’está pedindo vida, não lha negues. 1270
Teus netos são que nunca té qui viste 1271
e vê-los em tal tempo que lhes tolhes 1272
a glória e o prazer qu’em seus spritos 1273
lhe está Deos revelando de te verem. 1274
REI
Tristes foram teus fados, dona Inês 1275
triste ventura a tua. 1276
CASTRO
Antes ditosa
senhor, pois que me vejo ante teus olhos 1277
em tempo tam estreito, põe-nos ora, 1278
como nos outros sois, nesta coitada. 1279
Enche-os de piedade com justiça. 1280
Vens-me senhor matar? Por que me matas? 1281
REI
Teus pecados te matam, cuida neles. 1282
CASTRO
Pecados meus. Ao menos contra ti 1283
nenhum, meu rei, me acusa. Contra Deos 1284
me podem acusar muitos, mas ele ouve 1285
as vozes d’alma triste, em que lhe pede 1286
piedade ò Deos justo, Deos benigno 1287
que não mata, podendo com justiça 1288
mas dá tempo de vida e espera tempo 1289
só pera perdoar, assi o fazes, 1290
assi o fizeste sempre, pois não mudes 1291
agora contra mim teu bom costume. 1292
REI
Tua morte m’estão outras muitas vidas 1293
pedindo com clamores. 1294
PACHECO
Foge o tempo.
CASTRO
Oh triste, triste. Meu senhor não me ouves? 1295
Sossega tua fúria, não a sigas. 1296
Nunca conselhou bem, nunca deu tempo 1297
de remédio a algum mal a ira. Sempre 1298
traz arrependimento sem remédio. 1299
Ouve minha razão, minh’ĩnocência. 1300
Culpa é senhor guardar amor constante 1301
a quem mo tem? Se por amor me matas 1302
que farás ao imigo? Amei teu filho 1303
não o matei. Amor amor merece 1304
estas são minhas culpas, estas queres 1305
com morte castigar? Em que a mereço? 1306
PACHECO
Dona Inês, contra ti é a sentença dada. 1307
Despide essa tu’alma desse corpo 1308
em bom estado. E seja prestesmente 1309
não tenhas que chorar mais que só a morte. 1310
CASTRO
Ó meus amigos, porque não tirais 1311
el rei de ira tamanha? A vós me vou 1312
em vós busco socorro, ajudai-me ora 1313
pedir-lhe piedade. Ó cavaleiros 1314
que as tristes prometestes defender 1315
defendei-me que mouro injustamente. 1316
Se me vós não defendeis vós me matais. 1317
COELHO
Por mágoa dessas lágrimas te rogo 1318
que este tempo que tens, inda que estreito 1319
tomes pera remédio da tu’alma. 1320
O que el rei em ti faz, faz com justiça. 1321
Nós o trazemos cá, não com tenção 1322
de sermos em ti crus, mas de salvarmos 1323
este reino que pede esta tua morte. 1324
Que nunca o Deos quisera que tal meo 1325
nos fora necessário. A el rei perdoa 1326
que crueza não faz, se a nós fazemos 1327
por ti ante o grão Deos será pedida 1328
vingança justa, se te não parece 1329
que perdão merecemos nas tenções 1330
com que el rei conselhamos. Oh ditosa 1331
dona Inês, tua morte. pois só nela 1332
se ganha ũa geral vida a todo reino. 1333
Bem vês por tua causa como estava 1334
além desse pecado em que te tinha 1335
o Ifante forçada (que assi o cremos) 1336
mas pois para remédio é necessário 1337
a morte sua ou tua, é necessário 1338
que tu sofras a tua com paciência. 1339
Que isso te ficará por maior glória 1340
que aquela que esperavas cá do mundo. 1341
E quanto mais injusta te parece 1342
tanto mais justa glória lá terás 1343
onde tudo se paga por medida. 1344
Nós, que a teu parecer mal te matamos 1345
não viviremos muito, lá nos tens 1346
antes de muito tempo ant‘esse trono 1347
do grão juiz, onde daremos conta 1348
do mal que te fazemos. Não ouviste 1349
já das romãs e gregas com que esforço 1350
morreram muitas só por glória sua? 1351
Morre pois Castro, morre de vontade 1352
pois não pode deixar de ser tua morte. 1353
CASTRO
Triste prática, triste. Cru conselho 1354
me dás, quem o ouvira? Mas pois já mouro 1355
ouve-me rei senhor, ouve primeiro 1356
a derradeira voz dest’alma triste. 1357
Co estes teus pés me abraço, que não fujo. 1358
Aqui me tens segura. 1359
REI
Que me queres?
