Luís Camões
Comédia del rei Seleuco
<<Teatro de autores portugueses do Séc. XVI. Base de dados textual>> Lisboa: Centro de Estudos de Teatro, Universidade de Lisboa. [15 março 2019] Disponível em: http://www.cet-e-quinhentos.com/
Joan Oleza Simó
(Investigador principal)
Camões, José
(Editor)
Silva, Helena Reis
(Editor)
Português · Verso · 745 versos
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.
https://playcode.fly.dev/plays/EMOTHE0556_ComediaDelReiSeleuco
[ Dramatis Personae
ESCUDEIRO
MOÇO
MARTIM
AMBRÓSIO
REPRESENTADOR
REI
RAINHA
PRÍNCIPE
PAJEM
MOÇA
PORTEIRO
ALEXANDRE
FROLALTA
FÍSICO
SANCHO]
(Diz logo o Mordomo, ou dono da casa:)
ESCUDEIRO
Eis, senhores: o autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar ũa farsa e diz que, por se não encontrar com outras já feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver um juízo assi arrezoado satisfazer. E diz que quem se dela não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou d’Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do boticário, e não lhe faltará que conte. Porém diz o autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto à obra se não parecer bem a todos, o autor diz que entende dela menos que todos os que lha puderem ẽmendar. Todavia, isto é para praguentos, aos quais diz que responde com um dito de um filósofo que diz: Vós outros estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos. E contudo quero saber da farsa em que ponto vai. Moço, Lançarote.
MOÇO
Senhor.
ESCUDEIRO
São já chegadas as figuras?
MOÇO
Chegadas são elas quasi ao fim de sua vida.
ESCUDEIRO
Como assi?
MOÇO
Porque foi a gente tanta que não ficou capa com frisa, nem talão de sapato que não saísse fora do couce. Ora vieram uns embuçadetes, quiseram entrar por força, ei-lo arrancamento na mão. Deram ũa pedrada na cabeça ao Anjo e rasgaram ũa meia calça ao Ermitão, e agora diz o Anjo que não há de entrar até lhe não darem ũa cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não porem ũa estopada na calça. Este pantufo se perdeu, assi mande-o vossa mercê domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheo.
ESCUDEIRO
Se ela fora outra peça de mais valia, tu botaras a conciência pela porta fora para a meteres em tua casa.
MOÇO
Oh se o ela fora, mais conciência seria torná-la a seu dono, quem a havia mister para si.
ESCUDEIRO
Ora vem cá. Vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá auto com grande fogueira, que se venha sua mercê para cá e que traga consigo o senhor Romão d’Alvarenga, para que sobre o cantochão botemos nosso contraponto de zombaria. Ouves Lançarote? Ir-lhe-ás abrir a porta do quintal, por que mudemos o vinte aos que cuidam de entrar por força.
(Indo-se o Moço, diz:)
MOÇO
Chichelo de judeu, assi como foste pantufo, que te custava ser ũa bolsa com um par de reales, que são bons para escudeiro hipócrita, que são muito e valem pouco?
ESCUDEIRO
Moço, que estás fazendo que não vás?
MOÇO
Senhor, estou tardando e porém estou cuidando que se agora fora aquele tempo em que corriam as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para ũas palmilhas. Mas já que assi é, diga-me vossa mercê que farei deste.
ESCUDEIRO
Oh fi de puta bargante, esperai, que estoutro vo-lo dirá.
(Faz que lhe atira com outro pantufo. Vai-se o Moço e diz o Escudeiro:)
ESCUDEIRO
Não há mais mau conselho que ter um vilão destes mimoso, porque logo passam o pé além da mão, zombam assi da gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa, vossas mercês é necessário que se cheguem uns para os outros, para darem lugar aos outros senhores que hão de vir, que doutra maneira, se todo o corro se há de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro Alvalade. E mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal. Este só desgosto tem um auto, que é como ofício de alcaide, ou haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por vilão ruim.
(Entra Martim Chinchorro, falando com outro escudeiro por nome Ambrósio, e diz o Martim Chinchorro:)
MARTIM
Entre vossa mercê.
AMBRÓSIO
Dias há, senhor, que ando de quebras com cortesias e por isso vou diante. Bejo as mãos a vossa mercê. A verdade é esta: passear com casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas. Além disso, auto para esgaravatar os dentes. Esta é a vida de que se há de fazer conciência.
ESCUDEIRO
Senhor, o descanso dizem lá que se há de ter enquanto homem puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome é.
MARTIM
Ora pois, senhor, o auto dizem que é tal? Porque um auto enfadonho traz mais sono consigo que ũa pregação comprida.
ESCUDEIRO
Senhor, por bom mo venderam e eu o tomei à cala de sua boa fama. E se tal é, eu acho que por outra parte não há tal vida como ouvir um vilão que arranca a fala da garganta mais sem sabor que ũa pêra-pão e ũa donzela que vem mais podre de amor, falando como apóstolo, mais piadosa que ũa lamentação.
MARTIM
Para estes tais é grande peça rapaz travesso com molho de junco, por que não andem mais ao coscorrão, mais roucos que ũa cigarra, trazendo de si enfadamento.
