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Auto da barca do inferno
Gil Vicente — EMOTHE0521_AutoDaBarcaDoInferno
Trata-se polas figuras seguintes:
Cavaleiros
ARRAIS DO INFERNO
À barca à barca oulá
1
que temos gentil maré
2
ora venha o caro a ré.
3
COMPANHEIRO
Feito feito.
4
DIABO
Bem está.
Vai ali muit’ieramá
5
e atesa aquele palanco
6
e despeja aquele banco
7
pera a gente que virá.
8
À barca à barca u u
9
asinha que se quer ir.
10
Oh que tempo de partir
11
louvores a Berzebuu.
12
Ora sus que fazes tu?
13
Despeja todo esse leito.
14
COMPANHEIRO
Em bon’ora logo é feito.
15
DIABO
Abaixa aramá esse cu.
16
Faze aquela poja lesta
17
e alija aquela driça.
18
COMPANHEIRO
Oh oh caça oh oh iça.
19
DIABO
Oh que caravela esta.
20
Põe bandeiras que é festa
21
verga alta âncora a pique.
22
Ó precioso dom Anrique
23
cá vindes vós que cousa é esta?
24
FIDALGO
Esta barca onde vai ora
25
que assi está apercebida?
26
DIABO
Vai pera a ilha perdida
27
e há de partir logo ess'hora.
28
FIDALGO
Pera lá vai a senhora?
29
DIABO
Senhor a vosso serviço.
30
FIDALGO
Parece-me isso cortiço.
31
DIABO
Porque a vedes lá de fora.
32
FIDALGO
Porém a que terra passais?
33
DIABO
Pera o inferno senhor.
34
FIDALGO
Terra é bem sem sabor.
35
DIABO
Quê? E também cá zombais?
36
FIDALGO
E passageiros achais
37
pera tal habitação?
38
DIABO
Vejo-vos eu em feição
39
pera ir ao nosso cais.
40
FIDALGO
Parece-te a ti assi.
41
DIABO
Em que esperas ter guarida?
42
FIDALGO
Que deixo na outra vida
43
quem reze sempre por mi.
44
DIABO
Quem reze sempre por ti
45
hi hi hi hi hi hi hi
46
e tu viveste a teu prazer
47
cuidando cá guarecer
48
porque rezem lá por ti.
49
Embarca ou embarcai
50
que haveis d’ir à derradeira
51
mandai meter a cadeira
52
que assi passou vosso pai.
53
FIDALGO
Que que que. E assi lhe vai?
54
DIABO
Vai ou vem. Embarcai prestes
55
segundo lá escolhestes
56
assi cá vos contentai.
57
Pois que já a morte passastes
58
haveis de passar o rio.
59
FIDALGO
Não há aqui outro navio?
60
DIABO
Não senhor que este fretastes
61
e já quando espirastes
62
me tínheis dado sinal.
63
FIDALGO
Que sinal foi esse tal?
64
DIABO
Do que vós vos contentastes.
65
FIDALGO
A estoutra barca me vou.
66
Ou da barca pera onde is?
67
Ah barqueiros não m’ouvis?
68
Respondei-me. Oulá ou.
69
Pardeos aviado estou
70
quant’a isto é já pior
71
que gericocins salvanor
72
cuidam cá que sou eu grou.
73
ANJO
Que mandais?
74
FIDALGO
Que me digais
pois parti tam sem aviso
75
se a barca do paraíso
76
é esta em que navegais.
77
ANJO
Esta é. Que lhe buscais?
78
FIDALGO
Que me leixeis embarcar.
79
Sou fidalgo de solar
80
é bem que me recolhais.
81
ANJO
Não s’embarca tirania
82
neste batel divinal.
83
FIDALGO
Não sei por que haveis por mal
84
que entre minha senhoria.
85
ANJO
Pera vossa fantesia
86
mui pequena é esta barca.
87
FIDALGO
Pera senhor de tal marca
88
não há ‘qui mais cortesia?
89
Venha a prancha e o atavio
90
levai-me desta ribeira.
91
ANJO
Não vindes vós de maneira
92
pera entrar neste navio
93
essoutro vai mais vazio
94
a cadeira entrará
95
e o rabo caberá
96
e todo vosso senhorio.
97
Ireis lá mais espaçoso
98
vós e vossa senhoria
99
contando da tirania
100
de que éreis tam curioso.
101
E porque de generoso
102
desprezastes os pequenos
103
achar-vos-eis tanto menos
104
quanto mais fostes fumoso.