CASTRO
Que te posso querer que tu não vejas? 1360
Pergunta-te a ti mesmo o que me fazes 1361
a causa que te move a tal rigor. 1362
Dou tua consciência em minha prova. 1363
S’os olhos de teu filho s’enganaram 1364
com o que viram em mim, que culpa tenho? 1365
Paguei-lhe aquele amor com outro amor 1366
fraqueza costumada em todo estado. 1367
Se contra Deos pequei contra ti não. 1368
Não soube defender-me, dei-me toda. 1369
Não a imigos teus, não a traidores 1370
a que alguns teus segredos descobrisse 1371
confiados a mim, mas a teu filho 1372
príncipe deste reino. Vê que forças 1373
podia eu ter contra tamanhas forças. 1374
Não cuidava senhor que t’ofendia 1375
defenderas-mo tu e obedecera. 1376
Inda que o grand’amor nunca se força. 1377
Igualmente foi sempre entre nós ambos 1378
igualmente trocámos nossas almas. 1379
Esta que te ora fala é de teu filho. 1380
Em mim matas a ele, ele pede 1381
vida par’estes filhos concebidos 1382
em tanto amor. Não vês como parecem 1383
aquele filho teu? Senhor meu, matas 1384
todos a mim matando, todos morrem. 1385
Não sinto já nem choro minha morte 1386
inda que injustamente assi me busca 1387
inda que estes meus dias assi corta 1388
na sua flor indigna de tal golpe 1389
mas sinto aquela morte triste e dura 1390
pera ti e pera o reino, que tam certa 1391
vejo naquele amor que esta me causa. 1392
Não vivirá teu filho, dá-lhe vida 1393
senhor dando-ma a mim, que eu me irei logo 1394
onde nunca apareça, mas levando 1395
estes penhores seus que não conhecem 1396
outros mimos e tetas senão estas 1397
que cortar-lh’ora queres. Ai meus filhos 1398
chorai, pedi justiça aos altos céus. 1399
Pedi misericórdia a vosso avô 1400
contra vós tam cruel meus ĩnocentes. 1401
Ficareis cá sem mim, sem vosso pai 1402
que não poderá ver-vos sem me ver. 1403
Abraçai-me meus filhos, abraçai-me. 1404
Despedi-vos dos peitos que mamastes. 1405
Estes sós foram sempre, já vos deixam. 1406
Ah já vos desempara esta mãe vossa. 1407
Que achará vosso pai quando vier? 1408
Achar-vos-á tam sós, sem vossa mãe 1409
não verá quem buscava, verá cheas 1410
as casas e paredes de meu sangue. 1411
Ah, vejo-te morrer senhor por mim. 1412
Meu senhor já que eu mouro vive tu. 1413
Isto te peço e rogo: vive, vive. 1414
Empara estes teus filhos que tant’amas. 1415
E pague minha morte seus desastres 1416
se alguns os esperavam. Rei senhor 1417
pois podes socorrer a tantos males 1418
socorre-me, perdoa-me. Não posso 1419
falar mais. Não me mates, não me mates. 1420
Senhor não to mereço. 1421
REI
Oh molher forte.
Venceste-me, abrandaste-me. Eu te deixo. 1422
Vive enquanto Deos quer. 1423
CORO
Rei piadoso
vive tu pois perdoas, moura aquele 1424
que sua dura tenção leva adiante. 1425
(Pacheco. Rei. Coelho.)