MOÇO
Oulá, senhores. Pedem as figuras alfinetes para toucarem um escudeiro. Ora sus, há i quem dê mais? Que ainda vos veja todas a mim às rebatinhas. Ora sus, venham de mano em mano, ou de mana em mana.
ESCUDEIRO
Moço, fala bem ensinado.
MOÇO
Senhor, não faz ao caso, que os erros por amores tem privilégio de moedeiro.
AMBRÓSIO
Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardará muito por entrar.
MOÇO
Perece-me, senhor, que antes que amanheça começarão.
AMBRÓSIO
Oh que salgado moço, zombas de mim? Vem cá, donde és natural?
MOÇO
Donde quer que me acho.
AMBRÓSIO
Pergunto-te onde naceste.
MOÇO
Nas mãos das parteiras.
AMBRÓSIO
Em que terra?
MOÇO
Toda a terra é ũa, e mais eu naci em casa assobradada, varrida daquela hora, que não havia palmo de terra nela.
MARTIM
Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize, cujo filho és? É para ver com que disparate respondes.
MOÇO
A falar verdade, parece-me a mim que eu sou filho de um meu tio.
MARTIM
Vem cá. De teu tio? E isso como?
MOÇO
Como? Isto, senhor, é adevinhação que vossas mercês não entendem. Meu pai era clérigo, e os clérigos sempre chamam aos filhos sobrinhos, e daqui me ficou a mim ser filho de meu tio.
MARTIM
Ora te digo que és gracioso. Senhor, donde houvestes este?
ESCUDEIRO
Aqui me veio às mãos sem piós nem nada, e eu por gracioso o tomei. E mais tem outra cousa, que ũa trova fá-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado.
AMBRÓSIO
Não. Quant’a disso nós havemos-lhe de ver fazer algũa cousa, enquanto se vestem as figuras, ainda que, para que é mais auto que vermos a este?
ESCUDEIRO
Vem cá, Moço. Dize aquela trova que fizeste à moça Briolanja, por amor de mim.
MOÇO
Senhor, si, direi. Mas aquela trova não é senão para quem a entender.
MARTIM
Como, tão escura é ela?
MOÇO
Senhor, assi a sei eu escrever e a fiz na memória, porque eu não sei escrever senão com carvão, e porém diz assi:
Per amor de vós, Briolanja
43
ando eu morto,
44
pesar de meu avô torto.
45
MARTIM
Oh como é galante, que descuido tão gracioso. Mas vem cá. Que culpa te tem teu avô nos disfavores que te tua dama dá?
MOÇO
Pois, senhor, se eu houve de pesar de alguém, não pesarei eu antes dos meus parentes que dos alheios?
ESCUDEIRO
Pois ouçam vossas mercês a volta, que é mais cheia de gavetas que a trombeta de Sereníssimo de la Valla.
MOÇO
A volta, senhores, é mui funda e parece-me, senhores, que nem de mergulho a entenderão, e por isso mandem assoar os engenhos e metam mais ũa sardinha no entendimento. E pode ser que com esta servilha lhe calçará melhor, e todavia palra assi:
Vossos olhos tão daninhos
50
me trataram de feição
51
que não há em meu coração
52
em que atem dous réis de cominhos.
53
Meu bem anda sem focinhos
54
por vós morto
55
pesar de meu avô torto.
56
MARTIM
Ora bem, que tem de ver os cominhos com o teu coração?
MOÇO
Pois, senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedela não se podem comer senão com cominhos. E mais, senhores, minha dama era tindeira, este é o verdadeiro entendimento.
MARTIM
E aquela regra que diz «meu bem anda sem focinhos» me dá tu a entender, que ela não dá nada de si.
MOÇO
Nunca vossas mercês ouviram dizer: meu bem e meu mal lutaram um dia meu bem era tal que meu mal o vencia? Pois desta luta foi tamanha a queda que meu bem deu entre ũas pedras, que quebrou os focinhos. E por ficarem tão esfarrapados, porque lhe não podiam botar pedaço, por conselho dos físicos lhos cortaram por lhe neles não saltarem herpes, e daqui ficou: meu bem anda sem focinhos, como diz o texto.
AMBRÓSIO
Tu fazes já melhores argumentos que moços do estudo por dia de são Nicolau.
MARTIM
Senhor, aquilo tudo é bom engenho. Este moço é natural para lógico.
MOÇO
Quê, senhor, natural para lójia? Si, mas não tão fria como vossas mercês.
ESCUDEIRO
Parece-me, senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta mesa, e ouçamos este representador, que vem mais amorlotado dos encontros que um capuz roxo de piloto que sai em terra e o tira d’arca de cedro.
MARTIM
Senhor, ele parece que aprende a cirugião.
AMBRÓSIO
Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos verdes.
ESCUDEIRO
Enfim, parece figura d’auto, em verdade.
(Entra o representador.)
REPRESENTADOR
É lei de direito assaz verdadeira
68
julgar por si mesmos aquilo que vem
69
porque eu cuido que eu zombo d’alguém
70
e cuido que zombam da mesma maneira.