105
DIABO
À barca à barca senhores.
106
Oh que maré tam de prata
107
um ventezinho que mata
108
e valentes remadores.
109
(Cantando:)
Vos me veniredes a la mano
110
a la mano me veniredes
111
e vós veredes
112
peixes nas redes.
113
FIDALGO
Ao inferno todavia
114
inferno há i pera mi?
115
Oh triste enquanto vivi
116
nunca cri que o i havia
117
tive que era fantesia
118
folgava ser adorado
119
confiei em meu estado
120
e não vi que me perdia.
121
Venha essa prancha e veremos
122
esta barca de tristura.
123
DIABO
Embarque vossa doçura
124
que cá nos entenderemos.
125
Tomareis um par de remos
126
veremos como remais
127
e chegando ao nosso cais
128
nós vos desembarcaremos.
129
FIDALGO
Mas esperai-me aqui
130
tornarei à outra vida
131
ver minha dama querida
132
que se quer matar por mi.
133
DIABO
Que se quer matar por ti?
134
FIDALGO
Isto bem certo o sei eu.
135
DIABO
Oh namorado sandeu
136
o maior que nunca vi.
137
FIDALGO
Era tanto seu querer
138
que m’escrevia mil dias.
139
DIABO
Quantas mentiras que lias
140
e tu morto de prazer.
141
FIDALGO
Pera que é escarnecer
142
que nam havia mais no bem?
143
DIABO
Assi vivas tu amém
144
como te tinha querer.
145
FIDALGO
Isto quanto ò que eu conheço.
146
DIABO
Pois estando tu espirando
147
se estava ela requebrando
148
com outro de menos preço.
149
FIDALGO
Dá-me licença te peço
150
que vá ver minha molher.
151
DIABO
E ela por não te ver
152
despenhar-s’-á dum cabeço.
153
Quanto ela hoje rezou
154
antre seus gritos e gritas
155
foi dar glórias infinitas
156
a quem na desabafou.
157
FIDALGO
Quant’a ela bem chorou.
158
DIABO
E não há i choro d’alegria?
159
FIDALGO
E as lástimas que dezia?
160
DIABO
Sua mãe lhas ensinou.
161
Entrai meu senhor entrai
162
venha a prancha ponde o pé.
163
FIDALGO
Entremos pois que assi é.
164
DIABO
Ora agora descansai
165
passeai e sospirai
166
entanto virá mais gente.
167
FIDALGO
Oh barca como és ardente
168
maldito quem em ti vai.
169
(Diz o Diabo ao Moço da cadeira:)
Tu seu moço vai-te di
170
que a cadeira é cá sobeja
171
cousa qu’esteve na igreja
172
nam s’ há d’embarcar aqui.
173
Cá lha darão de marfi
174
marchetada de dolores
175
com tais modos de lavores
176
que estará fora de si.
177
À barca à barca boa gente
178
que queremos dar à vela
179
chegar ela chegar ela
180
muitos e de boa mente.
181
(Chega um Onzeneiro e diz:)
Oh que barca tam valente
182
pera onde caminhais?
183
DIABO
Oh que má hora venhais
184
Onzeneiro meu parente.
185
Como tardastes vós tanto?
186
ONZENEIRO
Mais quisera eu lá tardar.
187
Na safra do apanhar
188
me deu saturno quebranto.
189
DIABO
Ora muito m’espanto
190
nam vos livrar o dinheiro.
191
ONZENEIRO
Nem tam sóis pera o barqueiro
192
nam me deixaram nem tanto.
193
DIABO
Ora entrai entrai aqui.
194
ONZENEIRO
Nam hei eu i d’embarcar.
195
DIABO
Oh que gentil recear
196
e que cousas pera mi.
197
ONZENEIRO
Ind’agora faleci
198
deixai-me buscar batel.
199
DIABO
Pesar de Jam Pimintel
200
por que nam irás aqui?
201
ONZENEIRO
E pera onde é a viagem?
202
DIABO
Pera onde tu hás d’ir.
203
Estamos pera partir
204
nam cures de mais linguagem.
205
ONZENEIRO
Mas pera onde é a passagem?
206
DIABO
Pera a infernal comarca.
207
ONZENEIRO
Dixe nam m’embarco eu nessa barca
208
estoutra tem avantagem.
209
(Vai-se à barca do Anjo e diz:)
Ou da barca oulá ou
210
haveis logo de partir?
211
ANJO
E onde queres tu ir?
212
ONZENEIRO
Eu pera o paraíso vou.