PACHECO
Oh senhor que nos matas. Que fraqueza 1426
essa é indigna de ti? De um real peito? 1427
Vence-te ũa molher, e estranhas tanto 1428
vencer assi teu filho? Que já agora 1429
terá desculpa honesta. Não te esqueças 1430
da tenção tam fundada que te trouxe. 1431
REI
Não pode o meu sprito consentir 1432
em crueza tamanha. 1433
PACHECO
Mor crueza
fazes agora ao reino, agora fazes 1434
o que faz a pouca água em grande fogo. 1435
Agora mais s’acende, arderá mais 1436
o fogo de teu filho. A que vieste? 1437
A pôr em mor perigo teu estado? 1438
REI
Vejo aquela ĩnocente, chora-m’alma. 1439
COELHO
O ânimo real tam firme e forte 1440
há de ser no que faz que nunca possa 1441
debaixo do céu nada pervertê-lo. 1442
A justiça senhor, pinta-se armada 1443
d’espada aguda, contra cujos fios 1444
não possa haver brandura nem dureza. 1445
Cada um destes extremos é grão vício 1446
em quem é pai comum de todo um reino. 1447
Despois da conta feita e razões claras 1448
despois de tais conselhos em que viste 1449
quam necessária era esta tua vinda 1450
quam necessário o efeito a que vieste 1451
se muda assi senhor tam levemente 1452
por lágrimas teu ânimo constante? 1453
Antes não cometeras nem cuidaras 1454
cometer isto, por que não vieras 1455
acrescentar o mal que agora vejo 1456
que fica já de todo sem remédio. 1457
REI
Não vejo culpa que mereça pena. 1458
PACHECO
Inda hoje a viste, quem ta esconde agora? 1459
REI
Mais quero perdoar que ser injusto. 1460
COELHO
Injusto é quem perdoa a pena justa. 1461
REI
Peque antes ness’extremo que em crueza. 1462
COELHO
Não se consente o rei pecar em nada. 1463
REI
Sou homem. 1464
COELHO
Porém rei.
REI
O rei perdoa.
PACHECO
Nem sempre perdoar é piadade. 1465
REI
Eu vejo ũa ĩnocente, mãe de uns filhos 1466
de meu filho que mato juntamente. 1467
COELHO
Mas dás vida a teu filho, salvas-lh’alma 1468
pacificas teu reino, a ti seguras. 1469
Restitues-nos honra, paz, descanso. 1470
Destrues a traidores, cortas quanto 1471
sobre ti e teu neto se tecia. 1472
Ofensas, senhor, públicas não querem 1473
perdão mas rigor grande. Daqui pende 1474
ou remédio dum reino ou queda certa. 1475
Abre os olhos às causas necessárias 1476
que te mostramos sempre e que tu vias. 1477
Cuida no que emprendeste e no que deixas. 1478
O ódio de teu filho contra ti 1479
contra nós tal será como qual fora 1480
fazendo-se o que deixas por fazer. 1481
A ti ficam seus filhos, ama-os, honra-os. 1482
Assi lh’amansarás grã parte da ira. 1483
Senhor, por teu estado te pedimos 1484
polo amor do teu povo com que t’ama 1485
polo com que sabemos que nos amas 1486
por mais vida, e mais honra de teu filho 1487
príncipe nosso, e por aquele seu 1488
Fernando único herdeiro cuja vida 1489
te está pedindo justamente a morte 1490
desta molher, enfim por honra tua 1491
pola constância firme com que sempre 1492
acodiste òs remédios e à justiça 1493
que a não deixes agora, que te movam 1494
mais estas razões fortes que essa mágoa 1495
injusta que despois chorarás mais 1496
perdendo esta ocasião que Deos te mostra. 1497
REI
Eu não mando nem vedo. Deos o julgue. 1498
Vós outros o fazei se vos parece 1499
justiça assi matar quem não tem culpa. 1500
COELHO
Essa licença basta, a tenção nossa 1501
nos salvará c’os homens e com Deos. 1502
CORO
Enfim venceu a ira, cruel imiga 1503
de todo bom conselho. Ah quanto podem 1504
palavras e razões em peito brando. 1505
Eu vejo teu sprito combatido 1506
de mil ondas ó rei. Bom é teu zelo 1507
o conselho leal, cruel a obra. 1508
REI
Por crueza julgais o que é justiça? 1509
CORO
Crueza a chamará tod’outra idade. 1510
REI
Minh’alma ĩnocente é, conselho sigo. 1511
CORO
Deos te julgue. Eu não ouso. Porém temo. 1512
REI
Que temes? 1513
CORO
Este sangue que aos céus brada.