71
E se a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer, seu próprio engano, por grande que seja... Ora, senhores, a mi me esquece o dito todo de ponto em claro, mas não sou de culpar, porque não há mais que três dias que mo deram. Mas em breves palavras direi a vossas mercês a suma da obra: ela é toda de rir, do cabo até à ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzelas que vão fugidas de casa de seus pais, e vão com cabazes apanhar azeitona. E trás elas vem logo oito mundanos, metidos em um covão, cantando: quem os amores tem em Sintra. E depois de cantarem farão ũa dança de espadas, cousa muito para ver. Entra mais el rei dom Chancho, bailando os machatins, e entra logo Caterina Real com uns poucos de parvos nũa joeira e semeá-los-á pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o auto, com música de chocalho e bozinas, que Cupido vem dar a ũa alfeloeira a quem quer bem, e ir-se-ão vossas mercês cada um para suas pousadas ou consoarão cá connosco disso que aí houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis em vano laboraverunt, porque até ‘gora zombei de vós, por me forrar do erro da representação, como quem diz: digo-te, antes que mo digas.
AMBRÓSIO
Ora vos digo, senhores, que, se as figuras são todas tais, que acertariam em errar os ditos, ainda que me parece que este o não fez, senão a ser mais galante. Mas se assi é, ela é a melhor invenção que eu vi, porque já agora representações, todas é darem por praguentos, e são tão certas, que é melhor errá-las que acertá-las.
ESCUDEIRO
Parece-me que entram as figuras de siso. Vejamos se são tam galantes na prática como nos vestidos.
(Entra el Rei Seleuco, com a Rainha Estratónica.)
REI
Senhora, dês que a ventura
76
me quis dar-vos por molher
77
me sinto ẽmeninecer
78
porque em vossa fermosura
79
perde a velhice seu ser.
80
Um homem velho, cansado
81
não tem força nem vigor
82
para em si sentir amor
83
se não é que estou mudado
84
com ser vosso noutra cor.
85
Muito grande dita tem
86
a molher que é fermosa.
87
RAINHA
Senhor, grande. Mas porém
88
se a tal é virtuosa
89
quer-lhe a ventura mor bem.
90
REI
Si, mas porém nunca vemos
91
a natureza esmerar
92
donde haja que tachar
93
que quando ela faz extremos
94
em tudo quer-se extremar.
95
Eu falo como quem sente
96
em vós esta calidade
97
pelo que vejo presente
98
e se me esta mostra mente
99
mente-me a mesma verdade.
100
Ũa só tristeza sento
101
que não tem a meninice
102
que no mor contentamento
103
o trabalho da velhice
104
me embaraça o sentimento.
105
RAINHA
Senhor, novidades tais
106
far-me-ão crer de verdade.
107
REI
Novidades lhe chamais
108
folgo, senhora, que achais
109
na velhice novidades.
110
RAINHA
Senhor, dias há que sento
111
no príncipe Antioco
112
certo descontentamento
113
dera algũa cousa a troco
114
por saber seu sentimento
115
vejo-lhe amarelo o rosto
116
ou de triste ou de doente
117
ou ele anda mal-disposto
118
ou lá tem certo disgosto
119
que o não deixa ser contente.
120
Mande senhor, vossa alteza
121
a chamá-lo por alguém
122
saberemos que mal tem
123
se é doença de tristeza
124
de que nace ou de que vem.
125
REI
Certo que eu me maravilho
126
do que vos ouço dizer.
127
Que mal pode nele haver?
128
Ide dizer a meu filho
129
que me venha logo ver.
130
RAINHA
Se curar não se procura
131
ũa cousa destas tais
132
vem depois a crecer mais.
133
Quando já se não acha cura
134
toda a cura é por demais.
135
(Entra o Príncipe Antioco, com seu pajem por nome Leocádio.)
PRÍNCIPE
Leocádio se és avisado
136
e não te falta saber
137
saber-me-ás dar a entender:
138
quem ama desesperado
139
que fim espera de haver?
140
PAJEM
Senhor, não.
141
Mas porém por que razão
142
lhe vem sabê-lo, ou de quê?
143
PRÍNCIPE
Pergunto-te a conclusão
144
não me perguntes porquê
145
porque é minha pena tal
146
e de tão estranho ser
147
que me hei de deixar morrer
148
e por não cuidar no mal
149
o não ouso de dizer.
150
Que maneira de tormento
151
tão estranho e evidente
152
que nem cuidar se consente
153
porque o mesmo pensamento
154
há medo do mal que sente.
155
PAJEM
Não entendo a vossa alteza.
156
PRÍNCIPE
Assi importa à minha dor.
157
PAJEM
E por que rezão, senhor?
158
PRÍNCIPE
Para que seja a tristeza
159
castigo de meu temor.
160
Porque ordena
161
o amor que me condena
162
que se haja de sentir
163
e sem dizer nem ouvir.
164
Bem-aventurada a pena
165
que se pode descobrir.
166
Oh caso grande e medonho
167
oh duro tormento fero
168
verdade é isto que eu quero?
169
Não é verdade mas sonho
170
de que acordar não espero.
171
Quero-me chegar a el Rei
172
meu pai, que já me está vendo.
173
Mas onde vou? Não m’entendo.
174
Com que olhos olharei
175
um pai a quem tanto ofendo?
176
Que novo modo de antolhos
177
porque neste atrevimento
178
divera meu sentimento
179
para ele não ter olhos
180
nem para ela pensamento.