213
ANJO
Pois quant’eu bem fora estou
214
de te levar pera lá.
215
Essoutra te levará
216
vai pera quem t’enganou.
217
ONZENEIRO
Porquê?
218
ANJO
Porque esse bolsão
tomará todo navio.
219
ONZENEIRO
Juro a Deos que vai vazio.
220
ANJO
Nam já no teu coração.
221
ONZENEIRO
Lá me ficam de rondão
222
vinte e seis milhões nũa arca
223
pois que onzena tanto abarca
224
nam lhe dais embarcação?
225
(Torna ao Diabo e diz:)
Oulá ou demo barqueiro
226
sabeis vós no que m’eu fundo:
227
quero lá tornar ò mundo
228
e trazê-lo meu dinheiro.
229
Que aqueloutro marinheiro
230
porque me vê vir sem nada
231
dá-me tanta borregada
232
como arrais lá do Barreiro.
233
DIABO
Entra entra e remarás
234
nam percamos mais maré.
235
ONZENEIRO
Todavia.
236
DIABO
Por força é
237
que te pês cá entrarás
238
irás servir Satanás
239
pois que sempre t’ajudou.
240
ONZENEIRO
Oh triste quem me cegou.
241
DIABO
Cal-te que cá chorarás.
242
(Entrando no batel diz ao Fidalgo:)
ONZENEIRO
Santa Joana de Valdês
243
cá é vossa senhoria.
244
FIDALGO
Dá ò demo a cortesia.
245
DIABO
Ouvis? Falai vós cortês.
246
Vós Fidalgo cuidareis
247
que estais em vossa pousada?
248
Dar-vos-ei tanta pancada
249
c’um remo que arrenegueis.
250
(Vem um Parvo e diz ao Arrais do Inferno:)
Ou daquela.
251
DIABO
Quem é?
PARVO
Eu sou.
É esta naviarra nossa?
252
DIABO
De quem?
253
PARVO
Dos tolos.
DIABO
Vossa.
Entra.
254
PARVO
De pulo ou de voo?
Oh pesar de meu avô
255
soma vim a adoecer
256
e fui má hora morrer
257
e nela pera mi só.
258
DIABO
De que morreste?
259
PARVO
De quê?
Samica de caganeira.
260
DIABO
De quê?
261
PARVO
De cagamerdeira
262
má ravugem que te dê.
263
DIABO
Entra põe aqui o pé.
264
PARVO
Oulá não tombe o zambuco.
265
DIABO
Entra tolazo enuco
266
que se nos vai a maré.
267
PARVO
Aguardai aguardai lá.
268
E onde havemos nós d’ir ter?
269
DIABO
Ao porto de Lucifer.
270
PARVO
Como?
271
DIABO
Ò inferno, entra cá.
272
PARVO
Ò inferno? Ieramá.
273
Hiu hiu barca do cornudo
274
beiçudo beiçudo
275
rachador d’Alverca hu ha.
276
Capateiro da Candosa
277
antrecosto de carrapato
278
sapato sapato
279
filho da grande aleivosa.
280
Tua molher é tinhosa
281
e há de parir um sapo
282
chentado no guardanapo
283
neto da cagarrinhosa.
284
Furta cebolas hiu hiu
285
escomungado nas igrejas
286
burrela cornudo sejas
287
toma o pão que te caiu.
288
A molher que te fogiu
289
pera a ilha da Madeira
290
ratinho da Giesteira
291
o demo que te pariu.
292
Hiu hiu lanço-te ũa pulha
293
de pica na aquela
294
hiu hiu caga na vela
295
cabeça de grulha.
296
Perna de cigarra velha
297
pelourinho da Pampulha
298
rabo de forno de telha.
299
(Chegando à barca da glória diz:)
Ou da barca.
300
ANJO
Tu que queres?
PARVO
Quereis-me passar além?
301
ANJO
Quem és tu?
302
PARVO
Nam sou ninguém.
ANJO
Tu passarás se quiseres
303
porque em todos teus fazeres
304
per malícia nam erraste.
305
Tua simpreza t’abaste
306
pera gozar dos prazeres.
307
Espera entanto per i
308
veremos se vem alguém
309
merecedor de tal bem
310
que deva d’entrar aqui.
311
(Vem um Sapateiro carregado de formas e diz na barca do inferno:)
Ou da barca.
312
DIABO
Quem vem i?
Santo Sapateiro honrado
313
como vens tam carregado.
314
SAPATEIRO
Mandaram-me vir assi.