Não culpamos a ti, nem desculpamos 1514
as descorteses mãos de teus ministros 1515
constantes no conselho, crus na obra. 1516
Ai vês que crueldade? Oh nunca visto 1517
mais ĩnocente sangue. E como sofres 1518
ó rei tal injustiça? Ouves os brados 1519
da ĩnocente moça? Ouves os choros 1520
dos ĩnocentes filhos? Triste Ifante 1521
ali passam tu’alma teus vassalos 1522
de teu sangue os cruéis tingem seus ferros. 1523
REI
Afronta-se minh’alma. Oh quem pudera 1524
desfazer o que é feito. 1525
CORO I
Já morreu dona Inês, matou-a amor 1526
amor cruel. Se tu tiveras olhos 1527
também morreras logo. Ó dura morte 1528
como ousaste matar aquela vida? 1529
Mas não mataste. Melhor vida e nome 1530
lhe deste do que cá tinha na terra. 1531
CORO II
Este seu corpo só gastará a terra 1532
por quem estará chorando sempre o amor 1533
honrando-se somente do seu nome. 1534
Mas quem a quiser ver com outros olhos 1535
outro nome, outra glória, outra honra e vida 1536
lhe achará, contra a qual não pode a morte. 1537
CORO I
Aqueles matas tu somente ó morte 1538
cujo nome s’esquece e a quem na terra 1539
fica de todo sepultada a vida. 1540
Mas esta vivirá enquanto o amor 1541
entr’os homens reinar, e sempre os olhos 1542
de todos a verão com melhor nome. 1543
CORO II
Real amor lhe dará real nome. 1544
Oh que coroa lhe aparelha a morte. 1545
Despois que lhe cerrou os claros olhos 1546
indignos d’antetempo irem à terra, 1547
sem quem só fica e desarmado amor 1548
sem quem quam triste, Ifante, a tua vida. 1549
CORO I
Tu és o que morreste, aquela vida 1550
era tua, já agora aquele nome 1551
que tam doce te fez sempre o amor 1552
triste to tem tornado a cruel morte. 1553
Chorando a andarão sempre na terra 1554
té que nos céus a vejam esses teus olhos. 1555
CORO II
Nem haverá já nunca no mundo olhos 1556
que não chorem de mágoa de ũa vida 1557
assi cortada em flor. E quem a terra 1558
for ver, em que estiver escrito o nome 1559
dela, dirá: aqui está chorando a morte 1560
de mágoa do que fez aqui o amor. 1561
CORO I
Amor quanto perdeste nuns sós olhos 1562
que debaixo da terra pôs a morte 1563
tanto eles mais terão de vida e nome. 1564
(Sáficos.)
Choremos todos a tragédia triste 1565
que esta crua morte deixará no mundo. 1566
Já aquele sprito que também vivia 1567
em ti, ó Castro, vai aos céus voando. 1568
Já aquele sangue purpúreo, ĩnocente 1569
forçadamente desempara os membros 1570
a que ele dava aquela cor e graça 1571
que a natureza mais perfeitamente 1572
formar pudera nesta ou outra idade. 1573
Assi a região que vê nascer o sol 1574
como a região onde o sol se esconde 1575
assi aquela que ao fervente Cancro 1576
como aqueloutra que à fria Mor Ursa 1577
estão sojeitas, esta mágoa chorem. 1578
Jaz a coitada no seu sangue envolta 1579
aos pés dos filhos pera quem fugia. 1580
Não lhe valeram que não tinham forças 1581
pera tomarem os agudos ferros 1582
com que seus peitos tam irosamente 1583
traspassar viam aqueles cruéis. 1584
Ó mãos tam duras, ó corações duros 1585
como pudestes fazer tal crueza? 1586
Outras mãos venham que vo-las arranquem 1587
com mor crueza. 1588
CORO I
Que duros getas, mas que leões, que ussos 1589
não amansara tam fermoso rosto? 1590
Que ira tam brava não tornara branda 1591
ũa só mágoa de tam doce boca? 1592
Que mãos tão cruas não ataram logo 1593
aqueles crespos seus ricos cabelos? 1594
Aqueles olhos em que pedras duras 1595
não imprimiram brandura? Oh que mágoa. 1596
Oh que crueza tam fera e tam bruta. 1597
Moça ĩnocente por amor só morta 1598
com gente armada como forte imigo. 1599
Tu Deos que o viste, ouve o clamor justo 1600
daquele sangue que t’está pedindo 1601
crua vingança. 1602

Acto V

(Ifante. Messageiro.)