181
(Chega aonde está el Rei e diz el Rei:)
REI
Filho, como andais assi
182
que tanto disgosto tomo
183
de vos ver como vos vi?
184
PRÍNCIPE
Não sei eu tanto de mi
185
que possa saber o como.
186
Dias há senhor que ando
187
mal-disposto sem saber
188
este mal que possa ser
189
que se nele estou cuidando
190
quasi me vejo morrer.
191
REI
Pois filho será razão
192
que meus físicos vos vejam.
193
PRÍNCIPE
Os físicos, senhor, não
194
que os males que em mi estão
195
são curas que me sobejam.
196
RAINHA
Deite-se que na verdade
197
um corpo deitado e manso
198
descansa à sua vontade.
199
PRÍNCIPE
Senhora, esta enfermidade
200
não se cura com descanso.
201
RAINHA
Todavia bom será
202
que lhe façam ũa cama.
203
PRÍNCIPE
Um coxim abastará
204
que assi não descansará
205
o repouso de quem ama.
206
REI
Vamos filho para dentro
207
enquanto a cama se faz.
208
Repousai como capaz
209
que a mi me dá cá no centro
210
a pena que assi vos traz.
211
(Vão-se e vem ũa Moça a fazer a cama, e diz:)
MOÇA
Mimos de grandes senhores
212
e suas extremidades
213
me hão de matar de amores
214
porque de meros dulçores
215
adoecem.
216
Então logo lhe parecem
217
aos outros que são mamados
218
e os que são mais privados
219
sobre eles estremecem.
220
Certo e assi Deos me ajude
221
que são muito graciosos
222
porque de meros viçosos
223
não podem com a saúde.
224
Mas deixá-los
225
porque eles darão nos valos
226
donde mais não se erguerão
227
inda que lhe dem a mão
228
os seus privados vassalos.
229
(Entra um Porteiro da cana e bate primeiro, e diz:)
PORTEIRO
Trás, trás, trás.
230
MOÇA
Jesu, quem está aí?
PORTEIRO
Já vós, mana, éreis mamada
231
para vos levar furtada
232
nunca tal ensejo vi
233
e vós estais descuidada.
234
MOÇA
E meus descuidos que fazem?
235
PORTEIRO
Vossos descuidos, cadela?
236
Ah minha alma, sois tão bela
237
que esses descuidos me trazem
238
dous mil cuidados à vela
239
pois sou vosso há tantos anos
240
mana tirai os antolhos
241
e vereis meus tristes danos.
242
MOÇA
Não tenhais esses enganos.
243
PORTEIRO
Nem vós tenhais esses olhos
244
que de vossos olhos vem
245
esta minha pena fera.
246
MOÇA
De meus olhos?
247
PORTEIRO
Assi era.
Moça que tais olhos tem
248
nenhuns olhos ver divera.
249
MOÇA
E porquê?
250
PORTEIRO
Porque cegais
a quantos olhos olhais
251
posto que por vós padecem.
252
Olhos que tão bem parecem
253
por que não nos castigais?
254
MOÇA
Deos dê siso pois de vós
255
tirou o que aos outros deu.
256
PORTEIRO
Desatai-me lá esses nós.
257
Que mais siso quero eu
258
que não ter siso por vós?
259
MOÇA
Falais d’arte, eu vos prometo
260
que a reposta vem à vela.
261
PORTEIRO
Isso é olho de panela.
262
MOÇA
Quanto há que sois discreto?
263
PORTEIRO
Quanto há que vós sois bela?
264
MOÇA
Dais-me logo a entender
265
que eu sou fea, a meu ver.
266
PORTEIRO
E isso por que o entendeis?
267
MOÇA
Porquê? Porque me dizeis
268
que só de meu parecer
269
vos procede o que sabeis.
270
PORTEIRO
É verdade.
271
MOÇA
Pois bem sento
que o vosso saber é vento
272
fica a cousa declarada
273
meu parecer não ser nada.
274
PORTEIRO
Olhai aquele argumento
275
além de bela, avisada.
276
Oh nem tanto nem tão pouco
277
vede vós o que falais.
278
MOÇA
Cego no saber andais.
279
PORTEIRO
No siso, mas não tão louco
280
como vós, mana, cuidais
281
ora dizei duna má
282
que não amais quem vos ama?
283
MOÇA
Ouvistes vós cantar já
284
Velho malo em minha cama?
285
Já me entendereis.
286
PORTEIRO
Ah ah
senhora estais enganada
287
que com ũa capa e espada
288
e com este capuz fora...
289
MOÇA
Ora bem tirai-o ora
290
e fazei ũa levada.
291
PORTEIRO
Não, se me eu hoje alvoroço
292
achar-me-eis doutra feição.
293
(Aqui tira o capuz e diz:)
Tenho má disposição?
294
Estas obras são de moço
295
se as mostras de velho são.
296
MOÇA
Tendes mui gentis meneos.
297
PORTEIRO
Não senhora. Faço extremos.
298
MOÇA
Passeai ora, veremos
299
se tendes tão bons passeos.
300
PORTEIRO
Tudo senhora faremos.
301
MOÇA
Virai ora a essoutra mão.