315
Mas pera onde é a viagem?
316
DIABO
Pera a terra dos danados.
317
SAPATEIRO
E os que morrem confessados
318
onde tem sua passagem?
319
DIABO
Não cures de mais linguagem
320
que esta é tua barca esta.
321
SAPATEIRO
Renegaria eu da festa
322
e da barca e da barcagem.
323
Como poderá isso ser
324
confessado e comungado?
325
DIABO
E tu morreste escomungado
326
e nam no quiseste dizer
327
esperavas de viver.
328
Calaste dez mil enganos
329
tu roubaste bem trinta anos
330
o povo com teu mister.
331
Embarca eramá pera ti
332
que há já muito que te espero.
333
SAPATEIRO
Digo-te que renam quero.
334
DIABO
Digo-te que si ressi.
335
SAPATEIRO
Quantas missas eu ouvi
336
não m’hão elas de prestar?
337
DIABO
Ouvir missa então roubar
338
é caminho pera aqui.
339
SAPATEIRO
E as ofertas que darão
340
e as horas dos finados?
341
DIABO
E os dinheiros mal levados
342
que foi da satisfação?
343
SAPATEIRO
Oh nam praza ò cordovão
344
nem à puta da badana
345
se é esta boa tranquitana
346
em que se vê Jan’Antão.
347
Ora juro a Deos que é graça.
348
(Vai à barca do paraíso:)
Ou da santa caravela
349
podereis levar-me nela?
350
ANJO
A carrega t’embaraça.
351
SAPATEIRO
Não há mercê que me Deos faça?
352
Isto u xiquer irá.
353
ANJO
Essa barca que lá está
354
leva quem rouba de praça.
355
Ó almas embaraçadas.
356
SAPATEIRO
Ora eu me maravilho
357
haverdes por gram peguilho
358
quatro forminhas cagadas
359
que podem bem ir chentadas
360
no cantinho desse leito.
361
ANJO
Se tu viveras dereito
362
elas foram cá escusadas.
363
SAPATEIRO
Assi que determinais
364
que vá coser ao inferno?
365
ANJO
Escrito estás no caderno
366
das ẽmentas infernais.
367
SAPATEIRO
Pois diabos que aguardais?
368
Vamos venha a prancha logo
369
e levai-me àquele fogo
370
pera que é aguardar mais?
371
(Entra um Frade com ũa Moça pola mão e vem dançando, fazendo a baixa com a boca, e acabando diz o Diabo:)
DIABO
Que é isso padre que vai lá?
372
FRADE
Deo gracias, sam cortesão.
373
DIABO
Sabeis também o tordião?
374
FRADE
É mal que m’esquecerá.
375
DIABO
Essa dama há d’entrar cá?
376
FRADE
Nam sei onde embarcarei.
377
DIABO
Ela é vossa?
378
FRADE
Eu nam sei.
379
Por minha a trago eu cá.
380
DIABO
E nam vos punham lá grosa
381
nesse convento sagrado?
382
FRADE
Assi fui bem açoutado.
383
DIABO
Que cousa tam preciosa.
384
Entrai padre reverendo.
385
FRADE
Pera onde levais gente?
386
DIABO
Pera aquele fogo ardente
387
que nam temeste vivendo.
388
FRADE
Juro a Deos que nam t’entendo.
389
E este hábito nam me val?
390
DIABO
Gentil padre mundanal
391
a Berzabu vos encomendo.
392
FRADE
Corpo de Deos consagrado
393
pola fé de Jesu Cristo
394
que eu nam posso entender isto
395
eu hei de ser condenado?
396
Um padre tam namorado
397
e tanto dado a virtude
398
assi Deos me dê saúde
399
que estou maravilhado.
400
DIABO
Nam façamos mais detença
401
embarcai e partiremos
402
tomareis um par de remos.
403
FRADE
Nam ficou isso na avença.
404
DIABO
Pois dada está já a sentença.
405
FRADE
Pardeos essa seria ela
406
nam vai em tal caravela
407
minha senhora Florença.
408
Como por ser namorado
409
e folgar com ũa molher
410
se há um frade de perder
411
com tanto salmo rezado?
412
DIABO
Ora estás bem aviado.
413
FRADE
Mais estás bem corregido.
414
DIABO
Devoto padre e marido
415
haveis de ser cá pingado.
416
FRADE
Mantenha Deos esta coroa.
417
DIABO
Ó padre frei capacete
418
cuidei que tínheis barrete.
419
FRADE
Sabei que fui da pessoa.