IFANTE
Outro céu, outro sol me parece este 1603
diferente daquele que lá deixo 1604
donde parti, mais claro e mais fermoso. 1605
Onde não resplandecem os dous claros 1606
olhos da minha luz, tudo é escuro. 1607
Aquele é só meu sol, a minha estrela 1608
mais clara, mais fermosa, mais luzente 1609
que Vénus quando mais clara se mostra. 1610
Daqueles olhos s’alumia a terra 1611
em que sombra não há nem nuvem escura. 1612
Tudo ali é tam claro que té a noite 1613
me parece mais dia que este dia. 1614
A terra ali s’alegra e reverdece 1615
doutras flores mais frescas e melhores. 1616
O céu se ri e se doura diferente 1617
do que neste horizonte se me mostra. 1618
O soberbo Mondego com tal vista 1619
parece que ao grão mar vai fazer guerra. 1620
Doutros ares respira ali a gente 1621
que fazem ĩmortais os que lá vivem. 1622
Ó Castro, Castro, meu amor constante. 1623
Quem me de ti tirar tire-me a vida. 1624
Minh’alma lá ma tens, tenho cá a tua. 1625
Morrendo ũa destas vidas ambas morrem. 1626
E havemos de morrer? Pode vir tempo 1627
que ambos nos não vejamos? Nem eu possa 1628
indo buscar-te ó Castro, achar-te lá? 1629
Nem achar os teus olhos tam fermosos 1630
de que os meus tomam luz e tomam vida? 1631
Não posso cuidar nisto sem os olhos 1632
mostrarem a saudade que me fazem 1633
tam tristes pensamentos. Viviremos 1634
muitos anos e muitosViviremos 1635
sempre ambos nest’amor tam doce e puro. 1636
Rainha te verei deste meu reino 1637
doutra nova coroa coroada 1638
diferente de quantas coroaram 1639
ou de homens ou molheres as cabeças. 1640
Então serão meus olhos satisfeitos 1641
então se fartará da glória sua 1642
est’alma que anda morta de desejos. 1643
MESSAGEIRO
Oh triste nova, triste messageiro 1644
tens ante ti senhor. 1645
IFANTE
Que novas trazes?
MESSAGEIRO
Novas cruéis, cruel sou contra ti 1646
pois m’atrevi trazê-las. Mas primeiro 1647
sossega teu sprito e nele finge 1648
a mor desaventura que te agora 1649
podia acontecer. Que gram remédio 1650
é ter o sprito armado à má fortuna. 1651
IFANTE
Tens-me suspenso. Conta, que acrecentas 1652
o mal com a tardança. 1653
MESSAGEIRO
É morta dona Inês que tanto amavas. 1654
IFANTE
Oh Deos, oh céus. Que contas? Que me dizes? 1655
MESSAGEIRO
De morte tam cruel que é nova mágoa 1656
contar-ta não me atrevo. 1657
IFANTE
É morta?
MESSAGEIRO
Si.
IFANTE
Quem ma matou? 1658
MESSAGEIRO
Teu pai com gente armada
foi hoje salteá-la. A ĩnocente 1659
que tam segura estava não fugiu. 1660
Não lhe valeu o amor com que te amava. 1661
Não teus filhos com quem se defendia. 1662
Não aquela ĩnocência e piedade 1663
com que pediu perdão aos pés lançada 1664
del rei teu pai, que teve tanta força 1665
que lho deu já chorando. Mas aqueles 1666
cruéis ministros seus e conselheiros 1667
contr’aquele perdão tam merecido 1668
arrancando as espadas se vão a ela 1669
traspassando-lh’os peitos cruelmente 1670
abraçada c’os filhos a mataram 1671
que inda ficaram tintos do seu sangue. 1672
IFANTE
Que direi? Que farei? Que clamarei? 1673
Oh fortuna, oh crueza, oh mal tamanho. 1674
Ó minha dona Inês, ó alma minha 1675
morta m’és tu? Morte houve tam ousada 1676
que contra ti pudesse? Ouço-o e vivo. 1677
Eu vivo e tu és morta. Ó morte crua. 1678
Morte cega mataste minha vida 1679
e não me vejo morto? Abra-se a terra 1680
sorva-me num momento, rompa-s’alma 1681
aparte-se de um corpo tam pesado 1682
que ma detém por força. 1683
Ah minha dona Inês, ah minh’alma. 1684
Amor meu, meu desejo, meu cuidado 1685
minh’esperança só, minh’alegria 1686
mataram-te. Mataram-te. Tua alma 1687