302
PORTEIRO
Esta disposição vede-a
303
que tenho gentil feição.
304
MOÇA
Tendes vós mui boa rédea.
305
Sofreis ancas?
306
PORTEIRO
Isso não.
MOÇA
Por certo que tendes graça
307
em tudo quanto fizerdes
308
fazei mais o que souberdes.
309
PORTEIRO
Não sei cousa que não faça
310
senhora por me quererdes.
311
MOÇA
Tendes vós muito bom ar.
312
PORTEIRO
Mais, que isto faz quem quer bem.
313
MOÇA
I-vos asinha, que vem
314
o Príncipe a se deitar.
315
PORTEIRO
Nunca ũa pessoa tem
316
ũa hora para falar.
317
(Entra o Príncipe com o seu pajem Leocádio, e diz:)
PRÍNCIPE
Seja a morte apercebida
318
porque já o amor ordena
319
a dar a meu mal saída
320
por que o fim da minha vida
321
o seja da minha pena
322
não tarde para tomar
323
vingança de meu querer
324
pois não se pode dizer
325
que não tem já que esperar
326
nem com que satisfazer.
327
Os físicos vem e vão
328
sem saberem minhas mágoas
329
nem o pulso me acharão
330
e se o querem ver nas águas
331
as dos olhos lho dirão
332
se com sangrias também
333
procuram ver-me curado
334
o temor de meu cuidado
335
o mais do sangue me tem
336
nas veas todo coalhado.
337
Quero-me aqui encostar
338
que já o espírito me cai.
339
Leocádio, vai-me chamar
340
os músicos de meu pai
341
folgarei de ouvir cantar.
342
(Aqui se deita como que repousa, e fala dizendo assi:)
Senhora, qual desatino
343
me trouxe a tanta tristura?
344
Foi, senhora, porventura
345
o terço do meu destino
346
como vossa fermosura.
347
Bem conheço que não posso
348
ter tão alto pensamento
349
mas disto só me contento
350
que se paga com ser vosso
351
o mor mal de meu tormento.
352
(Entram os músicos, e diz Alexandre da Fonseca, um deles:)
ALEXANDRE
Senhor, de que se acha mal
353
o Príncipe ou que mal sente?
354
PAJEM
Senhor, sei que está doente
355
mas sua doença é tal
356
que entender se não consente.
357
Os físicos vem e vão
358
uns e outros ameúde
359
sem o poderem dar são.
360
Quanto mais cura lhe dão
361
então tem menos saúde
362
o pai anda em sacrifícios
363
aos deoses que lhe dem
364
a saúde que convém
365
dizendo que por seus vícios
366
o mal a seu filho vem.
367
Eu sospeito que isto são
368
alguns novos amorinhos
369
que terá no coração.
370
ALEXANDRE
Amores, com quem serão
371
que lhe não dem de focinhos?
372
PORTEIRO
Senhores, que lhe parece
373
da doença de Antioco?
374
ALEXANDRE
Diga-lha quem lha conhece.
375
PAJEM
Que toma morrer a troco
376
de calar o que padece.
377
PORTEIRO
Isso é estar emperrado
378
na doença, que é pior.
379
Tem-no os físicos curado?
380
ALEXANDRE
Oh que de mal del amor
381
no ha, señor, sanador.
382
PORTEIRO
Falais como exprimentado
383
que eu cuido que esta fadiga
384
que o faz que desespere
385
Y por más tormento quiere
386
que se sienta y no se diga.
387
ALEXANDRE
Pois senhor isso assele
388
porque a pena que sabeis
389
que eu cuido que está nele
390
dar-lhe-á penas cruéis
391
pues no hay quien las consuele.
392
PAJEM
Hemo-nos, senhores, de ir
393
porque nos está esperando.
394
PORTEIRO
Pois eu também hei de ir
395
que não me posso espedir
396
donde vejo estar cantando.
397
PRÍNCIPE
Cantai por amor de mi
398
algũa cantiga triste
399
que todo meu mal consiste
400
na tristeza em que me vi.
401
PORTEIRO
Mande-lhe cantar um chiste.
402
ALEXANDRE
Chiste não que é desonesto
403
e não tem esses extremos.
404
Outro canto mais modesto
405
porém não sei que diremos.
406
PAJEM
Gãoleão o dirá presto.
407
PORTEIRO
Dá licença vossa alteza
408
que diga minha tenção?
409
PRÍNCIPE
Dizei, seja em cantochão.
410
PORTEIRO
Pois crede que é sutileza
411
que os anjos a comerão.
412
Digam esta:
413
Enforquei minha esperança
414
e o amor foi tão madraço
415
que lhe cortou o baraço.
416
ALEXANDRE
Não me parece essa boa.
417
PORTEIRO
Haja eu perdão.
418
ALEXANDRE
Porque não a entenderão.
419
PORTEIRO
Entender? Bofá que é boa
420
não lhe caís na feição?
421
ALEXANDRE
Dizei ora outra melhor
422
com que nos atarraqueis.
423
PORTEIRO
Ora esperai e ouvireis.
424
Se a esta não dais louvor
425
quero que me degoleis.
426
(Cantiga:)
Com vossos olhos Gonçalves
427
senhora, cativo tendes
428
este meu coração mendes.