420
Esta espada é roloa
421
e este broquel rolão.
422
DIABO
Dê vossa reverência lição
423
d’isgrima que é cousa boa.
424
FRADE
Que me praz. Dêmos caçada:
425
(Esgrime.)
entam logo um contra sus
426
um fendente ora sus
427
esta é a primeira levada.
428
Alevantai a espada
429
metei o diabo na cruz
430
como o eu agora pus
431
saí co a espada rasgada
432
e que fique anteparada
433
talho, largo, um revés
434
e logo colher os pés
435
que todo o al nam é nada.
436
Quando o recolher se tarda
437
o ferir nam é prudente
438
eia sus mui largamente
439
cortai na segunda guarda.
440
Guarde-me Deos d’espingarda
441
ou de barão denodado
442
mas aqui estou guardado
443
como a palha n’albarda.
444
Saio com mea espada
445
oulá guardar as queixadas.
446
DIABO
Oh que valentes levadas.
447
FRADE
Inda isto nam é nada.
448
Dêmos outra vez caçada:
449
contra sus ora um fendente
450
e cortando largamente
451
eis aqui a seista guarda.
452
Daqui se sai com ũa guia
453
e um revés da primeira
454
esta é quinta verdadeira
455
oh quantos daqui feria.
456
Padre que tal aprendia
457
no inferno há d’haver pingos?
458
Ah nam praza a sam Domingos
459
com tanta descortesia.
460
Prossigamos nossa história
461
nam façamos mais detença
462
dai cá mão senhora Florença
463
vamos à barca da glória.
464
(Chega à barca da glória e diz:)
Deo gracias há cá lugar
465
pera minha reverença
466
e a senhora Florença
467
polo meu há lá d’entrar.
468
PARVO
Andar muit’ieramá.
469
Furtaste esse trinchão frade.
470
FRADE
Senhora dá-me à vontade
471
que este feito mal está.
472
Vamos onde havemos d’ir
473
nam praza a Deos co a ribeira
474
eu nam vejo aqui maneira
475
senam enfim concrudir.
476
DIABO
Padre haveis logo de vir.
477
FRADE
Si tomai-me lá Florença
478
e cumpramos a sentença
479
ordenemos de partir.
480
(Vem ũa alcouviteira per nome Brísida Vaz e chegando à barca do inferno diz:)
Oulá da barca oulá.
481
DIABO
Quem chama?
482
BRÍSIDA VAZ
Brísida Vaz.
483
DIABO
Ea aguarda-me rapaz
484
por que nam vem ela já?
485
COMPANHEIRO
Diz que nam há de vir cá
486
sem Joana de Valdeis.
487
DIABO
Entrai vós e remareis.
488
BRÍSIDA VAZ
Nam quero eu entrar lá.
489
DIABO
Que saboroso arrecear.
490
BRÍSIDA VAZ
Nam é essa barca a qu’eu cato.
491
DIABO
E trazeis vós muito fato?
492
BRÍSIDA VAZ
O que me convém levar.
493
DIABO
Que é o que haveis d’embarcar?
494
BRÍSIDA VAZ
Seiscentos virgos postiços
495
e três arcas de feitiços
496
que nam podem mais levar.
497
Três almários de mentir
498
e cinco cofres d’enleos
499
e alguns furtos alheos
500
assi em jóias de vestir
501
guarda-roupa d’encobrir
502
enfim casa movediça
503
um estrado de cortiça
504
com dez coxins d’embair.
505
A mor carrega que é
506
essas moças que vendia.
507
Daquesta mercadaria
508
trago eu muita à bofé.
509
DIABO
Ora ponde aqui o pé.
510
BRÍSIDA VAZ
Ui e eu vou pera o paraíso.
511
DIABO
E quem te dixe a ti isso?
512
BRÍSIDA VAZ
Lá hei d’ir desta maré.
513
Eu som ũa mártele tal
514
açoutes tenho eu levados
515
e tormentos soportados
516
que ninguém me foi igual.
517
Se eu fosse ao fogo infernal
518
lá iria todo o mundo.
519
A estoutra barca cá em fundo
520
me vou eu que é mais real.
521
(E chegando à barca da glória diz ao Anjo:)
Barqueiro mano meus olhos
522
prancha a Brísida Vaz.
523
ANJO
Eu nam sei quem te cá traz.
524
BRÍSIDA VAZ
Peço-vo-lo de giolhos.
525
Cuidais que trago piolhos?