ĩnocente, fermosa, humilde e santa 1688
deixou já seu lugar? Ah, de teu sangue 1689
s’encheram as espadas, de teu sangue? 1690
Que espadas tam cruéis, que cruéis mãos. 1691
Ah como se moveram contra ti? 1692
Como tiveram forças, como fios 1693
aqueles duros ferros contra ti? 1694
Como tal consentiste rei cruel? 1695
Imigo meu, não pai, imigo meu. 1696
Porque assi me mataste? Ó leões bravos. 1697
Ó tigres, ó serpentes. Que tal sede 1698
tínheis deste meu sangue, por que causa 1699
vós não vínheis em mim fartar vossa ira? 1700
Matáreis-me e vivera. Homens cruéis 1701
por que não me matastes? Meus imigos 1702
se mal vos merecia em mim vingáreis 1703
esse mal todo. Aquela ovelha mansa 1704
ĩnocente, fermosa, simples, casta 1705
que mal vos merecia? Mas quisestes 1706
como imigos cruéis buscar-me a morte 1707
não da vida, mas d’alma. Ó céus que vistes 1708
tamanha crueldade, como logo 1709
não caístes? Ó montes de Coimbra 1710
como não sovertestes tais ministros? 1711
Como não treme a terra e s’abre toda? 1712
Como sustenta em si tam grã crueza? 1713
MESSAGEIRO
Senhor pera chorar fica assaz tempo 1714
mas lágrimas que fazem contr’a morte? 1715
Vai ver aquele corpo, vai fazer-lhe 1716
as honras que lhe deves. 1717
IFANTE
Tristes honras.
Outras honras, senhora, te guardava 1718
outras se te deviam. Ó triste, triste. 1719
Enganado, nascido em cruel signo 1720
quem m’enganou? Ah cego que não cria 1721
aquelas ameaças. Mas quem crera 1722
que tal podia ser? 1723
Como poderei ver aqueles olhos 1724
cerrados pera sempre? Como aqueles 1725
cabelos já não de ouro mas de sangue? 1726
Aquelas mãos tam frias e tam negras 1727
que antes via tam alvas e fermosas? 1728
Aqueles brancos peitos traspassados 1729
de golpes tam cruéis? Aquele corpo 1730
que tantas vezes tive nos meus braços 1731
vivo e fermoso, como morto agora 1732
e frio o posso ver? Ai como aqueles 1733
penhores seus tam sós? Ó pai cruel 1734
tu não me vias neles? Meu amor 1735
já me não ouves? Já não te hei de ver? 1736
Já te não posso achar em toda a terra? 1737
Chorem meu mal comigo quantos m’ouvem. 1738
Chorem as pedras duras, pois nos homens 1739
s’achou tanta crueza. E tu Coimbra 1740
cubre-te de tristeza pera sempre. 1741
Não se ria em ti nunca, nem s’ouça 1742
senão prantos e lágrimas, em sangue 1743
se converta aquela água do Mondego. 1744
As árvores se sequem e as flores. 1745
Ajudem-me pedir aos céus justiça 1746
deste meu mal tamanho. 1747
Eu te matei senhora, eu te matei. 1748
Com morte te paguei o teu amor. 1749
Mas eu me matarei mais cruelmente 1750
do que te a ti mataram se não vingo 1751
com novas crueldades tua morte. 1752
Para isto me dá Deos somente vida. 1753
Abra eu com minhas mãos aqueles peitos. 1754
Arranque deles uns corações feros 1755
que tal crueza ousaram, entam acabe. 1756
Eu te perseguirei, rei meu imigo. 1757
Lavrará muito cedo bravo fogo 1758
nos teus, na tua terra, destruídos 1759
verão os teus amigos, outros mortos 1760
de cujo sangue s’encherão os campos 1761
de cujo sangue correrão os rios 1762
em vingança daquele. Ou tu me mata 1763
ou fuge da minh’ira, que já agora 1764
te não conhecerá por pai. Imigo 1765
me chamo teu, imigo teu me chama. 1766
Não m’és pai, não sou filho, imigo sou. 1767
Tu, senhora, estás lá nos céus, eu fico 1768
enquanto te vingar, logo lá vou. 1769
Tu serás cá rainha como foras. 1770
Teus filhos, só por teus serão ifantes. 1771
Teu ĩnocente corpo será posto 1772
em estado real, o teu amor 1773
m’acompanhará sempre té que deixe 1774
o meu corpo c’o teu e lá vá est’alma 1775
descansar com a tua pera sempre. 1776