429
ALEXANDRE
Essa parece mui taibo
430
porque mostra bom indício.
431
PORTEIRO
Vós cuidareis que eu que raivo.
432
ALEXANDRE
Todavia tem mau saibo.
433
Ora mal lhe corre o ofício.
434
PRÍNCIPE
Tá, não vá mais por diante
435
a zombaria que é má.
436
Cantai qualquer delas já
437
que esse Porteiro é galante
438
ninguém o contentará.
439
(Aqui cantam, e em acabando diz o Pajem:)
PAJEM
Parece que adormeceu.
440
PORTEIRO
Pois será bom que nos vamos.
441
ALEXANDRE
Senhor, quer que nos vejamos?
442
PORTEIRO
Senhor, vir-me-á do céu.
443
Releva-me que o façamos.
444
(Entra a Rainha com ũa sua criada por nome Frolalta, e diz a Rainha:)
RAINHA
Frolalta, como ficava
445
Antioco em te tu vindo?
446
FROLALTA
Ficava-se despedindo
447
da vida que então levava
448
e assi seus dias comprindo.
449
RAINHA
Oh grave caso de amor
450
desesperada afeição
451
oh amor sem redenção
452
que ali te fazes maior
453
onde tens menos razão.
454
No mais alto e fundo pego
455
ali tens maior porfia
456
razão de ti não se fia.
457
Quem te a ti chamou cego
458
mui bem soube o que dizia.
459
Porventura ia chorando?
460
FROLALTA
Chorando ia, chamando
461
ó amor, amor cruel
462
e em, senhora, se deitando
463
lhe caiu este papel.
464
RAINHA
Que papel?
465
FROLALTA
Este, senhora.
RAINHA
Amostra que quero lê-lo.
466
Agora acabo de crê-lo
467
que ao que mostra por fora
468
aqui lhe lançou o selo.
469
(Aqui lê o papel, e diz:)
Oh estranha pena fera
470
desditosa vida cara
471
oh quem nunca cá viera
472
e com seu pai não casara
473
ou em casando morrera.
474
FROLALTA
Ainda que eu, pes’a são
475
senhora, tudo bem vejo
476
atente que na eleição
477
o que lhe pede o desejo
478
não consente o coração.
479
RAINHA
Frolalta, pois que és discreta
480
nada te posso encobrir
481
porque se queres sentir
482
a ũa molher discreta
483
tudo se há de descobrir.
484
O dia que entrei aqui
485
que a Seleuco recebi
486
logo nesse mesmo dia
487
no Príncipe filho vi
488
os olhos com que me via.
489
Este princípio sofri-lho
490
para ver se se mudava
491
antes mais se acrecentava.
492
Eu amava-o como filho
493
e ele doutra arte me amava.
494
Agora vejo-o no fim
495
por se me não declarar.
496
Pois que já a isso vim
497
a morte que o levar
498
me leve também a mim
499
porque já que minha sorte
500
foi tão crua e desabrida
501
que me não quer dar saída
502
sejamos juntos na morte
503
pois o não somos na vida.
504
Oh quem me mandou casar
505
para ver tal crueldade
506
ninguém venda a liberdade
507
pois não pode resgatar
508
onde não tem a vontade
509
que não há mor desvario
510
que o forçado casamento
511
por alcançar alto assento
512
que enfim todo o senhorio
513
está no contentamento.
514
Não sei se o vá ver agora
515
se será tempo conforme
516
ou se imos a desora.
517
FROLALTA
Depois iremos, senhora
518
que agora dizem que dorme.
519
(Entra o Físico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:)
FÍSICO
Su madrastra oyó nombrar
520
y el pulso se le alteró
521
esto no entiendo yo
522
porque para le alterar
523
el corazón le obligó.
524
Pues que el corazón se altere
525
es porque en un momento
526
algún nuevo vencimiento
527
de afición terrible le hiere
528
que causa tal movimiento.
529
Pues qué afición cabe así
530
con madrastra? Digo yo
531
dos razones hay aquí
532
la una dice que sí
533
la otra dice que no.
534
Empero yo determino
535
de exprimentar la verdad
536
y hacer una habilidad
537
que declare es agua o vino
538
esta su enfermedad
539
porque toda esta mañana
540
tengo estudiado su mal
541
sin ver causa efectual
542
de su dolencia inhumana
543
ni otra de su metal.
544
Llamar quiero este asnejón
545
mas aun debe de dormir
546
según que es dormilón.
547
Oh Sancho, oh Sancho.
548
SANCHO
Ah señor, ah señor.
549
FÍSICO
Ea, aún estás dormiendo?
550
SANCHO
Estoyme, señor, vestiendo.
551
FÍSICO
Pues, bellaco y sinsabor
552
no me respondes dormiendo?
553
Vestíos presto, ladrón
554
oh qué mozo y qué ventura.
555
SANCHO
Mas qué amo y caratón
556
envíeme el ropón
557
que no hallo mi vestidura.
558
FÍSICO
Que envíe el ropón acá?
559
Parece que os desmandáis.
560
SANCHO
Que vaya, señor, ah, ah.
561
(Entra o Moço embrulhado em ũa manta, e diz:)
SANCHO
Que buenos días hayáis.