526
Anjo de Deos minha rosa
527
eu sou Brísida a preciosa
528
que dava as moças òs molhos.
529
A que criava as meninas
530
pera os cónegos da sé.
531
Passai-me por vossa fé
532
meu amor minhas boninas
533
olhos de perlinhas finas.
534
E eu sou apostolada
535
angelada e martelada
536
e fiz obras mui divinas.
537
Santa Úrsula nam converteo
538
tantas cachopas com’eu
539
todas salvas polo meu
540
que nenhũa se perdeo.
541
E prouve àquele do ceo
542
que todas acharam dono
543
cudais que dormia eu sono?
544
Nem ponta e nam se perdeo.
545
ANJO
Ora vai lá embarcar
546
nam estês emportunando.
547
BRÍSIDA VAZ
Pois estou-vos alegando
548
o porque m’haveis de levar.
549
ANJO
Nam cures d’emportunar
550
que nam podes ir aqui.
551
BRÍSIDA VAZ
E que má hora eu servi
552
pois nam m’há d’aproveitar.
553
Ou barqueiros da má hora
554
ponde a prancha que eis me vou
555
e tal fada me fadou
556
que pareço mal cá fora.
557
DIABO
Ora entrai minha senhora
558
e sereis bem recebida
559
se vivestes santa vida
560
vós o sentireis agora.
561
(Vem um Judeu com um bode às costas e diz ao Diabo:)
Que vai lá ou marinheiro?
562
DIABO
Oh que má hora vieste.
563
JUDEU
Cuja é esta barca que preste?
564
DIABO
Esta barca é do barqueiro.
565
JUDEU
Passai-me por meu dinheiro.
566
DIABO
E esse bode há cá de vir?
567
JUDEU
O bode também há d’ir.
568
DIABO
Oh que honrado passageiro.
569
JUDEU
Sem bode como irei lá?
570
DIABO
Pois eu nam passo cabrões.
571
JUDEU
Eis aqui quatro tostões
572
e mais se vos pagará
573
por vida de Semifará
574
que me passeis o cabrão.
575
Quereis mais outro tostão?
576
DIABO
Nem tu nam hás de vir cá.
577
JUDEU
Por que nam irá o Judeu
578
onde vai Brísida Vaz?
579
(Fala ao Fidalgo:)
Ao senhor meirinho apraz?
580
Senhor meirinho irei eu?
581
DIABO
E ao Fidalgo quem lhe deu
582
o mando deste batel?
583
JUDEU
Corregedor coronel
584
castigai este sandeu.
585
Azará pedra meúda
586
lodo, chanto, fogo, lenha
587
caganeira que te venha
588
má corrença que t’acuda.
589
Por el Deu que te sacuda
590
com a beca nos focinhos
591
fazes burla dos meirinhos
592
dize filho da cornuda.
593
PARVO
Furtaste a chiba cabrão.
594
Pareceis-me vós a mim
595
carrapato d’Alcoutim
596
enxertado em camarão.
597
DIABO
Judeu lá te levarão
598
porque hão d’ir descarregados.
599
PARVO
E s’ele mijou nos finados
600
no adro de sam Gião.
601
E comia a carne da panela
602
no dia de nosso senhor
603
e mais ele salvanor
604
cada vez mija na aquela.
605
DIABO
Ora sus dêmos à vela
606
vós Judeu ireis à toa
607
que sois mui roim pessoa
608
levai o cabrão na trela.
609
(Vem um Corregedor e diz chegando à barca do inferno:)
Ou da barca.
610
DIABO
Que quereis?
CORREGEDOR
Está aqui o senhor juiz.
611
DIABO
Ó amador de perdiz
612
quantos feitos que trazeis.
613
CORREGEDOR
No meu ar conhecereis
614
qu’eles nam vem de meu jeito.
615
DIABO
Como vai lá o dereito?
616
CORREGEDOR
Nestes feitos o vereis.
617
DIABO
Ora pois entrai veremos
618
que diz i nesse papel.
619
CORREGEDOR
E onde vai o batel?
620
DIABO
No inferno vos poremos.
621
CORREGEDOR
Como à terra dos demos
622
há d’ir um corregedor?
623
DIABO
Santo descorregedor
624
embarcai e remaremos.
625
Ora entrai pois que viestes.
626
CORREGEDOR
Non est de regule juris não.
627
DIABO
Ita ita dai cá a mão
628
remareis um remo destes
629
fazei conta que nacestes
630
pera nosso companheiro.
631
Que fazes tu barzoneiro?
632
Faze-lhe essa prancha prestes.
633
CORREGEDOR
Oh renego da viagem
634
e de quem m’há de levar.
635
Há ‘qui meirinho do mar?
636
DIABO
Nam há cá tal costumagem.
637
CORREGEDOR
Nam entendo esta barcagem
638
nem hoc non potest esse.
639
DIABO
Se ora vos parecesse
640
que nam sei mais que linguagem.
641
Entrai entrai Corregedor.
642
CORREGEDOR
Ou videtis qui petatis
643
super jure majestatis
644
tem vosso mando vigor?
645
DIABO
Quando éreis ouvidor
646
nonne accepistis rapina?
647
Pois ireis pola bolina
648
onde nossa mercê for.
649
Oh que isca esse papel
650
pera um fogo que eu sei.
651
CORREGEDOR
Domine memento mei.
652
DIABO
Non es tempus bacharel
653
imbarquemini in batel
654
quia judicastis malícia.
655
CORREGEDOR
Semper ego in justicia
656
fecit e bem por nivel.
657
DIABO
E as peitas dos judeus
658
que vossa molher levava?
659
CORREGEDOR
Isso eu nam no tomava
660
eram lá percalços seus
661
non sunt peccatus meus
662
peccavit uxore mea.
663
DIABO
Et vobis quoque cum ea
664
nemo timuistis Deus.
665
A largo modo adqueristis
666
sanguinis laboratorum
667
ignorantes peccatorum
668
ut quid eos non audistis.
669
CORREGEDOR
Vós Arrais nonne legistis
670
que o dar quebra os penedos?
671
Os dereitos estão quedos
672
si aliquid tradidistis.
673
DIABO
Ora entrai nos negros fados
674
ireis ao lago dos cães
675
e vereis os escrivães
676
como estão tam prosperados.
677
CORREGEDOR
E na terra dos danados
678
estão os evangelistas?
679
DIABO
Os mestres das burlas vistas
680
lá estão bem fraguados.
681
(Vem um Procurador e diz o Corregedor quando o vê:)
Ó senhor Procurador.
682
PROCURADOR
Beijo-vo-las mãos juiz.
683
Que diz esse Arrais que diz?
684
DIABO
Que sereis bom remador.
685
Entrai bacharel doutor
686
e ireis dando à bomba.
687
PROCURADOR
E este barqueiro zomba
688
jogatais de zombador?
689
Essa gente que i está
690
pera onde a levais?
691
DIABO
Pera as penas infernais.
692
PROCURADOR
Dixe nam vou eu pera lá.
693
Outro navio está cá
694
muito milhor assombrado.
695
DIABO
Ora estais bem aviado
696
entrai muit’ieramá.
697
CORREGEDOR
Confessastes-vos doutor?
698
PROCURADOR
Bacharel sou dou-me ò demo.
699
nam cuidei que era estremo
700
nem de morte minha dor.
701
E vós senhor Corregedor?
702
CORREGEDOR
Eu mui bem me confessei
703
mas tudo quanto roubei
704
encobri ao confessor.
705
PROCURADOR
Porque se o nam tornais
706
nam vos querem absolver
707
e é mui mau de volver
708
depois que o apanhais.
709
DIABO
Pois por que nam embarcais?
710
CORREGEDOR
Quia esperamus in Deo.
711
DIABO
Imbarquemini in barco meo
712
pera que esperatis mais?
713
(Vão-se à barca da glória e diz o Corregedor:)
Ou Arrais dos gloriosos
714
passai-nos nesse batel.
715
ANJO
Ó pragas pera papel
716
pera as almas odiosos
717
como vindes preciosos
718
sendo filhos da ciência.
719
CORREGEDOR
Oh habeatis clemência
720
e passai-nos como vossos.
721
PARVO
Ou homens dos breviairos
722
rapinastis coelhorum
723
e pernis perdigatorum
724
e mijais nos campanairos.
725
CORREGEDOR
Anjos nam sejais contrairos
726
pois nam temos outra ponte.
727
PARVO
Beleguinis ubi sunte
728
ego latinus macairos.
729
ANJO
A justiça divinal
730
vos manda vir carregados
731
por que vades embarcados
732
nesse batel infernal.
733
CORREGEDOR
Oh nam praza a sam Marçal
734
co a ribeira nem c’o rio
735
cuidam lá que é desvario
736
haver cá tamanho mal.
737
Venha a negra prancha cá
738
vamos ver este segredo.
739
PROCURADOR
Diz um teisto do degredo.