562
FÍSICO
Di, cómo vienes así
563
con la manta y para qué?
564
SANCHO
Yo, señor, se lo diré:
565
por venir presto vestí
566
lo que más presto hallé
567
porque viendo que él me llama
568
dormiendo yo sin afán
569
salté presto de la cama
570
que parezco un gavilán
571
hermoso como una dama.
572
FÍSICO
Mas es tu bobedad tanta
573
que vienes desa fición?
574
SANCHO
De mi vestido se espanta?
575
De noche sirve de manta
576
y de día de ropón.
577
FÍSICO
Envióme el Rey a llamar
578
otra vez.
579
SANCHO
Y a mí?
FÍSICO
Y a ti.
SANCHO
Y él que presta allá sin mí?
580
FÍSICO
Qué puedes tu aprovechar?
581
SANCHO
Yo se lo diré de aquí:
582
si por la ventura quiere
583
para que le dé consejo
584
cuando doliente estuviere
585
digo: coma si pudiere
586
y beba buen vino anejo.
587
Porque éste es el licor
588
que da fuerza y es sabroso
589
que según dicen señor
590
vino letificat cor
591
hominis y le es provechoso.
592
FÍSICO
Ya sabes la medicina
593
que Avicena nos refiere.
594
SANCHO
Pues señor porque es divina.
595
Pero el Rey qué le quiere
596
qué manda o qué determina?
597
FÍSICO
El Príncipe está doliente.
598
SANCHO
Oh mezquino y qué mal ha?
599
FÍSICO
Y a ti necio qué te va?
600
SANCHO
Oh señor que es mi pariente.
601
FÍSICO
Gracioso el bobo está.
602
Y pues dime por tu fe
603
llorarás si se moriere?
604
SANCHO
No lloraré
605
empero, señor, haré
606
la peor cara que pudiere.
607
FÍSICO
Ea bobo ve corriendo
608
y ensilla la mula aína.
609
SANCHO
Mula viene ensillar mejor.
610
FÍSICO
Oh bellaco y sinsabor.
611
SANCHO
Yo por cierto no lo entiendo.
612
Pero una melecina
613
le he de pedir Dios queriendo
614
porque ando atribulado
615
y no sé parte de mí
616
con este nuevo cuidado
617
para un sayo esfarrapado
618
que me dicen hay allí.
619
FÍSICO
Ora ensilla y nunca viva
620
pues sufro tus desatinos.
621
SANCHO
Señor, pasión no reciba
622
Ya cabalga Calaynos
623
a la sombra de una oliva.
624
(Aqui se sai bolindo com a almofaça, e acorda o Príncipe e diz:)
PRÍNCIPE
Oh bela vista e humana
625
por quem tanto mal sostenho
626
oh princesa soberana
627
como nos braços vos tenho
628
ou este sonho me engana?
629
Pois como sonho também
630
me queres vir magoar
631
e para me atormentar
632
mostras-me a sombra do bem
633
para assi mais me enganar?
634
Assi que conquanto canso
635
já não posso achar atalho
636
pois que o sono quieto e manso
637
que os outros tem por descanso
638
me vem a mim por trabalho
639
pois há i tantos enganos
640
que condenam minha sorte
641
não o tenho já por forte
642
se à volta de tantos danos
643
viesse também a morte.
644
(Aqui entra el Rei com o Físico, e diz el Rei:)
REI
Andai e vede se achais
645
o rasto deste segredo
646
que me dizem que alcançais
647
ainda que tenho medo
648
que lhe seja por demais.
649
FÍSICO
Plega a Dios que aquesto sea
650
para salud y remedio
651
desta dolencia tan fea.
652
Yo buscaré todo el medio
653
que presto sano se vea.
654
(Aqui lhe toma o Físico o pulso e diz:)
FÍSICO
Afloxen señor sus ays.
655
Cómo se halla en su penar?
656
PRÍNCIPE
Como me acho perguntais?
657
E como se pode achar
658
quem sempre se perde mais?
659
FÍSICO
La respuesta abre el camino.
660
Imagina de contino?
661
PRÍNCIPE
Não tenho outro mantimento
662
nem outro contentamento
663
senão o que em mi imagino.
664
(Aqui entra a Rainha e diz:)
RAINHA
Como se sente senhor?
665
Tem a febre mais piquena?
666
PRÍNCIPE
Responda-lhe minha pena.
667
FÍSICO
Conocido es su dolor
668
ora sea enhorabuena
669
tomada está la tristeza
670
a las manos. Que sentió?
671
Usaré de sutileza.
672
(Diz contra el Rei:)
Cúmpleme que solo yo
673
platique con vuestra alteza.
674
REI
Cheguemo-nos para cá.
675
RAINHA
Não deve desesperar
676
que enfim, se bem atentar
677
para tudo o tempo dá
678
tempo para se curar.
679
PRÍNCIPE
Que cura poderá ter
680
quem tem a cura senhora
681
no impossível haver?
682
RAINHA
Ficai-vos senhor embora
683
que vos não sei responder.
684
(Vai-se a Rainha e diz el Rei:)
REI
Neste mal que não comprendo
685
que meio dais de conselho?