740
DIABO
Entrai que cá se dirá.
741
(Entram no batel dos danados e diz o Corregedor a Brísida Vaz:)
Esteis muito aramá
742
senhora Brísida Vaz.
743
BRÍSIDA VAZ
Já siquer estou em paz
744
que nam me leixáveis lá.
745
Cada hora encoroçada:
746
justiça que manda fazer.
747
CORREGEDOR
E vós tornar a tecer
748
e urdir outra meada.
749
BRÍSIDA VAZ
Dizede juiz d’alçada
750
vem já Pero de Lisboa?
751
Levá-lo-emos à toa
752
e irá desta barcada.
753
(Vem um Enforcado e diz o Diabo:)
Venhais embora Enforcado
754
que diz lá Gracia Moniz?
755
ENFORCADO
Eu vos direi que ele diz:
756
que fui bem aventurado
757
que polos furtos que eu fiz
758
sou santo canonizado
759
pois morri dependurado
760
como o tordo na buiz.
761
DIABO
Entra cá e remarás
762
até as portas do inferno.
763
ENFORCADO
Nam é essa a nau que eu governo.
764
DIABO
Entra que inda caberás.
765
ENFORCADO
Pesar de sam Barrabás.
766
Se Garcia Moniz diz
767
que os que morrem como eu fiz
768
são livres de Satanás.
769
E disse que a Deos prouvera
770
que fora ele o enforcado
771
e que fosse Deos louvado
772
que em bôora eu nacera
773
e que o senhor m’escolhera
774
e por bem vi beleguins
775
e com isto mil latins
776
como s’eu latim soubera.
777
E no passo derradeiro
778
me disse nos meus ouvidos
779
que o lugar dos escolhidos
780
era a forca e o Limoeiro.
781
Nem guardião de mosteiro
782
nam tinha mais santa gente
783
como Afonso Valente
784
o que agora é cacereiro.
785
DIABO
Dava-te consolação
786
isso ou algum esforço?
787
ENFORCADO
C’o baraço no pescoço
788
mui mal presta a pregação.
789
Ele leva a devação
790
que há de tornar a jentar
791
mas quem há d’estar no ar
792
avorrece-lhe o sermão.
793
DIABO
Entra entra no batel
794
que pera o inferno hás d’ir.
795
ENFORCADO
E Moniz há de mentir?
796
Dixe-me: com sam Miguel
797
irás comer pão e mel
798
como fores enforcado.
799
Ora já passei meu fado
800
e já feito é o burel.
801
Agora nam sei que é isso
802
nam me falou em ribeira
803
nem barqueiro nem barqueira
804
senam logo ò paraíso.
805
E isto muito em seu siso
806
e que era santo o meu baraço
807
porém nam sei que aqui faço
808
ou se era mentira isto.
809
DIABO
Falou-te no purgatório?
810
ENFORCADO
Diz que foi o Limoeiro
811
e ora por ele o salteiro
812
e o pregão vitatório.
813
E que era muito notório
814
que aqueles deciprinados
815
eram horas dos finados
816
e missa de sam Gregório.
817
DIABO
Ora entra pois hás d’entrar
818
nam esperes por teu pai.
819
ENFORCADO
Entremos pois que assi vai.
820
DIABO
Este foi bom embarcar.
821
Eia todos apear
822
que está em seco o batel.
823
Vós doutor bota batel
824
Fidalgo saltai ò mar.
825
(Vem quatro fidalgos Cavaleiros da Ordem de Cristo que morreram nas partes d’África e vem cantando a quatro vozes a letra que se segue:)
À barca à barca segura
826
guardar da barca perdida
827
à barca à barca da vida.
828
Senhores que trabalhais
829
pola vida transitória
830
memória por Deos memória
831
deste temeroso cais.
832
À barca à barca mortais
833
porém na vida perdida
834
se perde a barca da vida.
835
DIABO
Cavaleiros vós passais
836
e nam me dizeis pera onde is?
837
CAVALEIRO
E vós Satam presomis?
838
Atentai com quem falais.
839
OUTRO CAVALEIRO
E vós que nos demandais?
840
Siquer conhecei-nos bem
841
morremos nas partes dalém
842
e nam queirais saber mais.
843
ANJO
Ó Cavaleiros de Deos
844
a vós estou esperando
845
que morrestes pelejando
846
por Cristo senhor dos céus.
847
Sois livres de todo mal
848
santos por certo sem falha
849
que quem morre em tal batalha
850
merece paz eternal.
851
Aqui fenece a primeira cena.