686
FÍSICO
Señor, nada entiendo dello
687
y puesto que lo entiendo
688
yo quisiera no entendello.
689
REI
Porquê?
690
FÍSICO
Porque tengo entendido
691
lo más malo de entender
692
para lo que puede ser
693
porque anda, señor, perdido
694
d’amores por mi mujer.
695
REI
Santo Deos que tal amor
696
lhe dá doença tão fera
697
que remédio achais melhor?
698
FÍSICO
Forzado será que muera
699
por que no muera mi honor.
700
REI
Pois como a um só herdeiro
701
deste reino não dareis
702
vossa molher? Pois podeis
703
que tudo faz o dinheiro
704
pois este não o enjeiteis
705
dai-lha, porque eu espero
706
de vos dar dinheiro e honra
707
quanto eu para ele quero.
708
FÍSICO
No tira el mucho dinero
709
la mancha de la deshonra.
710
REI
Ora bem pouco defeito
711
é pequice conhecida
712
quando deixa de ser feito
713
porque com ele dais vida
714
a quem vos dará proveito.
715
FÍSICO
Cuán fácilmente aporfía
716
quien en tal nunca se vio.
717
Del consejo que me dio
718
vuestra alteza que haría
719
si agora fuese yo?
720
REI
A molher que eu tivesse
721
dar-lha-ia. Oxalá
722
que ele a Rainha quisesse.
723
FÍSICO
Pues déla si le parece
724
que por ella muerto está.
725
REI
Que me dizeis?
726
FÍSICO
La verdad.
REI
Sem dúvida tal sentistes?
727
FÍSICO
Sin duda, sin falsedad.
728
Pues, señor, ahora tomad
729
los consejos que me distes.
730
REI
Certamente que eu o via
731
em tudo quanto falava.
732
Como o vistes? Por que via?
733
FÍSICO
Nel pulso que se alteraba
734
si la vía o si la oía.
735
REI
Que maneira há de haver?
736
Que eu certo me maravilho
737
possa mais o amor de filho
738
do que pode o da molher.
739
Finalmente hei-lha de dar
740
que a ambos conheço o centro.
741
Quero-o ir levantar
742
e iremos para dentro
743
neste caso praticar.
744
(Diz contra o Príncipe:)
Levantai-vos filho di
745
o melhor que vós puderdes
746
e vinde-vos para aqui
747
porque enfim o que quiserdes
748
tudo havereis de mi.
749
PAJEM
Ah senhores oulá ou.
750
PORTEIRO
Viestes em conjunção
751
a melhor que pode ser.
752
Haveis aqui de fazer
753
a trosquia a um rifão.
754
PAJEM
Deixai-me, senhor, dizer
755
haveis isto de acabar:
756
Coração i bugiar
757
no estéis preso en cadenas
758
que pois o amor vos deu penas
759
que vos lanceis a voar.
760
PORTEIRO
Por certo que bem coprou.
761
PAJEM
Ora sabeis o que vai?
762
Antioco que casou
763
com a molher de seu pai
764
e o mesmo pai o ordenou.
765
PORTEIRO
Isso como?
766
PAJEM
Não o sei
porque dizem que a amava
767
e que só por ela andava
768
para morrer e el Rei
769
deu a quem a desejava.
770
PORTEIRO
Se o casa por querer bem
771
com a moça a quem ama
772
direi que a mim me inflama
773
o amor mais que ninguém.
774
PAJEM
Pois pedi-lhe a vossa dama.
775
PORTEIRO
Por são Gil, que ei-los cá vem.
776
(Entra el Rei e Antioco com a Rainha pela mão, e diz el Rei:)
REI
Que mais há que esperar?
777
Olhai que estranheza, vai
778
o muito amor ordenar
779
ir-se o filho namorar
780
de ũa molher de seu pai.
781
Querer bem foi sua dor
782
negar-lha será crueldade
783
assi que já foi bondade
784
usar eu de tal amor
785
e de tal humanidade.
786
Ela deixou de reinar
787
como fazia primeiro
788
por se com ele casar
789
e por amor verdadeiro
790
tudo se pode deixar.
791
Eu que nela tinha posto
792
todo o bem de meu cuidado
793
deixei mais que ela há deixado
794
que mais se deixa no gosto
795
que no poderoso estado.
796
Mas já que tudo isto vemos
797
hajam festas de prazer
798
as que melhor possam ser
799
porque em tão grandes extremos
800
extremos se hão de fazer.
801
Hajam cantos para ouvir
802
jogos, prazeres sem fundo
803
porque se quereis sentir
804
deste modo entrou o mundo
805
e assi há de sair.
806
(Aqui vem os músicos e cantam e depois de cantarem saem-se todas as figuras, e diz Martim Chinchorro:)
MARTIM
Ora, senhor, tomemos também nosso pandeiro e vamos festejar os noivos ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta é a mor festa que pode ser. Mas espere vossa mercê. Ouviremos cantar, e na volta das figuras nos acolheremos. Moço, acende esse molho de cavacos, porque faz escuro, não vamos dar connosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.
ESCUDEIRO
Não, senhor, mas o meu Pilarte irá com eles com um par de tições na mão e perdoem o mau agasalhado. Mas daqui em diante sirvam-se desta pousada e não tenham isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva.